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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Vila Frade - Chaves - Portugal

13.06.09 | Fer.Ribeiro

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Há aldeias que logo na primeira abordagem encantam. Foi assim que aconteceu há coisa de vinte e tal anos atrás, na minha primeira deslocação a Vila Frade e, nem sequer passei do largo de entrada. Uma largo de aldeia com ar urbano, onde se concentrava toda a vida que uma aldeia pode ter. A Igreja, a escola, o tanque público, a fonte e o fontanário e até jardins com frondosas árvores debaixo das quais não faltavam os sempre românticos bancos de madeira, tudo à volta de um grande largo, cheio de vida, com pessoas, crianças, cães e galinhas, um largo ainda terreiro que pouco depois viria a conhecer uma pavimentação a cubos de granito, para o tornar ainda mais atraente e urbana.

 

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E durante anos, por uma ou outra razão, fui indo por Vila Frade, sem nunca passar do largo de entrada.

 

Já depois de existir este blog, fui lá para recolha de duas ou três fotografias e eis que dou de caras com uma construção no mínimo exótica, nunca antes tinha visto outra semelhante. Primeiro pareceu-me um castelo, depois a coroa de um rei, por último um moinho de vento, mas sem velas. Logo nesse dia publiquei a foto dessa construção aqui no blog, ainda longe de saber do que se tratava…ignorância minha, claro está, mas nem tanto assim, pois a construção é única no nosso concelho e nunca antes tinha visto outra igual. Vim a saber num comentário à foto que afinal se tratava de um pombal. Pensava eu que em Vila Frade estava tudo descoberto…

 

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Fui mais duas ou três vezes à aldeia para recolha de fotografias e a sedução do largo de entrada nada me deixava ver para além dele. Está certo que já tinha descoberto o pombal e a aldeia pouco mais era para além do largo.

 

Geralmente faço estas incursões nas aldeias por conta própria, ou seja, sozinho. Gosto de ir descobrindo pormenores, aqui e ali com olhos de apreciação, alguns pelos quais já antes tinha passado e nos quais nunca tinha reparado com olhos de ver, mas claro está que nestas incursões a solo nunca entramos nos verdadeiros pormenores e intimidade da aldeia, nas suas curiosidades e até estórias e segredos que são tomados “off the record”. Para entramos nesta intimidade da aldeia, nem há como ser acompanhado por um dos seus filhos.

 

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Mais uma vez me “aproveitei” do Sr. Orlando Serra para calcorrear a intimidade de Vila Frade, tal como já o tinha feito em Lamadarcos, mas em Vila frade, o Sr. Orlando conhece todas as pedras das calçadas, buracos, buraquinhos e segredos, quem viveu e nasceu em todas as casas, conhece todas as pessoas pelo nome e todas as belezas da aldeia, mesmo aquelas mais escondidas, que bem poderia eu visitar a aldeia um cento de vezes que não as descobriria.

 

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Descobrir o relógio de Sol, por exemplo, seria tarefa impossível, como quase impossível foi tomar uma foto. Relógio de Sol, ali mesmo a dar horas para o largo de entrada, mas que de tão camuflado que  está pela vegetação, seria tarefa impossível a sua descoberta e, se por um lado é pena que não esteja bem visível, por outro lado não cai na tentação dos ladrões como aconteceu ao relógio de Sol de Lamadarcos.

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Mas a maior descoberta estava ainda por acontecer. Maior em grandeza e em história, tanta que é apontado até como o ex-líbris de Vila Frade, para os seus filhos, claro. Trata-se de dois carvalhos, mas um deles, muito mais imponente que ou outro. Velhinho, quase todo seco, mas ainda com algumas galhas de vida.

 

Diz a tradição que este carvalho tem mais de mil anos e que sempre existiu na aldeia, ou melhor, na quinta que abrange em área a grande parte da aldeia e que em tempos foi propriedade da família dos Montalvões e do famoso “Capitão Vila Frade” (do velho e do novo), ainda no tempo em que a aldeia dava pelo nome de Santa Marta de Vila Frade e cuja quinta só terminava mesmo na fronteira com Espanha. Tempo em que Santa Marta de Vila Frade era aldeia e freguesia.

 

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Pois o milenar carvalho é anterior a nossa nacionalidade, viu nascer e morrer reis, assistiu a guerras e guerrilhas, viu morrer a monarquia, nascer a república e a liberdade e, velhinho que está, enquanto tiver uma galha que seja com folha verdes, continuará vivo e pela certa que ainda vai assistir à queda e nomeação de alguns governos e presidentes de Câmara e quem sabe se, com sorte, ainda consegue ver um Benfica campeão.

 

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Mas uma coisa é falar-se na imponência do carvalho e outra é estar ao pé dele e abrir a boca de espanto. Embora na foto se veja a sua realeza não temos noção da sua grandeza, por isso pedi ao nosso cicerone e a um amigo que servissem de escala “humana” para termos aqui a noção da sua grandeza, mas por sorte, estava lá à mão o famoso fio azul que serviu para medir o seu perímetro. Um longo fio azul que depois de medido tinha “apenas” 6,75 metros o que (se as matemáticas não me falham) dá um diâmetro de 2,14 metros que, para um castanheiro centenário até seria aceitável, mas estamos a falar de um carvalho.

 

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A quinta dos Montalvões é uma imagem de marca na aldeia. Imagem de marca e que pela certa marcou a aldeia durante muitos anos, pois vezes haveria em que toda a aldeia teria de trabalhar para ela. Hoje os velhos e grandiosos lagares já não recebem uvas e as culturas das antigas quintas foram substituídas por pastagens e forragens em que uma agricultura mecanizada e uma família de caseiros dá conta do assunto.

 

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O Casario da quinta, a “Casa Grande” como o povo lhe chama, tal como o da aldeia, não é um casario nobre nem solarengo, antes um casario típico de casa agrícola abastada com as casas de habitação no primeiro andar e por baixo as adegas frescas, quase sempre terreiras, onde se guardavam o vinho, os presuntos, as batatas e cebolas que dariam para todo o ano até às novas colheitas. Casas de habitação que davam directamente para um pátio/eira rodeada de outras construções de um piso destinadas ao lagar, às arrumações, às cortes dos cavalos e dos recos. Na proximidade destas casas agrícolas começavam a desenhar-se as aldeias, num pequeno núcleo de casas típicas de construção tradicional de granito, onde no meio (núcleo) geralmente existia a igreja ou capela.

 

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Vila Frade não anda longe da definição típica da aldeia onde existia uma casa agrícola abastada, que se servia da aldeia para o trabalho da quinta mas que era também a “responsável” por dar de comer à aldeia.

 

A par da “Casa Grande” do Capitão Vila Frade, hoje pertença de um espanhol, há também uma outra quinta que se desenvolve ao longo do ribeiro que separa Vila Frade de Espanha. É a também conhecida Quinta da Santa Júlia, também pertença da família dos Montalvões e que ainda hoje se mantém em posse da família. Esta mais discreta que a da Casa Grande, tem também uma casa igualmente de origem agrícola abastada mas que passa despercebida por entre o abundante arvoredo que a rodeia.

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Seria só assim se Vila Frade para além das suas ricas terras, com muita água, não tivesse ou não confrontasse com  Espanha. Terra da raia portanto e, ser terra da raia era ser terra de contrabandistas e guardas-fiscais em que na aldeia eram todos amigos, familiares e vizinhos, mas que nos “negócios do contrabando” cada um estava do seu lado, mas não era pela aldeia que passava o grande contrabando, pois este para a aldeia, era mais um contrabando de “subsistência” tal como na agricultura, em que se ganhava algum dinheiro para sustentar a família e como os hábitos do pessoal das aldeias eram conhecidos de todos, os horários do contrabando lá se iam conciliando sem ninguém incomodar ninguém.

 

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Também foi por Vila Frade que algumas “peles” se passaram para o outro lado no decorrer do primeiro grande êxodo rural dos anos 50 e 60 do século passado e entre essas “peles” também foram passando alguns políticos a caminho do exílio.

 

E agora em breves linhas tracemos também um breve perfil da aldeia e um pouco da sua história.

 

Vila Frade, aldeia situa-se a Nascente da cidade de Chaves, a 13 quilómetros desta,  nas proximidades da encosta da serra da Cota, a cerca de 400 metros de altitude ou seja quase à altitude do vale de Chaves, aliás as suas terras são mesmo um pequeno prolongamento desse mesmo vale, quer em relevo quer no fértil que são as suas terras. Vila Farde é rodeada de campos agrícolas, com searas e belos bosques de variadas árvores, onde se destacam, além dos mencionados carvalhos, um conjunto de sobranceiros que dão uma beleza singular à estrada que liga a Lamadarcos .

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À entrada da povoação, encontra-se a capela de Santa Marta dotada de uma galilé. Um dos suportes desta galilé, é um marco miliário, consagrado ao imperador romano Marco Aurélio Carino. Perto desta capela passava a via romana das Minas. A sua igreja paroquial, toda em granito, tem uma torre sineira dupla, de estilo galaico transmontano, encimada por uma cruz latina e enquadrada entres dois pináculos rematados por esferas. Nesta igreja está a primitiva imagem barroca de Santa Marta, padroeira de Vila Frade.

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Igreja esta que confronta com o tal largo de entrada, que tem tudo e ainda hoje está tudo lá, tal-qual há 20 anos atrás. A escola, a Igreja, o tanque, os bancos, a fonte e o fontanário, só com uma diferença: A escola está fechada por falta de alunos, o tanque não se enche por falta de lavadeiras, as fontes raramente são usadas e a crianças, as galinhas e os cães, já não povoam o largo, apenas os resistentes ainda recorrem ao largo para dar algum descanso às pernas, sentados num dos bancos à sombra das agradáveis sombras das árvores, que essas sim, continuam por lá, mais frondosas que nunca.

 

Só resta mesmo agradecer ao Sr. Orlando Serra por mais uma vez se ter disponibilizado para me acompanhar na visita a Vila Frade.

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