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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Jul12

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O CABUGUEIRO

 

O Cabugueiro, homem para meio século, morava no Carregal. Era maroto e temido por todos. Vivia à margem da aldeia, numa casa térrea de perpianho e fazia a sua lavoura unicamente com a ajuda da mulher Luísa. Seca, como um pau de virar tripas, era levada do diabo para trabalhar. Apesar disso, as dívidas acumulavam-se e o casal não saía da cepa torta. A colheita nunca chegava para pagar a sementeira. Recusou a França muitas vezes temendo deixar a mulher de poulo! Vivia mal a família do Cabugueiro! No tempo da caça, os seis filhos andavam mais nutridos, porque coelho ou perdiz que lhe atravessasse a mira da caçadeira morria. E, honra lhe seja feita, a criação comia como os progenitores. Era um homem simples e honesto que, apesar dos maus fígados, só se metia com quem o provocasse. Ai isso quem lhas fizesse pagava-as e com língua de palmo, isso era certinho!


O Amadeu, primogénito de uma ninhada de cinco, era filho do Ti Zé Porto fulminado a meia idade por uma tuberculose galopante. Este melro era falso, áspero, vingativo, cruelmente vingativo!... Fazia-as pela calada e com cobardia ferrava o mais incauto. Aparentemente dava-se bem com toda a gente, porém, a aldeia sabia que não era de fiar! Assemelhava-se a um cão que não conhece o dono.


Uma madrugada de um dia quente de junho, o Cabugueiro tornou a água do povo, como lhe cabia naquele dia, para o seu lameiro de pasto. A torna findava ao meio dia a favor do Amadeu. Porém, ainda não eram onze e já o farsola secara o rego ao Cabugueiro virando a água para o seu batatal. Este, que sachava o milho numa leira próxima, passou-se, quando se apercebeu do sucedido! Chamou o Amadeu à pedra do cimo de uma borda alta. O arrufo não passou, naquele dia, de algumas palavras mais azedas. Entre carvalhos e outros impropérios que tais, prometeram o acerto da fatura para mais tarde.


Passados dois ou três dias o Cabugueiro reparou que o Amadeu ao alvorecer se dirigiu para leira do Corgo, acompanhado pelo cão Tirone e de uma mula coxa que comprara a uns ciganos na feira dos Santos e que era objeto de gozo por todo o Carregal. O Cabugueiro ruminou a vingança para aquele dia e entre dentes resmungou para os seus botões:


— Vai ser hoje! No regresso passas em frente à minha casa e vais pagá-las!


Seria meio-dia quando a mula, o cão e o Amadeu regressavam da jorna. Descontraído, de sachola ao ombro, assobiava uma moda de cotovia enquanto os socos abertos, ferrados, marcavam o ritmo nas pedras soltas do caminho. Perto da cabana do Cabugueiro o Tirone bem o avisou mas ele não quis saber. Esperava-o uma caçadeira aperrada. O caminho não tinha volta!


Atão fidalgo foi com esse satcho que me roubastes a água outordia?


Enquanto o abordava, apontava-lhe o trabuco à laia de combatente da guerra dos catorze. O Amadeu, lívido por saber dos fígados do Cabugueiro, media mentalmente o tempo e os passos que o separavam do chumbo da espingarda. As suas mãos calejadas seguravam, como pinças de aço, o rabo da enxada. Os músculos, contraídos pelo medo e pela raiva, preparavam-se para arremessar o sacholo, desviando o tiro e facilitando a fuga. A coisa estava feia e para ganhar algum tempo respondeu:


— Não tinha horas Cabugueiro, mas vira para lá essa merda senão ainda te parto os cornos!


Não deu tempo para mais nada, o indicador da mão direita premia o gatilho quase no limiar do fogo. O Amadeu, adivinhando-lhe o gesto, arrimou com a sachola acertando-lhe com o olho na cabeça, um pouco acima da fonte esquerda. O Cabugueiro caiu redondinho! — Morto, pensou o Amadeu!


De socos na mão e em carpins, saltou a fugir ele e o Tirone. A mula coxa ficou a pastar calmamente numa borda do caminho.


A senhora Luísa, gritando a bandeiras despregadas, mandou o Adérito, filho mais velho, chamar o senhor Fernando, meu falecido pai, que era proprietário do único automóvel das redondezas, para levar o infeliz ao hospital de Chaves. Nessa altura eu, pequenote, tive oportunidade de lhe ver os miolos. Impressionava!


O Cabugueiro foi operado de urgência. Ficou internado uns meses. Graças a Deus e à sua rija têmpera escapou. Da ferida ficou somente uma pronunciada concavidade no caco.


O Amadeu, nessa mesma noite, desapareceu como por mistério. Havia quem dissesse, à boca pequena, que andava fugido por terras de Angola.


Passaram-se alguns anos até que o paradeiro do freguês chegou aos ouvidos do Cabugueiro. Não perdeu tempo, montou na burra e foi dar parte ao posto da guarda de Vidago, mandando prendê-lo. De facto foi apanhado e condenado pelo juiz da cidade de Trajano a cinco anos de prisão que cumpriu integralmente.


O Amadeu, um pouco mais novo que o Cabugueiro, ainda é vivo, e desde aí não consta que se voltassem a desentender!

 

Gil Santos

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