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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Nov09

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(VII)

 

No bar, encontrou a clientela que esperava. Três ou quatro bebedores inveterados junto do barman, um ou dois jogadores de passagem para a sala do fundo e o resto, um grupo animado de rapazes, junto das janelas, apreciando as meninas que chegavam para a missa.

 

O barman sorriu-lhe, apelando à simpatia de uma pessoa que sabia ser importante. "Boa noite, inspector Vladimiro Bento! Já há muito que não o víamos por aqui." Habitualmente renitente a que o tratassem pelo nome próprio, decidiu não dar importância de maior à saudação, acenando de volta com um baixar e levantar de queixo.

 

Em Lisboa, no serviço, já estava por demais habituado aos remoques sobre o nome que o pai, entusiasta da revolta bolchevique, havia escolhido sem a menor hesitação. Mas a paciência desaparecia quando a essa graça juntavam os trocadilhos sobre S. Bento e o apelido.

 

Aguentara isso enquanto estagiário e agente, mas agora não. O posto e a idade haviam-lhe trazido respeito entre os colegas. Só os mais velhos ainda se atreviam a insinuar uma ligação ideológica ao pai, republicano saudosista, comunista indefectível, que dissera mal da situação até à morte.

 

O criado, ali, não saberia fazer essas insinuações. Queria apenas ser simpático e prestável, procurando cumplicidade e protecção. E uma boa gorjeta. Pediu um vermute. "Aperitivos?" Que sim, que ainda não tinha jantado. Estava de costas para as janelas, mas apercebera-se da debandada. A missa já tinha começado.

 

Anos antes juraria que andariam por ali mais alferes e tenentes. Mas talvez a mudança do quartel e a distância os tivesse dissuadido. Ao virar da esquina, antigamente, ficava agora quase fora da cidade.

 

"O senhor inspector quererá comer algo?", perguntou-lhe o barman. "Podemos arranjar-lhe um bife." Deveria ter feito um trejeito de surpresa, pois a explicação surgiu logo de seguida. "Sabe, cada vez temos mais gente ali na sala ao lado, e cada vez saem mais tarde. Tivemos que começar a arranjar uns petiscos e as pessoas começaram a protestar, porque a comida só ia para o reservado..."

 

Aquiesceu no bife. Entretanto, na sala, um grupo juntara-se a um canto, discutindo um quadro. Nos anos anteriores nunca reparara nele, devia estar ali há pouco. Eram apenas curvas, quadrados, rectângulos e nada mais. 

 

Virou-se para o barman. "Zé, o que é aquilo?"

 

A resposta chegou com um sorriso escarninho. "Diz bem senhor inspector, diz bem. Aquilo. Aquilo é uma coisa que agora para aí trouxeram. É de um rapaz que está em França, filho do nosso poeta. Diz que é pintor. Mas olhe que os azulejos que tenho lá em casa metem mais vista que essa coisa. Até um pedreiro com alguns tijolos, argamassa e um pedaço de tinta fazia melhor... Olhe, para não ir mais longe, ao pé disto, até o garoto que tenho lá em casa é um artista!"

 

(continua)

 

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