Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade
Mundos e Mundinhos
Há mundos e mundinhos.
Quem está num mundinho, está bem e deixa-se estar. Quando descobre um mundo, é um choque.
No mundo, a diversidade estala-nos na cara. São cores, cheiros, situações, diferenças, bizarias, desencaixes, anormalias, anormalidades, e às vezes incómodos, a surgirem ao virar de uma esquina. É tanto, mas tanto, que tudo tem de mudar à velocidade que o próprio mundo (o físico) gira, e nada pode nem consegue permanecer. É como um carrossel que estonteia as mentes e as espicaça de ideias e vontades, que nem sempre chegam a ser cumpridas. Pará-lo é impossível; readaptar-se cada dia é condição para sobreviver nesse mundo, enlouquecido pela própria existência.
No mundo, a desigualdade estala-nos também na cara. À partida, a sorte é aleatória, depois cada um constroí a sua, mas é bom lembrar (vezes e mais vezes) que nem todos partem com as mesmas armas... injustiça. Quem a criou se somos todos homens iguais?
Quando se descobre um mundo é assim, um choque.
A diversidade estala-nos na cara (Barcelona) - Fotografia de Sandra Pereira
Já no mundinho, a familiaridade estala-nos na cara. A profundidade das relações humanas atinge-nos directamente o coração, acarinhado todos os dias. No mundinho, ele é rei que manda e pode, tem tudo à mão.
No mundinho, a uniformidade estala-nos também na cara. Reina a pacata convencionalidade, que não tolera grandes mudanças. Toda a gente conhece o mesmo, ninguém se perde. Ninguém precisa de ajustar nada, está tudo conforme. É como um baloiço, que quando dá um embalo em frente, logo volta para trás. Tem velocidade limitada, e respeitá-la é a única condição para sobreviver no mundinho.
Muitos que habitam o mundinho sentem um dia a necessidade de sair para o mundo. Até que um dia, o coração exige voltar ao trono, mas a maioria não conta nada sobre o mundo. Regressam com a diversidade num mundinho onde só cabe a uniformidade e são incompreendidos. São os "maluquinhos"! Reconhece-os? Então remetem-se ao silêncio e o mundinho não chega a provar um pedacinho do mundo.
O mundo, por sua vez, também pouco prova do mundinho, pois o carrossel raramente pára para deixar entrar a familiaridade.
A desigualdade estala-nos na cara (Barcelona) - Fotografia de Sandra Pereira
Há mundos e mundinhos. E estes, até prova do contrário, não se juntam.
No mundinho de Chaves e da região transmontana, diz-se que "quando a fome se junta à vontade de comer", as coisas acontecem. E os flavienses recebem com gosto e curiosidade quem vem do mundo. Só falta mesmo prestar-lhes mais atenção e tirar partido deles, em vez de menorizar o diferente e o que é de fora, teimando continuar a andar pacatamente de baloiço quando se tem a sorte de poder experimentar a adrenalina do carrossel.
Preservando o melhor do nosso mundinho, acabe-se com a fome de (re)pensar e junte-se-a à vontade de (re)adaptar-se cada dia, e as coisas acontecem num "reino maravilhoso" onde ainda há muito por acontecer. Pois se um mundinho tiver um pedacinho de mundo dentro de si, não será bom sítio para o coração reinar?
Sandra Pereira





