Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Jul09

Discursos Sobre a Cidade - Pastor por castigo, por Gil Santos

 

.

 

PASTOR POR CASTIGO

 

Meteu-se-me na cabeça deixar de estudar. Estava decidido!

 

Os companheiros que fizeram a instrução primária comigo faziam-me inveja, trabalhavam. Tinham motorizada e dinheiro no bolso. Gozavam da liberdade das aves de arribação e da vitalidade dos ribeiros libertinos. Bebiam água em todas as fontes. Saiam à noite e não tinham que dar satisfações a ninguém. Folgavam com os amigos e botavam figura de cigarro Kentuky ao canto da boca.

 

Eu, na escola, infeliz, escravo do toque de entrada, da malvadez dos professores e da prisão dos livros!

 

Não estava certo. Não estudaria mais, estava decidido!

 

Decidir, decidira, o pior era publicar, no boletim oficial da família, a decisão, de cima dos meus verdes quinze anitos!... Havia que escolher o momento certo e mesmo assim!... É que frustrar as expectativas de quem sonhava ver-me um dia doutor não era tarefa fácil! Como havia de fazer?

 

Depois de muito pensar, encontrei a solução: aproveitaria um desses serões à lareira dos meus avós para com eles ensaiar a empreitada. Se desse certo, tornar-se-ia mais fácil anunciá-la a meus pais.

 

Esperei a oportunidade. Finalmente surgiu. Uma noite escura como breu e fria como o gelo, serviria de cenário. O paizinho e a mãezinha – como gostavam de ser chamados – finalizavam o terço de todas as noites. O braseiro de carvalho era agora só borralho. Espargia serenidade e conforto na grande cozinha fumada. A luz mortiça da candeia de petróleo criava um ambiente perfeito. A minha presença era muito estimada pelos velhotes, não só porque trazia notícias frescas da cidade, como também porque representava uma lufada de ar fresco na vida dos idosos. Entrei, dei as boas noites e pedi a bênção ao meu avô como era uso.

 

— Bote-me a sua bênção paizinho!

 

— Deus te abençoe meu filho!

 

Sentei-me no escano de castanho a um canto da ampla lareira. Deixei a conversa fluir até ao ponto que me convinha. Quando vi a maré boa atirei a matar:

 

— Não quero estudar mais!

Não houve qualquer reacção. Não o esperando, isso tornou-me ansioso. A paz continuou a reinar. Temendo não terem percebido, voltei à carga, agora com mais convicção:
 

— NÃO QUERO ESTUDAR MAIS!

Nada!

 

E eu, sabendo do gosto dos velhinhos em me verem doutor, não percebia!... A minha avó Carolina continuava a mexer calmamente o borralho com um guiço de gesta. O meu Avô António aconchegava calmamente a almofada feita do capote que o acompanhou na Grande Guerra – e que fez questão que o acompanhasse também na mortalha – para se deitar no escano.

 

— Senta-te aqui Gilinho! – forma carinhosa como me tratava o meu avô – vou contar-te uma estória.

 

Ena pá, lá vou gramar com outra história da guerra, pensava eu.

 

Que nada! Com a voz calejada por setenta anos de experiência e canseira, assim me contou:

 

“Lá para os lados de Montalegre, em Perafita talvez, havia uma família de muitos teres e de grande lavoura que tinha um pimpolho a estudar para padre no Montariol em Braga. O filho era o orgulho e a esperança daquela casa, a menina dos olhos dos seus pais, futuro conforto das suas almas e via rápida para o céu. Estava tudo combinado. No dia em que se ordenasse padre haveria de se fazer uma festa de truz. Banda de música, foguetório e um banquete para a freguesia toda. Seria no Lameiro Grande, nas margens do Regavão, onde se estenderiam todas as brancas toalhas de linho do povoado. Dez vitelas e vinte recos seriam sacrificados e só para a doçaria estava já falada a camioneta de carga do Marinho para o transporte do açúcar. Haveria de ser uma festa de arromba. Até o Arcebispo Primaz haveria de estar presente!

 

O moço ia benzinho no estudo a fazer fé no que afirmava o prior da terra que, aproveitando as férias, o avaliava no latinório. Concluía quase sempre que, sabendo as declinações, pouco faltaria para professar!

 

Porém, um belo dia, no fim de umas férias grandes, não sei se por mor dalgum rabo de saia ou se por saudades da vida folgada, o rapazote declarou não querer regressar ao seminário.

 

Dilúvio de lágrimas!... Era a desgraça total!...

 

O pai não perdeu tempo a dar a notícia ao abade que fez imediata questão de reunir o conselho de homens bons da aldeia para encontrarem a solução. Podia lá Perafita perder a honra de ter padre nativo!? Podia lá ser!

 

Encontraram-na:

Como o moço era muito novo, não havia mal que perdesse o ano. Tinha tempo de se formar. Iria guardar as cabras do rebanho do pai durante um ano, para saber o que custava a vida!

 

De bornal às costas, cajado na mão e acompanhado por um Castro Laboreiro, lá levou o rebanho de centena e meia de cabeças para as faldas das Alturas. As cabritas, conhecedoras de atalhos e carreiros, desapareciam com’a diabos. O rapazote corria de um lado para o outro. Suava como um camelo. Não tinha paragem. Bufava, gritava, desesperava. As pernas já não respondiam, o peito parecia a concertina do Ti Malheiro!... Ah vida maldita!...

 

Aproveitando dois minutos de sossego, alapou-se, enfim, num penedo, a roer um pedaço de boroa e a pensar em voz alta:

 

– Ah cabras de mil diabos, quem vos guardará para o ano, que a mim já só me faltam trezentos e sessenta e quatro dias e o que vai daqui para a noite!...

 

Fez-se padre!”

 

Perante esta lição de vida contada pela experiência matreira do meu paizinho perdi toda a coragem para continuar a sustentar a minha decisão!...

 

No dia seguinte lá estava eu, resignado e triste, para assistir à aula das oito e meia!

 

O meu avô foi um santo que a guerra de catorze poupou às balas do inimigo para que fazer de mim um homem bom!...

 

Gil Santos

In “Ecos do Planalto – estórias” - adaptado

 

 

2 comentários

Comentar post

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Boa noite! Alguém me sabe dizer quem foi o autor d...

    • Eduardo Camara

      Sou Eduardo neto de Maria Otilia portuguesa nascid...

    • Tudo Mesmo

      Tenho que ir a Chaves para o próximo ano.

    • Anónimo

      “OUTONICE”Porra! Porra! Porra!Como se já não me ba...

    • Tudo Mesmo

      Linda mesmo.