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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Dez11

Quem conta um ponto... O Hal 9000 e o Anjo Vingador

 

 

O Hal 9000 e o Anjo Vingador

 

O senhor ministro das finanças de Portugal foi definido nos jornais como um homem que tem sentido de humor (quem diria!?), e que ele é tão peculiar como a sua maneira de falar ou as suas caraterísticas olheiras. Vítor Gaspar confessou: “Rio-me imensas vezes de mim próprio.” Esta situação até teria alguma graça se não fosse ele quem é: o efetivo PM de Portugal e intrépido representante da ortodoxia neo-neo-liberal do BCE no Governo Português.

 

Por isso não sabemos se se ri dele mesmo porque nos faz tão mal, porque nos vê chorar, porque não sabe bem o que faz, porque não faz bem o que diz, porque não diz tudo o que sabe, porque não sabe chorar, porque não sabe rir, porque não se leva a sério, porque não sabe que com coisas sérias não se brinca, ou porque para ele é indiferente que o seu povo sofra o que está a sofrer com os punhos cerrados e as lágrimas a caírem-lhe dos olhos como pedras de granizo, com toda a raiva do mundo, por ter acreditado nesta rapaziada que agora esta à frente dos destinos da Nação.

 

Há quem se ria de si próprio porque sim, ou porque tanto faz. E parece que o senhor ministro faz alarde disso. No entanto existem outros governantes, logicamente não pertencentes ao Governo Português, que quando se veem na situação dramática de terem de implementar medidas gravosas para o seu povo choram, como foi o caso da ministra do Trabalho da Itália. São estilos, dir-me-ão alguns. Não, meus amigos, não. Não sãos estilos, são sensibilidades, são sentimentos, são formas distintas de estar na vida.

 

Vítor Gaspar anunciou os brutais cortes dos subsídios aos funcionários públicos e pensionistas com o ar mais tranquilo do mundo, como se isso fosse uma coisa natural, como se daí não viesse mal ao mundo, como se não afetasse profundamente, e de forma irreversível, a qualidade de vida das pessoas. Como se fosse mesmo a coisa mais trivial. E disse-o no tom neutro das máquinas, ou no tom irritante dos burocratas.

 

A ministra italiana tem consciência daquilo que faz, conhece a realidade. Como sabe que o seu povo vai sofrer com os cortes dos salários e pensões, emociona-se e chora. O nosso ministro das finanças faz-me lembrar o HAL 9000 (ou mais especificamente o Algorítmico Heuristicamente Programado ), um  personagem ficcional do filme “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick.

 

Vítor Gaspar é quase tão frio como o Hal 9000, fala no mesmo registo monocórdico e frio, não altera a expressão do rosto. Diz-nos que sorri. É bem possível que sim. Nisso difere da máquina de Kubrick, o Hal lutava pela sua sobrevivência, o Vítor Gaspar luta pela sobrevivência dos mercados financeiros, dos bancos e dos especuladores bolsistas. É um pau mandado dos banqueiros, do BCE e da dupla Merkel/Sarkozy. Por isso se ri enquanto nós choramos.

 

E enquanto choramos de raiva, o Primeiro-Ministro, com a absoluta firmeza dos insensíveis, admite ter ainda de vir a aumentar o pacote da austeridade. Talvez seja disso (ou por isso) que o senhor ministro das Finanças sorri: da austeridade sem fim, da vingança sobre o seu povo, que ele julga rico e gastador, que ele considera preguiçoso e calaceiro.

 

Pedro Passos Coelho, porque criticou os tons cor-de-rosa com que o seu antecessor coloria a realidade, resolveu pintá-la de preto, como sinal da miséria que aí vem. O PM decidiu, qual anjo vingador, punir o seu povo pelos putativos excessos consumistas das duas últimas décadas.

 

A um político exige-se que saiba gerir as legítimas expetativas dos seus concidadãos, não que as defraude, não que as estigmatize, não que as destrua.

 

PPC exige mais horas de trabalho em troca de menos dinheiro e de menos direitos. Ele nem sequer é um pai severo, é, definitivamente, um padrasto irresponsável e castigador que pretende que o enteado trabalhe de graça e a seco em troca da bucha e da garrafa de tinto, enquanto leva umas ripeiradas no lombo, porque sim.

 

O ministro que sorri de si próprio é o verdadeiro ideólogo do Governo. E como o Governo não tem ideologia, a não ser a da ortodoxia financeira, aceitou de bom grado que só em comissões, Portugal vá pagar à troika 655 milhões de euros e que em juros o país desembolse mais de sete mil milhões de euros. Vê-se que Vítor Gaspar viveu muitos anos no estrangeiro.

 

Portugal, para ele, é uma realidade obscura. O que sabe de nós é pelos fracos indicadores económicos. Por isso, pegou na folha de cálculo excel e aí vai de fazer contas. Depois resolveu aplicar integralmente a receita que lhe impuseram no BCE. Como só pensa como uma máquina, cuida que a realidade vai ter de bater certo com os números. Por isso não se deixa impressionar com a realidade social do país, não se deixa comover com a pobreza emergente, nem se deixa influenciar pelos protestos públicos.

 

Todas as pastas essenciais do Governo foram entregues a independentes: Vítor Gaspar nas Finanças, Paulo Macedo na Saúde, Álvaro dos Santos na Economia e Nuno Crato na Educação). Todos os outros são verbos de encher. Até o PM.

 

Os elementos que constituem o “Bando dos Quatro” são todos fidelíssimos homens da Regisconta. Todos pensam exclusivamente em números. Para eles um país é um livro de contas onde apenas subsistem duas partes: o deve e o haver. Este “Bando”acredita piamente que do choque económico e social, que estão a implementar no país, ressurgirá em pleno, qual Fénix renascida das cinzas, um Portugal de economia moderna, competitiva e inovadora. Sonham que da abolição do Estado nascerá uma classe empresarial que criará riqueza e emprego.

 

E tudo isto porque o Primeiro-Ministro tem a convicção profunda que o Estado é a causa de todos os males. Para ele tudo o que é público funciona desgraçamente e dá prejuízo. Além disso, quase todos os funcionários do Estado são, salvo a honrosa exceção dos militantes e simpatizantes do PSD, uns ociosos e incompetentes que têm de ser despedidos. Por isso está determinado em extinguir serviços, direcções-gerais, reduzir e cortar a eito nos ordenados, nas regalias, nos postos de trabalho e nas despesas de funcionamento dos serviços.

 

Pacheco Pereira afirmou no programa “Quadratura do Círculo” que, com a última entrevista dada na televisão, o líder do seu partido se assemelha cada vez mais a “um gestor de uma empresa em falência”. Com este rumo, está visto que o PM de Portugal faz tanta falta à frente do Governo como um cão numa missa.

 

Não é de descartar a possibilidade do chefe do executivo português vir a ser dispensado, à italiana, da chefia do executivo. Pois se isto piorar, e é bem possível que tal situação ocorra, a senhora Merkel, de quem o nosso PM se diz fiel aliado, poderá impor a substituição de Pedro Passos Coelho pelo impassível Vítor Gaspar. O que, convenhamos, até que lhe era bem feito. É sempre preferível o original à cópia.

 

Numa coisa António José Seguro tem razão, Passos Coelho, em vez de dar soluções, só nos presenteia com pesadelos.

 

João Madureira

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