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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Nov09

Santo Estêvão - Chaves - Portugal

Para quem não sabe, e penso que há muita gente que não o sabe, o concelho de Chaves, além da cidade, tem duas vilas. Uma que quase nasceu como vila, Vidago, pois quase após o seu nascimento passou logo a Vila, mais precisamente em 1925 e uma segunda Vila, mais antiga de origem, em tempos Vila Medieval, mas que na distribuição administrativa actual, só há 4 anos , com a Lei nº 28/2005,  ganhou de novo o estatuto de Vila – Stº Estêvão.  

 

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Mas vamos a um pouco da história de Stº Estêvão, precisamente com o texto que serviu de base para a proposta da sua recente elevação a vila.

 

A aldeia de Santo Estêvão foi outrora vila medieval e as suas casas serviram de alcáçovas do castelo. Na área geográfica de Santo Estêvão há testemunhos vários que atestam a existência da povoação já na pré-história. No entanto, a primeira prova documental que a refere tem data de 12 de Maio 1074, anterior, portanto, à independência do Condado Portucalense. A região de Chaves (Flaviae) e Santo Estêvão fizeram parte do dote de D. Teresa, filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela, quando em 1095 se casou com o Conde D.Henrique de Borgonha. Em 1129 a região de Chaves foi tomada pelos Mouros e retomada 31 anos depois, por Rui e Garcia Lopes, dois cavaleiros de aventura que a ofereceram em 1105 a D. Afonso Henriques quando foi reconhecido como Rei de Portugal. D. Afonso Henriques começou, desde logo, a alargar os limites do território que lhe fora legado.

 

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Chaves era então uma terra portuguesa, assim com a fortaleza de Santo Estêvão, que o nosso primeiro Rei e D. Sancho I foram construindo e reforçando. Há, no entanto, um período da nossa história coeva em que as terras de Chaves voltaram ao poder de Leão após a desastrosa jornada de Badajoz em 1169, em que D. Afonso Henriques foi ferido e aprisionado por seu genro D. Fernando II de Leão. Para o seu resgate, D. Afonso Henriques teve de largar todos os lugares e castelos que penosamente havia conquistado, menos o Castelo de Santo Estêvão que continuou na posse do Rei de Portugal. Em 15 de Maio de 1258 D. Afonso III concede foral a Santo Estêvão. A antiga vila de Santo Estêvão e dois antigos coutos vizinhos, Faiões e São Pedro de Agostém, eram posições estratégicas da fértil Veiga, que os vizinhos leoneses se empenhavam em arrebatar-nos a cada instante. Principalmente o castelo de Santo Estêvão constituía uma vigilante sentinela à fértil planície, exigindo, por isso, uma constante atalaia da orla fronteiriça nortenha contra as surtidas astuciosas dos leoneses.

 

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No Castelo de Santo Estêvão fez D. Sancho I celebrar o casamento de sua filha D. Teresa com D. Afonso IX, Rei de Leão. No mesmo castelo viveram durante muitos anos as outras duas filhas de D. Sancho I, D. Mafalda e D. Sancha e seu filho Afonso que veio suceder a seu pai no reino de Portugal, D. Afonso II. A separação de Afonso IX e D. Teresa, por imposição pontifica, veio agravar o equilíbrio estabelecido. Afonso IX tomou, porém, o partido da ex-mulher no litígio que a opunha ao rei seu irmão, que a lesara na herança paterna em Portugal. O Castelo de Santo Estêvão foi tomado como penhor ou fiança nesse litígio, o que, mais uma vez, veio reforçar a importância dessa fortaleza fronteiriça, que esteve então durante 19 anos em poder dos leoneses. Só foi restituído a Portugal em 1231, pela convenção estabelecida por Fernando III de Leão e D. Sancho II no Sabugal.

 

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D. Afonso, irmão de D. Sancho II que viria a tornar-se D. Afonso III de Portugal, após a sua separação de D. Matilde de Bolonha, casou em segundas núpcias com uma filha ilegítima de Afonso X, Rei de Castela e Leão, D. Beatriz com quem se encontrou em Bragança em 10 de Maio de 1253, seguindo depois para Santo Estêvão.


O consórcio de ambos realizou-se no Castelo de Santo Estêvão, em cujas alcáçovas foram preparadas acomodações condignas para receberem os régios esposos. D. Afonso III passava já dos 40 anos, enquanto a princesa era ainda uma criança. Só seis anos depois nasce deste enlace a infanta D. Branca e em 1261 o herdeiro do Reino, o príncipe D. Dinis. D. Afonso III fica a viver com a rainha D. Beatriz, em Santo Estêvão. É daqui que são outorgados e confirmados forais, a partir de fins de Maio de 1258 e assinado por D. Beatriz e outras testemunhas importantes, entre as quais Fernando Fernandes Cogominho, rico homem, pai de Nuno Fernandes Cogominho que foi almirante do Reino no tempo do rei D. Dinis. A reputação de que o povoado de Santo Estêvão disputou nos séculos XII e XIII adveio de que ao seu redor e do seu Castelo se travaram importantes recontros militares entre adversários fronteiriços.

 

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A partir de 1268 começaram a aparecer diplomas régios, assinados em Santo Estêvão, com referência a Chaves, embora o primeiro foral da actual cidade só tenha sido promulgado em 1514, em pleno reinado de D. Manuel. É, porém, notório que nesse documento aparecem referências a um foral antigo, do tempo de D. Dinis, confirmado por D. Afonso IV seu filho e sucessor. No reinado de rei-poeta, a torre de menagem do Castelo de Chaves devia estar concluída, mas, ainda assim, a fortaleza e povoação de Santo Estêvão nada perdera da sua antiga importância militar, segundo referências colhidas das frequentes inquirições mandadas efectuar pelos reis, para denunciarem e reprimirem os abusos da nobreza em relação às propriedades pertencentes à corte.

 

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D. Dinis, filho e sucessor de Afonso III, veio a Santo Estêvão esperar a noiva, D. Isabel, filha do Rei de Aragão D. Pedro III e em 1385 vemos D. João I acampado na antiga vila de Santo Estêvão preparando-se para o ousado assalto a Chaves, cujo alcaide tinha jurado fidelidade a Castela. Conta ainda a tradição que o mesmo rei, acompanhado do seu fiel exército, veio, muitos anos depois, em 1423, passar a noite de Natal à sombra protectora do castelo de Santo Estêvão, ouvindo à lareira os contos e ditos dos seus chocarreiros. Já na segunda metade do século XVII, em 1666, durante as longas lutas da Restauração, Santo Estêvão foi teatro de violências e crueldades, por parte da soldadesca do general galego Pantoja, que invadiu a povoação e a seguir saqueou, tomou o Castelo e massacrou a sua pequena guarnição, e depois incendiou o casario. Pantoja seguiu depois para o Castelo de Monforte de Rio Livre, na intenção de aí cometer as mesmas atrocidades. Foi, porém, batido pelo português Francisco de Távora, general de cavalaria e Conde de Alvor, que saiu ao seu encontro.

 

Pois é, história não falta a Stº Estêvão, mas só história não basta e, embora tivesse chegado para a ascender a vila, parece que pouco importância tem dado ao seu estatuto de Vila Medieval.

 

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Quem ler a sua história e tome conhecimento do seu estatuto de Vila, ainda por cima, antiga Vila Medieval, com castelo, ou torre ainda existentes, pensará encontrar nela uma vila antiga e cuidada onde a história também é feita no debitar dos passos pelas suas ruas, mas não, não é assim, pois tal não acontece.

 

Pecados já antigos, descaracterizaram de todo aquilo que poderia ser uma vila medieval exemplar, principalmente no seu núcleo e na área envolvente do castelo, pois quanto ao seu crescimento, esse, seria inevitável, principalmente tendo em conta as suas férteis terras da veiga e a sua proximidade da cidade.

 

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Certo que é ainda na envolvente do castelo que tem o seu casario mais precioso, principalmente na igreja e sua torre, tal como no casario anexo ao adro da igreja, transformado e bem, em turismo rural. Mas também é certo que os maiores atentados ao castelo e por sua vez à Vila Medieval, nasceram mesmo junto a ele, principalmente com as construções permitidas no pós 25 de Abril e que pouco faltou para entrarem pelo castelo adento.

 

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Também as recuperações do núcleo não têm sido muito felizes, acrescentando ainda, o casario abandonado na rua principal do seu núcleo histórico. Ou seja, muitos pecados se têm cometido em Stº Estêvão, permitido e consentido por todos, em nome da modernidade (claro), deixando de lado aquilo que Stº Estêvão de melhor tinha: a sua história e a sua herança medieval, pois ter só a história e o estatuto, não é suficiente, pois lá vai dizendo a voz da razão, que uma coisa é parecê-lo, outra bem diferente é -lo.

 

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Eu sei que estas minhas palavras não agradarão às gentes da Vila de Stº Estêvão, mas é uma realidade e, embora com as minhas palavras não queira retirar o interesse e importância histórica de Stº Estevão, que essa ninguém lhas pode tirar, seriam bem mais interessante ter uma autêntica Vila Medieval, e não apenas o seu nome. Só o castelo, por sinal um pequeno mas belíssimo castelo. Monumento Nacional desde 1939, não lhe chega para sustentar o estatuto. Pois que não se iluda quem em Stº Estêvão queira visitar uma Vila Medieval, pois tal já não existe e quem a visita, não leva boas impressões do que vê:

 

"

Santo Estêvão, Chaves, 7 de Setembro de 1985

Também aqui chegou a lepra que desfigura confrangedoramente o rosto urbano do país. Nem a sólida torre medieval, que resistiu heroicamente a todas as investidas bélicas do passado, conseguiu defender-se da agressão arquitectónica do presente. Tem agora ao lado, como tantos outros monumentos nacionais afrontados, uma caricatura da sua dignidade.

Miguel Torga, in Diário XIV

 

Mas adiante, vamos lá saber mais um pouco da Vila de Stº Estêvão.

 

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A meia dúzia de quilómetros de Chaves, Santo Estêvão situa-se no sopé da zona montanhosa que se estende a Norte desde a cota de Mairos, já na fronteira com a Galiza, até à Ribeira das Avelãs a sul, mesmo ali a ao lado da veiga de Chaves, por onde as suas terras de cultivo se estendem até ao rio Tâmega e, entre as freguesias, também da veiga, de Vila Verde da Raia e de Faiões. Stº Estêvão, freguesia autónoma, possui 10,61 Km2 de área e pouco mais de 600 habitantes.

 

Junto ao castelo, situa-se a Igreja Matriz, templo espaçoso com alguma elegância, de uma só nave. Outros pequenos templos existem ainda por terras de Stº Estêvão, como os invocados a S.Mateus, à Srª do Rosário e a Capela do Paço, topónimo que recorda a antiga moradia senhorial, talvez alti-medieva, onde ainda se pode observar a pedra de armas da nobre Casa do Paço. Recorde-se que a designação de Paço, era demonstração da nobreza da família e que só era atribuído a solares de grandes fidalgos.

 

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A quinta de Santa Isabel é uma das poucas pérolas que demonstram bem a aristocracia que habitou a antiga Vila de Stº Estevão.

 

Também Stº Estêvão tem servido de inspiração a alguns escritores e poetas, para além de Torga, como Camilo Castelo Branco, onde no seu livro "O Esqueleto" encena parte do enredo nesta aldeia, fazendo do último morgado de Faiões o seu Rafael Cogominho. Mais recentemente, e neste blog, o poeta e escritor José Carlos Barros também trazia em jeito de poesia o Castelo e um pouco da história de Stº Estêvão, que mais uma vez aqui reproduzo, porque fica bem neste post.

 

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O CASTELO DE SANTO ESTÊVÃO

 

O grupo de teatro universitário ia pois levar à cena

no centro cultural de Évora a sua primeira peça

que posso já adiantar que não chegou

à estreia. Pela razão simples de que ao encenador

 

não lhe escapou a pronúncia cerrada do moço

vindo do Barroso e do liceu de Chaves

a estudar arquitectura paisagista no Alentejo

fazia eu de Afonso III. Luís Varela insistia comigo

 

para que acariciasse Beatriz entre a ternura do velho

bárbaro a fazer festinhas na criança que a princesa ainda

era e a luxúria intervalada de quem sente

 

já nos seus braços uma mulher que começava

na realidade a sê-lo. Ora eu na parte da luxúria

continha-me ali em público nos ensaios

 

 

 

um cibo. E o Luís então gritava em desespero que

nem parecia ter eu nascido no sítio onde

no século XIII a coisa verdadeiramente se passara

por não serem de hábito assim tão encolhidos

 

os conterrâneos meus que se soubesse em

se tratando de mandar a uma moça deslumbrante

a ceitoira. E eis como foi necessário o orgulho

ferido e a subsequente lição para ficar a saber

 

que o Bolonhês em segundas núpcias e em primeiras

a filha do rei Afonso X se casaram nem mais

nem menos que em Santo Estêvão. E assim

 

se compreenderá também que durante tantos anos

visitasse sempre que podia e hoje

ainda a aldeia que de entre todas do concelho de Chaves

 

 

me pertencia e me pertence mais. E quando

regresso é como se regressasse a 1253 e visse

Beatriz de Castilla y Guzman a entrar na capela de

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