Cartas do Zé
Caro amigo,
Encalhei na revolução. Sempre me acontece isto. Começa abril e aí estou eu a perder noites em horas, matutando no que foram aqueles anos pós 74.
Depois de ler as duas últimas cartas sobre o tema, sabes que a revolução me desiludiu. Podíamos e devíamos fazer mais e melhor democracia.
Foram anos loucos. Tudo parecia ser possível em liberdade. Primeiro chegou a Coca-Cola e os filmes porno. Depois, a telenovela e a TV a cores. Jornais e revistas multiplicavam-se pelas bancas veiculando idéias e ideais até então proibidos pelo regime fascista.
Atrasada como de costume, a liberdade chegava a um Portugal atrasado e poucos eram os que sabiam o que fazer com ela. Todos, sem exceção a queriam viver. E todos a vivemos. Os, mais ingénuos, acreditamos que os valores da liberdade, democracia e pluralismo seriam o melhor caminho para alcançar a “paz, pão, saúde, educação”...
Sigamos a música de Sérgio Godinho: Da paz, vejam o rasto de sangue da descolonização em Angola, Moçambique, Guiné, Timor... O dinheiro para o pão é emprestado. A saúde traz o português doente e a educação, já comprometeu o futuro dos nossos netos.
Primeiro foram as tais passagens de ano administrativas de 1974/75 e o “facilitismo” nos anos letivos seguintes.
Depois acabaram com as “escolas industriais”. Essa facada na educação sangrou até ao início da década de 90 com a criação das escolas profissionais.
Por fim, despromoveram o professor dois furos abaixo de cão um de polícia e um de sargento do exército. Assim, sem pensar duas vezes. A figura institucional do professor foi a mais maltratada da revolução dos cravos e foi pena.
Então, o portuga que sempre se deslumbrou com tudo o que vinha da estranja, entra na CEE, descobre a palavra competitividade e, com a globalização tem conhecimento de outros sistemas de educação. Os papás e mamãs, querem agora ”mais e melhor” educação para os seus brotos.
As reuniões escolares das minhas filhas e os anos de formador na escola profissional deram-me as tendências dos pais modernos: - eles fazem os trabalhos de casa dos meninos, cuidam da boa arte do copianço dos pirralhos e brigam com o prof por mais três décimas na avaliação dos meninos. No entanto, desistiram há muito de velar pelas mais elementares regras de convivência e respeito dos seus rebentos para com os mais velhos.
Não é “mais e melhor” educação. Trata-se apenas de competição desenfreada que os progenitores incutem nos putos. Desde pequenino torcem o pepino aos chavalos para que sejam os melhores dançarinos da festa da “pré-primária”, cantem em inglês no final da primária e terminem o secundário com notas de entrada em medicina.
Com a desculpa de querer o melhor para os filhos, vamos projetando neles os nossos sonhos, aspirações e anseios. Passam a ser os nossos instrumentos de competição.
Com isto, as psicoses ganham condições ideais de germinar e desenvolver em todos aqueles que por um motivo ou por outro, não conseguem manter o ritmo de competição. Sentem-se falhados, derrotados e excluídos.
Dentro das paredes da escola as crianças alinham pelo diapasão dos papás e vão fazendo a sua competição. Quem tem as melhores sapatilhas, quem é a mais bonita ou o mais popular... Princípios básicos como a gentileza, cavalheirismo, respeito pelo próximo, não cabem numa competição. Competir, rima com excluir.
As conseqüências podem ser assustadoras.
No passado dia 7, um jovem com dois revólveres, entrou numa escola pública no Rio de Janeiro, disparou mais de meia centena de munições matando 12 crianças e ferindo outras tantas. O Brasil entrou em choque.
“Os americanos e os ingleses são divididos por uma língua comum” disse um dia George Bernard Shaw. Penso que podemos dizer o mesmo entre brasileiros e portugueses. Por isso não me custa nada acreditar que em Portugal, um doido frustrado e psicótico escolha dar uns tiros numa escola, cinema ou centro comercial.
Todos se vão perguntar como foi possível acontecer essa barbaridade. Depois vamos culpar o excesso de armas nas mãos dos civis, o excesso de violência na TV e até, o excesso de informação na internet.
A culpa é nossa meus caros. Fizemos um mau trabalho na educação dos nossos filhos.
Pouco me importa que saibam fazer um orçamento com sete anos de idade como fazem os miúdos nas escolas de Singapura. Não ligo a mínima se um adolescente americano sabe desmontar e montar um computador.
Computadores , máquinas de filmar e outras tecnologias são ferramentas de formação para que mais nenhum velho, deficiente ou grávida tenham de viajar em pé nos transportes públicos, para que antes de debochar do aspecto, cor, credo e preferências de terceiros possamos ver as nossas próprias ventas e saber que não há perfeição nem milagres e que as gajas das revistas não são assim tão boas, bonitas e magras, é apenas photoshop.
Acredito que a educação deve ser encarada como o vinho e a escola como um grande sobreiro. Precisam de tempo, muito tempo. Sem pressas, como sempre fizeram os nossos ancestrais.
Com educação, mando aquele abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima
Zé Moreira



