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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Ago09

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(VI)

 

"Sei ao que vem, senhor inspector, sei ao que vem...", respondeu-lhe o comandante com um esgar de ironia a acompanhar o gesto nervoso. Dirigiu-se para um grande armário com um cofre, de onde retirou uma pasta, que lançou sem cerimónia para cima da secretária junto da qual o inspector se sentara.

 

"Aí tem. Nomes e movimentações. As deslocações mais recentes. Estão todos vigiados." O inspector abriu lentamente a pasta onde se encontravam meia-dúzia de páginas dactilografadas com algumas anotações manuscritas.

 

"Muito bem, muito bem", observou compenetradamente, sem dar a entender que os seus serviços já lhe tinham entregue uma lista semelhante, acrescida de fotografias.

 

"Está tudo muito bem, senhor comandante, mas aqui nada se diz sobre as famílias dos criminosos da raia... Têm sido vigiados? Têm-se revoltado ou pronunciado contra a situação? É de esses que eu quero saber!"

 

"Ainda não acabaste o trabalho, grande cabrão? Estás mais preocupado com eles do que com o general... E bem podes estar, porque as pessoas podem ter medo mas não esquecem", pensou o comandante, enquanto lhe dizia: "As pessoas das aldeias estão preocupadas com a  família, com os familiares, não querem saber destas políticas da cidade e do governo. Não se preocupe que eles não se envolvem nisto... É uma coisa só de doutores e intelectuais."

 

"Deixe as preocupações para mim e faça o seu trabalho, senhor comandante. Quero saber se há, ou não, pessoas da raia que se possam envolver com a oposição! Quero um relatório sobre possíveis ligações,  aos comunistas e aos intelectuais que apoiam esta candidatura, de todos aqueles que foram presos !"

 

Os olhos do inspector impunham-se ao silêncio remoído do comandante. Via-lhe e sentia-lhe a vontade de lhe responder levantando-lhe a voz. Mas não, surpreendentemente o comandante sentara-se e conseguira controlar esse instinto.

 

"E quero também saber se andam para aí a falar e a tentar recordar os acontecimentos, aproveitando esta agitação e este entusiasmo dos oposicionistas!", acrescentou ainda.

 

"As pessoas podem calar, senhor inspector, mas não esquecem!", rematou o comandante, enfrentando-o directamente com o olhar. "Hmm, afinal talvez não sejas tão cobardolas assim...", considerou o inspector enquanto lhe respondia, silenciosa mas firmemente, com um olhar frio e profissional.

 

A tensão ficou a pairar no gabinete muito depois de as últimas palavras terem sido pronunciadas e de o inspector se ter levantado e saído.

 

Escurecia quando saía da esquadra. O ar cálido das ruas animava-se com vultos lentos que se dirigiam para a novena. À porta do clube, homens e rapazes assistiam à chegada das pessoas que iam à missa. Sempre fora um óptimo local para ver quem ia à igreja. 

 

Nem pensou duas vezes. "Jantar? Ainda não, poderei cear mais tarde..." Empurrou o guarda-vento, onde os vidros com monogramas demarcavam um território selecto, e dirigiu-se para o bar. Dali poderia assistir discretamente ao provinciano pavonear das vaidades e ao desfile das meninas casadoiras.

 

(continua)

 

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