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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Mar09

Mosteiró de Baixo - Chaves - Portugal

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É sempre com agrado que parto à descoberta dos olhares das nossas aldeias e se por um lado regresso sempre agradado com os olhares fotográficos que por lá tomo, também não é menos verdade que as verdades do nosso mundo rural deixam-nos para o regresso algumas reflexões mais profundas que me levam quase sempre a um estado de depressão. É esta a palavra da moda, pois deixamos de contestar, discordar e protestar, porque de nada nos vale e, em vez disso, ficamos deprimidos.

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De regresso, na companhia da rádio e alguma música, vou reflectindo a vida das aldeias, de como compreendo os resistentes que ficaram agarrados à terra e como compreendo ainda melhor aqueles que partiram das suas aldeias, por uma ou outra razão e que, cada vez a abandonado mais, encaminham as nossas aldeias de montanha para o despovoamento total. Compreendo sem compreender estes encantos e desencantos das nossas aldeias, mas embora haja entendimento de sentimentos, não os aceito.

 

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Acabava de deixar Mosteiró de Baixo onde durante todo o ano, meia dúzia de pessoas resistentes vão lutando contra o frio de inverno como podem e,  fazendo pela vida com aquilo que a terra dá, que de inverno, para além das couves e do naval, pouco mais há. Felizmente e até se dão graças a Deus, que de inverno os dias são pequenos. Mas enquanto regressava, as notícias iam interrompendo a música da rádio para anunciar que a Assembleia da República adiava mais uma vez  o casamento entre homossexuais…

 

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Portugal sem dúvida alguma que é um país de contrates profundos, ou como diria o poeta “por cima a sabedoria, por baixo a porcaria…”,  e se não o é parece, pois a “sabedoria” dos senhores de Lisboa que se vão divertindo e iludindo com as luzes o glamour da capital, que são pagos por todos nós para fazerem Leis e nos governarem, lá vão fazendo o seu sério trabalho, discutindo casamentos entre homossexuais, discutindo quantas gramas de sal deve ter o pão e distribuindo “Magalhães” pelas criancinhas ou distribuindo décimos segundos por adultos que na devida altura “não tiveram tempo” de ir à escola.

 

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Senhores de Lisboa e dos corredores do poder que enquanto debaixo de luzes vão trocando e condimentado poéticos (tão poéticos como patéticos) galhardetes entre os olhares atentos da televisão para passar nas notícias, há povinho, que desde Lisboa tentam esconder com a imagens de fachada, que anda nos campos a lutar pela vida, ou mais que isso, por sobreviver.

 

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É este o fiel retrato do centralismo de um Portugal a duas velocidades, com Lisboa a querer outro aeroporto internacional e um TGV para se ligar às capitais da Europa, que vai desembolsando dinheiros de todos nós para compensar os disparates dos banqueiros gananciosos,   enquanto pelo interior, nas montanhas e nas aldeias, ainda há pessoas quase esgaravatam a terra para dela tirar algum sustento, que transportam alfaias e colheitas em carroças puxadas por burros ou vacas  e/ou que vivem de míseras reformas, que se calha, nem chega para pagar um jantar de glamour de Lisboa e muito menos uma viagem no “sonhado” TGV… enfim, convém mostrar ao mundo não aquilo que somos, mas o que parecemos e os nossos políticos e governantes, disso, percebem eles.

 

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Mas vamos deixar de parte os devaneios e depressões do costume e vamos para  Mosteiró de Baixo, a apenas 12 quilómetros de Chaves, é uma dessas aldeias de interior, de montanha, onde só os tais resistentes, resistem. Nem sequer é aldeia dormitório e vai vivendo com as suas casas antigas, algumas poucas habitadas e a maioria abandonadas ou em ruínas, e as poucas casas novas da estrada de entrada, zelam por estar fechadas aguardando que lhe abram as janelas nos regressos apressados de Agosto.

 

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Mosteiró de Baixo tinha em 2001 (Censos)  90 residentes, dos quais 7 tinham menos de 10 anos. Dados de 2001, que pelo que constatei na aldeia, hoje, já não são reais, pelo menos no número de crianças.

 

Mosteiró de Baixo, convém referirmos sempre o “de Baixo” pois na proximidade da freguesia (S.Julião de Montengro) existe outra aldeia com o nome de Mosteiró,  Mosteiró de Cima, esta pertença ao concelho de Valpaços.

 

Quanto à origem do topónimo, tudo indica que venha de proximidade de um mosteiro que pela certa estaria associado à sede de freguesia, S,Julião de Montenegro e daí termos também as duas aldeias Mosteiró (de Baixo e de Cima) tendo como ponto de referência S.Julião.

 

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Como já se disse, Mosteiró de Baixo vive em redor da agricultura, com pequenos campos cultiváveis entre carvalheiras e soutos. Uma paisagem bonita de ver, mais de ver que de viver, não é por falta de vontade de alguns naturais, mas antes, por força da vida e da luta por uma vida com alguma dignidade que só a aldeia, não dá, embora o que vai dando, seja coisa boa, da horta ou da criação da casa, faz pela certa boa mesa, pelo menos enquanto a ASAE o for permitindo.

 

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E assim deixamos mais uma aldeia, com um pôr-do-sol entre couves galegas e algum arvoredo, porque por cá, embora pareça que o sol não nasce para todos, faz questão de todos os dias desaparecer, lá ao fundo, entre montanhas a caminho do mar e da civilização, e se assim não é, parece.

 

E para terminar resta mencionar o santo de devoção da aldeia, o S. Bernardino de Sena, que tem a sua capela bem no centro desta pequena aldeia.

 

E mais uma vez as minhas desculpas para a aldeia convidada pelos meus devaneios e depressões políticas, mas é que custa ver o nosso mundo rural moribundo, quando tanto de bom têm para dar.

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