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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Semana do Arrabalde - 1

14.01.13 | Fer.Ribeiro

 

Esta rúbrica das semanas temáticas pretende privilegiar a imagem, no entanto vai haver vezes em que algumas palavras vão ser necessárias, principalmente no primeiro dia da semana, como no caso de hoje em que iniciamos a Semana do Arrabalde.




Embora a maioria das imagens que aqui irão passar sejam do século actual e do século passado, conseguimos ainda imagens de vestígios com quase dois mil anos, mas lá chegaremos no final da semana, o que desde já demonstra a importância desde largo que, em nada me repugna dizer, ser sem dúvida alguma o principal largo da cidade e que durante quase (pelo menos) 2000 anos foi o grande “hall” ou sala de entrada na urbe flaviense.




Firmino Aires, na Toponímia Flaviense, inicia por dizer ao respeito do Arrabalde:


“ Já se chamou Largo Dr. António Granjo; Monsenhor Alves da Cunha (…), Praça Rui e Garcia Lopes e Arrabalde das Couraças.

Arrabalde, chama-se desde há séculos. Na Idade Média ficava fora das portas da muralha da vila. Era um arrabalde ou arredores da vila, entre esta e a velha Ponte de Trajano. É preferido este lugar pelos políticos para ali homenagearem os seus ídolos ou regime. Para que pretender apagar a História ou quebrar tradições?

Esta designação tem tido tal impacto popular que muitos nomes de pessoas iminentes ali colocados foram rejeitados e lançados ao esquecimento.”




Firmino Aires tinha toda a razão. A História e a tradição não se apagam com nomes sonantes ainda por cima quando nem sempre são consonantes e estão quase sempre ligados à politica de ocasião. O Arrabalde será sempre o Arrabalde, tal como as Freiras (embora já não seja jardim)  ou o Jardim do Bacalhau. O povo faz justiça ao continuar a chamar-lhe pelos nomes que sempre os conheceram. Contudo, e ainda quanto ao Arrabalde que penso todos concordam com o topónimo, tem uma alcunha pela qual também é muitas vezes conhecido, sobretudo por muito pessoal do mundo rural que o apelida também por “Largo dos Pasmados”. Quem por lá pasmar um bocado a apreciar a vida do largo, verá que a alcunha não é descabida de todo.




Ainda sem conhecer a realidade de tempos bem mais antigos que remontam à ocupação romana que as recentes escavações arqueológicas puseram a nu, Ribeiro de Carvalho no seu livro Chaves Antiga referia:

 

“ O largo do terreiro do Arrabalde das Couraças era primitivamente o descampado entre as muralhas da praça e o rio, juntando-se-lhe, depois das invasões francesas, o terreno resultante da demolição do baluarte da praça que estava ligado à muralha do Olival e ocupava todo o espaço  do antigo mercado (em frente ao Palácio da Justiça), até à rua das Longras. Este baluarte , que se chamava o Cavaleiro da Vedoria, era semelhante ao que ainda hoje existe no quintal da casa do Correio (Início da Rua Gen.Sousa Machado), e que então se chamava o Cavaleiro da Amoreira. Os dois “cavaleiros”, unidos pela “cortina”, que que ainda existe um troço, tendo uma porta na altura da Rua Direita e um “postigo” na altura da Rua Nova (Postigo das Manas) formava uma “frente abaluartada”, para defesa da praça do lado do rio…”



Também as recentes escavações arqueológicas puseram a nu parte do Baluarte do Cavaleiro da Vedoria que Ribeiro de Carvalho refere, mas que as mesmas escavações arqueológicas acabaram por retirar quase na integra, pois o que se apresentava sob elas eram de maior antiguidade e importância. Refiro-me, claro, aos balneários das termas Romanas que pensa-se (pois parte deles ainda continuam soterrados) que ocupariam a grande parte do actual largo do Arrabalde.



Ribeiro de Carvalho continua:


“ Demolido o Cavaleiro da Vedoria, ficou existindo no lugar que ele ocupava um terreno irregular, em declive para o rio, que o Senado da Câmara mandara terraplanar  e nivelar, construindo-se para esse fim um muro de suporte do lado Nascente, sobre o qual  mais tarde se edificou a ARCADA  DO ARRABALDE! Em 1820 essa terraplanagem estava apenas iniciada, mas com o Terreiro da Vèdoria, junto ao Arrabalde das Couraças, apesar de irregular e de não pavimentado, era mais vasto do que o Anjo, nele se realizava o mercado do cereais, que já em finais do século XVIII se mudara para o Arrabalde das Couraças, ao que parece, de motu próprio dos feirantes.”




Firmino Aires, na Toponímia Flaviense,  remata a história (então conhecida) do largo:


“ Em 14 de Outubro de 1820, deixou o mercado de se efectuar no Largo ou Terreiro do Anjo, passando a efectuar-se na Vèdoria junto ao Arrabalde das Couraças.

Para que isso acontecesse, muitas dissidência houve entre a parte alta – o Anjo e a baixa do Arrabalde  e a Madalena, que se prolongaram até 1823.

De 1952/58 foi construído o Palácio da Justiça.”  

 

Ao que parece a gente da antiga Vila de Chaves, sem o poder democrático de hoje, participava mais nas decisões da vida de Chaves do que hoje em dia, pois só assim se explica algumas das aberrações que têm nascido na cidade nos anos da democracia. Uma dessas, propunha-se desfazer o largo do Arrabalde para nele construir um parque de estacionamento subterrâneo,  e que me lembre, ninguém fez grande alarido, no entanto há males que vêm por bem, e com a pretensão do estacionamento descobriu-se soterrado o antigo balneário das terma romanas, hoje já classificadas como monumento nacional, que vai dar lugar a um museu. Em suma, o Largo do Arrabalde amplo como era, o tal local preferido por políticos para homenagearem os seus ídolos,  vai à vida, resta saber o impacto que o novo edifício vai ter no largo, mas do mal o menos, ganha-se um museu e um valioso testemunho da história romana em Chaves.




Em suma, o Largo do Arrabalde ao longo dos tempos já foi balneário termal, simplesmente arrabalde, baluarte, mercado municipal, largo da justiça (palácio) e agora vai ter museu, dizem, vamos ver se há dinheiro, entretanto, o tal parque de estacionamento que era para ser nas Freiras, depois no Arrabalde, depois noutro sítio qualquer, tarda em aparecer, mas para ser onde está previsto, mais vale que não exista. Tenhamos fé e esperança que os flavienses comecem a ter uma palavra a dizer no futuro da sua cidade, pois os políticos, democraticamente, são eleitos para representar o povo e a sua vontade, e não para fazerem aquilo que querem. O mandato, não dá para tanto, mas se o povo deixa,  eles aproveitam-se.



Quanto às imagens, hoje ficamos com as da primeira metade do século passado. Vou tentar deixá-las por ordem cronológica, no entanto não posso garantir essa ordem porque não vivi esses tempos .

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