O Homem sem Memória (32) e (33) - Por João Madureira
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
32 – E os dias gélidos daquele Inverno barrosão começaram a ficar mais quentes para a família Ferreira. Ali, naquela cozinha, que era, a bem dizer, o coração de toda a casa, o amor entre iguais desabrochou como a flor do cardo no meio do restolho.
Por vezes um pormenor altera tudo na vida de uma família. E, enquanto durou, foi bom de viver aquele Verão familiar. O problema, pensava o José acertadamente, foi nunca ter acontecido por ali uma Primavera.
Havia a sequência acertada dos dias e das noites e de tudo o resto que se ligava com a cosmogonia e com o ritual das orações e com a liturgia dos símbolos cristãos e com a imobilidade das crenças e com a epifania sexual dos animais disfarçada de necessidade procriativa, na sua nudez intrínseca, sincera e coerente, pois se existe algo de coerente na animalidade é a sinceridade da sua nudez, mas nada nesta vida é duradouro, nem a nudez, nem a sinceridade, nem a bestialidade, mesmo que definida como acto de procriação, nem a sexualidade disfarçada de acto cultural. Nem, estamos em crer, a eternidade.
Nesta cosmologia interior a sucessão das estações do ano prolongava o Inverno pelo Verão, sucedendo-lhe o Inferno e de novo o Inverno onde o Outono e a Primavera eram estações idênticas. Tudo nascia e morria numa sequência de pares, contrariando a tríade cristã. Pois se nela está presente, e muito bem identificado, o Pai e, como dizem os textos sagrados, também o estão o Filho e o Espírito Santo, onde raio é que se encontra a Mãe. E a pomba não resolve problema nenhum. Apesar de sagrada, a trilogia divina é toda escrita no masculino. E a mãe é a principal ausente. Mas, como todos sabemos, quando toca a apurar da progenitura de um cristão, ou muçulmano, ou mesmo de um ateu, a mãe todos sabem quem é. Ou melhor, ela própria sabe-o melhor do que ninguém. No entanto, a olho nu, o pai é muito difícil de apurar. Ou era. Naquele tempo era-o. Actualmente a ciência já resolveu mais este imbróglio. Mas, para mal da investigação, Deus não é um objecto físico, o que impossibilita o apuramento dos factos. Mas, apesar da transcendência do texto sagrado, a mãe somente serviu ao Pai para transmitir ao Filho a aparência humana.
Mas ande a realidade por onde andar, os sentimentos são aquilo que são: sentimentos. Por isso José deixou-se enrodilhar neles como se não tivesse aprendido rapidamente que a esmola desconfia sempre do pobre. Deus, que é Cristo, porque é Pai e Filho, e que é Espírito, porque Santo, e que é Pomba, e não andorinha, ou pintassilgo, ou pardal, e que também não é mãe, e porque ainda é poesia e simbologia e interpretação e língua de fogo que abrasa, não como o fogo que arde sem se ver mas antes como o fogo da iluminação interior ou como unguento sagrado, sugeriu-lhe o caminho. O sábio e penoso caminho da indulgência.
José sentiu-se tocado pela palavra de Deus, ou melhor será dizer, pelas simpáticas sugestões de obediência ao Próprio e à sua Madre Igreja e pelas sibilinas promessas do padre Zé quanto a um desempenho quantificador na difusão persistente da palavra do Senhor.
Para se salvar a ele, ou, melhor, para salvar a família, José decidiu aceitar como seu futuro humano a ida para o seminário. Por isso resolveu viver o tempo que lhe restava junto dos seus a modos que um burreco sem cabresto ou albarda, mas sem nunca esquecer que até o mais nobre e diligente sábio encobre as suas vergonhas debaixo do manto diáfano da cortesia e do disfarce.
33 – E a vida então vivida foi tocada pelo calor da tolerância e da proximidade. E, até, da cumplicidade. Na cumplicidade dos afectos que, por serem raros e atípicos, funcionaram naquela família desavinda como o Verão de S. Martinho.
José cumpria as ordens da mãe sem se indignar, estudava sem esforço, ia buscar o pai ao café a horas, olhando ternamente para o relógio que um amigo relojoeiro do guarda Ferreira lhe ofereceu como prova de reconhecimento da amizade de um filho pelo seu pai, pois todos os companheiros dos copos e das cigarradas do guarda Ferreira eram unânimes na classificação do José como o exemplo perfeito do filho modelo de educação, dedicação e compreensão por um pai que até tinha os seus vícios mas que, sobretudo por isso, devia ser objecto de mais compreensão, afecto e respeito por parte dos seus. Por isso o José era um exemplo de filho dedicado. Aquele rapaz não seria nunca um filho pródigo.
Quando o viam compenetrado na televisão, enquanto eles bebiam fumavam e tagarelavam com sentido prazer, eram audíveis os elogios rasgados dos amigos do guarda Ferreira: “Olha que bem sentado que está… e como sabe colocar as mãos debaixo do queixo como um doutor de letras…. o rapaz gosta mesmo de ti… e que paciência tem… tão novo e tão responsável que ele é…” e mais coisas pelo estilo. E o José, ouvindo-os sem lhes dar a perceber que o fazia, olhava ainda mais compenetrado para a televisão, aprumava mais o braço que segurava o queixo e afagava o relógio no pulso. Mas nunca olhou para o Cauni Prima com medo de que esse gesto fosse entendido como um indício de crítica ou uma chamada de atenção para o adiantado da hora. Nunca devemos usar uma prenda para com ela repreender quem teve a bondade de no-la oferecer.
José ousou mesmo dedicar mais tempo aos irmãos do que aos amigos. Ajudava a mãe a dar-lhes banho todos os fins-de-semana numa bacia de zinco onde a Dona Rosa costumava lavar a roupa e pôr a carne em sorça para as linguiças e os salpicões, lia-lhes histórias, catava-lhes os piolhos com um pente fino e conseguiu mesmo brincar com eles sem os aleijar por aí além ou os empurrar de encontro às paredes.
Numa noite de geada,depois de ir com a mãe acomodar o gado, pôs-se a brincar no escano com o João. E como o guarda Ferreira estava em casa, sem ninguém atinar bem com a causa, na enorme lareira ardia um lume quase como se fosse noite de consoada. Mas não era. O que fazia daquela noite uma noite ainda mais estranha. O guarda Ferreira libava o vinho quente misturado com mel por uma caneca de barro preto enquanto fumava os seus cigarros sem filtro e falava com a Dona Rosa dos seus tempos de juventude. A Dona Rosa bebia cevada quente por uma caneca de barro branco com os dizeres “amor de mãe” e falava das saudades dos tempos que passou em Lisboa. Os irmãos mais novos ouviam o programa “Serão para Trabalhadores” da “Emissora Nacional” porque achavam muita graça à voz anasalada e artificial do locutor e porque se contorciam a rir com as imitações que uns e outros faziam dos cantores. No escano o José brincava com o João. O calor provocado pela fogueira era tanto que o Joãozinho estava nu da barriga para baixo. O José deitado suspendia o seu irmão no ar e fazia-lhe cócegas com os lábios na barriga. O João ria-se muito. E quanto mais o João se ria mais o José insistia nas cócegas na barriga do João. O guarda Ferreira também se ria, o que fez mesmo com que, por momentos, os seus filhos parassem com as brincadeiras e com os risos. Por causa da desconfiança até a Dona Rosa se riu a bom rir. O que provocou novo riso nas crianças e no guarda Ferreira. E de novo a Dona Rosa se riu. Facto que fez com que o Leão começasse a ganir como se estivesse alguém para morrer. Prontamente o guarda Ferreira agarrou num cipó e ia para malhar forte no cão quando rompeu por ali dentro o Virtudes que se atreveu a tanto para tirar a limpo se o que ouvia estava mesmo a acontecer. E era verdade sim senhor, o guarda Ferreira estava em casa, apesar de continuar a beber e a fumar, a Dona Rosa levanta a saia com a desculpa do calor para mostrar as pernas até lá bem acima ao marido, os meninos teimavam no seu animado playback. E o José teimava, na sua obstinação de criança, em fazer cócegas na barriga do irmão, bufando ar de encontro à pele macia junto ao umbigo. O João ria naquele trinado encantador de menino feliz e riu tanto que deu um pequeno peido. Então o riso transformou-se em dor de barriga e lágrimas. E nunca mais parava. E quanto mais se ria cada um, mais fazia rir os outros. O João, esgotado, no momento em que o José abria a boca para respirar depois de mais uma sopradela na barriga do irmão, mijou-lhe em cima com a simplicidade dos inocentes. Nesse momento o riso colectivo atingiu o clímax. O que fez com que o irmão mais novo acordasse e começasse a chorar com intensidade.
O Virtudes levantou-se de onde estava sentado, pegou no menino ao colo e deu-lhe o biberão de leite. Depois fê-lo arrotar e mudou-lhe a fralda. Foi então quando a Dona Rosa, corada como um tomate, lembrou aos meninos que estava na hora da deita. O José, ainda com o cabelo húmido depois de se ter lavado, juntou-se ao Virtudes e ambos ajudaram os irmãos a despir-se e a vestir as ceroulas e a camisa de dormir e contaram a meias a Lenda da Maria Mantela, história que tinha o condão de os calar.
O irmão mais novo, como se tivesse pressentido que tinha chegado tarde à festa, resolveu manter-se bem desperto e chorava, depois ria, depois tornava a chorar, numa teimosia de bebé que vinha um pouco contra a boa disposição do resto da família. Na cozinha, junto à lareira, o guarda Ferreira e a caneca de vinho misturado com mel, a Dona Rosa, o Virtudes e a sua caneca de vinho com açúcar, continuaram a conversar noite dentro.
O José na cama não conseguia dormir. Chegou mesmo a contar e recontar os piolhos que tinha tirada com o pente e esmagado da cabeça dos irmãos. Mas nada. O sono não vinha. Ouviu o Virtudes a bater a porta e os pais a deitarem-se na cama fria e a dizer “ai que gelada está a cama”. De seguida ouviu qualquer coisa como “chega para cá o rabo que eu aqueço-to… não sejas tonto… sim… umm… sim… shh… que o José tem ouvidos de rato… anda lá homem… não consigo que… shh… sim… vá lá homem… queres que te… sim… shh… ummm… anda lá… não consigo… vá lá que eu ajudo… abre mais as… shh… umm… força… agora… shh… não consigo… é do tabaco e do ciga… foda-se…
34 – Sachar as batatas é tarefa violenta para uma criança. Sobretudo se não estiver habituada aos duros trabalhos do campo. E este era o caso do José. Franzino e de saúde um pouco débil, o filho do guarda Ferreira tinha umas mãos mimosas, brancas, de pele quase transparente onde se (...)
(continua)



