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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos sobre a Cidade

20.03.09 | blogdaruanove

Texto de Blog da Rua Nove

 

(III)

 

 

Ignorando o ascensor, encaminhou-se para as escadas. Um velho hábito que adquirira na rotina das esperas e vigilâncias em Lisboa. Nem sempre o acesso mais rápido e directo aos quartos era o mais indicado nos hotéis. Muito se poderia descobrir nos corredores, muito se poderia ouvir das múltiplas conversas mal abafadas por cada uma das inúmeras portas. Além de que sempre convinha manter as criadas debaixo de olho. Por diversas razões, claro.

 

Já no quarto, pendurou cuidadosamente o chapéu no cabide, enquanto observava e confirmava a familiaridade dos pormenores. No regresso aos locais onde trabalhava ou pernoitava habituara-se a lançar um rápido olhar para verificar se algo teria sido tocado ou alterado. Ainda não haviam despejado os cinzeiros. Sabiam que ele gostava do cheiro a tabaco e cumpriam escrupulosamente as ordens que dera para que não despejassem os cinzeiros enquanto não chegasse. Não ocorria a muitas pessoas ser aquele também um estratagema para que as criadas lhe entrassem pelo quarto dentro e ele lhes pudesse deitar um olhar mais demorado...

 

Aproximou-se da secretária que se encontrava junto das janelas, trazendo para junto de si a pasta fechada a cadeado. "Al grano", pensou, "é altura de tratar do que interessa." Retirou alguns dos relatórios que se encontravam nas capas de cartolina amarela, já amarrotada e desgastada pelo uso frequente.

 

"Lista dos membros da Comissão de Apoio". Hmm! Sempre os mesmos... Saudosistas da utopia pós-monárquica e do caos democrático. Orgulhavam-se da tradição republicana da cidade e da resistência aos trauliteiros, mas esqueciam-se dos séculos de fidelidade monárquica da vila. Doutores, engenheiros, advogados... Já estavam todos identificados, não havia novidade.

 

"Movimentação do candidato oposicionista". Este era constantemente actualizado e todos os dias havia novidades. Pegou nas folhas do relatório mais recente, que lhe havia sido entregue no posto de fronteira. "Olha, olha!... O figurão passou a andar armado para a deslocação à província..."

 

"Elementos subversivos e contestatários da situação". Este era o relatório que mais o intrigava. Ali apareciam nomes de pessoas que nada tinham a ganhar com tal atitude, mas que mesmo assim não deixavam de falar contra o governo, os governantes e as forças da ordem. Eram os que habitualmente  pagavam as favas e serviam de exemplo, indo de quando em vez parar à prisão. Olhou para a lista. Aparecia ali de tudo. Até dois alfaiates e um desempregado que se entretinha a prestar serviços aos que iam aos bancos e não sabiam ler nem escrever... Eram pessoas como estas que o deixavam perplexo e preocupado quanto ao futuro do regime.

 

Enquanto assim reflectia, abriu as janelas. O parapeito era ladeado por dois aros onde estavam colocados vasos de flores. Sardinheiras. Puxou uma última fumaça do cigarro, preparando-se para o apagar. Maquinalmente, aproximou-o das flores rubras, deixando que o alaranjado do tabaco aceso fizesse murchar as pétalas de algumas delas...

 

                                                                                       (continua)