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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Out13

Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade


 

Domingo de manhã

 

É Domingo de manhã. Chuva miudinha, tudo está pintado de cinza em Barcelona. Munidos de guarda-chuvas, casacos impermeáveis e muitas bandeiras, cores amarelo, vermelho, azul, dezenas de pessoas "correm" pela independência. É um domingo como os outros, chove, mas os tambores ressoam.


É feriado de 11 de Setembro. Chuva miudinha, tudo está pintado de cinza em Barcelona. Munidos de guarda-chuvas, casacos impermeáveis e muitas bandeiras, cores amarelo, vermelho, azul, milhares de pessoas formam uma cadeia humana de 400 quilómetros que percorre 42 municípios de uma região - a Via Catalana -  pela independência. É um feriado como os outros, chove, mas os tambores ressoam.



Foto de Sandra Pereira

É Domingo de tarde. O sol ilumina as paredes que adornam as "calles" dos "pueblos" catalãs. Os guarda-chuvas, os casacos impermeáveis e as bandeiras, cores amarelo, vermelho, azul, descansam nas varandas. Ao virar a esquina, uma parede pede para "evoluir". É um domingo como os outros, não chove, mas a ousadia de um catalão ressoa.


É Domingo de manhã. Não há paredes ousadas, mas há cartazes laranjas, rosas, azuis e vermelhos espalhados pelas ruas das cidades portuguesas. Munidos de pouca vontade, muita desilusão e sem flores na lapela, são cada vez menos os que se expressam a cada eleição, faça chuva ou faça sol, são cada vez menos os que se expressam, seja domingo ou feriado. É um domingo como os outros em Chaves, no Barroso, em Trás-os-Montes, como em todo Portugal, mas é preciso pedir por favor para expressar uma opinião, uma vontade, um direito, uma liberdade.



Foto de Sandra Pereira

É Domingo de tarde. E o povo sabe que nada mudou, nem nada mudará. A independência é um sonho do qual os catalãs teimam não querer acordar. A liberdade de exprimir-se é uma realidade da qual os portugueses deveriam teimar nunca adormecer. É um domingo como os outros, os catalãs sonham, os transmontanos encolhem os ombros, e lá vão... Venha o sonho ou a realidade? Como se diz "lá em cima", "venha o diabo e escolha"...

 

A "estória" do mês: "La cosa cambia en Portugal"

 

Na viagem matinal para o emprego pelos transportes públicos urbanos de Barcelona, um sugestivo título de um artigo publicado num diário gratuito - o 20 Minutos - vem quebrar a habitual monotonia: "Enemigos del vello". Nele, pergunta-se às mulheres espanholas se acham bem que as mulheres não se depilem. A maioria mostrou-se contra, justicando ser "mau, feio e anti-higiénico" que uma mulher ande na rua a exibir a pelugem. Nada haveria a destacar, muito menos a (re)contar, não fosse outro texto a acompanhar o principal com o sugestivo título... "La cosa cambia en Portugal"...


Ai sim??? Vejamos. Segundo a professora de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Granada, "la doctora Guitérrez Salmerón", isto é mais "una cuestión de modas". E continuo a citar: "aqui, desde tiempos remotos, prefieren no tener vello. Pero en otros lugares, como en Portugal, el vello es un adorno y presumem de ello". Mais: "Tal es la diferencia con nuestro pais vecino que, cuenta la doctora, cuando un colega suyo ofreció a un amigo portugués hacerle le depilación láser gratis a su hija, este se ofendió".



Foto de Sandra Pereira

Logo, várias perguntas me saltam à mente: até que ponto podem os estereótipos afectar injustamente a imagem de uma nacionalidade? Até que ponto são os meios de comunicação social responsáveis/culpados de perpetuar estereótipos que se desatualizam com o tempo? Até que ponto somos mesmo "hermanos"? Até que ponto os espanhoís e os portugueses continuam a adorar lançar "veneno" hipócrita uns contra os outros? Até que ponto o nosso passado histórico influencia a nossa relação atual? Até que ponto a doctora Guitérrez Salmerón existe mesmo? Até que ponto um jornalista (ou alguém sensato) acredita que "la cosa cambia en Portugal" em termos de padrões ocidentais de estética e que as portuguesas adoram o pêlo "mau, feio e anti-higiénico"?


Pois deixo as respostas à vossa avaliação, caros leitores. Quanto à minha, sorte teve o colega da doctora Guitérrez Salmerón não me oferecer a depilação laser gratis, pois ficaria com o bolso bem mais... "depilado".

 

Sandra Pereira



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