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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jan11

Um Adeus ao Dr. Edgar Carneiro

Tento ter o meu computador arrumadinho. Nele, entre muitas pastas,  tenho uma que dá pelo nome de Chaves. Dentro desta tenho uma que se chama “Flavienses Ilustres” e dentro desta uma que se chama “Edgar Carneiro”. Ontem, mais uma vez, tive que abrir a pasta “Edgar Carneiro” para nela acrescentar a data de 15 de Janeiro de 2011, uma data que Edgar Carneiro terá na sua lápide como o dia da sua morte.

 

.

 

Foto de Albano Nascimento

 

.

 

O Momento

 

É do momento incerto

Que se fala

Não movido por horas

Ou por dias

Mas apenas e só

Do abrir e fechar

Das asas e das flores,

Do som, do tom, das cores

De tudo que se move

Neste mundo

E como um círio

Ou súbito relâmpago

Se ilumina e desfaz

Em menos dum segundo.

 

Edgar Carneiro “In Périplo”

 

E em segundos o seu novo caminho foi iluminado, não sei se chegou a dizer, ou não, adeus. Pela certa, desprevenido, o seu corpo partiu sem a chave do regresso, mas entre nós ficaram para toda a eternidade as palavras do poeta, que essas, tal como o sol ou as estrelas, nascem todos os dias e, do alto dos seus anos, pela certa que esta noite recolherá todas as pérolas soltas  da concha do dia.

 

Nunca digas adeus

Sem ver se tens contigo

A chave do regresso


 

Não creias na lua;

O céu acende estrelas

Para ti.


 

A noite recolhe

As pérolas soltas

Da concha do dia.

 

Edgar Carneiro, "Tríptico - In Périplo"

 

 

 

 

 

 

Edgar Carneiro



Nasceu em Chaves no dia 8 (12) de Maio de 1913, faleceu em V.Nova de Gaia em 15 de Janeiro de 2011

 

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, foi professor dos ensinos secundários e técnico-profissional em Chaves, Lisboa, Porto, Vila Real, Fiães e Espinho, cidade onde vivia desde 1967 e pela qual foi agraciado com a medalha de mérito da edilidade e condecorado com a medalha de honra da cidade e o título de cidadão de Espinho. Fez parte do Orfeão Académico de Coimbra e foi um dos fundadores e sócio honorário do TEP - Teatro Experimental do Porto.

 

Pai do poeta, já falecido, Eduardo Guerra Carneiro. Foi um dos poetas mais assíduos na tertúlia Onda Poética do Casino de Espinho, coordenada pelo poeta Anthero Monteiro.

 


Publicou mais de uma dezena de títulos, que mereceram da crítica referências muito elogiosas. João Gaspar Simões declara que o autor «atinge alturas consideráveis no nosso lirismo». Luís Miranda Rocha encontra na sua poesia duas características fundamentais: «o rigor da escrita» e «a dependência no referencial em relação à realidade social, regional». Ernesto Rodrigues reputa-o como «o nosso melhor artista em verso curto». Anthero Monteiro acha a sua poesia «eminentemente solar, diurna, luminar, simultaneamente telúrica, quase vulcânica», característica que remete para o Amor, para a Liberdade e para o Sonho, sempre presentes nos seus versos, a par de uma linguagem concisa e rigorosa, mas enriquecida, não raramente, por uma temática sensitiva e plena de erotismo.

 

Nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente o Dr. Edgar Carneiro, não conheci a grandeza do homem que todos me dizem que era, apenas lhe conheço as palavras publicadas e conheci alguma da sua vida por amigos comuns,  que viveram próximo dele nestes últimos anos, e que todos me garantem também, que era Chaves a cidade que tinha no coração e na qual teve tempo ainda de fazer o lançamento do seu último livro, o «PÉRIPLO», no dia em que fazia 97 anos de idade, cidade que tantas vezes também cantou na sua poesia.

 

 

 

 

 

Dr. Edgar Carneiro, irmão do saudoso Dr. Mário Carneiro (Dr. Carneirinho) que dedicou parte da sua vida às caldas de Chaves e avô do Arqueólogo Sérgio Carneiro que tanto tem contribuído para a redescoberta de Chaves romana ou Aquae Flaviae.

Partiu o Homem Edgar Carneiro mas dele, para toda a eternidade, ficam as palavras da sua poesia e as suas obras:

 

1978 - Poemas Transmontanos

1980 - Tempo de Guerra

1981 - A faca no Pão

1983 - Jogos de Amar

1986 - Rosa Pedra

1989 - O Signo e a Sina

1991 - Vida Plena

1992 - Mar Amar

1998 - Antologia Poética

1999 – A Boba na Fonte

2000 - Lúdica

2003 - Depois de Amanhã

2009 - "Périplo"

 

Existe a promessa de que por aqui, aos fins-de-semana são as aldeias que têm lugar. Hoje compreenderão que este dia seja dedicado a esse ilustre flaviense e poeta que acaba de nos deixar, mas para não faltar à promessa de trazer aqui uma aldeia, deixo-vos também uma referência a Faiões, com as palavras que um amigo comum, Tupamaro, deixou neste blog por altura do seu 96º aniversário:

 


“Chaves, 8 de Maio de 1913.

 

Um casal, abastado, morava em FAIÕES, aquela Aldeia lá na Veiga, já a encostar-se ao Brunheiro e onde o pão continua a ser sempre bem cozido e bem saboroso.

 

Chegada a altura de ser mãe, a esposa «fez questão» que os seus filhos «tinham de nascer» na Vila.

 

O marido fez-lhe a vontade.

 

Havia uma casa devoluta, que ainda era de família, ali para a Rua Direita.

 

O futuro pai comprou-a. Arranjou-a a preceito. E, chegada a hora, foi lá, no Nº 104 da Rua Direita, que nasceram os filhos desse casal de FAIÕES.

 

 

Faiões

 

 

 

E todos saíram ilustres.

 

Desse «ranchito» temos a sorte de ainda estar entre nós o EDGAR.

 

Professor e Poeta, o Dr. EDGAR CARNEIRO foi um Mestre que deixou reconhecimento e saudades aos seus alunos. E ainda hoje continua a fazer amigos.

 

A Cidade de Espinho, onde leccionou e onde reside desde há muitos anos, adoptou-o como seu cidadão e celebrou-o condecorando-o.

 

Mas o Dr. EDGAR CARNEIRO continua apegado ao torrão que o viu nascer e crescer.

Sabemo-lo e testemunhamo-lo.

 

Sempre que chegamos ao «Mon Chèri», para tomar o nosso «pingo» e fazer-lhe companhia ao lanche, solta-se-lhe logo:

 

- “Então que novidades nos traz da “NOSSA TERRA”?!

 

E, acompanhados pela flaviense de provecta idade, D. ARMANDINA SERRA RAMOS, lá falamos de algumas «novidades de CHAVES» e de muitas recordações de todos.”

 

Chaves, Rua Direita


 

Foi também pelas mãos deste amigo comum que no último Natal foi publicado neste blog um poema inédito de Edgar Carneiro e que tanto abrilhantou a noite de consoada:

 

 

N A T A L

 

Todos os dias nascem

Neste mundo

Meninos e meninas

Que passados os tempos

Nunca serão lembrados

Salvo rara excepção

De génio humano.

Mas no santo Natal

É outra a natureza,

Pois trata-se de Alguém

Que morre em cada ano

E renasce mais próximo

Em Belém.

 

Edgar Carneiro – Dezembro de 2010

 

Da nossa parte, dizemos adeus a este Homem, ilustre flaviense poeta, mas, não vamos esquecer as chaves do regresso, pois Edgar Carneiro vai continuar neste blog sempre que as suas palavras sirvam para abrilhantar a prosa e poesia da cidade de Chaves.

 

 

 

 

 

 

Adeus, com pena e já com saudades mas também com a honra de dizer adeus a quem cumpriu a sua vida durante tão longos anos e parte com a bonita idade de 98 anos. Adeus, já tenho as chaves no bolso.

 

Foto de Albano Nascimento


 

Sobre Edgar Carneiro, alguns posts neste blog:


http://chaves.blogs.sapo.pt/445461.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/499096.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/576685.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/385654.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/572701.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/429696.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/398303.html

 


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