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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Mar09

De(pressões) flavienses

 

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Só não se sente quem não é filho de boa gente… e, verdade se diga, ultimamente, todo o meu corpo e alma que o envolve ou acompanha, anda sentido, muito sentido, deprimido até… afinal não é o sonho que comanda a vida,  basta entrar-se em crise financeira e económica, para tudo entrar em crise, até a alma e os valores a ela associados…

 

Quando assim ando, sentido e deprimido, valho-me dos meus amigos poetas, das palavras, porque essas, poesias, poetas e palavras, sempre valem o que valem no momento em que valem.

 

Ao acaso,  passo os olhos pela estante da poesia e paro em Torga, porque sim, porque também ele sentiu com o nosso sentir provinciano…

 

Chaves, 24 de Setembro de 1971

 

Gosto destas cidades pequenas, frutos urbanos em que a polpa deixa ver ainda o caroço à volta do qual se desenvolveu: a praça do município, enquadrada pelo castelo, a igreja matriz, a casa da Câmara e a Misericórdia, com o pelourinho no meio a garantir a justiça. Superam gregariamente – na sua disciplina alinhada e varrida – a anarquia e a promiscuidade do aglomerado aldeão, conferem liberdade e dignidade ao habitante, que, além disso, pode continuar nelas a respirar o oxigénio puro do campo, a ver a paisagem, e a saudar a alvorada com um assobio salutar, como o que me acorda todas as manhãs desde que aqui venho.

 

Miguel Torga, in Diário XI

 

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Também eu a conheci assim, nesses mesmos anos e, despertava, quem sabe, se calha com os mesmos assobios, quando ainda era um verdadeiro fruto são, com polpa, pequena e contente consigo própria e com a salutar vida que se dava em assobios de alvorada e, ainda bem longe de adivinhar que a anarquia e a promiscuidade do aglomerado aldeão, atraído pelas luzes,  se haveria de transferir para acamparem atabalhoadamente em redor da cidade pequena dos assobios, espremendo e secando a polpa do fruto onde até o caroço por pouco não se resume a cangalhas, ou para lá caminha se entretanto não se escangalhar…

 

Todas as semanas lamento por aqui o despovoamento das aldeias, ou melhor, junto o meu lamento, ao  lamento dos resistentes, porque contrariamente ao que seria natural e até a própria natureza recomendaria, as aldeias também foram perdendo os seus melhores frutos que abandonaram as rédeas do seu futuro .

 

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Pela cidade, também seria natural que tivesse crescido naturalmente sem perder a consciência de que era uma cidade pequena, com frutos e polpa com acordares assobiados de manhãs salutares e, se pelas aldeias abandonaram as rédeas, aqui pela cidade parece não haver que as saiba manobrar… mas tudo é, apenas aparente… com uma aparência que incomoda.

 

Chaves, 10 de Setembro de 1969

 

Estes políticos, grandes ou pequenos, ao nível de capital ou de vila, são curiosos! Actores singulares, que em vez de servir se servem, é a própria megalomania que representam no palco da vida, a recitar em voz alta as palavras que adivinham no pensamento dos espectadores que hipnotizam. Naturezas ávidas de palmas vivas – e de morras, se não puder ser doutra maneira -, no fundo, as ideias, o bem público, a pátria e o mais em que se louvam para  atingir e conservar o poder, não lhes interessam. É o espectáculo da sua positiva ou negativa, hipertrofia pessoal que os seduz. A multidão cá em baixo, rasteira, embasbacada, fremente de entusiasmo, ou de indignação, e eles a pairar no meio dela, grotescos e sorridentes, a gesticular como gigantones.

 

Miguel Torga, in Diário XI

 

É isto o que espanta nos grandes homens das letras, é que escrevendo hoje, há 40 ou 400 anos atrás, continuam a brindar-nos com a actualidade das suas palavras.

 

Mas cada um vai tendo aquilo que merece e nós (cidade de Chaves e flavienses), sinceramente o penso, temos tido apenas aquilo que merecemos, porque acomodados na nossa pequenez, só nos importunamos quando o abanão é dirigido pessoalmente a nós, de resto, não me comprometas, que com o meu assobio e este olhar lateral, ainda pode cair algum! …  pois, sim, que seja melro! E depois, entre gregos e troianos, tanto faz, né!? São lá de longe… e coisas da história…mas cuidado com a mola, que de tanto vergar no cumprimento, um dia pode partir – conselho de amigo deprimido!

 

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Perdemos a cidade pequena da fruta boa com polpa e despertares de assobios, perdemos a vida rural e as aldeias, perdemos o comboio,  perdemos o hospital, perdemos porque nunca o ganhamos o ensino médio e superior, perdemos a tradição militar, perdemos importância da localização geográfica e até o presunto perdemos, só nos falta perder a identidade, mas por este caminhar, pouco falta, pois até a maternidade está perdida e já não nascem flavienses.

 

Pois é, as depressões dão para estes devaneios e estas coisas, mas a culpa é do Torga que me puxa pela língua e por falar nele, já que com ele começamos, terminemos também com a palavras de Miguel Torga.

 

Chaves, 11 de Abril de 1968

 

Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

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Pois oremos nós também e ajoelhemo-nos enquanto a procissão passa, e mesmo que o cão ladre, não se incomodem, pois passada a procissão, logo se calará, ámen!

 

Até amanhã!

 

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