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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Set11

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Já vão anos, quando pelas manhãs nos reuníamos ocasionalmente, eu e o doutor Mário Carneiro numa pastelaria da Rua Direita, e depois de cada um pedir um pastelinho de Chaves ou um bolo, um pingo directo ou um galão, contávamos, ele, cada vez mais o número de aquistas e as virtualidades das termas de Chaves e eu, mais crítico, as desditas e as potencialidades da urbe.


Devo dizer que o doutor Mário Carneiro me conhecia desde criança, não só pela sua condição de médico, injustamente amarrado à fama de bom “doutor de crianças”, como pela minha frequência desde muito cedo das Caldas, graças a uma tia materna, que me perdoem, era uma autêntica ninfa daquelas águas termais.


Ainda tenho uma fotografia de grupo, na qual, além da minha tia Lina, figuram o António, o Bexigas banheiro e as meninas da “buvette”, eu de cócoras, de boina e calções, meias e sapatos brancos.

 



Em casa, dizia-se que eu estava no “livro de ouro” das curas prodigiosas das termas, pois tinha nascido com icterícia, e a conselho do doutor Carneiro, deram-me nos primeiros tempos de vida um nadinha de água diariamente o que fez erradicar em pouco tempo aquele mal. Nunca indaguei o doutor Carneiro, nem acerca da cura ou da terapêutica, mas o certo foi ter a sua amizade até ao seu falecimento, salvo um amuo pouco resistente da parte dele, por não me ter inscrito como sócio nem angariado outros para os “Lyons”, com a finalidade de criar uma secção local.


Como sabem o doutor Carneiro foi celebrado director clínico das termas - não conheci outro, salvo o doutor J. Afonso Guimarãis, assim mesmo com esta grafia -  e nessa função, corria Seca e Meca, e Olivares de Santarém, para honra e glória das Termas e correspondia-se com hidrólogos e outras personalidades relevantes da ciência médica e da cultura. De tal modo era o seu fervor pelas Caldas, que não hesitava em limar as arestas rígidas da verdade científica em prol das virtudes das águas de Chaves. Nada grave, nem censurável que não fosse justificado pela sua incomensurável dedicação às Caldas de Chaves, a esta cidade e às gentes flavienses.

 


Durante algum tempo, malquisto com a presidência da autarquia, beneficiou posteriormente de um reconhecimento merecido.


Nesse período e aproveitando uma dessas nossas tertúlias matinais, no decorrer da conversa e sabendo eu que o município de Allariz - “chave do reino de Galiza”, no dizer de um dos filhos de Afonso X, e que eu visitava amiúde e há muito -, tinha recebido o Prémio Europeu de Planificação Urbana, em 1994, alvitrei porque, agora congraçado com a edilidade, não levava os responsáveis, de passeio à vila alaricana, que eu considerava e ainda considero um exemplo.


Além das razões que tinham a ver com a cidade em si, a forma de organização, crescimento e planificação, que me entusiasmavam, açodei-o com um poderoso e sólido argumento, que era poder degustar umas enguias na então familiar Casa Fandiño.


Passadas uns largos tempos, uma manhã lembrei-me, de perguntar-lhe se chegara a visitar Allariz e na companhia sugerida, ao que me respondeu afirmativamente e até com visível satisfação.

 


Quanto às enguias, nem foi necessário referir. As enguias, as amêijoas, o cabrito …


Em relação ao resto, mais importante, insisti, pretendendo pormenores.


-“ Gostaram …” - Disse entre sério e evasivo.


Entretanto, como dias antes, começassem a surgir uns patos no Rio Tâmega, nas proximidades da ponte Romana e as poldras, e o mesmo sucedia no Arnoia, rio que banha Allariz, mais precisamente a montante do Museu do Couro - “Fábrica de Curtidos Familia Nogueiras” e próximo do “Muiño do Burato” - Museu do Tecido “O Fiadeiro”, onde até lhe edificaram um refúgio no meio do rio, que mais tarde, este num dia de ira destruiu, desafiei-o:


- Parece-me que da visita, apenas trouxeram os patos …


Sorriu e fazendo intenção de se levantar, respondeu:


-“ Bem … esperam-me os amigos das caldas.”


Passaram vereações e ainda existem patos no rio Tâmega. Poucos e mais para lá da Ponte Nova ou Marechal Carmona. Uns três ou quatro, que são os que tenho visto, mas existem, dos muitos que em seu dia chegaram a haver.


As margens do rio, no âmbito do Programa Polis, entre a azenha do Agapito até à estação elevatória da água, foram objecto de uma intervenção, do que resultou entre outras coisas, um circuito pedonal e uma via para ciclistas, ambos frequentados com sucesso.


 Enquanto, Allariz, prossegue a melhorar o seu Parque Etnográfico do Rio Arnoia, do qual já referimos dois dos seus espaços museológicos, usufruindo ainda a vila e os seus numerosos visitantes, do Museu do Brinquedo (Museo Galego do Xuguete), o Museu Aser Seara – Museu Iconográfico de Allariz, a Fundação Vicente Risco com uma recriação da casa do escritor e ensaísta, autor de prolifica obra, e o museu de arte sacra do convento de Santa Clara de Allariz, este fundado pela Rainha Dona Violante, esposa de Afonso X, o Sábio, de cujo acervo não podemos deixar de assinalar a “Virxe Abrideira” e “a cruz de cristal”.

 


Arruar por Allariz, pisar as grossas lajes de granito, levantar os olhos para as suas igrejas - as igrejas de San Esteban (Santo Estevo) e de Santiago -, antigos paços, entrar na venda de licores Zirall, admirar a magnifica frontaria do edifício que a aloja, é um deleite para os sentidos e a alma, quem a tem.


Nos arredores deixar de visitar a Igreja de Santa Mariña de Águas Santas ou a cripta do santuário do mesmo nome ou o bosque do Rexo do mágico Agustin Ibarrola, é pecado sem remissão.


Conversar com Xan Bobillo, antigo viajante forçado e infatigável, provisoriamente encalhado em Allariz e dela ausenta agora, familiar do poeta Antón Tovar Bobillo, saber novas na Oficina de Información através do sempre solícito Xose Manuel, perambular pelas estantes da Aira das Letras ou nela iniciar uma cavaqueira sem fim com o professor Estraviz e finalmente abancar na Baiuca ou na “Sociedade Nacionalista Roi Xordo” e saborear um “cortado” e uma “augardente de herbas”, ou amesendar-se no restaurante “A Fábrica de Vilanova”, e cear sob as sábias sugestões de André Arzúa, são um autêntico prazer vivido. 

   

A dor visita-me o ombro e o braço em convalescença e só por isso sou obrigado a deixar de escrever, pois muito haveria que contar…, ficam de fora a festa do boi, do Xan de Arzúa, a festa de San Benito ou San Bieito, dos “dulces e almendrados”, por outro lado convém interromper esta autêntica torrente, pois se continuo a cortejar Allariz, a minha paixão é Chaves. 

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