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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Até a feijoada falta num livro que não fala de nós

06.01.10 | Fer.Ribeiro

Hoje o post é composto de duas partes, uma primeira em que se fala das coisas boas da Europa, mas não falam de nós e a segunda em que falam de nós, mas em jeito de requien.

 

Primeira Parte, onde não falam de nós

 

Há quase um ano, via email, chegava à minha caixa de correio um pedido de utilização de uma das minhas fotos para publicação no “Atlas of European and Nom-European PDO, PGI, TSG Agri-Food Products”. Era uma foto compostinha de coisas boas, das nossas, com molhos de linguiças, alheiras e salpicões, dependuradas ainda num lareiro. Como era de comida e coisas boas que se tratava, aproveitei e mandei mais meia-dúzia de fotografias, com os nossos pasteis, o nosso presunto, folar, batatas, legumes, etc.  O Mauro Rosati/Qualivita (Autor e Associação), agradeceram o envio e prometeram-me que quando a publicação estivesse pronta, me enviariam um exemplar.

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Cumpriram e o exemplar do atlas cá chegou há uns dias atrás. 3,8 quilos de papel, 1190 páginas cheias de coisas boas de toda a Europa e não só. Claro que meti logo mãos à obra e toca à procura das nossas coisas boas, coisa que até nem foi complicada, pois o atlas está muito bem estruturado, separado por países e com indicações nos respectivos mapas das várias localidades que deram produtos para este atlas e em cada país as respectivas secções divididas pela tipologia dos produtos. Só a Portugal, são destinadas 128 páginas deste Atlas onde desfilam os mais variados produtos desde o Algarve a Trás-os-Montes. Mas a mim, o que interessava, eram mesmo os de Chaves…

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Foto de arquivo

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Comecei a procura por presuntos e eles começaram a aparecer: Presunto de Barrancos, Presunto de Barroso, P. de Campo Maior e Elvas, P. de Santana da Serra, P. de Vinhais, P. do Alentejo… deveria haver por ali algum engano, pois o de Chaves não aparecia. Voltei-me para os salpicões e da região apenas os de Barroso e Vinhais é que apareciam. Alheiras, só as de Barroso e Vinhais. Chouriças e chouriços, idem, só do Barroso e Vinhais…. Estranho, de fumeiro, nada de Chaves. Passei às carnes frescas e lá começa o desfile: Carne Barrosã, Carne de Bísaro, cordeiro de barroso, cabrito de barroso… de Chaves, zerinhos. Passei à fruta, vegetais e cereais onde só a “batata de Trás-os-Montes, castanha da Terra Fria e da Padrela, fazem a sua aparição – aqui, vá lá, da Padrela ainda nos toca um pouquinho e nós somos transmontanos, mas nada especificamente de Chaves. Passei a secção dos queijos e nada que nos interesse, talvez no mel: Mel da Terra Quente, Mel do Parque de Montesinho e Mel do Barroso – Por Chaves também não há mel. Passei à secção do azeite, azeitonas, bolos, doçarias, compotas e pasteis – por aqui, exceptuando o azeite de Trás-os-Montes, não há mais nada para a região. A seguir, no atlas,  vinha a Grécia, onde duvido que por lá haja produtos de Chaves.

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Foto de Arquivo

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Concluindo, dei comigo baralhado, confundido. Senti-me aldrabão e aldrabado. Senti-me humilhado e ofendido e se não fossem os produtos do Barroso e de Vinhais, durante uns tempos, nem dizia a ninguém que era transmontano e muito menos que por cá também temos dessas coisas todas, (das quais até vos deixo algumas imagens de arquivo que ainda há pouco trouxe por aqui como as coisas boas que a terra dá…) envergonhado mas orgulhoso, aldrabaria mais uma vez e diria antes, que aqui, estamos acima disso tudo e só consumimos enlatados do “lidele” e do “Lerque-lerque”, batata só da França, coisas modernas e só de exportação, que de coisas parolas já estamos fartos. Afinal somos duma eurocidade… havíeis  de ver que invejosos ficavam os nossos vizinhos que constam no Atlas das coisas boas!

 

Mas não fiquei conformado, afinal os rapazes do “Qualivita” até me pediram umas fotos das nossas coisas…teria que haver engano.

 

De novo peguei no altlas, agora com olhos de esmiuçar e à frente de cada um dos produtos, começo a ver as inicias de (PDO, PGI e TSG). Que raio seria isto!?

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Foto de Arquivo

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Como a internet tem tudo, numa pesquisa rápida lá foram aparecendo estas iniciais e os seus significados, que traduzidos para português de Portugal (por este andar, qualquer dia também desaparece das listas das línguas) teremos PDO = DOP; PGI=IGP e TSG=ETG e que são iniciais de:

 

PDO/DOP – Denominação de Origem Protegida

PGI/IGP – Indicação Geográfica Protegida

TSG/ETG – Especialidade Tradicional Garantida

 

Conclusão das conclusões. Chaves não fez o trabalhinho de casa na certificação dos seus produtos e como tal, para a Europa das regras, é como se eles não existissem e pelo andar da carruagem, qualquer dia,  nem sequer poderão ser comercializados ou produzidos. Sem carimbo, não há nada para ninguém, e depois sim, lá teremos que ir para os enlatados do Lerque, ou fazer excursões às terras barrosãs de Boticas e Montalegre para podermos comer qualquer coisinha de jeito e, para lhes fazer inveja, atirávamos-lhes então com a cena de sermos da Eurocidade Chaves-Verin, que de nós, ninguém se fica a rir!

 

Para terminar, quem quiser ver o tal Altlas da QUALIGEO - “Atlas of European and Nom-European PDO, PGI, TSG Agri-Food Products”, poderá seguir este link, onde está disponível formato PDF: http://www.qualivita.it/site/_page/Qualigeo_Atlas.pdf

 

Intervalo

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Foto de arquivo


Segunda Parte – Onde falam de nós

E já que falei atrás de carruagens, eurocidade e Verin, vamos até mais um bocadinho ao lado, até Orense, onde a Associación Cultural Foula acaba de publicar o 17º Boletim de Divulgación da Cultura Ferroviaria en Galicia – Cadernos de Istoria e Arqueoloxia Ferroviaria, com o título de capa “Linha do Corgo – Mirando a Galícía”.

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Também esta associação em tempos nos pediu (ao Blog Chaves Antiga) se podiam utilizar algumas fotos publicadas no blog, mais precisamente aquelas onde aparecia o nosso velho Texas. Claro que sim, dissemos-lhes, nem o poderíamos negar, pois além do blog estar constantemente a saque, não poderíamos negar fotos do nosso saudoso Texas para tão nobre causa, como o é esta publicação onde conta toda a história do velho Texas até à sua morte, bem como o aparecimento das “Xepas” e também a sua morte. As “xepas” tal como é explicado no boletim, foram as últimas automotoras a diesel que vieram substituir o velho Texas a carvão e adoptou este nome ou alcunha inspirada na telenovela brasileira “ Dona Xepa”.

 

Esta publicação é um interessantíssimo documento sobre toda a história da linha do Corgo, da linha estreita, boas fotografias e muito bem documentada onde não falta o velho projecto de ligação da linha a Verin, Xinzo de Limia, Allariz, Xunqueira de Ambia e Ourense, mas também alguns lamentos, onde não falta o lamento de João Morais, natural de Curalha e actual proprietário da velha estação do Tâmega, em Curalha “ un apasionado de este ferrocarril que ha intentado en numerosas ocasiones reabrir el tramo entre Vila Real y Chaves con fines turísticos, incluso haciéndose él cargo de los costes” – Já conhecíamos este velho sonho de João Morais como também conhecemos as portas que sempre lhe foram trancadas para a realização desse sonho, que afinal até é um sonho que muitos flavienses partilham, eu incluído.

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Foto incluida no Boletim nº 17 dos Cadernos de Istoria e Arqueologia Ferroviária

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Tal como consta na contra-capa desta publicação “ O TEXAS – Um Comboio de Legenda – Pela Reabertura da linha Vila Real – Chaves”. Eu também estou com os Carrilheiros de Foula nesta luta e agora que Chaves-Verin até é uma Eurocidade, porque não prolongar o trajecto até Verin e fazer-se assim um troço do velho projecto que ligava Portugal à Galiza.

 

Curiosa também é a pedrada no charco que estes nossos amigos galegos dos Carrilheiros de Foula e em particular os autores deste documento: Paco Boluda e Manuel Hernándes dão na história da Linha do Corgo que, simultaneamente, também é uma chapada na apatia flaviense. De todos os flavienses, incluindo os nossos políticos do poder e oposição, os nossos historiadores e o povo em geral, pois aquando do fecho da linha não houve uma única voz de protesto contra o seu encerramento, não houve qualquer projecto ou intenção sustentada de a manter ou futuramente reabrir com fins turísticos, não zelaram pela preservação de todo o património então existente e que foi tristemente saqueado, não fizeram a sua história e, nem sequer um museu digno temos do comboio em Chaves. Aliás do velho Texas, quase já nem há memória em Chaves e se resta, é apenas nos profissionais da saudade (também me incluo nesta classe).

 

Pois é, se no caso das chouriças e salpicões ficamos tristes por não constarmos no altas das coisas boas da Europa, neste caso do Texas, também deveremos ficar tristes, por terem de ser os nossos amigos Galegos a fazer a nossa história e as nossas reivindicações e, vamo-nos contentando por o nome de Chaves ainda aparecer nalguns mapas nacionais, que com aquilo que nos roubam associado ao marasmo flaviense, qualquer dia nem um ponto aparece lá aparece.

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Quanto aos Carrileiros de Foula, fica aqui um link para a o seu sítio na NET em www.carrileiros.com  o seu contacto: carrilleiros@hotmail.com ou o link directo para o boletim nº17 – Linhas do Corgo, Mirando a Galícia, onde está vertido todo o texto/documento dessa edição: http://www.carrileiros.com/Ferroviaria17.htm

 

Sem qualquer dúvida, um documento histórico que temos de agradecer a estes amigos dos comboios, que por sinal não são caso único e até têm muitos adeptos a nível internacional, principalmente quando se trata de comboios como o velho Texas.

 

Sonhar é sempre possível tal como ainda é possível ver o velho Texas a circular e, mesmo sem acreditar, acredito ainda que um dia será possível…

 

Fica também a promessa, se os autores deste documento sobre o Texas mo permitirem, trazer aqui toda a sua história.

 

Até amanhã

 

 

 

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