Os sabores e saberes das feijoadas das quartas-feiras
Estive seriamente a pensar se valeria a pena e se deveria ou não escrever o post de hoje, mas decidi-me por escrevê-lo, pois como costumo dizer, calar é consentir, é deixar andar, é excluímo-nos da vida da nossa cidade é abdicarmos do nosso direito e dever de cidadania. Claro que há quem pense que estas coisas de discutir as cidades é apenas da competência dos políticos e que a discussão deve ser no seu seio ou encaminhada para os partidos políticos. Pois eu não penso assim e acho que a grande maioria do povo português também assim não pensa, basta ver os resultados eleitorais e o número de abstenções cada vez maior, onde já se inclui a maioria dos eleitores. Ou seja, a maioria da nossa gentinha já não quer nada ou já não acredita em políticos mas, por uma ou outra razão, por medo até, erradamente e infelizmente, em vez de lutarem pelos seus direitos, pela sua terra e por um Portugal melhor, demitem-se da política e demitem-se como cidadãos, deixando-se ir ao sabor dos ventos como se este país já não tivesse tino ou destino possível. Pois da minha parte também já não vou com os políticos, mas (também) não me demito.
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Ora é precisamente pelos partidos políticos e os seus eleitos que atingem o poder, por aparentemente terem o poder que outros lhes deixam ter, por se julgarem os donos da verdade absoluta sendo esta a única, verdadeira e possível, por não ouvirem nem representarem quem os elege, que isto está como está e os culpados, ainda por cima, somos nós, o povo, ou nós é que temos a obrigação de pagar as suas asneiras. Mas o que mais me irrita nos políticos, é a mentira constante em que vivem e debitam para quem governam, o pensarem que têm direito a ela e a serem desculpados por tal, mas o verdadeiro problema está quando os políticos começam a acreditar nas suas próprias mentiras…
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Depois de Domingo passado ter abordado a feira dos Sabores e Saberes de Chaves, com a ironia qb que nesse dia me invadiu, hoje quero fazê-lo seriamente, nesse acto de não me demitir como cidadão.
Não sei por onde começar, pois quase tudo nesta feira está errado. Primeiro a própria feira e o insistir querer fazer os sabores e saberes de Chaves quando eles não existem, ou a existirem, não chegam para as encomendas e a prova está nas barracas da própria feira com ginjinhas de Óbidos, ourives de Matosinhos, artesanato de Bragança, Penafiel ou da Lousã, rendas de Barcelos, calçado de Sever do Vouga, loiças de Aveiro e por aí fora…Cá da terra, já nem os barros de Vilar de Nantes lá entram (pois também já não os há, embora fossem anunciados) e apenas três ou quatro casas que apresentaram os nossos pasteis, 4 ou 5 que apresentaram fumeiro e presunto (este pouco), um cesteiro de Vilar, os vinhos da Quinta e Arcossó e pouco ou nada mais que seja digno de realce.
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E não temos sabores e saberes porquê?
- Resposta muito simples, pois porque já não temos aldeias com gente dentro. A gente que sabia e fazia os sabores de Chaves já há muito que foi obrigada ou convidada a partir e os resistentes, já não têm forças, ou meios, ou saberes e, se o têm, é para consumo próprio, é a pouca coisa que lhes resta. Se eu sei isto como cidadão comum, os organizadores do evento também o sabem, e muito melhor que eu…mas o povo “exige” que se faça alguma coisa, pois (e a referência é inevitável) não compreendem como Montalegre e Vinhais têm uma feira de sucesso e Chaves não tem nada, então vai daí e inventa-se “os produtos da terra”, os “sabores e saberes de Chaves”. Nomes que até têm impacto, mas que não têm conteúdo.
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Mas vejamos o que os responsáveis pela feira dizem a respeito dela e das suas intenções:
“Fumeiro, couve e batata vão ser os “reis” da 6ª mostra “Sabores e Saberes” de Chaves”; “uma vitrina dos produtos de qualidade locais e regionais”; “preferência foi para os produtores locais e artesãos certificados e que executem trabalhos ao vivo”; “Festival Gastronómico com milhos e aletria” – Notícias do Diário @tual aqui: (http://chaves.blogs.sapo.pt/584905.html ) - mas há mais: “Não falta presunto, não falta fumeiro, não faltam os pastéis de carne, nem o folar, e muito menos o artesanato”; “Temos orgulho na mostra Sabores e Saberes. Apesar de estarmos no início de um percurso, temo-lo feito com distinção”; “seja uma montra de produtos de excelência da gastronomia, do artesanato e do património de Chaves”; “tudo com a devida promoção do bom nome do concelho”; - Notícias do Diário @tual aqui http://chaves.blogs.sapo.pt/592285.html . E ainda há mais:
“O presunto, os pastéis de carne, o folar e a couve penca – sem esquecer a louça do barro preto de Nantes – são os produtos que garantem a autenticidade tradicional da mostra “Sabores e Saberes” de Chaves”; “o sucesso da mostra flaviense está garantido”; “a couve penca e a batata, também vão estar em grande destaque nesta edição”; Numa mostra cujo carácter distintivo é o “saber fazer”, ou seja, o artesanato local”; “já está em curso o processo de certificação da couve penca”. - Notícias do Diário @tual aqui http://chaves.blogs.sapo.pt/590729.html .
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Engraçado que corri a feira toda e para além dos pasteis, não consegui ver os restantes “Reis” anunciados, como o barro preto de Nantes, os artesãos locais (para além de um cesteiro) a tão badalada couve penca em vias de certificação… Certificação da Couve penca!? - esta não lembra ao diabo, e então o afamado presunto de Chaves porquê não é certificado!? Pois…!
Na minha abordagem irónica de Domingo, alguma verdade havia e era a de Chaves ter e merecer uma feira nacional, que nem sequer precisa de ser inventada, pois já a temos e só é preciso engrandecê-la – A Feira dos Santos. Estas de produtos da terra, sabores e saberes ou outro nome que lhe inventem, sem produtos da terra, não vão a lado nenhum, e pela (a)mostra, mais parecem as barracas da quermesse para a paróquia do bairro… e não uma a(mostra) digna da milenar Chaves, com tanta história e tradição no comércio regional - mas parece que o povo gosta assim, dizem e, é sempre um sucesso!
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Falta-nos uma festa e feira de verão, isso sim, que até em tempos já se começou a esboçar e já tinha algum sucesso – refiro-me (se bem se lembram) à feira de artesanato que a ADRAT realizava no Jardim Público, mas, ainda hoje estou para saber porquê se resolveu acabar com ela… até parece que tudo que por aqui é bom e medra, chega ao inverno e uma geada leva-a pró… mas adiante.
Enfim, como há quem garanta que o povo gosta e o sucesso está sempre garantido – bota lá com os sabores e saberes para a frente, venha a 7ª edição onde pode ser anunciada a certificação do grelo da veiga, porque não!, pois é bem bô!
Uma única palavra de apreço da minha parte – a animação ter sido feita com prata da casa.
Milhos e aletria! Pois eu prefiro estas feijoadas das quartas-feiras regadas com um bom tinto ou um naco de presunto cortado em cima de uma fatia de pão centeio – o tinto pode ser o mesmo da feijoada, desde que seja bô.
Até à próxima feijoada!
Ainda hoje, vamos ter por aqui a habitual crónica das quartas-feiras – “Palavras Colhidas do vento…” de autoria de Mário Esteves, mas só lá para o meio-dia.
Até lá!










