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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Set11

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves


 

O doutor António Roque despediu-se da advocacia e por esse motivo foi homenageado com um jantar promovido pelos colegas, a alguns dos quais ensinou a profissão, naquilo que a universidade não ensina, sem esquecer “o que la natura no da Salamanca no lo presta”.

 

 Há anos que não vou aos convívios judiciais por motivos muito particulares, que nada têm a ver com as razões que estão na sua diversa origem, e assim, também não estive presente.

 

Não vou falar de António Roque, na sua condição de advogado.

 

O advogado não necessita de panegíricos ou orações corporativas e a sua reputação diz tudo.

 

A qualidade de benfiquista e perdoe-se o parêntese da aparente facécia numa despretensiosa lembrança que, talvez se exigisse mais séria, na qual tinha como fiel escudeiro, o Guerra, distinto escrivão e melhor pessoa, também reformado, serviu muitas vezes para quebrar a solenidade e a tensão dos tribunais e nunca foi motivo de acrimónia entre nós, antes suavizou a aspereza das funções de cada um.

 

Recordo com evidente satisfação, que fui eleito para a Assembleia Municipal de Chaves, como independente, integrado numa lista do Partido Socialista, honra que comparti com ele.

 

Recolho com saudade e humor, que, sentados numa das primeiras filas do desaparecido Cine-Teatro de Chaves, na companhia do falecido doutor Raimundo, este aproveitava os momentos mais monótonos das sessões para contar anedotas, o que, invariavelmente nos provocava alguma hilaridade que tentávamos ocultar da melhor forma que podíamos, mas que, pelo menos uma vez não conseguimos reprimir e mereceu a reprovação do presidente substituto, o nosso amigo comum Barros Rodrigues das Finanças.

 

É claro que nenhum de nós viu nisso, creio eu, qualquer grave reparo à nossa intervenção política ou desrespeito para aquele órgão, atendendo à inutilidade da maioria das matérias em discussão ou os frequentes despropósitos e ridículos da bancada maioritária.

 

 

Meu caro António Roque.

 

Mais vale tarde do que nunca e o prometido é devido e para aproveitar o final, vou matar dois coelhos duma cajadada só; o tema, embora na reforma, por certo não deixará de lhe ser querido e o meio foi sempre do seu gosto e um dos seus mais fiéis amores.

 

De velho alfarrábio, já sem capas e folhas soltas, que, ainda há pouco me caiu nas mãos, retirei este epigrama em verso, que lhe dedico com sincera estima e dizem ser filho espúrio de autor anónimo e outros da autoria de celebrado poeta de Cetóbriga:

 

* Inda novel demandista

Um letrado consultou,

Que, depois de cem perguntas,

Tal resposta lhe tornou;

 

Em Cujacios, em Menóchios,

Em Pegas, e Ordenação,

Em reinícolas, e extranhos

Tem carradas de razão.

 

«Sim, sim, por toda essa estante

Tem razão, razão de mais»

«Ah senhor! (o homem replica)

Tel-a-hei nos tribunaes?»

 

Comecei esta crónica em género epistolar e com regras muito minhas, que na maior parte das vezes ignoram cânones ou regras próprias do estilo, sem, no entanto permitirem o rasgar das investiduras de académicos…

 

Prosseguindo…

O amigo Fjr-Barreiro, há muito que merece uma carta aberta não só de mim como do blogue que faço parte, pela sua devoção e principalmente pelo acendrado carinho, que lá fora, mas muito perto acalenta pela cidade natal.

 

Os seus comentários escritos de forma simples, o que neles se manifesta é do mais puro que possa existir, não se obriga a facções, a mudanças de vento, antes são escrínio de uma nostalgia, que só a infância e possivelmente, parte da adolescência, permite…

 

 

Amores primeiros são normalmente derradeiros e não o sendo acompanham-nos toda a vida, como a primeira vez que recebemos um brinquedo, pelo Natal, por mais humilde que seja, o banco da escola, o recreio, os jogos de rua, as amizades, os vizinhos de porta com porta, as necessidades divididas, as amizades… enfim o crescer, de calções com uma das alças sem botão, as meias descaídas, as botas com um buraco na sola, as mãos com frieiras, que só com o pó de Maio desaparecem, eu sei lá… tantas e tantas coisas, que um cantinho do blogue não permitem exprimir com toda a saciedade de quem escreve ou lê.

 

Para mim seria uma grande alegria dizer-lhe que a casa onde morou com sua avó, na rua do Correio Velho, está como conheceu, embora não passe de uma ruína, causada pelo temor de um desmoronamento, onde apenas restam partes das paredes e uma formosa varanda que ainda conserva os seculares ferros da balaustrada.

 

Que os Canários não desapareceram e que no mesmo lugar nem as andorinhas fazem ninhos.

 

 

Que a Casa Espanhola ainda existe e continua a vender alpergatas, chocolates e caramelos aos frequentadores das Caldas, onde o António continua a trabalhar como faz-tudo e a vender sabonetes feitos com a água que brota das bicas e por estranho mistério, cheiram a limão e na embalagem aparece a imagem das Termas e abaixo os dizeres: Ach. Brito Braga.

 

Que na casa da esquina, encostada à do doutor Ângelo, ainda existe a taberna regida pela esposa de um empregado e motorista da viúva Magalhães, das mobílias, e que todos os domingos, pela manhã, tinha churros quentinhos… e esquecer a tragédia, dela se ter atirado à linha do comboio numa tarde já noite negra como o seu destino.

 

Gostava de lhe dizer tanto em tão pouco, como a cidade que é nossa continua a ser pequena e grande…

 

Pequena nas nossas ambições e grande no futuro que lhe desejamos.

 


 

* Mantive a “graphia do texto”.

 

P.S. Amigo Fjr-Barreiro, a esposa do Senhor Abel faleceu, como se depreende do texto da crónica anterior.

 

 

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