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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Dez11

Intermitências - Inocência


 

Inocência

 

Queria chamar-lhe Inocência. Afinal era tudo verdade, o nascimento dela era o momento mais feliz da sua vida, como se nunca tivera vivido nada antes. A escolha do nome da menina é que deixara a família incrédula e dera mote a falatório lá na terra. “Inocência? Que raio de nome! Já não se usa!”.

 

Na verdade, nunca ninguém na família ostentara esse nome, nem ela o tinha desencantado em qualquer dicionário de nomes para bebés. Simplesmente viera-lhe um dia à lembrança. Os familiares tinham razão, era um nome completamente “fora de moda” e era geralmente empregue para acompanhar um desprezo. Com o tempo, iria desaparecer porque estava a perder o sentido, pensou. Mas porque é que uma palavra tão cheia de significado, que valoriza um atributo humano tão genuíno e tão bonito, estava a desaparecer? Qual era mesmo o sentido dessa palavra hoje em dia? Consultou o dicionário.

 

inocência s. f.

1. Qualidade ou estado de inocente.

2. Ignorância do mal; pureza; simplicidade, ingenuidade.

3. Isenção de culpa

 

E decidiu. Iria mesmo chamar Inocência à primeira filha. Por onde ela passasse, e todos os cumprimentos que motivasse, lembraria que tal palavra existiu. Seria uma espécie de símbolo da “simplicidade” neste mundo sem dó nem piedade e teria uma inaptidão total para a maldade. Ela educá-la-ia para essa missão.

 

“Coitada da garota… Muito vai sofrer com esse nome... Vão se rir dela”, preveniu-a a mãe. “Ela saberá defender-se… simplesmente”, respondia. “Esta vida já é tão malvada! Não lhe facilitava a existência chamar-se Maria, Ana ou Carolina?”. “Mas já pensaste no significado do nome?”. “Oh filha! E isso que interessa? Hoje já ninguém dá valor a nada…”. A mãe acabara de lhe dar mais um argumento a favor. Estava convencida que Inocência nascera por uma razão, tinha um desígnio.

 

Na mais tenra e terna idade, o rosto de Inocência iluminava-se sempre que chamavam pelo nome dela. Era uma pequena amorosa, alegre de espírito, mas algo faltou à sua vida de criança: o diminutivo. “Ino” era descabido e “inocênciazinha” quase impronunciável. A avó da menina ainda tentou o “cência”, mas quando o lançava, ouvia sempre resposta torta: “O quê? Ciência? Desde quando é que tu percebes alguma disso?”. Soltava um suspiro inconformado e fulminava a filha com um olhar reprovador, mas esta não se comovia. Nunca tinha associado o nome da sua pequena ao génio científico. Quem sabe se ela ainda teria uma queda para estudar os mistérios do universo, sonhava.

 

Fotografia de Sandra PereiraFotografia de Sandra Pereira

 

Quando chegou a idade dos porquês, chegou a altura das explicações. Ainda antes de lhe perguntar se o Pai Natal existia ou como apareciam os bebés, Inocência, um dia ao chegar da escola, agarrou-se às saias da mãe. “Porque me chamo Inocência?”. “Porque é um nome lindo como tu”, sorria a mãe, curiosa em saber o motivo da pergunta. “Na escola, todos dizem que é feio, que é nome de velha!”, balbuciava a menina. “Velho são os trapos e quem diz isso! É o nome mais novo que existe. Conheces outra menina como tu chamada assim?”. “Não…”. “Pois é filhota, tens que é de estar orgulhosa, só as meninas muito boazinhas e bem-educadas é que se chamam assim!”. A explicação satisfez Inocência. A verdade é que o nome assentava-lhe bem: era doce e pura, como uma autêntica pérola rara.

 

Pior foi a entrada para a adolescência. Quando Inocência se apercebeu que não escolhera a escola que tinha, nem a família que tinha, nem sequer o nome. Um dia regressou da escola num monólogo agressivo para a progenitora. “Mas que raio de nome! Ninguém se chama assim! O que é que te deu para me pores esse nome?”. “Bem sabes, achei a palavra tão bonita que merecia ser pronunciada muitas vezes. Já te expliquei o significado dela”, respondeu-lhe a mãe. “Mas em que mundo é que tu vives? Estou farta que todos me vejam como a “coitadinha”, a “pobrezinha”, a “tolinha que não sabe nada da vida”…”, gritou-lhe. “Só pensa isso quem é ignorante”, devolveu-lhe serenamente a mãe. “Ignorante és tu, que parece que vives no país das maravilhas!”. Inocência bateu violentamente com a porta do quarto e a mãe sorriu. Embora lhe tivesse sido atribuído por herança da bisavó, afinal o nome dela também lhe assentava bem. Alice.

 

Inocência não tinha culpa no nome, mas as reacções que ele ia suscitando nas pessoas ao longo da sua vida reforçaram sempre e cada vez mais a convicção de Alice: como um nome associado a um valor que lhe era caro distinguira a sua filha dos outros e tornara-a única em cada momento da sua vida. A necessidade constante de defender e justificar o nome, bem como a visão prática da vida que essa necessidade lhe impusera, fortaleceram mesmo o carácter de Inocência numa sociedade em que todos eram sempre culpados. Acabou por estudar advocacia.

 

E como os olhos de Alice se encheram de lágrimas de orgulho quando assistiu ao primeiro julgamento da filha! Foi nesse momento que sentiu que a sua missão estava cumprida. Com 27 anos, Inocência tinha uma visão de justiça e uma força para levar avante as suas ideias que parecia um autêntico milagre da natureza. E com isso conservara a (in)genuidade, ao rir-se dos trocadilhos e graçolas dos colegas sempre que ela entrava num tribunal para defender um cliente. Já Alice só via Inocência bater-se contra um mundo recheado de desprezo pelos valores mais genuínos. E ainda alguém acha que este nome já não se usa? Só pensa isso quem ignora o bem.

 

Sandra Pereira

 

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