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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

As Grandes Insubmissões

08.08.12 | Fer.Ribeiro

 

 

Tal como das palavras fazemos imagens, também as imagens sugerem palavras. No registo do momento que hoje vos deixo vieram-me logo à memória recordações de tempos antigos do liceu e umas palavras que em tempo li de Ruy Belo. Fui em busca delas e é com elas que dou palavras à imagem de hoje.

 

 

AS GRANDES INSUBMISSÕES

 

As grandes insubmissões, sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

 

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vitor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

 

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

 

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

 

Tocou para a aula das dez.

 

- Ó maurício, não vens à aula?

 

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

 

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saímos e logo ouvíamos a bola contra tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

 

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

 

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

 

In “ homem de palavra[s] – Ruy Belo