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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Abr09

Discursos Sobre a Cidade - Chaves em 1938, por Afrânio Peixoto

 

.

 

Texto de Afrânio Peixoto (1876-1947)

(conforme o original de 1938)

 

 

"De caminho, Pedras Salgadas, Vidago, até Chaves, cumiada do eixo norte-sul de Portugal. Chaves é ilustre por suas memórias romanas. Uma grande ponte romana sôbre o Tâmega, de 140 metros e 16 arcos, com 2 inscrições, constitue um brasão. É a celebrada Aquae Flaviae, nome de homenagem às fontes termais, 70° graus, e ao imperador, um dos Flávios. O curioso é que de Flaviae fêz a etimologia popular «Chaves», que nada têm que ver um com o outro têrmo, mas lá estão as «chaves», nas armas da cidade... Alhos por bogalhos. As muralhas, o Castelo, o campo entrincheirado, com bastiões, igrejas, casas, portas, escadas, além da cidade moderna, há muito que ver em Chaves. Aqui está enterrado, em São Francisco, o primeiro Duque de Bragança, bastardo de Dom João I casado com a filha de Nun’Álvares, fadados a estirpe de reis. Daqui envio aos Braganças de meu país respeitosa lembrança.

 

Chaves tem porém uma celebridade mais modesta, mas que conta, a quem tem apetite: os pastéis de Chaves... Há uma geografia da Europa, e em França, e agora em Portugal, sou-lhe muito sensível... Não sei porque se há-de ter vergonha de falar em coisas de gôsto, de bom gôsto, que não sejam de olhos, ouvido, olfato, quando muito... ?Porque não, do paladar? O «gôsto» deu tôdas as artes. O «sabor» deu tôdas as ciências... ?porque, pois, a hipocrisia de não falar do que bem sabe, do que tem bom gôsto?  O presunto de Chaves é tão famoso como o de Lamego. Os pastéis de carne não têm aqui rivais. Um gaspacho ou um cozido, ou os dois, em Trás-os-Montes, vencem a serra. Um folar ou uma tabafeia, de Bragança, nutrem por uma semana. Um leitão ou cabrito daqui, assados ao espêto, são gloriosos. Uma açorda, comida em tarro de cortiça, por manhã fria, num campo do Alentejo, não se esquece mais... Ainda a canja aristocrática, com as grandes moedas de oiro, de enxúndia, a sobrenadarem, comeria a vida inteira, para contradizer a anedota picaresca de el-rei ao confessor: «nem sempre galinha, nem sempre rainha»... Tenho o estômago fiel e grato. Sarapatel ou cabidela têm cabimento. Na geografia gastronómica de Portugal sou eclético e gosto de tudo. (Aliás estou preparado, por nascimento na Baía,– a mais portuguesa das terras do Brasil- filha mais vélha e mais amorosa...– onde se come mais, e melhor, que em todo o resto do país – come-se intelectualmente, come-se pecadoramente...)

 

Onde, porém, Portugal me extasia, é na delícia da sobremesa... (Sempre tive a idea que é falta de gôsto não começar as refeições pelos doces... Não se chegaria ao resto... tanto melhor!). Os doces portugueses, como tanta coisa aqui, são os melhores ou mais gostosos do mundo. Um clássico arroz doce, uma aletria de Abrantes, uma marmelada de Odivelas, uma tigelinha de Santo Tirso, uns ovos moles de Aveiro, um doce-podre de Évora, umas arrufadas de Coimbra, umas queijadas de Sintra, ou da Periquita, umas cavacas de Caldas, ou de Felgueiras, um morgado, ou um dom rodrigo do Algarve, maçapão de Portalegre, morcelas de Arouca, amêndoas de Moncorvo, pastéis de' feijão de Tôrres Vedras... – ?que sei?! – não posso esquecer.

 

Minha alma pia perdoa às boas freiras dos conventos portugueses, que inventaram e aperfeiçoaram tanto doce bom, de nome às vezes religioso. ?E o pão de ló?  Felgueiras, Ovar, Fafe, Braga, Alfeizerão, Vouzela... não me deixeis em pecado de ingratidão! Às vezes sensuais, mas sempre de bom gôsto, tais nomes... «toucinho-do-céu», «papos-de-anjo», «palha-de-abade»,  «barriga-de-freira», «casadinhos», – considere-se na forma dêsse doce – «fatias-de-parida», «levanta-velhos»... Êsse capítulo daria um livro delicioso, se escrito por um sociólogo ou geógrafo de bom paladar.

 

Lembro-me de tudo em Chaves, sua arte, sua história, sua tradição. Mas a minha fraqueza, ou a sua fôrça, foram os pastéis... Fernão Álvares do Oriente disse talvez a verdade, em dois versos maus, porém exactos:

 

As coisas tôdas a aparência teem

Segundo os olhos são com que se veem...

 

Aqui será segundo o apetite, a fome... Chaves não colaborou, serviu...

 

Mas o que não é apenas Chaves, senão todo Portugal, é que, além de tudo o que se come, e como em parte alguma, há principalmente a maneira portuguesa de comer. As lágrimas sobem aos olhos, de ternura... Vejam, se não é assim...

 

Vai-se à mesa. Cada qual toma o seu lugar, afasta o assento, e de pé, silencioso, queda-se, benze-se, e rende graças a quem nos dá êsse «pão nosso de cada dia»... Isto feito, largas ao apetite. Não é a table d'hôte apressada. Nem os pratinhos magros e parcos, das minutas de restaurante, que não restauram coisa alguma... Senão fartos e multiplicados. Quando a gente supõe não poder mais, a iguaria que vem solicita a capacidade do ventre para nova concessão... Dez pratos, vinte sobremesas. Vinhos: uma gama riquíssima, que começa no aperitivo do Madeira, continua nos brancos dos peixes, segue nos tintos dos pratos de resistência, cepas vélhas, rascantes, vivos, graves, indo aos espumantes, e acabando no Pôrto, que corôa a obra prima da refeição...

 

Quando finda, a gente levanta-se e, então, é que a bênção sobrevem, como se fôra encanto espiritual a êsse, de comunhão familiar: uns volvem para os outros, apertam-se efusivamente as mãos, «boa tarde»,  ao almôço, «boa noite», ao jantar, que enternecidamente se desejam os que celebraram êste santo sacrifício quotidiano, com que Deus nos favorece..."

 

     

in VIAGENS NA MINHA TERRA, Volume I – Portugal. Lisboa e Porto: Livraria Lello & Irmão, 1938, pp. 163 a 166.

 

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