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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Jul13

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 

Salsaparrilha

 

 

Apesar da crise, a bem dizer, a gente tem hoje uma vida flauteada! Nada que se compare à vida do antigamente, em que tocava somente meia sardinha a cada um, e viva o velho!


O mundo circunscrevia-se ao espaço físico da nossa aldeia. E no que respeitava ao saber, ele passava de geração em geração pela boca dos anciãos, contando apenas o que fosse utilitário. O resto era para os doutos que viviam num mundo outro!..


Hoje é tudo diferente! Raros são os que têm fome deveras e o conhecimento está acessível ao virar de cada esquina. Apenas os lapardanas se autocondenam à vil ignorância. Em precisando de alumiar qualquer assunto, basta alaparmo-nos ao computador - que é coisa quase tão vulgar como a fome de outrora - e ligarmo-nos a um qualquer motor de busca. À velocidade estonteante da luz, o mundo escarrapacha-se-nos aos pés, redondo. Tudo fica à mão de semear, tão-somente à distância de um frágil clic.


Tempo fascinante este, porém, tão sinistro!


E, pelo andar da carruagem, é difícil imaginar o mundo dos nossos netos?


Ora, para aricar esta courela, precisei de escanar umas maçarocas a fim de topar o sentido de salsaparrilha. Não precisei de arrebunhar bolorentos cartapácios nas bibliotecas. Clamei pelo Google! Estonteante, apresentou-me um sem número de fontes, quais cornijoulos no centeio maduro! Optei por catar as mais viçosas!


Aprendi, então, que a dita cuja é uma planta da família das smilacaceae e que pode ser encontrada em quase todo o planeta, mormente nas regiões meridionais. No luso espaço está praticamente ausente do interior norte e centro e dos arquipélagos.


Frutificando em pequenas bagas escarlate, desde os aréus que a salsaparrilha é conhecida e usada pelas suas virtudes medicinais, como afrodisíaca, antireumática, antiespasmódica, diurética e mesmo como rejuvenescedora. Crê-se até que atiça as paixões, tornando os homens mais viris e as mulheres mas sensuais. Diz-se mesmo que a salsaparrilha trazida do México para a Península Ibérica, passou a ser muito usada no tratamento de doenças venéreas, muito comuns na época, como a gonorreia e a sífilis. Isso torná-la-ia muito popular. Pudera, pois se até ali o vulgo esquentamento tinha de ser expurgado à força de martelo e de bigorna!..


Lavremos:

João Aldegundo Passamisso, de nomeada João Ladáiro, era um fervoroso adepto das propriedades medicinais da salsaparrilha. Convicção que lhe teria ficado dos tempos em que foi mineiro aurífero na serra da Begega em Miranda das Astúrias.


Gargalhote, João botou-se à vida. Entusiasmado por uns amigos de Vilar de Nantes, que por lá laboravam há alguns anos, arrumou trouxa e encabado nuns socos cerrados, cujas brochas marcavam o ritmo do verde gaio no macadame das estradas, fez-se ao caminho. Levou uma semana a arribar. Chegou esfalfado e magro como uma cancela, mas pleno da esperança de que carecia para vingar.


Prestes aprendeu as manhas do duro ofício de mineiro e a vida luzia-lhe de dia para dia. Não levou muitos anos a juntar pé-de-meia que lhe garantisse uma velhice consolada e ausente da fome e da miséria. Bem entendido que jamais ouvira falar de Estado Providência e por isso tratou de entesourar!


Esclarecido, não se dedicou apenas ao trabalho árduo da mina, tratou igualmente de aprender as manhas e as tradições do povo asturiano que tão fraternamente o havia acolhido. Apanhou-lhes os cantos e os contos, os hábitos e as mezinhas. Da salsaparrilha, abundante na região, apreendeu quase tudo. E sempre que um simples resfriado o arrampanasse, botava um chá de bagas secas e não tardava a arrebitar!


Aos 40 anos, reformou-se da pá e da pica e regressou ao Planalto, onde esperava envelhecer, amanhando a horta e atiçando os tições no estrafogueiro. Para viver derrengando polaina, bondavam-lhe as novidades primaveris do linhar e a ceba que chimpava pelo Natal.


Casar nunca casou. Ignoro se por ninguém o querer, se por ele não querer ninguém! Verdade, verdadinha é que o João Ladáiro também não era grande espingarda em falando de beleza. A bem dezer era até assarroncado! Contudo, como há sempre um testo para qualquer panela, mesmo que amolachada!.. Vai daí deu-lhe em procurar parceira temente da solidão na velhice! O amor era um sentimento estranho que nunca havia experimentado, estou até que nem queria experimentar! Por isso, bondava-lhe uma qualquer matrafona para companhia de cama e mesa. Havia era de ser mais nova, para que as maleitas da velhice não o privassem da sua servidão.


Não precisou de procurar muito.


Em Izei, topou uma cabaneira trintona, viúva de amásio rico e machorra! Como dizem que homem velho e mulher nova fazem filhos até à cova, esta incapacidade de procriar era o que mais lhe convinha. Não quis saber de mais nada! Mandou-lhe recado pelo Ti Carolino, amigo comum, artesão de telha de meia cana nas barreiras de Nantes.


Que aceitava!


Juntou os míseros trapos e, num domingo, depois da missa em S. Pedro de Agustém, montou numa burra emprestada e ala para o Planalto.


Fizeram uma festa de arromba com um ensopado de borrego e meia canada de maduro tinto. Contudo, o anfitrião logo percebeu que aquela fêmea não se fartava com pouco! Era gado de bom dente e de muito pasto! O pior era que João já não tinha a erva muito tenra e por isso não estava para grandes segadas! Meu dito meu feito, como soi dizer-se, saiu-lhe a porca mal capada. Não levou meio ano que a pita não tivesse posto em quase todos os ninhos do lugar! Para o Ladáiro não era grande problema. Podia ser até que um dia fosse reconhecido pelos amigos como um benemérito das intimidades proibidas! Mais grave era a Brizalete gastar-lhe o ourinho, entesourado, à tripa forra. Não demorou que desse pela ratada e descomposta a devolvesse à procedência. Facilitou, e como se diz: não metas dinheiro em saco sem veres se tem buraco, encontrava-se à beira da desgracia. Não tinha outro remédio que não fosse fazer-se de novo à vida. Bem sei que já não poderia ser a da prospeção aurífera, nas minas asturianas, mas haveria de ser qualquer outra coisa para a qual lhe sobrasse ainda força e engenho!


Comprou uma mula, atrelou-a a uma carroça e deu em andar de aldeia em aldeia, convencendo quem o queria ouvir, das propriedades, quase milagrosas, da salsaparrilha. E vendia que se fartava. Ganhou tal prestígio por esses lugares alcandorados do Planalto, que ainda hoje se ouvem estórias dos milagres que a salsaparrilha do Ladáiro fazia, quando alguém se aventurasse a comer em qualquer tasca badalhoca, sem aquilatar da qualidade das pataniscas que ingeria!..


Finou-se mirrado sem nunca deixar de andar à volta da bendita salsaparrilha!


Não estou certo se o seu negócio hoje vingaria! Mas estou que sim. Teria era de mudar o pregão.


Na vez de anunciar:


- Tem problemas ao deslado da brilha? Tome lá salsaparrilha!


Apregoaria:


- Contra a corja e a matilha, tome lá salsaparrilha!


Precisamos urgentemente de um João Ladáiro que nos devolva a esperança numa outra qualquer salsaparrilha e assim nos livre, não das doenças venéreas, mas da desgraça do neoliberalismo e das políticas dos malfeitores!


E mais não digo que se me aperta o nó da garganta!

 

Gil Santos

 

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