O Homem sem Memória (54) - Por João Madureira
Texto de João Madureira
Blog terçOLHO
Ficção
54 – Passado um ano voltou a Montalegre. Mais crescido, mais magro, mais branco. Mais triste.
O Verão corria tépido e luminoso, permitindo que as pessoas andassem de roupas mais leves e com um ar ligeiramente lavado. Agora, que tomava banho todos os dias, até de água fria, era mais sensível à aparência dos demais. Sempre apreciou o ar limpo e trigueiro da Luisinha, em contraste com o ar baço e pardacento da maioria das raparigas da vila. Do aspecto dos seus colegas nem é bom falar. Tinham uma aparência de cordeiros tresmalhados e famintos.
Os rapazes continuavam galhofeiros e despreocupados. Mas tinham crescido. Pareciam mais corpulentos e tisnados. Sobretudo mais alegres. E isso intrigava-o. Enciumava-o que ali no meio dos penedos os seus amigos crescessem brutos e felizes. Era como um anátema. Como se fosse possível na pobreza e na boçalidade ser-se feliz. Pelos vistos, sim, era possível. Ao contrário dele que, entre rezas, ladainhas, evangelhos, padre-nossos, ave-marias, livros, discussões, estudos e cogitações, dissidências e absolvições, se sentia um desventurado carregado de tristeza e frustração.
Todos o acolhiam agora de uma forma diferente, apesar de formalmente nada ter mudado. Todos o tratavam por tu, perguntavam-lhe pela vida no seminário, incitando-o a jogar, a rir, a galhofar e a dizer mal do Padre Zé. Ele sorria, que remédio. Um futuro abade tem de aprender a dizer ámen com todos os cordeiros de Deus, por muito que lhe custe.
“Afinal somos todos filhos de Deus”, pensava o José. “E iguais aos seus olhos. O ladrão e o roubado, o assassino e a vítima, o violado e o estuprado, o patrão e o empregado, o rico e o pobre, o remediado e o pobre, o pecador e o santo, o bom e o mau, o homem e a mulher. Mas também o salteador e o opulento, o amo e o aviltado, o homossexual e o chefe de família, o juiz e o carrasco, o médico e o doente, o jogador de futebol e o treinador, o banqueiro e o economista, o comunista e o fascista, o democrata e o ditador, o filho e Abraão, Cristo e Barrabás, Nossa Senhora e a sua desditosa virgindade.”
“Segundo Deus”, continuava a pensar o José com uma irritação crescente, “para o caso tanto faz, são seus filhos e ponto final. Ele não descrimina. Pois se ele não descrimina, descrimino eu. Eu não sou capaz de por tudo no mesmo saco. E Deus, se é que existe, e disso tenho muitas dúvidas, que me perdoe como eu lhe perdoo – na qualidade de seu filho e em nome de todos os outros seus filhos de boa vontade, – toda a dor do mundo, toda a pobreza, toda a desgraça, todas as guerras, toda a descriminação, toda a dor e, sobretudo, o arrufo de ter castigado Adão e Eva com a noção de pecado e com a vergonha da nudez, do sexo e da boa vida.”
Convenhamos que tais pensamentos, mesmo que sinceros e sentidos, num futuro clérigo católico responsável pela evangelização dos seus leigos não eram bom sinal. Mas, convenhamos ainda mais um pouco, Deus e a sua Igreja sabem bem as linhas com que se cosem.
55 - A Dona Rosa passou um mês banhada em lágrimas. Chorou como uma Madalena arrependida quando viu o filho entrar-lhe portas adentro entre os vivas do Virtudes, o latir do Leão e o fumo do cigarro do guarda Ferreira. Depois continuou ...
(continua)



