Rua Verde - Chaves - Portugal

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O relógio de sol despertou-me a atenção. Nunca o tinha visto antes, nem sei se por lá está poisado há muito tempo. Se calha sempre lá esteve. Seja como for, só agora o descobri, aliás nesta cidade se passearmos por ela com espírito de descoberta, uma rua, por mais pequena que seja, pode-se tornar numa grande viagem de descobertas.
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Aproveitei a boleia da descoberta do relógio de sol e antes de encartar a máquina fotográfica, resolvi deitar um olhar mais atento à Rua Verde, não por desconhecê-la, aliás faz parte mesmo das vistas e das passagens do meu quotidiano, mas raramente entro por ela adentro e no entanto, é uma das ruas mais interessantes de Chaves, embora o contrário também seja verdade quer por falta de movimento e de vida na rua, quer por falta de motivos (lojas/comércio) contando ainda que metade dela está em ruínas, mas parece começar a compor-se, principalmente com a última recuperação que se fez na rua, é convidativo a que novas recuperações aconteçam.
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Depois de ter deitado um olho à fonte, lindíssima por sinal mas que lhe falta o encanto da água a correr da bica e os cântaros a encher, e depois de um olho que sempre deito à varanda que sempre nos sorri por trás da fonte, estava eu em plena contemplação de apanha de sol da família ou colónia de gatos que habitam o casario abandonado quando recebi o convite ou a provocação de entrar na frutaria para ver as coisas bonitas que tinha lá dentro. Não me fiz rogado, entrei …
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Eia lá, afinal aquilo não é só fruta, é mais um arsenal completo que faz feliz qualquer cozinha flaviense ou transmontana para confecionar meia dúzia ou até dúzia inteira de dietas, onde nem sequer falta o milagre dos temperos a almotolia e o pote…sem esquecer que à porta estão os grelos e as couves. Digamos que se tivesse de fazer um sacrifício, até nem me importava de ficar lá fechado uns dias…
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Pormenores fechados e longe do olhar passante e distraído. Passo a esta porta há anos, muitos mesmo. Estou habituado a ver a fruta à porta acompanhada do cumprimento da rapariga do meu tempo de liceu, não recordo se algum dia ali comprei alguma fruta ou hortaliça e não fosse eu estar em contemplação dos gatos da Rua Verde e o convite para entrar e eu teria perdido o regalo de ver tanta coisa boa junta, pena que não tenha visibilidade da rua e que muitas pessoas, principalmente quem nos visita, não descubra estes pequenos tesouros do comércio tradicional e das coisas boas que temos e se fazem cá.
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Penso, aliás sempre pensei, que vale a pena andar com olhos de ver pelas nossa ruas, pena é os afazeres muitas vezes não nos permitirem estes devaneios de apreciação e a rotina serem o único caminho que os nossos passos conhecem e caminham. Às vezes, bastam dois ou três minutos e um pormenor enriquece-nos o dia.
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Depois da descoberta, dos agradecimentos e da despedida ainda tentei olhar para o relógio de sol para ver as horas mas, pela cara do Padre Marcelino, entendi logo que estava na hora de circular e dar corda aos sapatos.


