Intermitências - Inocência
Inocência
Queria chamar-lhe Inocência. Afinal era tudo verdade, o nascimento dela era o momento mais feliz da sua vida, como se nunca tivera vivido nada antes. A escolha do nome da menina é que deixara a família incrédula e dera mote a falatório lá na terra. “Inocência? Que raio de nome! Já não se usa!”.
Na verdade, nunca ninguém na família ostentara esse nome, nem ela o tinha desencantado em qualquer dicionário de nomes para bebés. Simplesmente viera-lhe um dia à lembrança. Os familiares tinham razão, era um nome completamente “fora de moda” e era geralmente empregue para acompanhar um desprezo. Com o tempo, iria desaparecer porque estava a perder o sentido, pensou. Mas porque é que uma palavra tão cheia de significado, que valoriza um atributo humano tão genuíno e tão bonito, estava a desaparecer? Qual era mesmo o sentido dessa palavra hoje em dia? Consultou o dicionário.
inocência s. f.
1. Qualidade ou estado de inocente.
2. Ignorância do mal; pureza; simplicidade, ingenuidade.
3. Isenção de culpa
E decidiu. Iria mesmo chamar Inocência à primeira filha. Por onde ela passasse, e todos os cumprimentos que motivasse, lembraria que tal palavra existiu. Seria uma espécie de símbolo da “simplicidade” neste mundo sem dó nem piedade e teria uma inaptidão total para a maldade. Ela educá-la-ia para essa missão.
“Coitada da garota… Muito vai sofrer com esse nome... Vão se rir dela”, preveniu-a a mãe. “Ela saberá defender-se… simplesmente”, respondia. “Esta vida já é tão malvada! Não lhe facilitava a existência chamar-se Maria, Ana ou Carolina?”. “Mas já pensaste no significado do nome?”. “Oh filha! E isso que interessa? Hoje já ninguém dá valor a nada…”. A mãe acabara de lhe dar mais um argumento a favor. Estava convencida que Inocência nascera por uma razão, tinha um desígnio.
Na mais tenra e terna idade, o rosto de Inocência iluminava-se sempre que chamavam pelo nome dela. Era uma pequena amorosa, alegre de espírito, mas algo faltou à sua vida de criança: o diminutivo. “Ino” era descabido e “inocênciazinha” quase impronunciável. A avó da menina ainda tentou o “cência”, mas quando o lançava, ouvia sempre resposta torta: “O quê? Ciência? Desde quando é que tu percebes alguma disso?”. Soltava um suspiro inconformado e fulminava a filha com um olhar reprovador, mas esta não se comovia. Nunca tinha associado o nome da sua pequena ao génio científico. Quem sabe se ela ainda teria uma queda para estudar os mistérios do universo, sonhava.
Quando chegou a idade dos porquês, chegou a altura das explicações. Ainda antes de lhe perguntar se o Pai Natal existia ou como apareciam os bebés, Inocência, um dia ao chegar da escola, agarrou-se às saias da mãe. “Porque me chamo Inocência?”. “Porque é um nome lindo como tu”, sorria a mãe, curiosa em saber o motivo da pergunta. “Na escola, todos dizem que é feio, que é nome de velha!”, balbuciava a menina. “Velho são os trapos e quem diz isso! É o nome mais novo que existe. Conheces outra menina como tu chamada assim?”. “Não…”. “Pois é filhota, tens que é de estar orgulhosa, só as meninas muito boazinhas e bem-educadas é que se chamam assim!”. A explicação satisfez Inocência. A verdade é que o nome assentava-lhe bem: era doce e pura, como uma autêntica pérola rara.
Pior foi a entrada para a adolescência. Quando Inocência se apercebeu que não escolhera a escola que tinha, nem a família que tinha, nem sequer o nome. Um dia regressou da escola num monólogo agressivo para a progenitora. “Mas que raio de nome! Ninguém se chama assim! O que é que te deu para me pores esse nome?”. “Bem sabes, achei a palavra tão bonita que merecia ser pronunciada muitas vezes. Já te expliquei o significado dela”, respondeu-lhe a mãe. “Mas em que mundo é que tu vives? Estou farta que todos me vejam como a “coitadinha”, a “pobrezinha”, a “tolinha que não sabe nada da vida”…”, gritou-lhe. “Só pensa isso quem é ignorante”, devolveu-lhe serenamente a mãe. “Ignorante és tu, que parece que vives no país das maravilhas!”. Inocência bateu violentamente com a porta do quarto e a mãe sorriu. Embora lhe tivesse sido atribuído por herança da bisavó, afinal o nome dela também lhe assentava bem. Alice.
Inocência não tinha culpa no nome, mas as reacções que ele ia suscitando nas pessoas ao longo da sua vida reforçaram sempre e cada vez mais a convicção de Alice: como um nome associado a um valor que lhe era caro distinguira a sua filha dos outros e tornara-a única em cada momento da sua vida. A necessidade constante de defender e justificar o nome, bem como a visão prática da vida que essa necessidade lhe impusera, fortaleceram mesmo o carácter de Inocência numa sociedade em que todos eram sempre culpados. Acabou por estudar advocacia.
E como os olhos de Alice se encheram de lágrimas de orgulho quando assistiu ao primeiro julgamento da filha! Foi nesse momento que sentiu que a sua missão estava cumprida. Com 27 anos, Inocência tinha uma visão de justiça e uma força para levar avante as suas ideias que parecia um autêntico milagre da natureza. E com isso conservara a (in)genuidade, ao rir-se dos trocadilhos e graçolas dos colegas sempre que ela entrava num tribunal para defender um cliente. Já Alice só via Inocência bater-se contra um mundo recheado de desprezo pelos valores mais genuínos. E ainda alguém acha que este nome já não se usa? Só pensa isso quem ignora o bem.
Sandra Pereira




