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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Abr12

O Homem sem Memória (97) - Por João Madureira

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

97 – Quando se mistura a noite, com prostitutas, homens debochados, poetas inconsequentes, comida e bebida, mais cedo ou mais tarde a mistela tende a explodir. E foi isso precisamente o que aconteceu.


O José porfiava insistentemente no seu Bocage. E lindo que ele era. Lindo, não na sua beleza física, que era discutível, como todos bem sabemos, mas antes na sua excelência poética. Mas função que mete artistas introduz obrigatoriamente debate. Os artistas são assim: conflituosos devido à sua inquietude. Então se forem assumidamente de esquerda são quase sempre insuportáveis. Ou melhor, são sempre insuportáveis.


Claro está que falar de “intelectuais” e “esquerda” em Névoa era uma boutade do tamanho do Larouco. Então falar de “intelectuais de esquerda” (porque “intelectuais de direita”, desde que Sartre lhes negou a existência, extinguiram-se como os dinossauros) na terra adotiva do José era desmesura de otimismo, ou, dito de outra forma, era um tremendo excesso de zelo. Gado deste tipo até pode nascer na província, mas só consegue medrar em Lisboa.


Resumindo, e abreviando, por aqui não havia gente de esquerda e, muito menos, intelectuais. Tudo por estas bandas era um arremedo circunspecto. Menos as prostitutas que eram pessoas de bons modos e suculentas carnes. Isto quando não falavam e somente porfiavam no seu mester. Na província as meretrizes não eram muito dadas à conversa. Tudo por aqui era pão pão, carne carne, sexo sexo e missinha missinha. E vinho, porra, e vinho, que era Baco e que também era sangue de Cristo.


Podemos afirmar, sem faltar muito à verdade, que a pinga era o principal elemento motivador de desordens. Por aqui manjar presunto, salpicões, chouriços, batatas, grelos e demais iguarias finas, não predispunha por aí além à controvérsia. Já quando se exagerava no tinto do Gorgoço, todo o cenário tendia a complicar-se de forma preocupante.


O Senhor A. podia tentar fornicar com a sua prostituta preferida, que ninguém notava. Muitas das vezes nem o próprio dava bem conta do sucedido. Nem ele nem a companhia. Mas daí não vinha mal ao mundo. O cavalheiro porque não se encorpava. A madame porque já tanto lhe fazia. Não é que o seu sexo se gastasse, amarrotasse, encolhesse ou distendesse de forma definitiva, como muita gente teimava em acreditar. A sua falta de entusiasmo tinha muito mais a ver com o fastio. Todos sabemos que usar é bom, até porque é a função que cria o órgão. Já abusar é maçador. E contraproducente, porque o desregramento cria resistências. E quanto mais abuso mais resistência… etc.


O senhor B. podia comer uma travessa de carne, beber meia remeia de tintol, ingurgitar uma giga de grelos e um pote de batatas, que ninguém lhe levava a mal. Podia arrotar, peidar-se e rir como um alarve, enquanto apalpava a sua prostituta de serviço, que nenhum dos tertuliantes reparava ou comentava.


O Senhor C. podia dançar o tango acompanhado pela prostituta dançarina, que bailava com todos mas só fornicava com o seu Um, que aparecia já quase manhãzinha embuçado no seu embuço, como muito bem lembra o fado de Lisboa (que um dia, ó glória!, chegará a património imaterial da humanidade, tal como o flamengo, que é uma canção de ciganos urbanizados e o tango, que, à semelhança do fado, é uma música monótona e fastidiosa de bordéis nascida nos prostíbulos dos bairros típicos das respetivas capitais nacionais) podia contar anedotas porcas, invocar Deus e o Demónio, jogar à lerpa por boa maquia, insultar o Salazar, o Cerejeira e o Américo Tomás que ninguém diria uma palavra em contra. Ou a favor. A não ser o tal personagem embuçado que remoncava sempre dentro do seu disfarce: “Não estivesse eu embuçado dentro do meu embuço e outro galo cantaria. Mas seja tudo pelas alminhas.”


Podia até o senhor Delegado de Saúde juntar o útil ao agradável e, enquanto se divertia, comia e bebia, muito para além dos seus sábios conselhos e da sua douta sapiência, trabalhar examinando o que tinha a examinar nas senhoras que distribuíam luxúria, para que a gonorreia e a sífilis não atacassem por junto os membros dos principais membros das forças vivas da cidade, que ninguém reparava ou tão-pouco achava incómodo.


Podia o senhor embuçado tentar cantar o fado enquanto tentava fornicar, por aposta múltipla, uma prostituta tão elástica que conseguia copular, fumar e fazer números de faquirismo sem se aleijar ou aleijar quem se aventurava a ser seu partner, que nem um ai se ouvia. E muito menos um ui.


Tudo isto e muitas mais coisas, que aqui não conto por competente timidez e subido respeito pelo direito à reserva dos estimados leitores e dos seus entes mais queridos, podiam acontecer que ninguém levava a mal.


Tudo comiam, tudo viam, tudo ouviam e nada diziam. Pareciam autênticos maçons, apesar de muitos não o serem e muitos outros serem associados apoiantes de algumas ordens religiosas. Mas quem não tem pecados que se atreva a atirar o primeiro calhau.


Tudo isto acontecia até ao momento em que o vinho subia à razão dos aprendizes de intelectuais de esquerda.

Nos distintos cavalheiros que tentavam divertir-se, talvez um pouco levianamente para a ocasião, para o seu estatuto social e para a época que lhes tocava viver, o vinho do Gorgoço dava-lhes para dormir como cavalos cansados, para fornicarem em seco e para cantarem o fado da Samaritana em honra das distintas samaritanas que tão bem os aturavam, ou o fado do Embuçado em honra do rei que apreciava embuçar-se para ir assistir a sessões marialvas de fados e guitarradas.


Por vezes, a algum dos mais bebidos dava-lhe para se armar em forte e tentava esmurrar o parceiro que ou arriscava gozar com a sua embriaguez ou com a sua incompetência para se manter macho ativo no seu entretenimento. Mas dali nada de significativo surgia.


Já no grupo dos letrados, o vinho tendia a originar discussões intermináveis, cada um tentado complicar cada vez mais argumentos já de si muito complicados. Ora isto quase sempre ia desaguar em disputas de egos, ideologias, gostos artísticos e preferências estéticas.


Todos no grupo sabiam que especialmente um quase intelectual, dado à pintura, quando bebia uns copos se tornava intratável. Sem vinho era uma joia de rapaz e um artista plástico com grande qualidade. Pintava quadros de um enorme sentido estético, alicerçado numa fina ironia conceptual. Mas com a pinga ficava insuportável.


Uma noite, já depois de muito porfiar no sexo, e de muito insultar um burguês anafado que teve a coragem de falar muito mal da pintura de Cherico, virou-se para o José e exigiu-lhe que declamasse, já que se julgava tão bom poeta, um poema de sua autoria. O José, sabendo do mau vinho do seu amigo pintor, fez que não ouviu. Mas o pintor insistiu e tornou a insistir até que na sala se fez silêncio, quando o José, virando-se para ele, lhe disse: “Posso não ter ainda escrito um grande poema, mas sou incapaz de plagiar.” Ao que o pintor retorquiu: “Como te atreves a acusar-me de plágio, tu um mísero aprendiz de Fernando Pessoa, que declama Bocage como uma freira disléxica?”


De insulto em insulto, a tensão subiu de tal modo que acabaram os dois à porrada. E a confusão cresceu tanto que, o Embuçado, contrafeito, teve de se desembuçar, e, em nome da autoridade conferida ao tenente da GNR, exigir calma enquanto estabelecia ligação com o seu plantão ordenando que a patrulha de serviço acudisse ao nº 19 da Rua das Gatas.

 

98 – Como num popular filme clássico da cinematografia nacional, dali rumaram ...

 

(continua)

 

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