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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Set11

Treze Contos do Mundo que Acabou - Ida e Volta

 

Conto - VIII

Ida e volta

 

          Certas manhãs de Março, as veigas do Vale Abrigoso acordam enevoadas, ou talvez apenas despertem estremecidas, por escutarem logo cedo o praguejar mal humorado dos corvos que rebuscam carronhas nas montureiras de esterco, alinhadas como poios, pelas lavradas. Os freixos e os amieiros, ainda em pelote à espera do verde novo das folhinhas, recortam silhuetas de esqueleto por entre a fiapagem densa das brumas. E lá no céu, pendurado por detrás das cortinas diáfanas do nevoeiro, decerto para que aquelas aves negras o não roubem, está um queijo amanteigado, destes que se fazem com cardo de coalho e leite do rebanho, amortalhado nas ligaduras brancas das névoas mal entretecidas. Perante tamanha palidez, fica uma pessoa sem entender se é o sol que já nasceu ou se foi Deus que se esqueceu de recolher a lua da noite passada. Ainda assim, sente-se-lhe o hálito morno de Primavera e apetece preguiçar. É um começo morrinhoso para dias que, não raro, acabam incertos, numa ventania repentina ou no fustigar raivoso das bátegas, grossas e escuras como zagalotes ou geladas e brancas como ovos de um ninho enjeitado. Lá diz o ditado, Março marçagão…

 

 

 

          - Isso é uma cerdeirinha nova, rapaz, e as cerdeiras poda-as só a canalha, quando trepa por elas no tempo das cerejas. Dá antes umas tesouradas valentes nos mamões que nasceram de roda desta pereira, que quanto menos eles mamarem mais engrossam depois as peras. E se costumam ser boas, estas peras joaquinas!

 

É sempre tempo de aprender, e o velho Acácio, a quem o Inverno trazia tão tolhido de reumáticos, quis aproveitar aqueles dias do Entrudo para ensinar a arte de podador ao filho, que estava de engenheiro lá para o Porto. As árvores fruteiras poucas mais eram que uma dúzia, mas ele é que já não tinha pernas para andar empelouricado nelas, e ao filho, talvez um dia mais tarde, sempre haveria de aproveitar um saber velho que, conforme vão os tempos, costuma morrer com quem o tem.

 

          À mocidade de agora já não importam as terras e os carinhos que elas pedem, consoante a época do ano e as normas perpétuas do Almanaque. O mais delas, por aqui de roda de São Cibrão e por esta corda de povos, está de poulo, e não é raro verem-se as giestas medrarem à disputa com as silvas, onde antes foram olivais que davam um azeite fino, digno de arder em luz na lamparina do Santíssimo ou de adubar umas couves com chícharos da ceia do senhor abade. E se o melhor estrume é o que vai agarrado às botas do dono, bem podem estas terras esperar, numa impaciência recalcada de sempre noivas, o regresso adiado dos que partiram em busca de melhor vida por Franças e Araganças. Porque eles, os antigos homens delas, quase sempre só no Agosto é que voltam por uns dias, para farrear e ostentar sucessos suados e amargados, ou se o fazem de vez, é já no Outono da vida, para garantir que a santa terrinha que os viu nascer lhes possa comer depois os ossos.

 

 

 

          - Então, meu pai, que outros trabalhos se fazem nesta altura?

 

          - Nas árvores faz-se também a enxertia. O melhor tempo para pegarem os enxertos é este, conforme vai agora. Sempre escutei dizer que no Entrudo pega tudo…

 

          - E nas terras, não se mexe?

 

          - É bom tempo para botar os estrumes nas que já estão mexidas e dar uma boa lavra nas outras, para lhes enterrar as ervas, e semear depois as batatas do cedo.

 

          Nunca lhe passou pela ideia que o filho se viesse a interessar por estas coisas. Mas é bem certo que o tempo tudo amadurece, até as ilusões da vida. Quando, há uns anos atrás, o foi meter no comboio para o Porto, com as malas atafulhadas de roupa e a cabeça cheia de sonhos e de recomendações chorosas da mãe, lembra-se bem de o Chefe da Estação lhe ter dito:

 

          - Deixe lá, senhor Acácio, que o futuro da mocidade já não está aqui na terra. Se por cá ficasse não saía da cepa torta, e ao menos enquanto estudar vê-se livre das correias da tropa e escusa de ir arriscar a vida em África. Olhe, esses que daqui vejo partir de mochila às costas é que até fazem doer o coração. Sabe Deus os que por lá ficam, e quantas vezes voltam mutilados… Este vai para o bem bom, assim ele tenha juízo e faça pela vida!

 

          - Bem sei, mas a minha Glória não há quem na console e até eu chego a perder o sono, só de pensar que nas terras grandes nem sempre as companhias que se arranjam são as melhores, e a gente faz muitos sacrifícios para que não lhe falte nada por lá. É da vontade dele, só espero que não nos envergonhe.

 

 

 

          - Vão ver que não se arrependem, e daqui a meia dúzia de anos têm em casa um engenheiro, que sempre é outra coisa bem melhor do que ele ficar pela aldeia, agarrado à sachola, à espera que os escaravelhos não comam as batatas, ou que a vitela não morra empertigada. Isto por aqui está visto!

 

          - Não digo que não, mas a gente fazia gosto que ele voltasse para a terra, senão um destes dias só ficam os velhos…

 

          - O bom filho à casa torna! E, graças a Deus, já vamos tendo um que outro doutor que não se deu por lá com a barafunda da cidade e resolveu fazer vida cá na santa terrinha. Olhe, por falar em voltar, quer-se rir com o que me sucedeu um destes dias, quando estava a passar os bilhetes para o comboio das nove e meia? Apareceu por aí o Valoura, aquele rapaz meio atoleimado que costuma andar com as ovelhas da Quinta dos Codeçais, todo penteado e de camisa lavada, e desatou a berrar para dentro da bilheteira: - Quero um bilhete de ida e volta! – De ida e volta para onde, oh Valoura?, perguntei eu sem me desmanchar. – Para aqui, seu caralho, para onde é que havia de ser?! Foi uma risada que nem queira saber! Afinal ia só até Vila Real a uma junta médica, por causa da reforma, e já cá está outra vez. Como vê, tudo na vida tem uma volta…

 

Herculano Pombro

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