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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Tronco - Chaves - Portugal

01.03.09 | Fer.Ribeiro

 

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Penso que as placas de perigo que agora colocam junto às placas indicativas das localidades dizem tudo, a bengala substitui a antiga pasta do puto que corria para a escola e o casalinho de crianças é substituído por um casal de velhotes. Tanta realidade num sinal de trânsito apenas. Realidade à qual todos assistimos naturalmente como se as nossas aldeias tivessem sido dotadas de vida igual à nossa, uma vida em que um dia nasceram, cresceram, tornaram-se grande e adultas, envelheceram e finalmente só lhes resta esperar pela morte.

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Claro que Tronco, embora esteja longe dessa morte que parece anunciada,  também comunga de alguns males desta realidade. A escola fechou e a sua população está envelhecida, embora com muitos resistentes e regressos de fim-de-semana à terrinha, isto porque ainda há filhos que estão fortemente ligados à aldeia…mas vem aí a geração dos netos e de um futuro laboral incerto em que qualquer destino, poderá ser um destino, onde um dia se poderá recordar por uma ou outra razão a terra dos avós e dos pais.

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O discurso parece pessimista e, o problema está em que para além de parecê-lo é bem real, por mais que se goste da nossa terrinha.   Todos conhecemos o problema do despovoamento das aldeias do interior mais distantes das cidades, conhecemos as causas, mas ninguém faz nada por contrariar o seu triste destino e o problema reside mesmo aí, é que ninguém é responsável ou responsabilizado pelo que está acontecer, embora esse “ninguém” sem rosto, que manda, põe e dispõe das nossas vidas e vontades, exista, no plural até e chamam-se políticos que, no que respeita ao nosso interior, nunca tiveram políticas acertadas ou pior ainda, nunca houve políticas.

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Não ficam de fora os políticos locais que se deixaram também embalar pelas políticas centralistas nacionais onde todos se rendem ao grande capital das grandes empresas, da banca e do betão. Os políticos de Chaves do pós 25 de Abril, também não são excepção e embora haja tendência de acusar os primeiros autarcas das mamarrachadas da cidade, a verdade é que nestes últimos 34 anos elas nunca pararam e ainda hoje em dia se praticam, agora ao abrigo da Lei e de um PDM mais que desajustado em que penalizou o mundo rural, para não falar de um Plano de urbanização da cidade mais que permissivo, por não existir embora existindo, por falta de planeamento da cidade e de planos de pormenor. Tudo que é importante e estrutural para a cidade foi-se adiando e perdendo ao longo dos anos e todas as soluções que agora queiram inventar já são tardias, apenas minimizam males.

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Um desses males foi praticado com as nossas aldeias. Não se pode compreender como é que aldeias a apenas meia dúzia de quilómetros da cidade, que poderiam perfeitamente funcionar como dormitórios da cidade e com qualidade de vida, estão cada vez mais abandonadas e com o seu casario fechado e/ou em lamentável estado de conservação, enquanto na cidade, o betão continua atabalhoadamente a ocupar os espaços disponíveis.

Há 30 anos atrás não havia aldeia no concelho que não tivesse o seu café ou taberna, mini-mercado, escola com alunos, gente e alegria nas ruas, em algumas, como no caso da nossa aldeia de hoje, até havia outros estabelecimentos, como sapatarias ou venda de outros artigos. E já não falo dos barbeiros e toda uma gama de profissões que havia ligadas à vida das aldeias. Tudo isso acabou e salvo raras excepções de jovens que trabalham na cidade e ainda estão ligados e vivem na aldeia, a modernidade e as luzes convidaram toda a gente a concentra-se nas cidades, fechados em meia-dúzia de metros quadrados em coisas que se chamam apartamentos. A modernidade assim o dita.

Todo este discurso não tem a ver particularmente com Tronco, mas também se lhe aplica.

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Tronco é uma das aldeias que conheço há mais tempo e tudo graças a colegas e amigos do tempo de estudante, que na altura, estudavam na cidade mas faziam vida e viviam na aldeia. Estudavam e trabalhavam nas lides da aldeia, mas tiraram os seus cursos e partiram para outros destinos e outras profissões que não se conciliam com a vida na aldeia. Não os critico por terem partido pois outra coisa não poderiam fazer, mas já critico quem, até cursos inventou, para formar os nossos jovens, oferecendo-lhes uma viagem de não retorno às suas origens porque o seu futuro nunca passará por lá, entretanto os políticos andam entretidos por Lisboa a discutir velhas questões de sempre, como por exemplo,  se há-de haver ou não educação sexual nas escolas ou se fumar um charro é crime ou não…políticas que cada vez entendo menos, principalmente desde que começou esta moda da modernidade de tudo concentrar… cada vez mais vamos sendo a paisagem de Portugal, mas pelo caminho que leva a paisagem, não tardaremos a ser o matagal de Portugal.

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Desculpas para Tronco por mais este devaneio, mas é que também estranho a ausência de tanta vida que antigamente havia por lá.

 

Tronco situa-se no limite do concelho, ali onde os ares e as terras já descem para o concelho de Valpaços e Lebução, pouco antes de entrar em terras de Vinhais. Terras que descem e conduzem águas para o Tua.  Dista 18 quilómetros de Chaves e o acesso à aldeia é feita por aquela que atravessa o nosso concelho de lés a lés, a já aqui famosa Estrada Nacional 103, que liga Braga a Bragança e que pelo caminho encontra muitos concelhos, mas em particular (porque nos são próximos) os concelhos de Montalegre, Boticas, Chaves, Valpaços e Vinhais. Grandes mentes as que traçaram o Plano Rodoviário Nacional em que por Chaves passavam e partiam as principais Estradas Nacionais nas ligações fundamentais de Norte/Sul e interior/litoral bem como a Espanha. Tempos que costumamos recordar mal, mas em que os disparates como os que hoje acontecem, não eram permitidos. Esta fica para reflectir…

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Em termos de população Tronco (segundo os Censos) em 2001 tinha 326 habitantes residentes, menos de metade dos 686 habitantes que tinha em 1960. Números não se discutem, é pena, pois estes (que se repetem por todo o concelho rural), até deveriam ser objecto de discussão…

 Tronco possui 8,18 km de área e é a única aldeia da freguesia. Sempre foi uma freguesia rural onde as culturas do costume, como a batata e o centeio eram reis e senhores, mas também todas as restantes culturas de montanha onde até o castanheiro marca presença, que a julgar por alguns exemplares que ainda por lá existem, a castanha é cultura secular e não minto se disser que por lá vi um dos castanheiros com tronco de maior diâmetro (entre 3 a 4 metros) do concelho, senão o maior. Será que é destes imponentes troncos que deriva o seu topónimo!?

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Pois estamos chegados à história da aldeia, e embora os troncos dos castanheiros sejam imponentes, parece que não é dai que vem o seu topónimo, mas antes o nome Tronco estar associado à palavra tronco como local de suplício dos condenados e pela  prisão que aí dizem ter existido e que era destinada aos condenados da região de Monforte de Rio Livre, pois também a proximidade do Castelo de Monforte parece não ser estranha a esta aldeia.

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Também não são estranhas as raças que por tronco passaram e se estabeleceram. Há historiadores e estudiosos que a toda aquela região, que se prolonga até Lebução e terras de Vinhais atribuem uma importante comunidade judaica que o tempo foi diluindo com a população local, mas também a raça cigana encontrou nesta região e também em tronco,  um ponto importante da sua comunidade e onde fixaram residência alguns dos seus elementos. Uma comunidade que vive e convive, estando perfeitamente integrada na aldeia, o que demonstra e podemos apresentar como exemplar, a tolerância das suas gentes, gentes que sempre tive como trabalhadoras e boas e aldeia onde ainda hoje tenho amigos.

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Em termos de tradições, ainda conservam o forno do povo que ainda funciona e continua a cozer o pão, mas também o folar da Páscoa e os assados das festas. Tudo que entre no forno, cabrito, cordeiro, leitão, peru ou seja o que for, pela certa que faz uma boa mesa, a nossa moda, como se gosta. Também o presunto ainda marca por lá a sua presença, presunto de reco caseiro, que além do presunto, também enche os lareiros de linguiças, alheiras, salpicões, chouriços, orelheira e pés/mãos, tudo de porco. Claro que isto é só para criar água na boca, pois eles é que criam o reco e cabe-lhes a eles o direito de comê-lo e distribuí-lo pelos filhos ou servi-lo de merenda às visitas e amigos, e muito bem, pois os da cidade que se contentem com o fumeiro das feiras e das cozinhas “tradicionais-industriais” ou o presunto de Feces. Sou testemunha que o pão, o presunto, o salpicão e o vinho, tudo caseiro, é do melhor que há.

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E que mais há a dizer sobre Tronco!? – Talvez falar um pouco das suas vistas e largos horizontes, não sobre o mar de montanhas como as freguesias que confrontam com terras de Vinhais, mas em largos horizontes que se perdem em montanhas distantes como a de Bornes, de Nogueira e Santa Comba. Descansam-se e deliciam-se as vistas com os olhares que se lançam além das terras de Valpaços. Nem que fosse só por isto, tronco já vale uma visita.

No campo religioso  há a destacar os seus “templos” com a Igreja Matriz, de raiz românica onde se destaca o campanário, marca presença no centro da aldeia, num agradável e interessante largo, desnivelado em relação ao adro da igreja. O Orago é Santiago. Na entrada da aldeia, tem ainda uma capela do inicio do Século passado, rodeada por um enorme largo agora todo pavimentado onde se realiza a festa da aldeia.

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Em termo de ligações à história distante dizem que na aldeia apareceu uma ara romana dedicada a Júpiter e uma lápide funerária dedicada aos Deuses Manes que segundo apurei estão no Museu Soares dos Reis no Porto.

 

E por terras de tronco é tudo, por hoje, pois ainda terá direito a mosaico da freguesia.

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