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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Ago10

O Homem Sem Memória - por João Madureira

 

 

 

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Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

 

 

5 – A viagem entre Névoa e Lisboa durava 24 horas, uma noite e um dia completos. Primeiro, o comboio percorria os sessenta quilómetros encurvados entre Névoa e Vila Real. Depois seguia aos ziguezagues de Vila Real até à Régua e da Régua ao Porto, perfazendo cento e vinte quilómetros em várias horas. Finalmente percorria os trezentos quilómetros entre o Porto e Lisboa, parando em todas as estações e apeadeiros, o que era uma verdadeira via-sacra, um tormento dilatado. Peregrinava quase sempre na companhia de soldados (os magalas neste país sempre tiveram uma predilecção por comboios), operários, guardas, alguns turistas e camponeses rodeados de cabazes, garrafões de vinho, mulheres e crianças. Todos tinham um ar rude, mesmo os guardas, fossem fiscais ou republicanos. E os polícias. Até os turistas tinham um ar agreste. Eram turistas de alpergatas de couro fino e luzidio, que muitas das vezes aceitavam partilhar as merendas dos rústicos homens das aldeias. Comiam calados, entre os sorrisos simples das mulheres e das crianças e as caralhadas inócuas dos homens que pouco mais sabiam dizer como manifestação de boa disposição. Todos os homens tinham a pele do rosto e das mãos morena, áspera e engelhada. As mulheres ostentavam ou um negro lenço na cabeça, ou os cabelos corridos e longos, apanhados num rabo-de-cavalo, saias pretas e compridas. A quase todas as crianças faltavam vários dentes. Os rapazes e raparigas eram delgados como varas, com olhos grandes e esfomeados, com ranho no nariz, mal vestidos e descalços ou calçando botas cambadas uns bons números acima do tamanho dos acanhados pés. Mas riam-se muito e limpavam os moncos com as costas das mãos. E tossiam. E cuspiam. Todos comiam enquanto falavam de boca aberta mostrando uma pasta indistinta constituída por carne e pão. E bebiam vinho. E riam-se como parvos. Todos se riam. Até os turistas. Depois das refeições, e faziam-se várias durante a viagem, os adultos dormiam enquanto completavam a digestão. Mal acordavam mandavam foder meio mundo, davam peidos, que funcionavam como os foguetes nas festas, riam-se como doidos e tornavam a comer e a beber como se o mundo estivesse para acabar ainda antes da viagem terminar. Os homens do campo e os magalas eram os que faziam as viagens mais longas. Quase todos tinham como destino o Porto ou Lisboa. Os operários e os guardas eram os que entravam e saíam do comboio mais a miúdo. Fosse como fosse, as viagens em segunda classe eram enormes e desconfortáveis. Todos pareciam desfrutar da festa. Mas o José não. Por isso pensava em Deus.


 

 

 

6 – José pensava em Deus e abominava os pobres. Ou melhor, detestava a pobreza. Uma criança não consegue ter sentimentos tão cruéis para odiar pessoas apenas pela sua condição. E o que ele detestava era a condição. Apesar de a igreja apregoar para os pobres o reino dos céus e para os ricos a difícil tarefa de se defrontarem com o pavoroso dilema de arranjarem a maneira de um camelo passar pelo cu de uma agulha. (...)

 

 

(continua)

 

 


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