Domingo, 5 de Abril de 2009

Pastoria - Chaves - Portugal

 

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Nas minhas ausências da terrinha, recordo há uns trinta e tal anos atrás, do que mais gostava, era quando no regresso, a recepção que a grande recta de entrada nos fazia, com o seu túnel de arvoredo acompanhado dos campos da veiga geometricamente alinhados e cultivados. Dava-nos aquela sensação de chegar a casa e de que antes, alguém se encarregou de arrumar e limpar a casa para nos receber. Recepção que da nossa parte era sempre tomada com um respirar profundo e uma pele de galinha que nos picava todo o corpo.

 

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Às vezes, agora já poucas, nas nossas aldeias sinto uma sensação idêntica, sem respirares profundos e sem peles de galinha, mas tenho a sensação que arranjaram, limparam e até iluminaram as suas entradas para receber quem os visita.

 

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A Pastoria é uma dessas aldeias que tem uma entrada triunfal, com campos verdes e tratados, mais ou menos geometricamente divididos pelos românticos muros de pedra solta, tons de verdes e outras cores , arvoredos desenhados ou imponentes sobreiros que demonstram bem o porquê de serem diferentes e até protegidos.

 

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Dá gosto entrar na Pastoria e,  antes de chegar à aldeia, parar um pouco, apreciar a calmaria dos campos, ouvir a música das aves, sentir ao de leve uma brisa que mal consegue fazer cintilar as folhas… isto sim, é entrarmos no coração do vale alto de Chaves e viver toda a sua plenitude, porque na Pastoria, ainda é assim que se vive.

 

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Ainda não entramos na Pastoria aldeia de casario, ainda estamos nos seus verdejantes campos que fazem a sua entrada como de jardins se tratassem. A um lado carvalhais e pinhais que terminam no recortar de uma serra que parece e faz fronteira para outros ares, mais frios do barroso, as vinhas sobre vinhas protegidas pelos tais muros de pedra que conforme a época do ano se transformam em cor de autênticas telas como se artistas estivessem a fazer os seus ensaios de cor, quentes, sempre quentes, mesmo de inverno nos seus tons sépias, avermelhados, amarelados ou de um café a tingir a brancura de uma chávena reconfortante de um nascer do dia, ou por fim, a verdura suave de verdes também quentes que se mostram sem agredirem ou sem violentarem a harmonia da quietude. Mais à frente, campos de “pão” ou lameiros recortados por linhas de muros ou arvoredo onde os que desfrutam das suas refeições continuam indiferentes a saborear, também todos os momentos sem saberem que estão a fazer a delicia dos olhares de quem já está quase em estado de hipnose com tanta arte com que o homem ou não, servem a natureza.

 

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Não, não estou em momento inspirado de poesia, a entrada da Pastoria é mesmo assim, com todo este encanto, que faz o encanto de quem tem também olhares para os ver assim, e felizmente, a Pastoria não é única, pois conheço mais meia dúzia de lugares assim, talvez não mais que isso, mas valem por todas as serras e vales, montanhas e planaltos deste nosso concelho e destes nosso Atrás-dos-Montes onde com lugares assim, até vale a pena ser o resto de Portugal que é paisagem, desde, claro, que perto destes pequenos paraísos haja vida para dar razão a tanta elevação.

 

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E termino por aqui o elogio à entrada da Pastoria, mas só à entrada, pois o elogio continua, precisamente nessa vida que ainda mexe na aldeia da Pastoria, na aldeia que há para lá da entrada, da aldeia onde há casas e gente nas ruas, animais à solta e a lide dos campos que quis a sorte, na minha última visita estivessem em plenas sementeiras ou em simples amanhos do que já era nascido.

 

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Claro que as terras férteis deste vale alto de Chaves não são estranhas ao seu amanho, vale que se desenvolve quase em paralelo ao vale baixo da veiga e que se começa a desenhar em terras de Bustelo, passa por Soutelo e Noval, prolonga-se até Valdanta, desce um pouco a Curalha e termina precisamente em terras da Pastoria.

 

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A Pastoria, como qualquer das nossas aldeias que se preze, começou a desenhar o seu casario onde a montanha começa a sua vertente, cá em baixo bem aconchegadinha e paralelamente ao desenvolver da própria inclinação da montanha, mas sem tocar os campos planos, que esses sempre foram sagrados até há poucas dezenas de anos, em que os campos dos vales férteis serviam apenas para serem cultivados e para nos oferecerem as coisas boas que a terra sabe dar se o homem dela lhas souber retirar. Eram sagrados até ao momento em que cultivar os campos era uma arte, mas também o sustento (até desafogado) de muitas famílias. Eram sagradas enquanto as políticas e a  modernidade não atraiu os filhos dos campos para as luzes das cidades ou enquanto estes não foram obrigados a partir e deixar as terras para sobreviver. Culpas também para as tais políticas que desde Lisboa erradamente sempre se defenderam e sempre foram um convite ao abandono das terras. Culpas para as políticas que convidam ou forçam constantemente ao abandono e despovoamento das nossas aldeias.

 

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Mas na Pastoria fiquei surpreendido com a quantidade de gente que ainda há nos campos e muita dela gente nova… mas alguém que sabe e sempre viveu na aldeia disse-me que isso, é agora, porque há muita rapaziada que ficou sem trabalho e emprego e agora lá se vão agarrando novamente à terra…mas deixemos de parte estas coisas que até já parecem uma nóia minha, a nóia do despovoamento e da crise que até deve ser aparente e que tudo se resume a uma questão de velocidades altas velocidades como a do TGV que os senhores de Lisboa insistem em fazer para os senhores de Lisboa enquanto por cá temos a paisagem, porque até os comboios, aqueles que andavam devagarinho, foram mandados arrumar, precisamente porque andavam devagarinho. Modernidade e velocidade é o que está a dar e o resto que se … mesmo que nós, provincianos transmontanos sejamos parte integrante desse resto.

 

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Mas já tinha chegado à Pastoria do casario de uma aldeia do tipo risca ao meio, ou seja em que há uma rua principal ao longo do qual se desenvolve todo o seu casario, onde sem grandes nem ricas construções solarengas, há algumas que demonstram um certo poderio económico do passado acompanhado de um casario tradicional  rural bem interessante com algumas pérolas e pormenores pelo meio e, claro, também alguns atentados onde o mau gosto dos alumínios também se veio impor, não é só Centro Histórico da cidade.

 

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Vamos deixar as estórias pelo caminho e vamos a um pouco da história da Pastoria cujo povoamento se pensa vir já desde o período de transição do Neolítico para a Idade do Bronze ou seja desde o Eneolítico, possivelmente do III ou II milénio a.C. e que ocuparia os montes das redondezas onde hoje existe uma importante estação arqueológica denominada Castro do Muro (para os puristas que se costumam perder nos montes à procura destas relíquias, esta estação também não a conheço pessoalmente, mas que é mencionada nos livros, lá isso é).

 

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Também os romanos tiveram por lá o seu poiso e há vestígios de outras civilizações terem ocupado as suas terras.

 

O povoado actual é essencialmente agrícola que se faz notar seu casario tradicional onde se nota que a agricultura já teve melhores anos, pelo menos a julgar por algum casario que demonstra algum poder económico, como já atrás referimos.

 

Na história encontram-se referências a cidadãos ligados a esta aldeia que se tornaram notáveis, como o caso de António Teixeira de Barros Araújo Lozada, tenente de cavalaria, fidalgo e cavaleiro da Casa Real,  9° Administrador do Morgadio de Nossa Senhora do Ginzo de Curalha, figura de relevo na luta contra as Invasões Francesas.  Sem querer voltar ao assunto, é mais um ilustre das Invasões Francesas, que acompanha no esquecimento o nosso Francisco Pizarro, agora que se homenagearam os de Vila Real de valor (em Chaves) duvidoso e esquecemos o nosso povo e os nossos ilustres e  heróis  flavienses. Talvez os rapazes que decidem essas coisas das homenagens e dos monumentos que lhe erguem, para além de um assessor de bom gosto, também precisem de um assessor em história…

 

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 Interessante ainda e de referir a existência numa das casas, situadas no lugar do Cabo, de duas inscrições epigráficas de bela e estranha simbologia interpretada como de origem judaica, que segundo alguns historiadores locais,  poderá indicar que aí funcionou uma antiquíssima sinagoga, possivelmente do grupo dos Edomitas.

 

Num pequeno largo da aldeia e bem mais  recente, situa-se uma pequena capela da devoção a S. Martinho, onde se destaca a uma bela  pia baptismal.

 

E pela Pastoria é tudo, uma aldeia que vale a pena descobrir e apreciar todos os seus pormenores e beleza, só resta mesmo agradecer ao representante da junta de freguesia o Sr. Álvaro Valtelhas e esposa a disponibilidade para nos mostrarem algumas das relíquias da aldeia.

 

Até mais logo, pois este post hoje chegou mais tarde que o habitual.

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:42
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8 comentários:
De Tupamaro a 5 de Abril de 2009 às 20:42
.".......chegou mais tarde que o habitual"...

Mas chegou a tempo!
Porque as guloseimas do Domingo de Ramos são Sempre bem-vindas.
E os seus POSTais acerca das NOSSAS ALDEIAS são Sempre um grande regalo!

O Autor do Blogue bem merece um açafate de Amêndoas de Páscoa (de FOLAR deve andar fartito!).



Tupamaro


De Anónimo a 18 de Abril de 2009 às 23:55
Parabéns ao autor deste trabalho. Pedia o favor ao autor, para daqui a mais uns dias fazer umas fotos com um dia de sol da Serra da Pastoria florida.


De Margarida M.Nogueira N MalafayaBaptista a 5 de Janeiro de 2011 às 11:54

A terra do meu avô tenente coronel Luis António Nogueira


De Sara Nogueira a 6 de Maio de 2016 às 15:46
Olá!

Será que pode entrar em contacto comigo? Acho que somos familiares.

Sara Nogueira


De Eulália a 6 de Novembro de 2015 às 14:02
Adorei...adorei. Sou filha da terra, fui lá criada e ainda lá vou algumas vezes. Parabéns pelo texto e pelas belíssimas fotos.


De Pedro a 5 de Novembro de 2016 às 22:42
Grande recordação.
Consegui reviver as minhas idas à aldeia .
Tambem sou de lá embora criado fora dela mas sempre com o coração em seu interior .
Parabéns pela belíssima descrição .
Um abraço


De Joao Nogueira a 22 de Fevereiro de 2017 às 01:00
Gostei muito de ver a casa onde eu nasci. A casa na rua do Cabo com o relogio do sol, que ainda pertence a minha mae Maria *Quinhas) Nogueira


De Anónimo a 8 de Janeiro de 2018 às 22:57
Terra linda onde meu avô nasceu, e faleceu sem conseguir voltar!! Familia Monteiro Álvares


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