Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

04
Nov11

Discursos Sobre a Cidade - Por Tupamaro


 

 

«Mau  partido»

 

 

 

Do Cimo de Vila desceu lá abaixo, à cidade.

 

Foi muito a custo que convenceu o pai e a mãe a deixá-la ir com eles.

 

Todas as Quartas são dias de Feira, lá, na sede do Concelho.

 

A mãe e o pai sabiam que a Aninhas andava de amores com aquele estudante da aldeia vizinha.

 

A Tropa chamara-o para Quartéis do Sul, e isso talvez fosse uma boa oportunidade de a afastar de vez desse «mau partido»   -    segredaram os pais da Aninhas ao compadre e à comadre, à saída da missa domingueira, empurrados pela lembrança de oração que o abade pediu pelos «nossos militares a combater no Ultramar».

 

Cacilda, a mãe d’Aninhas, suspirava por conseguir um bom casamento para a filha.

 

Desde que o candidato tivesse uma vinha,  uma junta de bois, duas juntas de vacas, três lameiros, quatro bouças; ou um rebanho de ovelhas, duas hortas, três quintais e uma cortinha; viesse passar férias, de África, do Brasil …ou de Lisboa; e se até fosse primo direito da sua filha, à Tia Cacilda era o que verdadeiramente lhe agradava.

 

Agora, que a sua Aninhas namorasse com um rapazola sem um palmo de terra, ‘inda por cima estudante, namoradeiro e, sabe Deus, quantas já não teria «enganado! – constava-se  -    ai, lá isso é que não entendia , nem aceitava!

 

A Tia Cacilda estava avisada de que o galferro que andava atrás da sua rapariga mais velha tinha vindo à terra em licença de mobilização, e que, ao fim desses quatro ou cinco dias, embarcaria para a «Guerra do Ultramar».

 

Desconfiava que a sua Aninhas quisesse ir à cidade despedir-se dele.

 

As “caminetes” com a excursão de militares costumavam partir do Largo da Madalena.

 

A “Feira dos Recos”, sempre muito concorrida, era no “Campo da Fonte”, ao redor da Capela de S. Bento, ali pegado às traseiras da Farmácia  e do Largo da partida.

 

Mesmo que por ali passasse à hora do ajuntamento dos magalas, a Aninhas não correria perigo de ser raptada ou devorada pelo galferro-estudante.

 

E, assim, a Aninhas lá desceu de Cimo de Vila até à Baixa da cidade.

 

Naquele mês de Dezembro, o Inverno, mesmo sem ter chegado às varandas do solstício, já havia atravessado a fronteira de Espanha.

 

Cabeza de Manzaneda mostrava-se garbosa com o seu largo manto de neve. E o Larouco já revelava a crista bem branquinha!

 

Terça-feira à noite, na véspera da partida para o embarque, o céu prometia uma boa geada. O Quarto Crescente lunar, mais brilhante do que a estrela que guiou os Reis Magos, alumiou os atalhos e os caminhos que levavam da aldeia dele à aldeia dela.

 

A Aninhas tinha combinado com a irmã Teresa irem dormir, naquela noite, com as duas amigas vizinhas, moradoras na casa do outro lado do caminho. Era um hábito que vinha desde há muitos anos.

 

Tia Cacilda e o seu «home», o Ti Zé do Ó, não tinham por que estranhar ou desconfiar.

 

A noite já ia entrada.

 

A janela do quarto das raparigas, uns bons três metros acima do chão, abriu-se.

 

Uma vela acesa alumiou uma sombra que acenava.

 

O mobilizado estudante saiu de trás das giestas onde se agachara, saltou o muro de três palmos, que separava o monte da cortinha, atravessou esta mais rápido que um relâmpago, enfiou um pé certeiro num buraco de respiro da adega e pulou para a janela, onde quatro mãos lhe garantiram a segurança dos braços e o ajudaram a pinchar para dentro do quarto das raparigas.

 

A vela apagou-se. A surda risota das moças foi demorada.

 

A cama de nascente ficou para os pombinhos.

 

Na de poente, aninharam-se as três amigas, em cochichos e risadinhas abafadas.

 

Pelas quatro da madrugada, a Aninhas e o seu militar continuavam soldadinhos desde a boca até aos pés.

 

Foi a Ondina que lhes lembrou o perigo da proximidade do romper do dia.

 

Janela reaberta, bem seguro no beiral, o  pé do magala encontrou a friesta da adega. Um último beijinho, tão bem rematado com um suspiro, o salto para o chão e o passo apressado e sorrateiro até à saída do «pobo».

 

Depois, por carreiros, atalhos e caminhos, uma corrida rápida até casa, para as últimas horas de sono e de sonhos na sua aldeia natal.

 

Na Quarta-feira, na hora da partida, resguardada no portão do Jardim Público, a Aninhas do Cimo de Vila dizia adeus ao seu soldadinho tão soldadinho ao seu peito.

 

Vigilante, encostada à montra dos “Volkswaguenas do Emílio” e disfarçada pela casota da PVT, a Tia Cacilda benzeu-se aliviada por ver a «caminete» seguir direitinha à recta de “OuteirJozão”.

 
Tupamaro

 


Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

1600-(61066)-21-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Caríssimo, sou seu seguidor desde há muito muito t...

    • cid simoes

      Caro Fernando, é uma notícia triste, criei uma afe...

    • Anónimo

      É pena que assim aconteça! Este Blogue, quanto a m...

    • Anónimo

      Que pena!Mesmo assim, como se diz em inglês, "You ...

    • FJR

      Só me resta agradecer tudo o que fizeste e não foi...

    FB