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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Abr11

O Homem sem Memória (43) e (44) - Por João Madureira


 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO

Ficção

 

43 – Mal chegou a casa, ainda vacilante nos seus passos frouxos, já depois de deixar os seus amigos no café a beber ainda o último copo de vinho, ordenou olhando na direcção da mulher: “Arranja a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias.” “O quê?”, perguntou a Dona Rosa. “O quê?”, perguntou o José. “Já disse, prepara a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias em Matosinhos.” “Mas...”, exclamou a Dona Rosa. “Mas...”, exclamou o José. “Não há mas nem meio mas”, avisou o guarda Ferreira, “como nunca mais foi à praia desde que viemos de Lisboa, vai agora antes de ingressar no seminário.” “Quem o inscreveu?”, perguntou a Dona Rosa. “Quem me inscreveu?”, perguntou o José. “Fui eu”, respondeu o guarda Ferreira com a autoridade necessária. “Afinal quem é que manda cá em casa?”, perguntou apreensivo o guarda Ferreira. O Leão ladrou no curral dando sinal de que se preparava mais uma batalha familiar. O Virtudes subiu as escadas para vir proteger as crianças. A Dona Rosa armou-se de varapau em riste e o José pegou no livro e foi para o quarto ler. Ou fazer que lia. Mas a guerra terminou ainda antes de começar. O guarda Ferreira serviu-se de vinho do garrafão, pegou numa linguiça, embrulhou-a numa folha de couve e colocou-a no meio das brasas. Um pouco a custo, assentou-se no escano. Depois deu um pontapé no gato e começou a falar sozinho. Entretanto a mulher tentou tirar nabos da púcara: “Quando foi que o inscreveste para a colónia de férias?” “Quando os meus colegas inscreveram os seus filhos.” “Mas não me disseste nada!” “Não te disse nada porque já sabia que ias dizer que não. Eu sei que o rapaz precisa de sol. Está magro como um cão.” “Vê lá como falas do teu filho. Mais magro estás tu. Também vais para a colónia de férias?” “Não me faças rir. Com estas flausinas da cor do leite ia ser um enchente de riso.” “Tu de calções de banho e eu de biquíni íamos ser o casal mais vistoso da praia.” “Lá isso íamos. De tão brancos ainda ofuscávamos o sol.” E riram-se os dois. Até o José se riu lá no quarto. “Não te rias dos teus pais que é feio”, gracejou o guarda Ferreira. Então a Dona Rosa começou a cantar a canção que agora passava muito na rádio: “Já arranjei muito bem / Tudo quanto convém / P'ra praia levar. / O pente, o espelho, o batom…” Ouvindo a dona a cantar, o Leão atreveu-se a subir as escadas e foi para ao pé dela pôr-se a ganir. Logo de seguida subiu o Virtudes e a rapaziada. Vendo que o ambiente se tinha composto, o José pousou o livro e veio para o escano. O pai deu-lhe um pouco da linguiça e disse-lhe para beber um golo de vinho da sua pichorra. Ele bebeu, mas a custo. Afinal já se estava a transformar num homem. Já fumava, já pinava, só lhe faltava mesmo começar a beber para ser um homem. O seu irmão João começou a rir-se naquele seu encantador trinado de menino feliz e riu tanto que deu um peido. Todos começaram a rir como tolos. E nunca mais paravam. E quanto mais se riam, mais vontade tinham de continuar a rir. Então o José, como quase sempre fazia, pegou no seu irmão João e começou a balançá-lo de um lado para o outro e a fazer-lhe cócegas na barriga com os lábios e o ar que expelia pela boca. Então o João, esgotado, no momento em que o José abria a boca para respirar depois de mais uma sopradela na barriga do irmão, mijou-lhe em cima com a naturalidade das crianças. Nesse momento o riso colectivo atingiu o clímax. Feliz, o Virtudes levantou-se de onde estava sentado, pegou no menino ao colo e deu-lhe o biberão de leite. A Dona Rosa, mais corada que um pimento, e como sabe que momentos destes não abundam na vida de um casal, lembrou aos meninos que estava na hora da deita. O José, ainda com o cabelo húmido depois de se ter ido lavar, juntou-se ao Virtudes e ambos ajudaram os irmãos a despir-se e a vestir as ceroulas e a camisa de dormir e contaram mais uma vez a meias a Lenda da Maria Mantela, história que tinha o apreciado dom de os acalmar. Depois adormeceram. O Virtudes ainda se entreteve a beber um copo e finalmente também foi embora. O guarda Ferreira, a inseparável pichorra, mais a Dona Rosa, continuaram a conversar noite dentro. O José, na cama, não conseguia dormir. Chegou mesmo a contar e recontar os jogadores que tinha repetidos e não conseguia trocar. Mas o sono não chegava. Ouviu o pai a bater a porta da rua e a dar duas voltas à chave na fechadura. Depois a Dona Rosa e o guarda Ferreira foram para a cama. De seguida ouviu qualquer coisa como “chega para cá o rabiosque que eu aqueço-to…” a que se seguiu “não sejas estouvado… sim… umm… sim… shh… que o José tem ouvidos de fuinha… anda lá Ferreira… não se me endireita… shh… sim… vá lá homem… queres que te… sim… shh… ummm… anda lá… não se em endireita… vá lá que eu ajudo… abre mais um pouco as… shh… umm… força… agora… shh… eu faço-te mais umas festinhas… não consigo… é do ciga… caralho…

 

44 – Ainda mal se viam os primeiros raios de sol e já o Artur, o filho mais novo de um colega do guarda Ferreira, subia na burra a rua que conduzia ao largo onde costumavam estacionar as carreiras com destino a Chaves e a Braga. O pai e a mãe iam a pé. A mala seguia em cima do pescoço da jumenta tenteada pelas mãos do Artur.


O guarda Ferreira e a Dona Rosa, com o João ao colo, acompanharam o José também a penates. Como não tinham burro, o José foi no macho que o cabo Aníbal lhes emprestou. Um pouco mais atrás seguiam o Virtudes, que carregava o malote por excesso de zelo, e o Leão que abanava a cauda de contentamento. A tomar conta da criançada lá em casa ficou a irmã do Alcino.


O José, ao contrário do seu colega Artur, ia triste. Nunca se tinha aventurado a passar quinze dias fora da companhia da mãe, do pai, dos irmãos e dos amigos. Ia ser duro. A mãe olhava para ele e choramingava. O pai olhava para ele e sorria. O Virtudes olhava para ele e assobiava. O Leão olhava para ele, abanava a cauda e ladrava. O João olhava para ele e cantava a canção da “galinha põe o ovo” com a ajuda da mãe. O Artur olhava para o José e gozava. O pai do Artur olhava para a mãe do Artur e depois para o ar fungoso do José e ainda para o ar alegre do seu filho e gozava. O macho olhava para a burra e ruminava.


Fizeram-se as despedidas. A Dona Rosa continuou a choramingar e a dar conselhos ao filho sobre os diversos cuidados a ter com os rufias que se aproveitam destas ocasiões para humilhar e roubar os meninos mais inocentes e bem-educados. O guarda Ferreira acendeu um cigarro, deu um beijo envergonhado e mais algum dinheiro ao filho e abalou para o posto a assobiar o hino do Porto; o José deu um beijo à mãe, fez uma festa ao cão e outra ao macho, e entrou para a camioneta. O Virtudes pegou no irmão mais novo do José e também entrou na carreira. Ia fazer o desmame do João a Chaves, pois o raio do garoto não havia maneira de deixar em paz a teta da mãe. Já tinham experimentado a técnica de pôr malagueta no bico do seio da Dona Rosa, mas o malandro, depois de chorar baba e ranho, voltava ao mesmo. E como o leite e as forças já iam faltando à mãe, o Virtudes lembrou-se de o levar três dias a Chaves para dessa forma violenta abandonar definitivamente o vício da teta. É que parecia mal um menino tão crescido agarrar-se à mama da mãe como se fosse um cordeiro faminto. Aquilo era doentio. Além disso trilhava-a com os dentes, inflamando-lhe os mamilos. O João, quando viu que a mãe continuava a chorar e não entrava na camioneta pôs-se a gritar. Mas o Virtudes deu-lhe uma guloseima, acariciou-o, começou a galhofar e o João calou-se. O José sentou-se ao lado do amigo e do irmão e tentou pensar numa coisa alegre. Pensou no mar e no sol. Já sentia saudades. Desde que abalara de Lisboa nunca mais tinha ido à praia. Não é que gostasse muito da água. Tinha-lhe até medo.


Isso aconteceu porque uma vez uma senhora sueca, tentando ser simpática, pegou-o ao colo e levou-o para dentro de água para o ensinar a nadar. Mas ele atrapalhou-se e começou a chorar. Como a senhora não se apercebeu, continuou a praticar distintos exercícios de mergulho e lançamento o que lhe provocou uma aflição muito próxima do pânico. Depois desse dia, mal alguém o aproximava da margem do Tejo ou da água do mar, começava a tremer e a chorar. O máximo que conseguia fazer era pôr-se no areal onde as ondas iam morrer e deixar que aquele nico de água lhe banhasse as pernas. Mesmo assim arrepiava-se e contraía todos os músculos do corpo.


Chegados a Chaves, despediu-se do Virtudes e do irmão e, na companhia do Artur, já um rapaz experimentado nestas andanças, rumou ao posto da GNR onde foi integrado no grupo que, sob a supervisão de um colega do pai, se dirigiu ao comboio que os levaria ao Porto.


Aí pernoitaram numa das casernas do posto central. Foi uma noite terrível para o José, mas divertidíssima para o Artur e os demais rapazes que estavam habituados a estas aventuras. Mal se fechou a porta e se apagaram as luzes, estabeleceu-se uma batalha de almofadas que se prolongou por muito tempo. O José e os demais caloiros tornaram-se nos alvos da chacota e da fúria dos malandrins. Os caloiros não dormiram nada porque mal fechavam os olhos eram logo vítimas de mais um assalto de almofadas. Não é que doesse muito, mas moía. Sobretudo a paciência. O José chorou que se fartou.


O Artur nem uma única vez o defendeu. O filho da puta. Era até o que mais se empenhava em castigá-lo. Aquele cabrão sádico. Não perdia por esperar. Quando fosse padre não o absolveria de nenhum pecado. E, dessa maneira, ia para o inferno, com toda a certeza. E isso era o menos, pois estava determinado a pedir ao Alcino para lhe armarem uma emboscada e lhe fazerem por trás o que fizeram à irmã pela frente. E não iam cobrar nada pelo serviço. Era-lhe muito bem feito. Ao filho da puta!


Razão tinha a Dona Rosa quando apelidava a mãe do Artur de puta relaxada e o pai de corno manso. Ao princípio custava-lhe ouvir a mãe dizer: “Sempre tão pintada, tão asseada, tão folgada, a puta do sargento Pires. E o corno manso do marido, em troca, tem sempre os serviços mais leves. Mal sai do posto. É ele o correio do sargento. É ele quem recebe dos contrabandistas a paga pela distribuição das patrulhas e pela falta de vigilância nos caminhos que vão dar à fronteira. São meia dúzia os que recebem o grosso da maquia. Os outros contentam-se com as migalhas. E tu, Ferreira, nem pareces meu marido. Deixares-te endrominar pelo sargento e pelo corno manso. Se fosse comigo, quem os fodia era eu. Ou me pagavam convenientemente ou denunciava-os. Não se ficavam a rir. Ai não ficavam não.”


Agora dava-lhe razão. O Artur só podia ser filho de uma puta e de um corno manso.


Ficou cheio de medo quando o Artur, no meio da galhofa, apontando para ele e virando-se para o grupo de mafarricos, vociferou: “Lá na praia temos de lhe ir ao cu”. Todos se riram como se isso fosse normal. Ele pensou nas palavras da mãe: “Nunca te afastes dos monitores.”

 

 

 

45 – E foi o que fez. Durante os quinze dias...

 

(continua)

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