Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro
«Mau partido»
Do Cimo de Vila desceu lá abaixo, à cidade.
Foi muito a custo que convenceu o pai e a mãe a deixá-la ir com eles.
Todas as Quartas são dias de Feira, lá, na sede do Concelho.
A mãe e o pai sabiam que a Aninhas andava de amores com aquele estudante da aldeia vizinha.
A Tropa chamara-o para Quartéis do Sul, e isso talvez fosse uma boa oportunidade de a afastar de vez desse «mau partido» - segredaram os pais da Aninhas ao compadre e à comadre, à saída da missa domingueira, empurrados pela lembrança de oração que o abade pediu pelos «nossos militares a combater no Ultramar».
Cacilda, a mãe d’Aninhas, suspirava por conseguir um bom casamento para a filha.
Desde que o candidato tivesse uma vinha, uma junta de bois, duas juntas de vacas, três lameiros, quatro bouças; ou um rebanho de ovelhas, duas hortas, três quintais e uma cortinha; viesse passar férias, de África, do Brasil …ou de Lisboa; e se até fosse primo direito da sua filha, à Tia Cacilda era o que verdadeiramente lhe agradava.
Agora, que a sua Aninhas namorasse com um rapazola sem um palmo de terra, ‘inda por cima estudante, namoradeiro e, sabe Deus, quantas já não teria «enganado! – constava-se - ai, lá isso é que não entendia , nem aceitava!
A Tia Cacilda estava avisada de que o galferro que andava atrás da sua rapariga mais velha tinha vindo à terra em licença de mobilização, e que, ao fim desses quatro ou cinco dias, embarcaria para a «Guerra do Ultramar».
Desconfiava que a sua Aninhas quisesse ir à cidade despedir-se dele.
As “caminetes” com a excursão de militares costumavam partir do Largo da Madalena.
A “Feira dos Recos”, sempre muito concorrida, era no “Campo da Fonte”, ao redor da Capela de S. Bento, ali pegado às traseiras da Farmácia e do Largo da partida.
Mesmo que por ali passasse à hora do ajuntamento dos magalas, a Aninhas não correria perigo de ser raptada ou devorada pelo galferro-estudante.
E, assim, a Aninhas lá desceu de Cimo de Vila até à Baixa da cidade.
Naquele mês de Dezembro, o Inverno, mesmo sem ter chegado às varandas do solstício, já havia atravessado a fronteira de Espanha.
Cabeza de Manzaneda mostrava-se garbosa com o seu largo manto de neve. E o Larouco já revelava a crista bem branquinha!
Terça-feira à noite, na véspera da partida para o embarque, o céu prometia uma boa geada. O Quarto Crescente lunar, mais brilhante do que a estrela que guiou os Reis Magos, alumiou os atalhos e os caminhos que levavam da aldeia dele à aldeia dela.
A Aninhas tinha combinado com a irmã Teresa irem dormir, naquela noite, com as duas amigas vizinhas, moradoras na casa do outro lado do caminho. Era um hábito que vinha desde há muitos anos.
Tia Cacilda e o seu «home», o Ti Zé do Ó, não tinham por que estranhar ou desconfiar.
A noite já ia entrada.
A janela do quarto das raparigas, uns bons três metros acima do chão, abriu-se.
Uma vela acesa alumiou uma sombra que acenava.
O mobilizado estudante saiu de trás das giestas onde se agachara, saltou o muro de três palmos, que separava o monte da cortinha, atravessou esta mais rápido que um relâmpago, enfiou um pé certeiro num buraco de respiro da adega e pulou para a janela, onde quatro mãos lhe garantiram a segurança dos braços e o ajudaram a pinchar para dentro do quarto das raparigas.
A vela apagou-se. A surda risota das moças foi demorada.
A cama de nascente ficou para os pombinhos.
Na de poente, aninharam-se as três amigas, em cochichos e risadinhas abafadas.
Pelas quatro da madrugada, a Aninhas e o seu militar continuavam soldadinhos desde a boca até aos pés.
Foi a Ondina que lhes lembrou o perigo da proximidade do romper do dia.
Janela reaberta, bem seguro no beiral, o pé do magala encontrou a friesta da adega. Um último beijinho, tão bem rematado com um suspiro, o salto para o chão e o passo apressado e sorrateiro até à saída do «pobo».
Depois, por carreiros, atalhos e caminhos, uma corrida rápida até casa, para as últimas horas de sono e de sonhos na sua aldeia natal.
Na Quarta-feira, na hora da partida, resguardada no portão do Jardim Público, a Aninhas do Cimo de Vila dizia adeus ao seu soldadinho tão soldadinho ao seu peito.
Vigilante, encostada à montra dos “Volkswaguenas do Emílio” e disfarçada pela casota da PVT, a Tia Cacilda benzeu-se aliviada por ver a «caminete» seguir direitinha à recta de “OuteirJozão”.
Tupamaro



