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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Jan10

Faiões - Chaves - Portugal

Faiões é uma daquelas aldeias que engana…eu explico melhor.

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Quando entramos na longa recta com início no Lameirão, Faiões começa a desenhar-se ao longe. Chegados ao fim da recta, uma nova recta, mais pequena e, tirando uma preciosidade nesta pequena recta, continuamos à procura de Faiões. Logo a seguir, uma curva apertada não nos permite distracções de contemplação. Mais um troço de estrada, nova curva e Faiões desaparece… mais acima, já perto de onde uma montanha se vai esvaziando, podemos deitar um olhar sobre Faiões. A vista até nem é desinteressante, mas tende a perder-se na cidade e na veiga. De Faiões, vista do alto, apenas um aglomerado de casas.

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Foi assim durante uns tempos, assim, quando de Faiões tomava apenas a passagem. Mas, talvez fosse necessário abordar a aldeia de outra forma, vê-la de outros ângulos, vista de baixo, desde a veiga… e vai daí, toca a tomar os caminhos da veiga e a deitar um olhar sobre Faiões. O interesse aumenta. Um cruzeiro e, por entre terras de cultivo ou olivais, Faiões mostra um pouco da sua graça, com uma igreja, pequena, mas bem mais interessante que a igreja nova e um aglomerado de casas à sua volta. Se calha, é mesmo por ali que se tem de tomar Faiões. Mas um dia de trovoada, outros de pressa, foi adiando a “incursão” a Faiões, e nas breves passagens, também a brevidade das fotos, mesmo assim, consegui alguns momentos únicos em que a natureza, com a sua fúria, nos brindava com o seu contrates e colorido…mas isto era natureza em revelação e não Faiões.

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Um dia aborrecido de um Domingo qualquer de verão, já fim da tarde, convidou-me a quebrar o aborrecimento, a pegar no carro, máquina fotográfica e partir sem destino. Um momento, contudo, que deveria ser breve e no vai por aqui ou por ali, dei comigo de novo em Faiões, mas desta vez com a intenção de entrar no seu coração, e entrei…

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Pasmado com o que a aldeia ia revelando, quase esquecia as fotografias. Como seria possível nunca ter entrado no coração desta aldeia e durante anos perder estes olhares que a estrada escondia ou desvirtuava… eis uma aldeia que engana na passagem e na qual dá gosto entrar, sacar da máquina e começar a disparar em todos os sentidos e direcções… uma aldeia que merecia uma visita mais demorada e prolongada se necessário fosse, ou de mais visitas para captar todos os olhares que naquele Domingo, já fim de tarde, não permitia.

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E assim ficou agendada a visita demorada a Faiões e, finalmente aconteceu, embora consciente que em questão de fotografia uma tarde de Dezembro saiba a muito pouco e a aldeia merecesse um dia maior e mais luminoso para lhe sacar, ou melhor acrescentar alguma magia aos olhares. Ficaram os olhares possíveis e a vontade de lá voltar com mais luz, de manhã, ao meio-dia, a meio da tarde e no entardecer dos olhares quentes de verão. Faiões enganou-me durante muito tempo, mas já não me engana mais.

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Tome todo o palavreado dos parágrafos anteriores como o intróito ao post de hoje, pois o verdadeiro post, dentro das normas do costume, começa aqui.

 

Fomos então até Faiões, a única aldeia da freguesia com o mesmo nome, a apenas 6 quilómetros de Chaves, isto se considerarmos Faiões apenas a aldeia onde tem as suas casas, pois o seu território começa bem antes, ocupando parte importante da veiga de Chaves, roça o Lameirão e prolonga-se até ao rio Tâmega. Até no seu território, Faiões continua a enganar os distraídos.

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A sua proximidade da cidade faz de Faiões uma freguesia quase urbana, ou mesmo urbana, mas com toda a ruralidade possível que lhe é conferida pelas terras férteis da Veiga, sendo mesmo uma das hortas de Chaves que se complementa com a vinha o olival as árvores de fruto e também alguma floresta. Em suma, poder-se-á dizer que é uma das freguesias que tem quase tudo, urbana e rural, com vale e montanha, próxima de Chaves para quase ser um dos seus bairros, mas com a distância suficiente para manter íntegra a sua condição de aldeia, a sua vida de aldeia, o seu convívio e o pleno ser de aldeia.

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Uma aldeia que está na minha história de infância, à espera do seu pão feito em “trigo de cantos” ou à espera da passagem dos estudantes que em “bando”, enchiam a estrada de bicicletas para o pedalar das aulas no Liceu ou na Escola Indústrial. Eram como um relógio em tempo de aulas e uma delícia vê-los passar desde a varanda do meu quarto ou segui-los até ao Antunes ou Rui das bicicletas…

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Pois a aldeia de Faiões também ficou desde sempre conhecida por dar de comer a Chaves, com o seu pão e o tal “trigo de cantos”, com uma importante moagem e indústria de panificação, esta ainda hoje existente, mas que nos seus tempos áureos, alguém me dizia na aldeia, chegou a ter mais de quarenta padeiros. Talvez por isso, por lá haja gente que alimenta o sonho de ter um museu do pão com toda a história do pão de Faiões e também talvez pela mesma razão exista um ditado associado a este número, que por sinal não é nada abonatório para a aldeia, que a referir-se a padeiros diria que para cima existiam em casa sim casa não, para baixo era tudo a eito.

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Mas se o pão e os padeiros fazem parte da história de Faiões, ela remonta e perde-se na antiguidade. Começando pelo seu topónimo “Faiões” para o qual, como quase sempre, há várias teorias: Leite de Vasconcelos adianta que o nome possa ter origem num genitivo germânico muito antigo. Outros historiadores vão à “faia” e ao seu aumentativo “Faião” cujo plural acabaria em “Faiões”. Como o topónimo é antigo e se perde na sua antiguidade, tudo é possível, mas nenhuma da sua origem pode ser dada com certeza absoluta. Como eu por aqui nestas coisas de topónimos gosto de inventar, a sua origem até pode estar num seu antepassado com dificuldade de dizes os “ésses”, isto muito tempo antes do pão, no tempo do faisões… talvez por isso, popularmente também por cá (no concelho) se gosta de fazer rimar Faiões com outras palavras…invenções e brincadeiras à parte,  continuemos com a sua história.

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Antes, terão de compreender que para meter tanta fotografia num post, hoje 17 fotografias, e muitas ficaram por meter, tenho que ir arranjando palavreado para as separar. Mas sempre que eu esteja a inventar, previamente ou após a invenção, aviso, não vá para aí um artista qualquer incluir as minhas invenções na história de Faiões, como às vezes, distraidamente ou não, acontece. O que vale, é que não sou historiador e nesse campo, ninguém me leva a sério.

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Pois reza ainda a história que nos princípios da nacionalidade portuguesa, Faiões era Couto dos arcebispos de Braga. Aliás (agora sou eu a dizer) estava na moda os arcebispos de Braga viver vir por cá fazer as nossas colheitas, pois Faiões não é caso único no nosso concelho como antigo Couto do arcebispado de Braga. Ervededo, com tenho mencionado nos posts dedicados à freguesia, era outro desses casos. Ou seja, o nosso concelho era fértil em colheitas. Pena que essa fertilidade que ainda hoje existe no nosso concelho, seja deixada para trás ao abandono e não haja comerciantes, como o arcebispado de Braga, que venha cá buscar as nossas colheitas, mas, claro, que ao contrário do arcebispado, as pague para poderem fazer o sustento ou modo de vida com aquilo que temos de bom.

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Há dias, a respeito da nossa “fertilidade” e da nossa agricultura, lia num dos blogues cá da região, embora este até seja made in Inglaterra, feito com a linguagem corrente no nosso dia-a-dia (apenas um aviso para os pudicos) o seguinte: E essa cambada de políticos, de comedores, que andam para aí a passear, que não fazem um caralho, será que não agarram numa dúzia dos agricultores mais finos e os levam à Suíça para ver como é que os gajos fazem? Para verem como é que os gajos, num país cheio de neve e montes, conseguem cultivar mais merdas do que nós e ainda se dão ao luxo de pagar 2000 euros aos empregados! Já nem digo 2000, por que sei que por 1000 euros já os rapazes nem pensavam em emigrar para longe, ficavam logo ali. Mas pelos vistos ninguém sabe fazer agricultura de maneira a pagar sequer uns míseros 500!

Ou andais todos tapados ou sou eu que estou maluco!” – Poderá ler o post completo aqui: http://bloguex.blogspot.com/2009/12/agricula-do-caralho.html

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Vem este post do bloguex ao encontro daquilo que muitas vezes deixo por aqui e também ao encontro da nossa aldeia de hoje, esta com a agravante (para a aldeia) de ocupar grande parte da veiga de Chaves, com terras férteis, das mais férteis de Portugal, com regadio mas onde há parcelas deixadas eternamente de poulo, onde as construções continuam a dar-se bem e onde (que eu saiba) não existe uma única exploração agrícola digna desse nome. Claro que também aqui a culpa, não é dos agricultores que fogem à agricultura, mas na falta de políticas que tornem a agricultura como um meio de vida digno, num concelho que é histórica e essencialmente agrícola, senão leia a história ou perguntem ao arcebispado de Braga.

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Desculpas a Faiões por metê-la nesta guerra, mas também a aldeia sofre dos mesmo males onde a única evolução agrícola que houve, foi substituir o arado por um tractor ou deixar terras de poulo.

 

Continuando com a história de Faiões, onde por lá passava uma importante Via Romana e que mais coisa menos coisa, seguia a trajectória da Nacional 103, a tal estrada que nos atravessa o concelho, que passa também por Faiões e liga Braga a Bragança.

 

Mas ainda antes dos romanos, outros povos deixaram vestígios por terras de Faiões, como o Castro nas montanhas do Corgo, ou objectos que ao longo dos tempos foram aparecendo por Faiões e datados como do período neolítico.

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Também na veiga de Chaves, neste caso de Faiões, no lugar da Carreira da Pedra, foi encontrada em 1975, a estátua menir de Faiões, com contornos de figura humana. Conta a lenda que por ali existe uma cidade submersa e que na lagoa, nos tempos de tempestade, aparecem restos de navios. Valia a pena explorar esta lenda, não vá ser a cidade submersa a “Atlântida” dos sonhos de quando a veiga era oceano atlântico (nunca se sabe, mas sou apenas eu a inventar – quanto à lenda da cidade submersa, existe mesmo.)

 

Voltando à história mais recente, o casario, esse ainda possível de análise como também possível de preservar aquilo que de mais importante tem, o seu núcleo, que pelos vistos passou despercebido ao técnicos fazedores do PDM ou então confundiram-no (dada a proximidade) com Stº Estêvão, tem um interessantíssimo núcleo onde as casas tradicionais da arquitectura rural e típica transmontana, mas também algumas de cariz solarengo, como os da família Sarmento.

 

Família Sarmento de onde é natural o benemérito Dr. António Luiz de Morais Sarmento que mandou construir (sem dúvida alguma) a mais bela escola primária de Portugal como se da Universidade de Coimbra se tratasse e um bairro social para operários.

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Também Faiões ficou na história por ser um dos seus, José Calças, ser o último enforcado em Chaves, no Largo do Tabolado, pelas mãos do também último carrasco, Luís Negro, de terras de Aguiar (Capeludos). Possivelmente também foi o último enforcado em Portugal, pois poucos dias após o seu enforcamento, foi abolida a Pena de Morte em Portugal.

 

E para terminar este breve mas já longo post, ficam os agradecimentos ao meu cicerone da última visita, o Oliveira, antigo Presidente da junta e o homem sempre ligado à vida e desporto da aldeia e, ao Centro Desportivo de Faiões, um dos tais putos estudantes que me passava à porta de bicicleta integrado no bando de Faiões e que mais tarde, aquando eu fiz uma passagem pela DGD. O Oliveira nunca faltava com a equipa dos putos de Faiões.

 

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