Hoje queria falar-vos de um lugar...
.
Hoje queria falar-vos de um tesouro escondido na montanha deste reino maravilhoso, onde tudo era simples e belo – perfeito, onde os dias nasciam com o nascer do sol e morriam depois do sol posto, onde o sol era mesmo uma dádiva de Deus, um brinde da natureza onde a natureza sabia retribuir com o seu verde mais perfeito, com a transparência das águas de brilhos e sons cristalinos, com melodias sinfónicas do mais orquestrado chilrear quebrados por silêncios do correr de águas apressadas como se toda a água do mundo quisesse por lá e que convidada a ser bebida da concha de uma mão…penso que até inventava a sede para poder ser beijada e saboreda.
.
.
Todo aquele lugar era poesia e o mais belo poema que alguma vez já foi escrito mas também era real e saía para fora da página e livro onde fora gravado. Tinha uma ribeira com águas transparentes e cristalinas sempre a correr que faziam pequenos desvios para consolar moinhos que faziam o pão que consolava as mesas das casas que tinham gente dentro, uma ponte que ligava as margens, bordada de heras, de um arco só mas com toda a grandeza de receber qualquer inverno de águas enfurecidas.
.
.
Conheci o lugar por acaso nem sabia que era possível existir um lugar assim. Primeiro pensei que tudo aquilo era o testemunho físico dos velhos moinhos e os seus moleiros e que, tal como o artista perpetua as suas emoções numa tela, ali, a natureza quis perpetuar a beleza com as suas formas originais, mas por entre a beleza da moldura aberta aos meus olhos, eis que apareceu também a beleza humana. Uma senhora, já de idade, fazia-se guardiã daquele quadro. Ainda cheguei à fala com ela, ainda a consegui focar na objectiva do retrato, ainda tentei traze-la aqui hoje, mas o negativo do momento ainda está perdido no baú dos negativos. Mas um dia aparecerá e o seu rosto que ainda guardo na memória, simbolizará a beleza do lugar.
.
.
Depois da descoberta, durante um ou dois anos ia até lá amiúde e por lá ficava largos momentos apenas a ver e ouvir, desfrutar da sombra e das melodias sempre renovadas. Quase sempre sozinho como se o lugar fosse um livro e eu o leitor onde entre nós não houvesse espaço para nada ou mais ninguém, mas mesmo assim, penso que apenas em duas vezes, cheguei a partilhar aquele lugar com mais alguém e, em boa hora o fiz, pois hoje, não sou apenas eu a testemunha de que aquele lugar existiu…
.
.
Pois hoje queria falar-vos desse lugar, mas é doloroso demais falar de lugares que já não existem ou que a modernidade, a falta de gosto ou talvez a incúria dos homens aliada ao desleixo e desinteresse pelo património e mundo rural, de quem deveria estar atento a estes tesouros mas cujo umbigo e a modernidade do betão não deixa dedicar uns poucos minutos que sejam, e deixam irresponsavelmente ou mesmo criminosamente que pequenos pedaços do nosso reino maravilhoso se percam para todo o sempre e que deles nem sequer reste a memória das memórias do passado. Tristes dos que não sabem olhar para trás e valorizar a sua existência.
Hoje queria falar-vos desse lugar que apenas vai existindo esquecido no meu baú dos negativos das fotos antigas, das quais hoje recuperei algumas. Chama-se Ribeira de Sampaio, mas dele apenas restam as imagens de há 20 anos. Hoje é uma triste imagem de um lugar onde um tesouro foi desventrado e saqueado e ninguém disse ou deu por nada!







