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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Nov09

Bóbeda - Chaves - Portugal

Antes da auto-estrada (A24) existir, a nossa grande via era a Estrada Nacional 2. Por ela saímos para tomar Portugal e por ela se entrava de regresso à terrinha. Sempre gostei mais das entradas que das saídas e, chegado à descida e curvas do Reigaz, sentia-se o pequeno aperto no coração de estarmos à porta de casa. Oura, Salus, Vidago, Vilarinho das Paranheiras, Vilela do Tâmega, as placas de Moure e Redial, Bóbeda, Vila Nova de Veiga, Outeiro Jusão e finalmente a entrada triunfal no vale de Chaves, que, se a ausência tivesse sido longa, a pele picava-nos  no desfazer das saudades.

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Repetidamente , com mais ou menos frequência, atravessava-mos as aldeias da Estrada Nacional 2, quase sempre com a pressa de chegar ao destino a horas ou de regressar a casa na hora de reunião da família, não fosse a sopa arrefecer ou as batatas ficarem desfeitas da espera.  Com a pressa, quase e só dávamos conta das placas das aldeias que ia-mos debitando à estrada e nunca reparávamos que a placa anunciava uma aldeia, com um coração, gente e vida dentro dela, tanto mais, que as aldeias se iam arrumando a um só lado da estrada e se iam escondendo ou diluindo por entre a confusão da montanha. Ao conhecimento, apenas se dava a placa e duas ou três casas junto à estrada. Tudo o resto nos era alheio. Excepção para Vidago e Vilarinho das Paranheiras, mas nesta última, apenas enquanto existiu o velho traçado que nos oferecia a aldeia num anfiteatro. Com o traçado novo, perdeu também o romantismo e fica alheia a quem passa.

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Sempre tive curiosidade de conhecer essas aldeias de estrada por dentro, na sua intimidade, viver o seu largo da festa, atravessar as suas ruas, beber das suas fontes, sentir a sua vida.

 

Uma a uma, nos últimos anos, percorri todas as nossas aldeias, algumas repetidamente por uma ou outra razão e só lamento tê-lo feito tão tarde e delas ter perdido grande parte da sua verdadeira vida e do seu verdadeiro espírito de aldeia, com muita gente nas ruas, sobretudo crianças, mas também galinhas, cavalos, burros, cães e até perus, patos e porcos. Com as escolas a funcionar e os altifalantes das carrinhas dos vendedores ambulantes a debitarem música pimba, ou assistir à chegada do peixe, do pão e finalmente, beber um copo na taberna escura, balcão de madeira onde tudo se vendia a granel e sobre o qual havia sempre uma balança e as medidas das canecas de inox perfiladas por ordem decrescente, desde o Litro ao quartilho, até às medidas pequenas que por força da Lei estavam por lá, mas apenas serviam de enfeite.

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Teria tido tempo também para assistir a uma partida de matraquilhos ou a uma “negra”, de ver bem jogar à “sueca”,  ou ao “chino”, à malha, ao espeto, ao pião, à bola e essas coisas dos homens e rapazes, ou então, às coisas das raparigas, mais de jogar elásticos e à macaca do que andar com bonecas atrás delas. Tempo teria ainda para passar pelo tanque do povo e ver como as fatias do sabão  vermelho deslizavam sobre as roupas, batidas e torcidas à força dos braços entre falares, cantares e bocas do mulherio. Tempo para pelo cheiro das giestas acabadas de queimar ou do pão acabado de cozer, descobrir o forno do povo, onde talvez uma bica estivesse a ser saboreada, depois de regada com azeite e salpicada de açúcar… enquanto distraidamente, se calha, meter pés no rego de água que livremente e apressadamente corria aldeia abaixo, para mais tarde regar uma horta antes de, definitivamente se perder por entre o verde de um lameiro, onde pela certa estaria meia dúzia de pachorrentas vacas a pastar.

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Embora em miúdo tivesse vivido e assistido alguns destes grandes momentos das aldeias, penso ter perdido definitivamente o seu registo fotográfico, pois as aldeias de hoje, são uma longínqua imagem daquilo que foram, para o bem e para o mal, pois com certeza se há coisas que nas aldeias se perderam sem deixar saudades e facilmente foram esquecidas, muitas há, que deixarão saudades eternas.

 

Mas vamos até Bóbeda, que, como todas, também já foi uma dessas aldeias que deixam saudades.

 

Bóbeda, localizada junto à tal Nacional 2, pertence à freguesia de São Pedro de Agostém e dista 6 quilómetros da cidade de Chaves.

 

Quanto ao seu topónimo, dizem, poder ter origem árabe, no entanto, é apenas um palpite, pois não há qualquer base que possa sustentar esta origem do topónimo.

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Também quanto à história do seu povoamento antigo, não há muitos dados disponíveis. Sabe-se que possivelmente os romanos exploraram junto ao Tâmega uma mina de ouro, mas pouco mais. Até ao século XVIII, não existem dados que possam falar do passado de Bóbeda, mas a partir dessa data, a família Pizarro, faz um pouco da história da aldeia.

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Família Pizarro que já várias vezes foi abordada neste blog. Esta família habita Bóbeda desde os inícios do Século XVIII. Oriunda de Espanha, mais propriamente de Trujillo, da Estremadura espanhola, descendente de cavaleiros que participaram na Reconquista Cristã e na conquista do México e Peru, no século XVI.

 

Algum casario nobre que ainda existe na aldeia, com destaque para a Casa do Cruzeiro, com Pedra de Armas e capela (de devoção à Senhora da Conceição), deve-se ao povoamento da aldeia por parte da família Pizarro.

 

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Família Pizarro que também faz parte da história flaviense e da qual saíram alguns ilustres, já aqui abordados: Ignácio Pizarro de Moraes Sarmento, nascido em 22 de Novembro de 1807 na referida Casa do Cruzeiro, em Bóbeda. Político e poeta, foi um dos nomes maiores da literatura portuguesa de então. Mas tudo que há a dizer sobre Ignácio Pizarro, já aqui foi dito, e nem há como passar pelos post´s que lhe foram dedicados para ficar a conhecer a sua vida e obra, em:

 

Ignácio Pizarro – 1ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 2ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 3ª Parte

e

Ignácio Pizarro – 4ª e últipa parte

 

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E se Ignácio Pizarro, embora hoje esquecido, foi reconhecido e a cidade lhe prestou algumas homenagens, já o com seu pai, não se passou o mesmo e, ainda hoje Chaves lhe deve o devido reconhecimento, não só como militar, mas principalmente no que diz respeito às Invasões Francesas, pois a haver um herói na defesa de Chaves nessas invasões, o herói foi Francisco Pizarro e não o General Silveira, pois enquanto o primeiro ficou em Chaves a defender a população, o segundo, fugiu cobardemente. Mas também assim se faz a história, reconhecem-se os falsos heróis e esquecem-se os verdadeiros. Uns têm direito a cerimónias e estátuas, outros ao esquecimento. Para saber mais sobre quem foi Silveira e Francisco Pizarro nas II Invasões Francesas, siga o link:

 

O Muro da Vergonha do General Silveira

 

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Sobre o Silveira e Francisco Pizarro, da minha parte, a história ainda não encerrou o capítulo. Oportunamente haverá mais novidades sobre o assunto.

 

Sobre Francisco Pizarro, ou melhor, sobre o Marechal de Campo Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro – o «Maranhão», falta escrever a história que lhe fará justiça, mas mesmo sem essa, ele é um ilustre Flaviense que a cidade teima em esquecer.

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Francisco Pizarro nasceu em Bóbeda em 27 de Setembro de 1776 e morreu também em Bóbeda, no dia de Reis de 1819, tendo sido sepultado na Igreja do forte de S.Francisco, quando era Governador e Capitão General da Capitania do Maranhão e Conselheiro de Estado.

Para saber mais sobre este ilustre flaviense, seguir o Link:

« O Maranhão»

 

E sobre Bóbeda, vai sendo tudo por hoje, mas fica a promessa que ainda se falará mais sobre esta aldeia, pois a história sobre os seus ilustres ainda não está encerrada.

 

Até amanhã!

 

 

 

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