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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Set11

Crónicas Ocasionais - Siboney

 

“Siboney”

 

 


A chuva, tocada a vento, dedilha as telhas do meu telhado, em ritmo de romântico bolero.


Levanto-me da cadeira, dou meia volta e achego-me à janela.


O alcatrão da estrada mal amanhada mostra um negro lavado. As folhas de uma palmeira dizem-me que o vento está arreliado.


Trajando uma blusa cor-de-rosa e umas calças brancas, uma mulher alta, elegante, “bem feita”, ciente das sugestões e provocações com que atiça a cobiça masculina e a inveja feminina, desce os sete degraus que vão desde o passeio até à rua interior, pavimentada com paralelogramos de granito. Leva na mão direita um balde de cor amarela-esverdeada.  Chegada à gateira, dobra a cintura, apoia a mão esquerda no fundo do balde e entorna-o no buraco. Sabe que em redor há prédios com vários andares, muitas varandas e imensas janelas.

 

 

E, nas ruas, carros e camiões, ciclistas e peões  circulam, atropeladamente, a esta hora, não fosse hoje sábado e morno dia de Primavera.

 

A linha do horizonte é definida pelas copas das árvores que, acima de um casario arquitectado ao deus-dará, se assomam pela crista de uma elevação, assemelhando-se a uma caligrafia exercitada pelo maior bêbado da Aldeia, à saída da adega do seu compadre de estimação, num final de dia santo de guarda.

 

A chuva pareceu assustar-se com os meus pensamentos e fugiu.

 

O vento deu ares de ficar zangado com os meus pensamentos e começou a soprar com mais força.

 

E até um Renault Cinco se atreveu a ultrapassar um Audi Quatro!

 

O meu olhar devia ter insultado as nuvens, pois, de repente, veio parar aqui à minha frente um montão delas, semelhantes a punhos carregados de artrite e tingidos com todos os tons do preto e do cinzento.

 

 

Ali ao meio delas até me parece ver uns dentes a rirem-se com escárnio.

 

Dou meia volta abeliana e volto a sentar-me virado para a parede e de costas para a janela … e as nuvens.

 

Pego na «bic laranja ponta fina» e peço-lhe que conduza a minha mão numa melodia de palavras, com imenso agrado para quem as ler.

 

Solta-se.

 

 Resmunga-me que não quer nada comigo.

 

Censura-me por eu me recusar a alinhar com os contrabandistas da Fonética, os corruptos da Morfologia, os sabotadores da Sintaxe; com os proxenetas da Língua e com os pederastas da Gramática.

 

Atira-me que mais sorte teria se pescasse à rede um cardume de palavras e o pendurasse num baraço feito com o meu nome.

 

Desisti da «bic laranja ponta fina».

 

Pequei num lápis.

 

Mal dei conta de ter começado a tamborilar na madeira a «Siboney»!

 

Para o que me havia de dar!

 

Onde diabo a mão, ou o lápis, foram buscar isto?!

 

Lembrei-me da fandanguice interpretativa do Paco de Lucia e da romântica interpretação de Connie Francis.

 

 

 

E fui escutar Xiomara Alfaro e Thomas Tirino.

 

O vento amainou. E a chuva voltou, mas a merujar, dando salpicados beijinhos doces nas telhas do meu telhado e na vidraça da janela do meu quarto.

 

Dou conta de uma espreitadela do sol. A janela do apartamento do lado de lá da rua cumpriu a lei da simetria e denunciou-me o astro rei com o lampejo que pôs a minha sombra na parede.

 

Veio-me à lembrança que amanhã, por decreto, é o dia mais curto do ano. E, talvez por isso, contrariado, o dia ande a mostrar, já hoje, muitas caras, a fazer algumas carrancas e a jogar «às escondidinhas».

 

O alarme da Farmácia, ali em frente, começou a gemer, aos soluços. A princípio ainda fazia chegar, em louca correria, o plantão da empresa de vigilância. Mas de tanto soar em falso, o plantão fica sempre em «à vontade!» Basta uma quebra de corrente eléctrica ou a passagem de um camião mais apressado para que o alarme da Farmácia se esganice.

 

A luz do dia vai definhando. O escuro da noite vai-se anunciando. Os automóveis circulam com os médios acesos, a iluminação pública está ligada.

 

Sente-se o correr de algumas persianas nas janelas e varandas de casas vizinhas.

 

Também eu acendi a luz do quarto e preparei a do candeeiro de mesa.

 

Só ainda não consegui encontrar o interruptor que acende a luz dos caminhos e dos atalhos que me conduzam à alegria, ao conforto e à inspiração de um psalmo à Vida …ou à Morte!


 

Luís Fernandes

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