Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos
O NANO DO CARREGAL
O Adriano do Carregal — povoação a umas duas léguas de Carrazedo Montenegro — é hoje rapaz para mais de meio século. Fez a instrução primária comigo em Adães, mas mal aprendeu a ler e a escrever. A contar nunca precisou de aprender!
O Nano era um lafrau que nunca vi doente ou triste!
Descalço e com calças de serrubeco remendadas no rabo, vencia, à pata, como todos aliás, os três quilómetros para a escola como se nada fosse, mesmo nesses invernos em que a neve dava pelo joelho! Da lousa, comprada no início do ano, restava apenas um pequeno caco esbotenado na sacola surrenta que usava à tiracolo. Cadernos, lápis ou esferográficas, qual quê?! Escrevia com um ponteiro minúsculo de ardósia e apagava com a saliva e a ajuda da manga do mesmo casaco que usava desde os seis anos. A merenda era invariavelmente a mesma: um naco esboroado de pão seco de centeio, duro como cornos. No inverno lá ia comendo o coto duma chouricita que algum lhe dava, mas era raro. No outono, vingava-se nos magustos feitos no monte com fronças de giesta branca. Na Primavera, tempo dos ninhos, passava a vida a cucar os ovos aos passarinhos. Topando o ninho chocalhava as pedrinhas para ver se tinham pito. Não lho sentindo fazia um furo na casca e, com uma palha centeia, chupava-lhe a alma. E era vê-lo regalado a lamber as beiças! No verão, safa-se com as pescoceiras. O Nano, não tinha pai na arte de caçar boieiras. Tendo bois no pasto acercava-se deles, aproveitava os montículos de terra que as toupeiras, vulgo ratas, faziam nos lameiros, armava aí o engenho com um saltão de isco e era vê-lo atrás de uma carvalha a espreitar, esperando que a vítima, gulosa, se atirasse ao insecto. Mal a infeliz ave mordia já o arcanho estava armado de novo. Depenado, o bicho, era enfiado numa verga de giesta onde esperava por companheiro. Numa tarde de agosto, o Nano conseguia encabar cambalhota de respeito – para mais de meia centena – e de peito feito atravessava o Prado com ar de herói. Os pais e os irmãos – uns dez – tinham festa rija nessa noite. Aguçando um guiço, espetava cada qual o seu rijão, tisnando-o no braseiro. Era um manjar digno de rei!
Ali pelos Santos, mal as primeiras chuvas se anunciavam, era raro ver o Nano na escola. Avizinhava-se o tempo dos míscaros e aguardava-o muito trabalho. Foçava touças e soutos e, com o faro do porco das trufas, não lhe escapava um cogumelo que fosse. Enfiava-os numa verga de castanho e aí vinha todo contente com duas ou três cambalhotas, como ele dizia. Claro está que os fungos pediam um estufado de carne ou outro qualquer peguilho que não avezava. Por isso ia para a estrada oferecer a mercadoria às pessoas que, raramente, por ali passavam de carro. Ganhava umas coroas que, à parte uns tostões que surripiava para rebuçados, serviam para afogar o pai em vinho.
Era alegre o Nano e fazia-nos felizes.
Quando não havia escola ia com duas ovelhitas ranhosas para o monte. Juntava-se por lá com outros marmanjos e, claro está, a brincadeira tomava o lugar das obrigações. Os animais esquecidos, conhecedores do terreno, procuravam as lambarices no renovo dos campos próximos. E era vê-los contentes a derrotar as couves, o nabal ou o centeio de qualquer vizinho. O Nano não se atrapalhava! Se fizessem queixa ao pai – zeloso de boa educação – e vendo-se ameaçado pela vara de marmeleiro, fugia. Servia-lhe de cama qualquer manjedoura. À fome, como assim, já estava habituado! Um dia, ameaçado de morte pelo pai e tomando a coisa a sério, pisgou-se. Ao terceiro dia ainda não tinha aparecido, pelo que pôs a aldeia toda em polvorosa Vasculharam-se os poços, as minas e os palheiros e nada do mariola. Apareceu ao quinto dia, como se nada fosse, sorrateiro e de boa saúde. Outras vezes, quando não havia que fazer, divertia-se a ordenhar as ovelhas para uma malga feita do carolo de pão centeio e a beber o leite do úbere, ainda quente. E que bem lhe sabia!
Uma dia o Nano ia-me matando. Era pelo Natal, tinha caído um daqueles nevões antigos. Não havia nada para fazer senão jogar ao tchincalhão no palheiro. Era o que fazíamos.
— Vamos aos coelhos! — propôs o Nano.
Era difícil resistir ao desafio e lá fomos uns quatro. Antes, porém, convenceu-me a rapinar umas pedras de enxofre ao meu avô que sobraram do tratamento da vinha de Cova do Ladrão. Palhitos tinha ele. A estratégia consistia em pôr o enxofre a arder no fundo da mina seca dos Cáximos, que afiançava ter coelhos com’ó carvalho. Depois esperava-se à porta que os bichos, espavoridos, saíssem e colhiam-se à paulada.
Lá fomos.
Dois guardavam a entrada e os outros, com uns fatchucos de palha a fazer de tochas, tinham de chegar o fogo ao produto no fundo do minoco. Coube-me a mim e ao Nano esta espinhosa tarefa. Chegados às entranhas da terra, já com a tocha a perder a alma, botámos fogo ao enxofre que ardendo como pólvora punha uma luz fantasmagórica no teto da mina. O fumo era repugnante, tóxico e o pior é que corria mais do que nós para a saída. Sem luz, com a peste a envenenar-nos e a tropeçar a cada passo, foi o bom e o bonito para sair dali!..
Quando chegámos à boca do túnel, vínhamos brancos como a cal.
Coelhos, nem vê-los! O pior era como havia eu de justificar o vermelhão dos olhos e a tosse irritante em casa?
Boa te vai!
Muitas outras peripécias podia contar deste Nano!..
Eu bem queria, bem tentava, mas confesso que nunca fui capaz de ser como ele!
Quem é que no seu tempo de puto não teve um amigo como este?
Hoje, o Nano do Carregal, trabalha lá para as Espanhas. Constou-me que está queimado pelo álcool. Não me surpreende!..
Que saudade eu tenho do Nano, dos ninhos da carriça e da largura do tempo de outro tempo!
Gil Santos



