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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Nov09

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

 

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BOTA-LE BINHO

 

Conheci o Ti Chico Milheiro já ancião. Nas torreiras de Agosto juntava a rapaziada nova à sombra do negrilho do Prado e, sentado na massadoura, entretinha os seus já longos anos com as reacções às curiosas histórias de vida que os ouvintes sorviam como água quando se tem sede. Ouvi-lhe muitas! Esqueci-as quase todas. Retenho apenas esta que vos conto:

O Chico Milheiro nasceu pobre em Milhais, lá para os lados de Mirandela. Órfão temporão de pai e mãe, cedo se fez à vida, na qualidade de criado de servir. Tirando a fartura de bogas do Rabaçal, que pescava na desova, no tempo das formigas fazerem carreira — como ele dizia — e dos raros coelhos e lebres que caçava nos laços que com mestria sabia armar, passava fome de rato. Serviu muitos patrões, levou muitos pontapés no cu, trabalhou de sol a sol e comendo o pão que o diabo amassou aprendeu a ler nas entrelinhas da agrura da vida o que mais lhe convinha. Juntava à sapiência da coruja a manha da raposa! E, desta forma, tão cedo se fez à vida de serviçal como a deixou. Não teria um quarto de século quando, proprietário de uma leira de couves, passou a servir-se a si mesmo. Botou umas colmeias, únicas nas redondezas, e quase só com elas se sustentava no Carregal, onde se fixou. Ao tempo, o mel era remédio para quase todos os males. Vendia-se bem para qualquer mezinha. Contudo, continuava pobre o Chico Milheiro. Pobre mas orgulhosamente dono de si!

 

Fez-se à vida pelos dezasseis anos, idade em que a força de crescer tonifica os músculos e dá ao corpo a forma masculina do homem grande. Procurou trabalho por terras de Valpaços. Encontrou-o em Brunhais, na casa de um lavrador rico mas usurário. A produção de vinho era a sua principal actividade. Durante todo o ano, o Chico, não trabalhando na vinha, trabalhava no bacelo. Porém, aguentou-se pouco tempo neste patrão. O homem estava sempre com pressa de o fazer trabalhar e mesmo nas sagradas horas do repasto pressionava o desgraçado. Um belo dia reparou que o Chico soprava ao caldo de vagens chitcharras que fumegava numa malga à sua frente.

─ Despacha-te rapaz, temos a vinha da Silva para satchar!

─ Está quente o caldo, patrão!

─ Oh homem, bota-lhe água.

Água?!!!... Este patrão não me serve! E tão depressa o pensou como rumou ao mundo à procura de melhores promessas.

Deu com patrão novo no Planalto, lá para os lados de Carvela. Um homem austero, que vivia da batata e do centeio. Sofria, porém, da mesma doença do anterior: o tempo era sempre curto para o trabalho. Um belo dia, ainda no primeiro semestre do emprego, o Chico defrontava-se com uma bela malga de caldo de lombarda, reluzente e fumegante. Fora lançada directamente do pote, que à força do braseiro apurava num borbulhar de cachoeira nervosa. O Chico bem lhe soprava mas o raio do caldo não havia maneira de arrefecer.

─ Despacha-te, rapaz! Temos a leira dos Bagueiros para agradar nesta tarde. Uma campina!...

─ O caldo está quente patrão!

─ Oh Chico, bota-lhe pão!

Pão?!!!... Ora essa, pão tenho-o eu à farta à minha frente, cogitou o criado em jeitos de despedida. Não demorou um mês que pusesse a trouxa às costas e procurasse novo destino.

 

Rumou desta feita ao Carregal onde encontrou trabalho na casa do Ti Moreiras. Um lavrador remediado que repartia os seus dias entre o trabalho árduo da terra magra que mal dava para sobreviver e o relato apaixonado das peripécias da primeira Grande Guerra, onde fora combatente e prisioneiro. Mas também o Ti Moreiras gostava pouco de perder tempo, nomeadamente a comer. Um dia de malhada, pelo fim dum Julho de canícula, criado e patrão sentaram-se à mesma mesa para repor as forças num lauto almoço de couve, toucinho e feijão vermelho. Encheram as ventas! No fim, como era hábito em Trás-os-Montes, veio a malga de caldo de baijes. Fervente! O Chico bufava-lhe, desta vez não só para o arrefecer mas também e sobretudo para ver no que é que aquilo dava.

─ Apressa-te, home! A malhadeira reclama-nos. Temos de acabar a malhada hoje.

─ O caldo está quente patrão!

─ Bota-lhe binho, catano!

Ah grande patrão, este é que me serve!!!...

E, desta feita, laborou em casa do Ti Moreiras até desposar a Rosa Milheira. Uma rapariga simples, mas trabalhadeira, filha da Ti Carminda da Rua, uma cabaneira pobre.

 

O empenho do Chico Milheiro foi tal que o patrão Moreiras aceitou apadrinhar o seu casamento. Doou-lhe uma pequena horta contígua ao casebre onde o Chico morava. Não demorou que se despedisse. A Rosa e o Chico trabalhavam à jeira. O soldo, a hortita e as colmeias sempre davam para o consumo e, sequer ao menos, eram homens livres!

 

Tenho saudades das histórias do Ti Milheiro. Alimentou muita da imaginação que me havia de fazer voar por sítios onde nunca fui capaz de chegar sozinho.

Obrigado Francisco Milheiro também por reconheceres no Ti Moreiras as qualidade do homem bom que ele sempre foi!

Gil Santos

In Ecos do Planalto - estórias

 

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