Agrela, o coelho de ontem à noite e os Burros de Miranda
Ontem a imprensa durante a tarde fartou-se de anunciar coelho para o jantar de todos os portugueses. Era o aperitivo antes da previsível vitória de Portugal sobre o Luxemburgo. Impávidos e serenos fomos aguardando pelo momento televisivo do dia. Ligámos televisão mais cedo e fomos assistindo a uma peça na TV Regiões sobre a feira dos burros em Miranda do Douro. Como o coelho só era servido por volta das 19H15, deu ainda tempo para na net ir também à feira dos burros de Miranda, onde encontrei por lá palavras sábias de um agricultor local, o Sr. Artur Gomes. Diz ele a respeito dos burros:
“Todos sabemos que os combustíveis estão cada vez mais caros. Os burros, depois de ensinados, são um bom auxiliar para os trabalhos no campo, o que ajuda a poupar nos gastos com o gasóleo”
E acrescenta:
Animais como os burros desempenham várias tarefas (…) , como puxar a carroça, transportar pessoas e ferramentas (…), entre outras utilidades, o que leva os seus proprietários a afirmarem que “cada vez mais compensa trabalhar com eles”, já que são “dóceis e de fácil maneio”.
Entretanto chegou a hora do coelho, e embora até seja um prato de que goste, nos últimos anos anda-me a provocar uma certa azia e tem-se tornado difícil de digerir, mas mesmo assim sentei-me à mesa até que o coelho saiu… Quando passados uns minutos me levantei da mesa, lá veio a azia do costume, aliás sem surpresa, mas dos momentos televisivos a que assisti, o que me ficou em mente foi mesma a feira dos burros em Miranda do Douro, mas sobre tudo as palavras do sábio agricultor a respeito dos mesmos : “Cada vez mais compensa trabalhar com eles, já que são dóceis e de fácil maneio” . E foi assim toda a noite, cada vez que me lembrava do coelho, eram as palavras do agricultor as que me vinham à cabeça.
Claro que houve o futebol e embora Portugal até tivesse vencido, a tristeza do Cristiano Ronaldo contagiou-me e quando assim fico, refugio-me na leitura. Os diários de Torga, pela brevidade dos textos, são um bom remédio para estes meus estares. Abri ao calhas o Diário XI, por acaso uma passagem escrita em Chaves:
Chaves, 11 de Abril de 1968
Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.
Miguel Torga, In Diário XI
E de novo o coelho e os burros de Miranda.
Desculpas para Agrela cujas imagens ilustram o post de hoje mas que nada têm a ver com as palavras. Está cá porque é uma das aldeias da raia que eu prometi trazer por aqui aos sábados.
Ainda hoje, ao meio-dia, os Pecados e Picardias, de Isabel Seixas.




