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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Mar09

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

 A ORAÇÃO DO MILITAR

 

Um texto de Gil Santos

 

O paquete de luxo “Santa Maria” propriedade da Companhia Colonial de Navegação, largou de Lisboa a 9 de Janeiro de 1961, com destino à América Central. Fez a primeira escala no porto venezuelano de La Guaira a 20 do mesmo mês. No barco seguia, desde Lisboa, um grupo de contestatários da Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação, movimento constituído por opositores aos regimes totalitários de Franco e de Salazar. Um dia depois, em Coraçau, embarcou clandestinamente o comandante deste movimento Henrique Galvão, com mais três camaradas, com o objectivo de tomar o navio. Exilado na Venezuela, desde 1959, Galvão pretendia ferir de morte a ditadura de António Oliveira Salazar, utilizando estas práticas de assalto como forma de contestação ao regime. O navio, que levantando ferro de Coraçau tomava o destino de Port Everglades na Florida, foi tomado na madrugada de 22 de Janeiro de 1961 pelos 24 homens do movimento que tiveram necessidade de abater a tiro o único resistente, o terceiro piloto Nascimento. Alterando o rumo para leste os assaltantes pretendiam alcançar rapidamente o Atlântico. O agora comandante Galvão pretendia, com a manobra, deslocar-se até à colónia espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné e daí desenvolver um ataque a Luanda, iniciando a partir de Angola o derrube dos regimes ditatoriais da Península Ibérica. Porém, no dia 25, cruzou-se com um cargueiro dinamarquês o que permitiu que a força aérea norte americana identificasse a sua posição permitindo a sua localização e respectiva apreensão no porto brasileiro de Recife a 2 de Fevereiro. Este acontecimento, abortado, deu origem a outros do género.

 

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Mas já antes, outros acontecimentos punham em causa o regime de Salazar: a 7 de Fevereiro de 1927 eclodiu no Porto num movimento revolucionário de forças militares; a 20 de Julho de 1928 outro movimento eclodiu em Lisboa; a 4 de Abril de 1931 verificaram-se tumultos na Madeira; a 26 de Agosto de 1931, rebentou mais uma revolução, que viria a causar 40 mortos e cerca de 200 feridos; a 18 de Janeiro de 1934, eclodiu uma greve geral, com atentados à bomba, a tiro e sabotagens em várias localidades, com maior incidência na Marinha Grande; a 10 de Setembro de 1935 houve uma tentativa de assalto ao destacamento da Penha de França, entretanto abortada pela prisão dos seu precursores; a 9 de Setembro de 1936 deu-se uma revolta dos barcos de guerra, "Afonso de Albuquerque" e "Dão" que pretenderam sair a barra para se juntar às forças republicanas que combatiam em Espanha. Sobre os navios foram disparados 21 tiros de canhão, dos quais 18 atingiram os alvos e determinaram a sua rendição.; a 4 de Julho de 1937 verificou-se um atentado a Salazar. Na manhã deste dia deflagrou uma potente bomba num colector de uma rua por onde passaria o ditador, a caminho da missa de domingo. O veículo em que o chefe do Governo se fazia transportar não foi atingido; a 10 de Abril de 1947, 5 generais, 6 oficiais-superiores e 13 professores universitários foram demitidos das suas funções por terem participado numa conjura que se manifestou através de greves e de uma tentativa de revolta na região de Tomar; a 12 de Março de 1959, após as eleições de 1958, um grupo designado por Movimento Militar Independente pretendeu levar por diante uma sublevação militar em Lisboa; a l de Dezembro de 1961, foi assaltado, por um grupo chefiado por Henrique Galvão, um avião dos TAP, que voava de Casablanca para Lisboa com o objectivo de lançar panfletos sobre Lisboa, Barreiro, Beja e Faro.

 

Do início da década de sessenta por diante seguiram-se outros boicotes no sentido de chamar a atenção do mundo democrático para os exageros das ditaduras na Península Ibérica e particularmente em Portugal. Coincidindo com o assalto ao Santa Maria, outros acontecimentos deflagraram a 4 de Fevereiro no norte de Angola, mais precisamente nos distritos do Zaire, Uije e Quanza Norte. Incidentes esses que deram origem à guerra colonial em Março de 1961. O Governo de Lisboa perante a afronta dos movimentos independentistas que lutavam pela autodeterminação das colónias e o medo de perder o respectivo império, iniciou o envio de tropas para uma guerra de guerrilha que apenas o Movimento dos Capitães havia de parar em 1974.

 

Ora, para fornecer o exército de homens para guerra, que entretanto alastrava às restantes possessões ultramarinas, havia de encetar uma mobilização em massa.

 

Desta forma muitos mancebos foram parar a terras africanas, numa escala muito maior do que aquela que os havia levado, em dezassete, para a Flandres francesa. Uma rara oportunidade de largar o torrão amargo da terra magra. Muitos deles conheceram primeiro África do que a própria capital de distrito de onde eram naturais. A maior parte regressou. Porém, alguns por lá ficaram, uns mortos e esquecidos e outros por opção de vida. Os vivos foram quase todos obrigados a retornar pela revolução de Abril e pela inabilidade dos descolonizadores. Assim aconteceu com o Zeca Rambóia, um moço nascido nos corgos do Brunheiro.

 

 

 

 

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Nado na aldeia de France, José da Taleta, conhecido por aquela nomeada por ser amigo da pândega, aos dezanove anos, conhecia apenas até onde a vista podia alcançar. Até aquela idade, se visitou Chaves foi por engano, quiçá embrulhado na confusão dalguma procissão de bestas para a Feira dos Santos. A natureza agreste do Brunheiro não lhe reservava segredos. Os animais, domésticos ou selvagens, também não. Tratava o Planalto por tu. Os trabalhos da lavoura e mesmo os domésticos não lhe metiam qualquer serra. Se fosse preciso pendurar na cremalheira um caldeiro de batatas para cozer aos recos, acendia o lume, ajeitava as canhotas de carvalho no estrafogueiro, botava-lhe lume com um palhito e fronças secas de giesta, bufava para atiçar com o fole e já estava. No fim amassava à mão as batatas com o farelo grosso do centeio mal moído, numa balde de folha da Flandres e abrindo o alçapão que do sobrado dava para a loje dos recos, chamava assim à refeição:

 

- Tchua, Tchua, Tchua - e botava a caldeirada para uma pia de perpianho metros abaixo, ouvindo, satisfeito a aplicação das cevas a engordar para a faca!

 

Outras alturas, se tivesse de madrugar e jungir uma parelha de bois galegos e assucar uma terra para semear canibeque, fazia-o com’a nada: pegava na aguilhada em riste, chamava os bois pelo nome, emparelhava-os, colocava sobre a cornadura de cada um a sua molida, sobrepunha o jugo de buxo que os unia, transava-o com as sogas que tensava fincando o ombro nos cornos de cada animal e depois de jungidos conduzia a parelha ao pátio, introduzia o pinalho ou cambão do carro no tamoeiro travando-o com o chavilhão. Antes tinha já preparado o carro de bois com os respectivos ladranhos, que entalava entre os estadulhos e com o arado para a lavra. E de aguilhada na mão, feita de vara de castanho que preparava em Cova do Ladrão, assobiando modas de rouxinol, lá seguia encantando a matina com a chiadeira típica do eixo nas cavilhas do chedeiro.

 

Era um verdadeiro regalo observar esta força da natureza que na mais pura e singela simplicidade e desconhecendo por inteiro os vícios do mundo cão que em breve o esperava, comungava da natureza apenas as virtudes!

 

Porém, as suas dezanove primaveras haveriam de mudar tudo. Foi às sortes. No edital de Freguesia constava o seu nome. A vida estava prestes a mudar e o largar os torrões estava já ali. Ajeitou-se botou o fato de ir à missa, brilhantina no cabelo, juntou-se aos camaradas das redondezas que partilhavam o seu destino e rumou Ao Distrito de Recrutamento Militar, à época em Vila Real. Em couro, apresentou-se à Junta e, ausente de qualquer moléstia, o veredicto foi o de “apto para todo o serviço”. Uma festa! Cigarros, foguetes e uma cardiela de caixão à cova! Dois meses depois assentava praça no Regimento de Infantaria 19 em Chaves para tomar recruta e se preparar para rumar a Angola e enfrentar os turras.

 

Não tinham ainda chegado as andorinhas e já recebera ordem de marcha para Luanda. Embarcou no Niassa em Lisboa e após uma semana de mar e enjoo desembarcou em Luanda. Rumou de imediato ao quartel do Grafanil, onde pernoitou, para no dia seguinte marchar de imediato para o Ambriz onde passaria um ano no mais aceso e cruel cenário de guerra de guerrilha. Soldado raso Rambóia tinha a ingrata especialidade de atirador de infantaria, na gíria da tropa era “carne para canhão”. Assistiu a muitas mortes de camaradas e amigos, viu muitos terroristas esfacelados, participou em diversas carnificinas e viu por diversas vezes a morte logo ali. Os momentos que mais temia eram aqueles em que lhe cabia escoltar colunas de viaturas em marcha lenta pautada pelo ritmo dos picadores que seguindo a pé pelas picadas detectavam as minas que constituíam um dos maiores flagelos daquela guerra. Também as emboscadas eram temíveis pois quando menos contavam choviam rajadas traiçoeiras de metralhadora, ou mortíferos morteiros que desfaziam um homem. Era nestes momentos que em voz baixa e apertadinho do coração recorria aos favores da Virgem Santíssima, lembrando-lhe o tercinho que todas as noites rezava e ao qual juntava uma oração que a avó, uma velhinha, rata de sacristia, lhe havia ensinado. Assim rezava:

Este terço que aqui rezo

O ofereço a Maria

Que me livre do pecado

E da má companhia

 

O pecado ficou triste

Todo cheio de agonia

Por ter oferecido

Este terço a Maria

 

Se quiseres alma minha

No reino do céu entrar

O terço a Maria

Nunca deixes rezar

 

Olha que há céu e inferno

Para os bons e para os maus

E as contas do meu rosário

São peças de artilharia

Fazem tremer o inferno

Quando digo Ave Maria.

 

Ave Maria Senhora

Cofre do ventre sagrado

Amparadora dos anjos

Senhora sois do rosário

 

Eu vos ofereço esta santa e humilde oração

Seja por vossa imensa glória e para minha salvação.

 

Por Deus querer nada de mau lhe havia de acontecer naquela guerra maldita. Em breve passou à disponibilidade são e salvo, à peluda como se dizia.

 

Ora as terras de África apesar da má recordação da guerra entraram de tal forma no coração do jovem que no fim da guerra decidiu não regressar ao continente montando vida por lá. Foi para Luanda e não demorou que nos arredores, próximo do Musseque, botasse uma pequena mercearia. Não tardou que o negócio crescesse e o Rambóia fosse aos poucos ampliando o espaço, metendo empregados e enriquecendo.

 

Os anos foram passando e como já tinha dinheiro que chegasse para viver desafogado até à velhice, regressou. Como o fez antes do 25 de Abril ainda conseguiu trazer riqueza suficiente. Já não regressou a France. Estabeleceu-se na cidade de Chaves, onde comprou uma casa e gozou do conforto que os anos de África lhe proporcionaram.

 

Não dispensava o seu cafezinho do almoço no Geraldes onde aproveitava para contar algumas das estórias que vivera pelas terras benditas de África como gostava de frisar.

 

Entre as muitas retive duas breves que reconto:

 

Do armazém onde guardava os stocks da mercearia que vendia na loja, começou estranhamente a dar conta de que lhe iam faltando coisas. Tinha dois funcionários africanos a trabalhar consigo, o Donzílio e o Virgolino. O primeiro trabalhava ao balcão, o segundo na entrega das compras aos clientes. Um belo dia reparou que o Virgolino saia da loja com um andar estranho. Curvado ao peso de qualquer coisa que não se via, caminhava Virgolino desconfiado, desenhando em passos comprometidos trejeitos de quem esconde qualquer coisa.

 

O Patrão abordou-o:

 

- Olha lá ó Virgulas, tás doente? Porque caminhas tão a custo?

- Eis patrão muito doente. Dói muito a hérnia da virilha!

- Tens uma hérnia na virilha? Ora deixa lá ver. Sabes que eu nunca vi tal coisa!

- eis patrão muito feio p’ra cê ver!

- Eu estou habituado. Mostra lá.

 

Perante a intransigente insistência de Rambóia o Virgolino desapertou o cordel de sisal que prendia as calças, à cinta e deixou ver, entaladas nas cuecas surrentas que trazia, duas latas de sardinha de conserva e um pacote de açúcar branco.

O patrão passou-se! E ali mesmo deu uma descascadela ao desgraçado que de uma forma singela se desculpava desta forma:

 

- Me descupre patrão mas preto é mesmo filho da puta!!!

 

E lá foi então Virgolino com o cantar das segadas e duas latas de sardinha e um quilo de açúcar como paga pelo mês de trabalho que findava.

 

Contava ainda que muitas vezes se dirigiam à sua mercearia os miúdos do Musseque com cinco tostões para um pão e manteiga. Rambóia não estava com meias medidas, como a coroa mal dava para pagar o bijou, pegava numa faca, untava-a na manteiga e dava-a a cheirar aos negrinhos. Os moços, todos contentes, mamavam o pão com o cheiro da manteiga impregnado nos narizitos famintos do peguilho que não avezavam!...

 

A sorte bafejou-o. Adivinhou o 25 de Abril antes que acontecesse. Cheirou-o como o corvo cheira a carniça e safou a pele e a riqueza a tempo A Revolução aconteceu e a vida em Angola tornou-se insuportável para os “rostos pálidos”. A sorte de Rambóia faltou a muitos que, empenhando toda a ilusão naquelas terras, retornaram apenas com a camisa do corpo e uma vontade imensa de sobrevivência.

 

Parecem abrir-se agora novas portas nesse país imenso!...

 

De uma terra farta e próspera restava a saudade que carpia nos copos. E entre os momentos mais suportáveis contava as estórias da sua incursão pelas Áfricas.

 

Uma aventura feliz, apesar de tudo, que a guerra ofereceu!

 

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