Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves, uma cidade de província - Portugal

11.03.09 | fernando ribeiro

.

Truz-Truz, entro assim em mais uma quarta-feira de devaneios, com Torga que até era Adolfo.

 

Chaves, 9 de Setembro de 1984

 

Dei hoje comigo a pensar na linda soma de dias felizes que, apesar de tudo, roubei ao afã da vida. Dias lúdicos de caça ou ociosidade termal, de comunhão total com a natureza, activa ou passivamente. Dias irresponsáveis em que nenhuma autoridade me pediu contas dos passos que dei, das palavras que disse, dos pensamentos que tive. Dias tão clandestinos que não serão contabilizados na minha existência gregária. Que foram os feriados dela.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

Poderia terminar o post por aqui, pois já ficaria completo, porque todos nós, activa ou passivamente, tivemos os nossos dias clandestinos. Mas o segredo e a beleza de andar por aqui todos os dias não está em ter, no baú das nossas recordações, esses dias clandestinos, mas antes, está em continuar a viver esses dias, cada vez mais clandestinos que nunca, irresponsáveis porque livres e sem dar contas dos passos, das palavras e dos pensamentos.

 

.

.

 

Saudosistas sim, porque não!? Que pecado haverá em tirar alguma felicidade e também força e revolta de um passado que o conhecemos porque foi vivido e que é o único que temos como referência para os nossos passos actuais. Coitados dos que não o são, saudosistas, dos que não têm referências e dos que não têm passado. Infelizmente há muitos coitados por aí….

 

Dias clandestinos que roubo a esta cidade de Chaves e que,  quis o destino, fosse a minha cidade. Dias clandestinos, que à moda das nossas aldeias, também faz de nós clandestinos residentes e uns verdadeiros flavienses resistentes, porque Chaves, por mais que se goste dela e se ame, nunca passou além da cidade pequena e provinciana que sempre foi, é o mal dela (ou bem, a minha depressão deixa-me baralhado)  ou ainda bem que assim é, pena (isso sim) é que o provincianismo e a pequenez habite também a cabeça de certas pessoas que embriagados com o glamour da reinação, as luzes lhe toldam a saudade e o passado, que mais parece nunca o terem tido… e aos que lêem o que escrevo e não escrevo e metem linhas entre-linhas, antes de apontarem o dedo a alguém (que caia bem na definição), descubram se lá por casa os espelhos reflectem a realidade.

 

.

.

 

Perdi a referência nas páginas dos diários de Torga, mas sei que foi ele quem o disse que em Chaves não há raças, há castas e o problema da nossa cidade está precisamente aí, nas castas que não conseguem viver sem se libertar da sua raça…

 

Enfim, temos o dever da resistência e vivemos com a esperança, essa grande mulher que além de tudo nos permite estes dias irresponsáveis em que nenhuma autoridade nos pede contas dos passos que damos, das palavras que dizemos, dos pensamentos que temos, a nós e aos outros, os do glamour da reinação, e por isso, Chaves é igual a si própria, a cidade de sempre, pequena e provinciana, das notícias diárias do diz-que-diz-que-disseram-mas-não-contes-nada, não me vá a comprometer…

 

.

.

 

É esta cidade de Chaves que faz de mim também um resistente, que poderia ser bem melhor, pois podia mas que mesmo assim tem os seus dias lúdicos de caça ou ociosidade termal, de comunhão total com a natureza, activa ou passivamente … e pasteis de carne, couves,  batatas e às vezes até bom presunto sempre regado com um bom e encorpado vinho tinto de carne

 

Termino com o mestre Torga (o tal a quem Chaves ou as Termas, deve a devida homenagem) e o seu olhar a cidade desde o Miradoiro, que, com olhar apurado, ainda pode ser verde, com verde natureza.

 

.

.

 

Chaves, 6 de Setembro de 1986

 

MIRADOIRO

 

Não sei se vês, como eu vejo,

Pacificado

Cair a Tarde

Serena

Sobre o vale,

Sobre o rio,

Sobre os montes

E sobre a quietação

Espraiada na cidade.

Nos teus olhos não há serenidade

Que o deixe entender.

Vibram na lassidão da claridade.

E o lírico poema que me acontecer

Virá toldado de melancolia,

Porque daqui a pouco toda a poesia

Vai anoitecer.

 

Miguel Torga, In Diário XIV

 

Até amanhã.

1 comentário

Comentar post