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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Nov11

Quem conta um ponto...


 

 

Arturo Pérez-Reverte, os cestos da rua de Santo António e a Agenda (Axenda) Cultural

 

A minha amiga G. bem teima para que eu leia alguns dos novos romances de Arturo Pérez-Reverte. Ela teima. E eu resisto. Não gosto de romances de aventuras. Embirro com eles. Prefiro de longe o irónico e deslumbrante “Tambor de Lata” de Günter Grass ou o encantador “O Retorno” da Dulce Maria Cardoso, dois magníficos livros que recomendo como quem se confessa. No entanto, algumas das entrevistas do romancista espanhol são relativamente interessantes. Não tivesse sido Arturo um repórter de guerra. Por exemplo, diz que a coisa mais importante que aprendeu com a guerra foi que não há fronteiras claras entre o bem e o mal. Pensa que vivemos actualmente numa sociedade estúpida, na qual tudo é considerado bom ou mau. Kadhafi era mau e os ecologistas e os amigos dos animais são bons. A vida é muito mais complicada do que isso. Na sua perspetiva todos estamos a saltar de um lado para o outro da linha.

 

Perguntaram-lhe se acredita que as lições de História podem melhorar a condição humana. Ele disse que sim, mas… “num lugar normal, de gente culta, de gente razoável. Na Península Ibérica nunca aprendemos e nunca aprenderemos a lição. Nunca. Somos muito maus alunos da nossa própria História”.

 

Questionado sobre se considera isso uma fatalidade, o escritor espanhol respondeu que “as fatalidades criam-nas os povos, com o seu caráter. É sobretudo uma questão de cultura.” (Sobre cultura aconselhamos a leitura do PS desta crónica.) “Tenho uma teoria. (…) Creio que o mundo ibérico – e o mundo latino, em geral – escolheu o Deus errado no Concílio de Trento, quando começou o protestantismo, a Igreja Católica teve de eleger entre um Deus protestante – comerciante, burguês, progressista – e um Deus católico – reacionário, triste, hierárquico. E a Igreja escolheu o Deus obscuro e sombrio. Perdemos aí a nossa oportunidade. Esse Deus católico marcou-nos desde então, colocou-nos nas mãos dos padres e reis e bispos e aristocratas durante muitos séculos. Foi assim que ficámos para trás. É uma questão de cultura (Sobre cultura, insistimos na proposta de leitura do PS desta crónica). Faltou-nos a cultura (Sobre cultura voltamos a aconselhar a leitura do PS desta crónica) burguesa.”

 

O homem afirma-se não crente. O que postos perante as atrocidades que se praticaram, e ainda hoje se praticam, em nome da religião, é uma bênção divina que eu também defendo.

 

Arturo Pérez-Reverte teve fé, quando jovem, mas perdeu-a quando observou aquilo que se passa na guerra, “quando vi as crianças, as violações, o ser humano a exercer a sua crueldade inata sobre os outros seres humanos. Vi a injustiça que há em tudo e percebi que não podia haver um árbitro a organizar isto. Era impossível. Percebi que só existem as regras do caos, de um mundo cruel.”

 

De tudo isto ia dando conta ao meu amigo R., quando, ao virar na esquina do Lopes, como quem vem da Eira, nos deparámos com um espetáculo de um gosto mais que duvidoso. Estou a referir-me aos cestos de pedras, intervalados por bancos de 2500 euros a unidade, que servem para os transeuntes ficarem sentados virados para as paredes e portas dos estabelecimentos da rua de Santo António, que foram instalados nos passeios para dividirem aquilo que estava dividido e que, com a intervenção recente de levantamento do piso, deixou de o estar.

 

O R., posto perante esta intervenção de mau gosto, questionou-me sobre se eu sabia de quem era a responsabilidade por esta “ingerência”, que, além do mau gosto evidente, custa milhares de euros à autarquia. Disse-lhe que desconheço de quem é a autoria, mas lembrei-lhe que me parece uma obra dispensável desde o início, além de, como já referi, custar muito dinheiro aos bolsos de todos os contribuintes, que, nestas como noutras coisas, nunca são tidos nem achados. É evidente que os empreiteiros têm muita força eleitoral. Especialmente nos contributos generosos que dão aos partidos políticos por esse país fora. Daí a nossa modernidade. Daí o nosso progresso.

 

A verdade é que o vice-presidente da nossa autarquia anda já em pré-campanha eleitoral, perseguindo furiosamente as obras, os eventos e as efemérides. Afinal, onde pára o senhor presidente? Será que pretendem que ele delineie a mesma encenação que o seu antecessor, quando deixou, dois anos antes do término do seu mandato, o seu delfim na presidência?

 

Pusemo-nos a olhar para aqueles cestos de plástico com aparas de coco à superfície, a reparar nos caros arbustos que plantaram lá dentro e veio-nos à cabeça uma ideia: a obra de arte só podia ser, na minha opinião, de um engenheiro agrícola que nunca trabalhou na área, ou, na opinião do R., de um arquiteto paisagista conservador e ligeiramente estrábico.

 

Vindo de baixo, ainda a rir-se por causa dos cestos, o F. convidou-nos para uma visita à exposição dos Lumbudus. Depois de comprar três garrafas de vinho tinto da Quinta de Arcossó, com rótulos de fotografias de vários membros da associação, fomos até à casa do R. comer umas fatias de presunto e queijo da serra, mas pagos do nosso próprio bolso, pois, ao que soubemos, alguns gabirús, com a desculpa de representação oficial, comem polvo à borla nas tendas da especialidade.

 

Depois tive outra epifania, como se uma voz viesse do além: “Está provado que a Câmara de Chaves não sabe o que o povo quer e o povo também já desistiu de tentar saber o que é que a Câmara verdadeiramente pretende.”

 

PS – O prometido é devido. Por isso, novamente regressamos à já célebre Agenda (Axenda) Cultural da Eurocidade Chaves-Verín, seja lá isso o que for, e sirva lá isso para o que servir (para alguns tachos, estamos em crer).

 

A cada mês que passa, a Agenda (Axenda), perde em música e espetáculos, para ganhar naquilo que a Eurocidade, através das Termas de Chaves – SPA do Imperador, se vai especializando e promovendo como a alma da proposta cultural de qualidade da nossa cidade: As palestras sobre pedologia e afins.

 

Durante o mês de outubro realizaram-se, nada mais nada menos, do que onze. A saber: Calos e calosidades: causas e tratamentos; A importância da roda dos alimentos; Osteoporose – fatores preventivos; Dor dos seus pés: causas e tratamentos; A menopausa e a alimentação; Dieta mediterrânea: um padrão de vida; Mitos sobre os pés; Os mitos da alimentação; A alimentação dos nossos filhos e netos; Doença das unhas: causas e tratamentos; Como nutrir o seu coração – doenças cardiovasculares; Um workshop: Pão e cereais, (inscrição a 7 euros). E uma caminhada: Dar aos anos mais vida, dar mais anos à vida, (Inscrições a 5 euros). É obra.

 

Cá para nós, que ninguém nos ouve, alguém na Câmara anda a tentar ganhar algum prémio internacional que distinga a originalidade e o pioneirismo em animação cultural em cidades de província. Se assim é, tem desde já o nosso mais caloroso apoio. Nós não só apoiamos a original ideia entusiasticamente como a subscrevemos por inteiro. Por muito que isso custe aos críticos do costume.

 

João Madureira

 


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