Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros
As feiras pertencem às aldeias
José Carlos Barros
Gostava que as feiras, aos poucos, se fossem parecendo cada vez mais com as feiras de antigamente. Não é por nostalgia, por melancolia, por saudosismo. É só porque as feiras pertencem às aldeias, à gente das aldeias. É só porque não fazem sentido se a ruralidade não fizer sentido. E à ruralidade, hoje, tirando as preocupações ministeriais com o número de cães por apartamento e o número de peixes por metro cúbico de aquário, ninguém lhe acode: é ir às feiras de hoje, corrê-las de uma ponta a outra, e daí tira-se sem esforço como está o mundo rural e como estão as nossas aldeias: a definhar, na exacta medida em que definham as feiras. É que uma não existe sem a outra, e uma não pode andar por aí a pavonear saúde – se a outra está de cama e de carantonha lívida. E quanto mais as entidades e as autoridades, bem-intencionadas, promovem acções de benchmarking e investem a assegurar animação paralela, com artistas de cartaz, com eventos, com colóquios, com exposições – mais elas, as feiras, definham. Isto é como nos incêndios: quanto mais se gasta no combate aos fogos – mais arde a floresta. Porque as feiras têm uma alma: a animação que tiverem, o colorido que possam ter – vem do interior delas mesmas. E se é certo que a alma se pode vender (e amiudadas vezes se tem vendido), ninguém descobriu ainda a fórmula de comprá-la: já que o demo, sempre disponível para lançar uma OPA disso, não se desfaz das que tem a mais. Uma feira, portanto, só existe verdadeiramente – se pertencer às aldeias, à gente das aldeias. E ainda está por descobrir como é que uma coisa que depende de outra pode funcionar na ausência dela.
Se as feiras, portanto, aos poucos, se fossem parecendo cada vez mais com as feiras de antigamente, isso significava que as nossas preocupações começavam a deixar de estar tão exclusivamente agarradas ao valor dos juros dos empréstimos que financiam os encargos do Estado – para piscarem o olho à produção do tomate ou da beterraba e à importância da indústria transformadora da beterraba ou do tomate. Era sinal de que estávamos a regressar às aldeias – a regressar de facto e a regressar em sentido figurado. Numa sociedade que galopou em direcção ao terciário – o que é preciso é regressar às aldeias e regressar às feiras de antigamente. Quer dizer: regressar um pouco ao sector primário, regressar um pouco ao sector secundário – e não sermos todos, quase todos, trabalhadores e desempregados dos sectores não-produtivos.
Não estou, este ano, mais uma vez, na Feira dos Santos. É a sina dos emigrantes – não regressarem quando lhes apetece…. E não escondo que esta crónica possa ser o reflexo disso: da inveja dos que vão à Feira dos Santos a comerem pulpo, a perguntarem onde é que se vende uma manta de Soutelo, a olharem as samarras ou os tachos de ferro, a abraçarem os amigos e a discutirem quem paga a primeira rodada.
Enfim – seja uma mistura de vingança e inveja. Mas já que não vou – insisto: as feiras, hoje, são um anacronismo. E são um anacronismo a partir do momento em que deixámos de comprar porcos suínos e passámos a comprar presunto fatiado.



