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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Out11

Treze Contos do Mundo que Acabou - Tudo é o que tem de ser

 

 

CONTO XI


(1ª Parte)


Tudo é o que tem de ser

 

          Todos os dias, todos quantos Deus deitava ao mundo, andaria já em dois anos, para mais, que não para menos, a mãe lhe levava um taleiguinho com o caldo e o cibo do pão, batatas frescas com umas arganas de bacalhau, umas couves com chícharos bem azeitadas, ovos quando as pitas os não bicavam, uma alheira no tempo das matanças, ora de uma coisa ora de outra, consoante o jantarinho que amanhava também para ela.


          Sempre fora de boa boca, o seu Armindo, toda a vida os dentes dele rilharam bem as côdeas duras, onde até a lâmina da faca rechinava, e o ventre lhe aceitou a comida rebida, melhor que bucho de abade o manjar de Domingo Gordo. Ainda para mais agora, que não estava em condições de regatear, o que à rede viesse era peixe. E graças! Ela, mais não lhe podia fazer, bem lhe bastava já ter cabeça para andar naquele desassossego de vida, mais esquiva que a de um contrabandista, a trocar as voltas aos caminhos e a sair do povo mais sorrateira que a gineta brava, ora a regatear a alvorada aos galos, ora acoitada pelo breu da noite, para que no povo não dessem conta do destino que levava e a suspeita não viesse a denunciar-lhe os passos. Que os vizinhos bem o sabiam, mas era como se o não soubessem, que nunca a boca deles se abria que não fosse para jurar, pela luz destes dois que a terra há-de comer, que o Armindo se tinha raspado para o Brasil e, até à data de hoje, nunca mais mandara notícias. 

 


          Em horas assim, o certo é andar o mafarrico por esse mundo de Cristo, a armar esparrelas para a perdição das almas. Deus nos livre de uma má hora, foi sempre a oração que a mãe, a tia Donzília Rêpas, lhe recomendou que dissesse cada noite, antes que adormecesse, mas já se nem lembra da última vez que a rezou. Agora, enquanto a água quieta da presa escapa à sorrelfa pela adufa e se desfaz contra as penas de ferro do rodízio, em barulho chapinhado de espuma saltarica, de dia e de noite, num nunca mais acabar de horas a fio, sobra-lhe tempo à despaciência de encontrar razões para o que fez.


          Sim, o que tem de ser tem muita força, e naquela ocasião, ou eram os guardas ou ele. O que mais lhe custou a compreender foi como é que se deixou pegar de surpresa. Andava cego com o vício, ou cuidou que, como era domingo, estariam todos para a missa, e nem pela conta deu da chegada da patrulha. O mais certo era andarem já por ali à coca, depois que algum caçador de fora o tenha denunciado, com a inveja por ele se adiantar umas semanas à época da caça.


          Conforme lhe berraram que fizesse alto, e os da frente lhe apontaram os canos das armas, o remédio foi despejar-lhes os dois cartuchos no arcaboiço. Sim, que se um homem se põe com cerimónias numa altura destas, o mais certo é botarem-lhe a mão e levarem-no, sabe-se lá para onde e por quanto tempo, ficarem-lhe com o que tem e porem-no a ver o sol aos quadradinhos até apodrecer de esquecimento. O mais graduado, quando viu os colegas no chão, a escoar-se num sangradoiro, tomou-se de pavor, e as pernas não lhe foram mancas, a raspar-se pela touça abaixo, até que se achou dentro do jipe.


           Daí a umas horas, a casa da tia Donzília parecia um vespeiro de fardas, a revirarem tudo com modos brutos e palavras de poucos amigos, e, ali de roda, não houve casa de gente nem côrte de animal que escapasse à sanha desembestada da autoridade ferida. Do Armindo, é que nem sinal. Tivera ainda tempo e lembrança para se desfazer da espingarda, em lugar onde nem o maligno se lembraria de esconder as almas que rouba. À conta disso, quem não teve mais remédio senão entrar de cúmplice foi o padre Morais. Estava a correr o ferrolho da porta da sacristia quando deu com os olhos nele, mais branco que um lençol de linho fino e um tremedoiro tal nas mãos, nem que tivesse caído ao fundão do rigueiro em manhã de carambelo.


          - Se vens para a missa, não paga a pena correres que já não chegas a tempo! Tu que tens, rapaz, viste lobo ou saíu-te o diabo ao caminho?


          - Entre para dentro da igreja, senhor abade, que tem que me ouvir de confissão.


          - Pois que não seja por isso! Agora a espingarda, deixa-a pousada aí sobre a arca dos paramentos, que na igreja não sinto que te faça falta.

 

 


          Antes que a infinita misericórdia divina derramasse a sacramental barrela purificadora sobre aquela alma enferretada por tão feio pecado, e a mão traçasse em cruz o gesto redentor do Ego te absolvo, já o padre Morais tinha congeminado uma saída para a camisa de sete varas em que ambos se achavam metidos. Ainda assim, em penitência, carregou-lhe forte na conta dos padre-nossos, não fosse ele cuidar que bastava encostar a boca na rede do confessionário e alijar a carga sobre a alma sem fundo do velho confessor.


          - O que não tem remédio, remediado está! Fazes tudo conforme te digo e deixas o resto por minha conta. É melhor que a tua mãe o saiba por mim, e quanto antes melhor, para que não se descaia se a apertarem, que é o que temos de mais certo. Não tarda, vão andar aí sobre ela, que nem algozes. Vai, agora vai em paz, e que Deus te perdoe!


          Caíu-lhe a alma aos pés, assim que viu entrar-lhe a figura negra do padre pela cozinha adentro, com cara de caso, e antes que a boca dele se abrisse, lançou-lhe um suspiro angustioso:


          - Sucedeu alguma coisa ruim com o meu Armindo?!


Era como se o padre tivesse arrancado as cinco espadas da imagem sofrida da Senhora das Dores e lhas tivesse varado no peito a ela, ao direito do coração. Não botou uma lágrima que fosse, como se em toda a vida não tivesse esperado por outra coisa. Ouviu tudo até ao fim sem arredar os olhos dos dele, numa resignação de passarinho encocado pela cobra que o vai engolir, e depois das recomendações, por causa dos interrogatórios e das devassas que aí vinham, fez que sim com a cabeça e murmurou, conformada:


          - Pois seja como diz, se é da vontade de Deus…

 

(continua)

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