Hoje há feijoada - Custa a engolir...mas vou no 20 do autocarro
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Ando meio desconsolado com as feijoadas das quartas-feiras. Não porque deixassem de ser o que eram, mas têm-se tornado indigestas por outros motivos, pois para estarmos de bem com uma boa mesa, também nós temos de estar bem e, nem sequer é por questões de saúde, mas questões de espírito e questões de valor (também este espiritual ou não físico). Custam-me a engolir os feijões, aliás nos últimos tempos tudo me custa a engolir. Lamento-me, penalizo-me penitencio-me por ter acreditado, sobretudo nos outros e, traição, após traição (porque em questões de valores quando não se cumprem, são traições) mas… está bem, fiquemo-nos pela desilusão e então (continuando), desilusão após desilusão, deixei de acreditar. Hoje já não acredito em nada, em ninguém e , isso , leva-nos a um estado de alma digno daqueles sofrimentos que têm de se atingir para alcançar o céu, não que eu acredite nisso, mas acredito em quem acredita que assim é – foi assim que a minha mãe me ensinou e, respeito muito todos os seus ensinamentos, porque sei (quer acredite neles ou não) que vinham carregados de valores.
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Pois deixei de acreditar e por isso, agora custa-me engolir feijões e no entanto, o deixar de acreditar até nem é mau de todo, pois ficamos libertos, em liberdade total sem ter de seguir rebanhos e os seus caminhos poeirentos – isso acabou. Agora todos os caminhos são possíveis. Claro que se corre o risco de andarmos sós, mas sejamos sinceros, ou a companhia é muito boa ou então também é perfeitamente dispensável…
Pois é assim, só me custa mesmo é engolir os feijões, mas isto com o tempo também passa, pois lá diz a sabedoria do povo (e essa está cheia de valores) – não há mal que o tempo não cure.
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Para começar estou a pensar em deixar andar de carro, pois os novos autocarros cá do burgo são tão atraentes que nem lhe resisto. Quando os vejo passar por mim apetece-me mandar-me abaixo do carro o tomar o autocarro e, se ainda não o fiz, é por que tenho receio de chegar lá e o nº20 estar ocupado e depois, claro, outra desilusão e com a sorte que tenho, ainda me tocava o lugar junto ao chulé dos pés, embora até pareçam lavadinhos, mas não vão muito com os meus fetiches, pois para mim pés apenas servem para caminhar, a não ser que sejam de porco, que esses ficam sempre bem na feijoada das quartas-feiras. Engraçado que este raciocínio e pensamento não tem lá muita lógica apresentado assim, mas se formos ao fundo da questão, tudo que vai à boca é peixe… e, a bem ou a mal, ou, de uma ou outra forma, lá acaba por sair.
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Mudando de assunto. A neve brindou-nos durante uns curtos dias, foi uma alegria e isso demonstra bem a nossa simplicidade e o nosso contentamento com coisa pouca. Foi bonito mas acabou. Agora é chuva, muita chuva de temporal, às vezes vento, torna-se chata, aborrecida, molha os pés, o corpo e a cabeça…uma chatice, mas como se a chuva não bastasse, derreteu as neves das serras e montanhas e vai daí, o Tâmega está cheio pelas costuras e nas zonas mais baixas, já se começou a espraiar. Tudo isto para ir de encontro à entidade que inventaram há anos e que se chama “Protecção Civil”. Pois não é, que segundo me contaram, foram logo a correr a avisar as pessoas que vivem à margem do rio que o rio estava a encher e que se previa cheia. Eficiência é o que isto é. Nem sei como é que durante tantos anos em que vivemos sem a protecção civil, sem alertas amarelos e laranjas, conseguimos sobreviver. Só ainda não compreendi muito bem é o significado das cores nem o que devemos fazer com elas…mas eles sabem, e isso é o que interessa e depois, todo aquele aparato do pessoal vestido com roupa reflectora, bons carros e jipes, dá-lhes um ar de coisa séria e importante. Só ainda não entendi porquê é que as pessoas quando acontece uma tragédia chamam logo os bombeiros e depois, é que vem o aparato da protecção civil para as entrevistas à TV e às rádios. Nem há como estar atento e seguir o conselho do patrão do Governo Civil cá do distrito, pois ainda recentemente no caso das neves, ele veio à rádio dizer e alertar “Se não tiver que sair de casa, não saia, e se sair meta um aparato nas rodas” – Boa! Estava a ouvir isto na rádio e a imaginar as palavras a sair por entre aquele bigode farfalhudo que o homem tem e, eram palavras sábias para levar a sério, pois, afinal, ele é que é o predizente ou comandante da Protecção Civil (comandante a modos de quem manda – penso eu). Pelo sim pelo não, como eu não tinha nenhum aparato disponível para as rodas, resolvi não me aventurar e fiquei em casa. É nisto que dá o custar a engolir feijões, e que me desculpe o “sócinho”, mas esta de ser só o povo a pagar as crises ou de não ter aparatos para por nas rodas ou, até saber o que isso é…, tem de acabar, e o Zezinho (este é o de Lisboa ou mais um que foi para lá e esqueceu o engaço) deveria era começar pelas peças de adorno, aqueles que ele e sua cambada nomeiam, antes de descer aos pobres, mas, tal como respondia o outro à questão (desculpem mas não me lembra quem foi):
- Porquê é que aplica impostos aos pobres se eles não têm dinheiro?
E a resposta foi simples:
- Pois não, mas são muitos…
Com esforço e a custo, lá vou comer a feijoada de hoje, mas que conste em acta que me vai custar a engolir… mas enfim, o que eu quero mesmo é andar no nº 20 do autocarro…






