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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Fornos - Chaves - Portugal

08.02.09 | Fer.Ribeiro

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Sempre que me refiro ao nosso mundo rural, vou deixando por aqui alguns lamentos referindo as más políticas ou ausência delas para com o nosso interior e as suas aldeias e que, ao longo das últimas dezenas de anos,  têm contribuído para o seu despovoamento. Mas tenho esquecido que bem pior que os políticos e as políticas são aqueles que fazem a cabecinha do povo e que dominados pelos políticos ou por outros interesses, são bem mais perigosos. Claro que vos falo da imprensa, principalmente da televisão que é uma autêntica droga para o povo ir consumindo devagarinho.

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Além da minha actividade profissional me levar há mais de 20 anos por esse concelho rural fora, ultimamente com esta coisa de trazer as aldeias ao blog, tenho dedicado os fins-de-semana a percorrê-las na recolha fotográfica, mas também a falar com as pessoas, sempre que aparecem, pois no caso das aldeias mais pequenas, às vezes, entro e saio da aldeia sem encontrar alma viva.

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Lembro-me de há poucos anos atrás um senhor lá de cima dos seus oitenta e picos anos me dizer que antigamente a vida era difícil e dura e não tinham nada.  Agora não, já tinham tudo -  electricidade, frigorífico e televisão.  Para os putos de hoje, viver sem estes e outros simples pormenores que nos acompanham na vida diária, seria quase impossível, mas a maioria dos mais idosos das nossas aldeias viveram grande parte da sua vida sem estes (hoje) pequenos pormenores, e compreendo-os quando dizem que hoje têm tudo, mesmo que tenham muito menos noutros pormenores bem mais importantes, principalmente no que diz respeito ao que toca a valores e às vidas das aldeias, às suas tradições e ao viver comunitariamente com e entre vizinhos.

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Também as pessoas mais idosas viveram metade das suas vidas sem informação. Jornais eram coisas da cidade, televisão não havia e apenas a rádio ia debitando alguma informação, que antes do 25 de Abril já todos sabemos como era feita. O povo na ignorância, se possível total, é que estava bem. Bastava-lhes aprender a ler e escrever, a  4ª classe, que a partir de aí já era coisa para gente fina que terminava em doutores ou engenheiros,  os mais possibilitados.  

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A  televisão fez a sua aparição e desde logo encantou e aos poucos foi fazendo parte da vida das pessoas, para o bem e para o mal. Se a muitos trouxe a companhia que lhes faltava, também acabou com os convívios e as conversas de família, o contar de estórias… mas é na informação que as televisões têm mais importância e é com ela que as televisões se afirmam como um verdadeiro poder na sociedade actual, principalmente com aquele poder que eu vos dizia no início de “fazer cabecinhas”.

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Que ninguém duvide que as vitórias e derrotas eleitorais dos nossos políticos têm ambas uma mãozinha das televisões, ou mais que uma mãozinha, um grande empurrão. Mas não só a nível dos políticos a televisão vai decidindo por nós, dando-nos apenas aquilo que eles entendem que devemos ter, mas em tudo. Desde as banalidades ridículas de fazerem duma Lili Caneças ou de um José Castelo Branco figuras nacionais, até ao orientar de emoções tomando partido e fazendo juízos de valores, às vezes contra a lógica natural dos acontecimentos, dando apenas informação que convém, ignorando ou esquecendo as partes que não lhes interessam, e aqui, tomemos como exemplo o caso Esmeralda.

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Mas bem pior que isso, são as coisas que são sérias demais para as tomar com a leviandade que às vezes as tomam e neste caso, informação e desinformação confundem-se, baralhas as pessoas e aterrorizam-nas até. Lembro aquando da guerra do Golfo haver alguma gente que correu para os supermercados arrecadando tudo que podiam em alimentos com o medo de uma guerra mundial.

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Pois meus caros as televisões estão de novo a debitar o medo pelas nossas aldeias. Medo e revolta que é bem notório no discurso dos resistentes mais idosos, discursos de desânimo, de medo e de pânico até que nos últimos tempos se vem acentuando e agravando. Já ninguém acredita em políticos porque são aldrabões e corruptos e as notícias bombásticas da crise leva-os ao medo e terror de enterrarem o dinheiro, de uma guerra civil que está próxima, da fome que vem aí e o de nada terem para receber os filhos e familiares que não tarda lhe vão bater à porta por não terem emprego nas cidades ou no estrangeiro.  E isto não são devaneios meus, são discursos que ontem ouvi de resistentes da nossa aldeia de hoje, Fornos, discurso que se repete pelas aldeias que tenho percorrido nos últimos tempos. Memórias dos tempos difíceis das guerras nos anos 40 vêm ao de cima…

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Também eu, sem acreditar num futuro tão negro como já começa a ser pintado, acredito nesta crise que vai ser bem mais real e, também eu, já há muito que sei que a politica não é feita com boa gente e toda ela é feita de interesses, que não são os do povo e da população em geral. Mas somos nós que pagamos a(s) crise(s) e que a sentimos na pele.

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Mas vamos até Fornos, cujas conversas de ontem com gente de mais idade que eu oiço e respeito, me deixaram neste estado de espírito.

Fornos é um pequena aldeia que fica bem no meio daquele triângulo com vértices em Chaves – Vidago – Peto de Lagarelhos. A tal grande região de Vidago (segundo as minhas divisões geográficas do concelho).  Pertence à freguesia de Selhariz e tem como vizinhas as aldeias de Valverde, Pereira de Selão, Vilas Boas e Selhariz, hoje com boas ligações entre elas, mas que são coisa das últimas dezenas de anos, pois não vai longe o tempo, em que Fornos era um bom exemplo do típico Portugal profundo, rodeado de montanhas e em cujos horizontes visuais apenas tinha montanhas por companhia. Motivos suficientes para convidar a uma partida para terras distantes.

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A sua principal actividade é a agricultura, mas apenas por teimosia e porque os resistentes não querem fazer contas naquilo que gastam nas magras produções, pois se as fizessem (dizem eles)  já há muito que não cultivavam os campos. As tais politicas agrícolas, em que comprar embalado, vindo lá donde for, é mais barato que produzi-lo. Claro que pela certa são produções que estão longe dos nossos sabores, mas em tempos difíceis, tudo que cair na rede é peixe.

Fornos, segundo os Censos 2001, tinha 27 resistentes com apenas 5 jovens com menos de 20 anos dos quais apenas 1 tinha menos de 10 anos. Hoje, segundo apurei na aldeia já não há jovens, crianças são coisa do passado e regressos à aldeia, apenas aqueles que o medo prevê.

Quanto ao topónimo de Fornos, a pouca documentação que encontrei aponta a sua origem para fornos de cozer telha ou pão. Também eu na ausência de melhor vou por essa teoria, pese embora quanto à telha não me pareça ser região de argilas e quanto ao pão, qual era a aldeia que não tinha os seus fornos, e quase todas até com fornos comunitários dos quais ainda hoje existem alguns exemplares em algumas aldeias.

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Há referências também a uma enorme fraga arredondada no largo da aldeia onde está desenhado uma espécie de lidas, atribuído aos romanos.  Para os que seguem à risca as minhas palavras, leiam bem aquilo que digo, pois eu digo que há referências a essa fraga, mas sinceramente não a vi por lá. A quem perguntei por ela, também não me souberam informar da sua existência. No entanto não digo que não exista.

 

Disseram-me sim, ter existido por lá uma estalagem onde ficavam os passantes em tempos de outrora, quem sabe até se peregrinos a caminho de Santiago. Estalagem essa sobre a qual não encontrei qualquer referência em escritos, mas que o povo associação a uma construção em ruínas no limite da aldeia junto à capela.

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Capela barroca, muito simples, situada no alto da aldeia e cuja devoção é a Senhora da Anunciação.

E agora um sonho. De entre os resistentes com quem conversei, encontrei  um que tinha origens nas terras frias do Barroso. À pergunta de como é que foi parar a fornos, a resposta foi pronta: - “Talvez não acredite, mas fui emigrante em França e uma noite sonhei com a minha mulher, ainda não a conhecia e vim encontrá-la aqui em Fornos e casei com ela”.  E ainda há por aí quem nem acredite em sonhos!

 

Até amanhã, de volta à cidade ou à arte da cidade.

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