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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Jan21

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – INVERNO

Histórias que o Inverno me Contou

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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM – INVERNO

 

No olival, os homens e as mulheres entregam-se à lida de colher das oliveiras a azeitona, que se oferece entre a folha miúda. Estendem ao redor do tronco a serapilheira e varejam os ramos, braços ao alto, até cair o fruto. E como ficam felizes se o ano é de fartura! Transportada a azeitona para o lagar, é medida na «fanga» e depositada na «tulha» até encher. Verdes umas, negras as outras. Lavadas e depois moídas entre a pedra das mós, lá as temos, então, cantando, a correr das bicas. Na bica de baixo, a «almofeira», líquido escuro da azeitona em talha, na bica de cima, a riqueza do fruto transformado em azeite. Mas muitas outras são as tarefas que o Inverno traz para serem cumpridas.

 

Finda a colheita no olival, inicia-se a poda das oliveiras. As noites são longas e os dias curtos e frios. Os rostos e as mãos dos homens e das mulheres tornam-se roxos, ásperos e gretados. Mas o Inverno não os amedronta. Os homens e as mulheres sabem que a terra e os animais necessitam do seu esforço e do seu saber. Que a Natureza, sem a sua ajuda, não poderia ser tão pródiga e tão amiga. Portanto, aí estão eles, a desafiar a invernia no desempenho das tarefas que encontram pela frente. A satisfazerem o pedido da terra e dos animais, porque gostam de retribuir em conhecimento e em cuidados a riqueza que os animais e a terra têm para lhes oferecer.

 

Ei-los a fazer a lavoura, as adubações e as sementeiras. A prosseguir nas vinhas as podas e as arroteias para novas plantações. A colher nos laranjais as laranjas e as tangerinas. A engarrafar os vinhos nas adegas. A abrir covas para semear as amêndoas e as nozes. E valeiras para semear os melões. A abrigar nas hortas as plantas que não resistem ao frio. A semear as cebolas, os espargos, os espinafres, os nabos e as cenouras. E também os alhos e os morangueiros. A podar as roseiras e os arbustos. A resguardar as plantas que vão florir mais cedo – como as azáleas e as camélias. A semear nos alegretes as calêndulas, as lobélias e os amores-perfeitos. E a plantar as ervilhas-de-cheiro, os jacintos, as túlipas e as anémonas.

 

Com os animais redobram os cuidados. Renovam-lhes as camas para estarem sempre enxutas. Agasalham e dão melhor comida às vacas leiteiras. Reservam verdura às ovelhas que tiveram crias. E tratam das colmeias, dos pombais, das capoeiras… Num trabalho constante, que não acaba mais.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

 

11
Jan21

Quem conta um ponto...

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523 - Pérolas e Diamantes: Zelig, os cães e o vazio

 

O grande problema dos cães é quando começam a sonhar em se parecerem, ou se igualarem, aos seus donos.

 

O dever chama-nos a todos. Mas, atenção, devemos ser sensíveis à diferença entre o dever inspirado pelo temor e o dever que tem origem no amor.

 

O sonho capitalista americano tomou conta de todos nós: construir uma casa, engordar nela e depois morrer.

 

O problema é quando o vácuo, ou o vazio de ideias, começa a tomar conta das nações e das suas instituições.

 

Agora andamos atrás da moralidade do poder. Provavelmente existe. O problema irresolúvel do poder democrático reside no facto de ser exercido de cima para baixo.

 

Mas o que interessa é prosseguir com estilo, como o fazem os cães mais aperaltados nos concursos de beleza.

 

A verdade é que os sacerdotes dos templos modernos (também conhecidos como líderes partidários regionais ou nacionais) aprenderam com os seus antecessores babilónios a, de vez em quando, sendo fiéis a um templo, levantarem o povo contra os sacerdotes do outro templo, gerando confusões periódicas, atualmente conhecidas como campanhas eleitorais.

 

Na Babilónia existiam as portas de Ishtar, prestando homenagem a uma deusa que era homem e mulher ao mesmo tempo. Daí ser sexualmente insaciável. A porta de Ishtar era, na realidade, duas portas – uma na muralha exterior e outra na muralha interior.

 

Das nove portas da cidade, as de Ishtar eram as mais importantes, pois conduziam diretamente até ao coração da margem esquerda de Babilónia, onde ficavam os templos, os palácios e os tesouros.

 

Na altura de Xerxes, os Grandes Reis, astutamente, consentiam que os povos adorassem as suas divindades, mas a verdade é que não deveriam ter reconhecido outro Deus além do Senhor da Sabedoria. Zoroastro bem os avisou: Meia Verdade é o mesmo que a Mentira toda.

 

É como todas as coincidências sobre os alegados casos de corrupção ligados a políticos nacionais, autarcas, homens de negócios e banqueiros. São demasiadas. Dizem que apenas os espíritos fracos acreditam em coincidências. Pois, talvez eu seja um deles. Coisa de que me penitencio, mas a idade não perdoa.

 

Lamentamos a mediocridade envolvente, mas a verdade é que o nosso espírito provinciano não nos deixa apostar na aventura. É essa a justificação plausível para a nossa resistência à mudança. A nossa vida está circunscrita ao dever e ao hábito.

 

Quando as coisas se complicam, os comediantes do poder local, atrasam as suas entradas, congelam as falas e passam a falar em esperanto. São, tal como os maus guionistas, inimigos do humor.

 

Os ensaios gerais, entre a família política, costumam ser eficazes. As provas do guarda-roupa excelentes. Mas a verdade, porque manca, dá de si.

 

O problema começa quando o enredo é macambúzio, as personagens são macarrónicas, as falas não jogam umas com as outras, a estrutura assenta em móbiles e a narrativa foi construída tendo como base as falas do padrinho.

 

E costuma agudizar-se quando tentamos misturar dois enredos em cima de uma, ou várias, desculpas esfarrapadas.

 

Um bom produtor de espetáculos é aquele que quer produzir os sucessos e os insucessos daqueles em que acredita.

 

Eu habituei-me a respeitar os que redigem as didascálias. São eles os que regem, e definem, as falas dos robertos.

 

A política tem razões que a própria razão desconhece.

 

No fundo somos como a personagem Zelig, do filme de Woody Allen: todos queremos ser aceites, enquadrados, não ofender, mudando de personalidade consoante a pessoa e fazendo o máximo possível por agradar.

 

O nosso grande Zelig é Marcelo Rebelo de Sousa.

 

O seu caráter é monótono, como o da generalidade das pessoas, ao contrário da variedade étnica e cultural dos seres humanos.

 

A verdade é que o homem gosta de nadar e dizem que não enjoa quando anda de barco. Uma lenda antiga garante que os magos enjoam sempre. Mas o nosso grande estadista é mais homem de cartas e mezinhas.

 

Uma coisa o distingue de muitos outros seus concorrentes: a rapidez em tirar vantagem de todas as situações em que se encontra.

 

E possui ainda aquela jovialidade dos rapazes de liceu que consiste em discutirem e apregoarem as proezas que um dia farão, quando forem grandes estadistas.

 

Felizmente que o futuro é sempre um perfeito mistério.

 

João Madureira

11
Jan21

O Barroso aqui tão perto - Torneiros

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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Vamos lá até mais uma aldeia do Barroso de Boticas, ainda na freguesia de Beça, mas muito próximos da sede de concelho, Boticas, a apenas 3,5km, embora no itinerário que nós vamos recomendar sejam mais umas centenas de metros.

 

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Iniciemos já pelo itinerário, como sempre com partida da cidade de Chaves. Tal como apelidamos esta rubrica de “O Barroso aqui tão perto”, andamos mesmo por terras do Barroso bem próximas, ficando a nossa aldeia de hoje, Torneiros, a apenas 29,8Km.

 

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Mais uma vez, é a EN103 (estrada de Braga) que deveremos tomar para irmos até Torneiros, mas apenas até Sapiãos, aí deveremos abandonar a EN103 e virar para Boticas onde, logo na rotunda de entrada, deveremos saír na segunda saída, seguindo as placas que indicam Cabeceiras, Ribeira de Pena, é esta a direção que deveremos tomar até sair de Boticas, aí já estaremos na R311, a subir em direção a Quintas que fica a 3.2Km de Boticas. Nesta aldeia deveremos abandonar a R311 e virar à esquerda, isto quando nso aparecer o desvio (à esquerda) em direção a Seirrãos, Torneiros e Miradouro.

 

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Depois é só seguir por essa estrada, atravessar Seirrãos e continuar em direção ao Miradouro, onde, imediatamente antes deste último, tem a saída para Torneiros. Chegados à nossa aldeia de hoje, desfrute dela sem menosprezar as vistas que desde a aldeia se lançam, foi isso o que eu fiz nas duas visitas que fiz à aldeia, na primeira e segunda descobertas, nomeadamente em 2011 e 2018, visitas das quais resultaram as imagens que hoje vos deixo e que traduzem um pouco daquilo que é Torneiros .

 

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A titulo de curiosidade, as tais vistas sobre o mar de montanhas que se avistam desde Torneiros, segundo o sítio na net valentim.org, avistam-se serras e localidades dos concelhos mais próximos, como o de Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Montalegre e Ribeira de Pena, mas a nível do avistamento de serras, chega até serras de Bragança, Vila Real, Marco de Canavezes, Macedo de Cavaleiros, Vinhais, Alfandega da Fé, Amarante, Celorico de Basto e Mondim de Basto.

 

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Uma aldeia arrumadinha na encosta da montanha, em patamares, que faz com que a aldeia seja um autêntico miradouro com olhares lançados para o mar de montanhas que se perdem no horizonte, mas também um miradouro sobre si mesma, permitido pelos arruamentos que se desenvolvem em paralelo em diferentes cotas, todos com ligação a um pequeno largo centrar onde se encontra a capela e o núcleo mais antigo da aldeia.

 

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A aldeia é rodeada por pequena elevações no fundo das quais se forma um pequeno vale com cerca de 200m de largura por 900 metros de comprimento, um autêntico tapete verde de pastagens e terras de cultivo bordejado nos seus limites com pequenos conjuntos de arvoredo a contrastar com os cumes das pequenas elevações onde apenas existe uma vegetação rasteira, mais descolorida a contrastar por sua vez com manchas de esqueletos escuros que restam de pé,  de uma antiga floresta dizimada pelos incêndios.

 

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O casario, mais antigo, à volta do núcleo da capela,  é composto por construções de granito à vista com junta seca, hoje todos com telhados de telha cerâmica, maioritariamente em telha marselha vida das cerâmicas de Chaves, mas com alguns telhados a manterem as guias de granito que antigamente acomodavam o colmo das coberturas. O casario vai sendo interrompido por pátios e pequenas eiras com canastros, alguns totalmente em madeira e os restantes com estrutura em granito, com uma duas ou três secções. A quantidade de espigueiros traduzem bem a riqueza do pequeno vale que serve a aldeia.

 

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Torneiros é uma aldeia ainda com vida nas ruas, com o habitual transito do gado a ir ou vir das pastagens e crianças, que cada vez são menos nas nossas aldeias, algumas que captamos em imagem na primeira vez que fomos à aldeia, crianças que hoje com mais 10 anos em cima já são jovens a entrar na fase adulta, gente simpática sempre com um sorriso nos rostos.

 

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Ora para concluir, Torneiros é uma das aldeias do Barroso de visita obrigatória, fique por lá o tempo que a aldeia lhe pedir para ficar, embriague-se com as vistas, descanse o olhar deixando-o navegar no degradê do mar de montanhas e quando sair da aldeia, não dê a visita por terminada, pois ainda tem mais uma paragem obrigatória, o miradouro de Seirrãos/Torneiros ou de Boticas, desde onde se pode ver toda a vila.

 

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Quanto ao que nos diz a documentação sobre a aldeia, encontrámos na monografia de Boticas – Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas, que em Torneiros, no que toca a festas e romarias, é a Nossa Senhora de Fátima que é celebrada nos dias 13 de maio e no primeiro domingo de agosto.

 

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No mesmo documento, ficámos também a conhecer uma das tradições da aldeia:

“Por altura do S. João (24 de Junho) e do S. Pedro (29 de Junho), em algumas aldeias do concelho ainda fazem as tranquilhas das ruas com paus e cancelas.

Particularmente na freguesia de Beça, onde lhe chamam as trancheiras, para além de trancarem as ruas, também é costume colocarem os arados de pau e as grades, que apanham, na torre da Igreja. Por altura do S. Pedro roubam os vasos das flores às mulheres e colocam-nos nos largos junto aos poços, na igreja, capelas ou cruzeiros como nos disse um informante de Torneiros “no S. Pedro, que é o santo mais maroto, às vezes quando as raparigas se esquecem dos vasos, daquelas flores e assim, os rapazes apanham-nas e levam-nas lá p’ra capela e depois elas tem que as ir lá buscar”, de tal forma que algumas mulheres nesses dias escondem os seus vasos."

 

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E na ausência de mais informação disponível, vamos dando por terminado este post, apenas nos falta o habitual vídeo com todas as imagens publicadas até à presente data neste blog. Espero que gostem.

Aqui fica:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Eiras:

 

 

E quanto a aldeias de Barroso, do concelho de Boticas, despedimo-nos até ao próximo domingo em que teremos aqui a última aldeia da freguesia de Beça, a aldeia de Vilarinho da Mó.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

http://valentim.org/cume/1014

 

10
Jan21

O Barroso aqui tão perto - Parafita

Aldeias de Montalegre - C/Vìdeo

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PARAFITA - MONTALEGRE

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de Parafita, do concelho de Montalegre.

 

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Hoje, excecionalmente, mais que um post-vídeo (em imagens e vídeo) é também um post dedicado a Banda de Música de Parafita e às histórias dos seus músicos, histórias essas que fazem a abertura do livro de Bento da Cruz – “Histórias de Lana-Caprina”, sendo elas as que abrem o livro com o capítulo 1, intitulado “Os de Parafita”. Apenas algumas, pois não há espaço para todas.

 

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E uma vez que dedicamos este post à Banda de Música de Parafita, a música do vídeo que poderão ver no final do post é de sua autoria, música e três imagens que retirámos da sua página na net, à qual recomendo uma visita. Fica link no final do post. Vamos então a algumas estórias de “Os de Parafita”

 

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OS DE PARAFITA

 

Todas as grandes terras têm o seu ex libris. Atenas tem a Acrópole; Jerusalém o Templo; Roma o Coliseu; Meca a Pedra; Paris a Torre; Londres o Relógio; Nova Iorque a Estátua; Nápoles o Vulcão; Rio de Janeiro o Carnaval; Madrid a Tourada; Viena a Valsa; Barcelos o Galo; Coimbra a Universidade; Parafita a Música.

 

Melhor dizendo: Parafita tinha a Música. A Música e muitos outros predicados que dão excelência às terras. A situação geográfica, por exemplo. Reclinada numa encosta fronteira à Serra das Alturas de Barroso, dir-se-ia repousar de cabeça na montanha e pés no rio.

 

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Outrora. Hoje continua de cabeça na montanha. Mas a água subiu-lhe até à cintura.

 

É, portanto, uma terra amputada. Amputada no corpo e na alma, se entendermos por corpo a paisagem, e por alma os habitantes.

 

A História Universal está cheia de histórias de terras que foram cabeças de reino e que, de repente, entraram em declínio e desapareceram: Cartago, Tróia, Palmira.

 

Na origem dessas catástrofes está sempre uma calamidade do género da fome, da peste e da guerra, três faces distintas dum só monstro verdadeiro.

 

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A desgraça de Parafita foi a albufeira.

 

Antes da construção da barragem dos Pisões, Parafita era uma das aldeias mais florescentes e conhecidas de Barroso.

 

Florescente, pela densidade populacional, largueza de terrenos baldios e de cultivo, abundância de gado vacum, cápreo, de ceva e de capoeira, de caça e pesca, de lenha, de sol, de artesãos: carpinteiros, alfaiates, tecedeiras, alveitares, dentistas, endireitas, capadores, correeiros de albardas, molhelhas, butes e tamancos, tudo do melhor que entre nós se fazia.

 

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Conhecida, pela Música, alma e glória de Parafita e, por que não dizê-lo?, de todo o Barroso.

 

As páginas seguintes são um repositório, forçosamente incompleto, do anedotário da Música de Parafita. Mas que ninguém fique a julgar que a Música de Parafita era algum bando de estarolas. Credo! A Música de Parafita era uma escola de civismo, de cultura, de fraternidade — de treino para a vida. Dizia-se mesmo: Vale mais um ano em Parafita do que cinco em Coimbra.

 

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A Música dava aos de Parafita aquele ar de artistas que os tornava simpáticos aos olhos de todo o mundo. Simplesmente encantador ver as crianças a solfejar as primeiras notas e os velhos a discutirem as vantagens da clave de sol sobre a de fá. Todo o Barroso se orgulhava deles. Pena foi que a praga da albufeira os haja dispersado pelas sete partidas.

 

Inteligentes e laboriosos como são, os filhos de Parafita depressa grangearam nome e fortuna nas terras adoptivas. Mas não esquecem a terra-mãe. Onde quer que dois desterrados de Parafita se juntem em Babilónia, é para carpir lembranças de Sião, saudosos da qual vivem e morrem.

 

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No último inverno, quatro deles passaram um fim-de-semana numa casa de férias situada na vertente marítima da Serra de Arga, donde se abarca todo o panorama da Foz do Minho, cuja beleza é um hino de permanente louvor ao Grande Arquitecto do Universo: o rio a espraiar-se entre margens edénicas e Ilhas de Amores, a silhueta grega do Monte de Santa Tecla do outro lado, à direita, o galeão de pedra que é a Fortaleza, em frente, ao fundo, a aguarela de areia, barcos e pinheiros, à esquerda, e, a toda a largura dos olhos, o luminoso estuário, verdadeiro milagre de cor e luz em constante movimento.

 

No sábado os quatro expatriados confecionaram urna taina com iguarias trazidas expressamente de Barroso, terra bendita, onde, no dizer de Camilo Castelo Branco, uma simples batata cozida com a tona e rolada numa escudela de sal sabe que nem manjar de anjos.

 

Passaram a noite a petiscar e a carpir lembranças de Parafita.

 

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Casualmente, um deles trazia no bolso um gravador de fabrico japonês, pouco maior do que um maço de tabaco, e ligou-o. Tive acesso à gravação. É dela que vou transcrever um naco da conversa dos alegres carpidores de lembranças. Só lamento não encontrar na escrita sinais gráficos correspondentes às saborosas gargalhadas da cassete. Paciência. Vai mesmo assim.

 

 

*

*        *

 

— Parafit-atrás Parafi-tá-trás ! Arroz p'r'ó-pote ! Arroz p'r'ó-pote! Cabra velha p'r'á caldeira! Cabra velha p'r'á caldeira! Vinho ! Vinho !

 

— Para vinho eram eles uns barras! Um ano foram tocar a S. Bento de Sexta-Freita, ali para as bandas da Roca da Ponteira. Em pleno Agosto. Um calor de amolecer pedras e tirar o fôlego a qualquer um. Com receio de que a fanfarra desfalecesse nos vivaces dos metais e nos rufos dos tambores, tão do agrado das multidões, o mordomo fez seguir na procissão, bem à vista dos músicos, uma guapa rapariga com um cântaro de vinho à cabeça. Tinha boa perna, a moça. Mas nenhum dos músicos lhe olhava para elas. Iam todos de olhos no cântaro do vinho, ansiosos por molhar a palheta. Entram capela dentro a passo acelerado, a dar as últimas. Ora enquanto assim estavam, os músicos nos acordes finais e a cachopa de cântaro à cabeça, o coto duma vela pegou fogo às saiolas do altar. Num gesto instintivo, a moça despeja o vinho nas chamas. Noutro, o Barral espeta-lhe uma bofetada e atira com ela de cangalhas e de cara à banda, desmaiada. Acode o mordomo, a família do mordomo, os vizinhos do mordomo: «Grandes malandros! Olha como puseram a criança! É fazer-lhes o mesmo...» «Vamos embora, rapazes!» ordenou o Mestre, vendo as coisas mal paradas. Ninguém foi manco. A pé, costa arriba, sob a torreira, mortos de fome, curtidos de sede... O Barral até chorava: «Ó companheiros, desculpai! Mas eu estava com um secão... Quando vi o vinho entornado, não me contive... Foi sem querer...»

 

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—        Coitados. No Verão, atiravam-se ao vinho para refrescar; no Inverno, à aguardente para aquecer.

 

—        Os ensaios eram à noite, no sobrado do Pinto, depois da ceia. Chegavam todos a tremer de frio, às escuras. «Acendei lá o petromax.» Mas ninguém se entendia com aquilo. Muitas vezes, quando chegavam a acender o candeeiro, era madrugada. Acabara a aula.

 

E o garrafão? «Oh, rapazes, que frio está! E se fôssemos buscar um garrafão de aguardente para aquecer?» Como não havia copo, bebiam pelo gargalo, cada um seu gole. Vigiavam-se uns aos outros. Ai daquele que se alargasse... Um dia um deles botou dois tragos...Pegaram-se... Espatifaram tudo...

 

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—        O busílis é que passavam o tempo frio a beber fiado e o quente a tocar para o calote.

—        E sempre empenhados.

—        Apesar de não dispenderem um tostão na farda ou no transporte.

—        Farda não usavam; transporte era o burro: cada qual o seu.

—        Daí o dito: dez músicos, vinte figuras...

—        O que trazia problemas de aboletamento nas aldeias a cujas festividades iam tocar: «Ai eu quero ir para casa de fulano, que é bom tratador...»

 

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—        O boleto dos músicos trazia sempre problemas. Um dos mais bicudos advinha do sestro que os hospedeiros tinham de, no fim dos banquetes, pedirem aos hóspedes filarmónicas para tocarem qualquer coisa: «Agora, que estão de papo cheio, botem lá uma peça para a gente apreciar.» Mas que alguns não tocavam a ponta dum corno... Esses tinham de ir sempre acompanhados por alguém que salvasse a honra do convento.

—        O que nem sempre acontecia. Uma ocasião, um foi parar a casa de certa cerimónia, com talheres individuais à mesa. Puseram-lhe uma travessa de cozido à frente, para ele se servir. Mas o indígena, que não estava habituado àquilo? Começou a comer directamente da travessa... «O senhor não se serve?» — acudiu a dona da casa. «Ai eu bem servido estou...» — respondeu o alarve, puxando a gamela para debaixo dos queixos...

 

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— Lembrais-vos de quando mestre Angelino tentou pô-los a marchar direitos e alinhados, ao som da caixa?

 

— Moeu tardes inteiras a treiná-los na eira. Escusado. Se um ia para a direita, outro cambava para a esquerda. Desistiu.

 

— Esse mestre Angelino, reformado não sei de quê, vindo de Braga, era um atadinho do caraças. Tudo lhe metia medo. E montar um jumento? Um espectáculo. Entrava por um lado da albarda, saía pelo outro. Agenciaram-lhe um burro grande, desses da Ribeira, ajaezado com selim e acessórios correlativos. Foram tocar a Pitões. Ao subir a Mourela, com a vereda quase a pique e o burro muito traseiro, mestre Angelina escorrega pela rabeira da montada, vai parar ao chão a cavalo no selim e ali fica, atarantado, sem atinar com uma saída para tamanha desgraça. Nisto chega o Manuel do Pinto, o Capador, montado num bom cavalo. Diz-lhe o Angelino: «Ó senhor Manuel! Foi por Deus o senhor aparecer... Acabou-se-me o burro...»

 

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—        O Manuel do Pinto era tangedor de pratos substituto. Um dia, durante uma exibição de muita responsabilidade, adormeceu e atrasou-se no compasso. O do bombo chincou-o. Ele sacudiu o sono e disparou sozinho por ali fora: Changla! Changla! Changla!: lá se foi o êxito da audição p'ró galheiro.

 

—        Os da pancada (bombo, pratos e caixa) eram os do couce. Ora o titular dos pratos, o Manuel do Cabra, tinha a mania de empiscar às moças. Um ano, nas Alturas, durante a procissão, as de Atilhó, que passavam o Inverno na pedincha, por terras de Espanha, umas sabidonas, vinham por trás e apalpavam-no... Era um pratinho ver o velho Manuel do Cabra a bater pratos e a furtar-se às apalpadelas, aos saltinhos dum lado para o outro, ante a risota das moças e o espanto do mestre, que não percebia o que se estava a passar.

 

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Imagens retiradas da página da Internet da Banda de Música de Parafita

 

—        Esse Manuel do Cabra não era o do revólver de madre-pérola?

 

—        Não. O do revólver chamava-se Manuel da Porta e tocava bombo. Um dia, ao rebaixar o salão duma corte, encontrou um revólver antigo, com a fecharia e o cano desfeitos, mas a coronha, de madre-pérola, intacta. Limpou aquilo muito bem limpinho e apareceu na festa de Veade de coronha a sobressair ostensivamente do bolso de trás das calças. As aldeias andavam despicadas por causa duma chega de bois, os de Veade viram aquilo, ficaram de cabelos em pé e foram avisar a guarda, antes que fosse tarde. E o Manuel da Porta, um pantomineiro de marca maior, a bater no bombo e a olhar para o outro lado, a fingir que não via nada... Um dos guardas aproxima-se por trás, deita a mão à coronha de madre-pérola, puxa, vê aquela porcaria a desfazer-se em ferrugem, mas não se dá por achado. Recua e diz para os delatores, que o aguardavam atónitos: «Eu nunca vi objecto assim! Mas que perigo... Nem me atrevo a tocar-lhe... Lixe-se lá o homem!»

 

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—        Para mim, uma das melhores é a do foguete...

—        Na Senhora da Saúde? Ai eu vi. Estava lá.

—        Iam a tocar na procissão, a caminho da capela da Senhora da Saúde. A calhelha é estreita e funda e os devotos formavam alas dum lado e doutro, de palanque nos campos. Nisto vem a cana dum foguete, viumvê...vvv..., espeta-se no carrulo ao Amadeu da Marcolina e ali fica ao alto, erecta e vibrátil como antena de extraterrestre. Vai o Serafim da Benta, que o seguia na forma, deita-lhe a unha, zás!, arranca-lhe a farpa. Poucos se aperceberam da manobra e a procissão continuou, na boa compostura. O melhor veio depois: o assombro do povo que não compreendia porque é que os músicos, sempre que estoirava um foguete, empinavam os trombones para o céu, pó, pó, pó-ró, girando ângulos de trezentos e sessenta graus sobre os calcanhares, atentos ao trajecto da cana... Porra!

(…)

In “História de Lan-Caprina” de Bento da Cruz, Editorial Notícias, Lisboa, Maio de 1998

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Ficamo-nos por aqui, na página 15 das “História de Lana-Caprina” de Bento da Cruz, no 1º capítulo do livro - “Os de Parafita”, que dedica aos músicos de Parafita, e ficamos por aqui não por se acabarem as histórias sobre os de Parafita, pois essas continuam livro adentro até à página 60, mas porque são em demasia para este espaço do blog, mas pela certa que de futuro teremos por aqui mais algumas destas histórias.

 

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E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia de Parafita que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem e para rever aquilo que foi dito sobre as Parafita ao longo do tempo de existência deste blog, a seguir ao vídeo, ficam link para esses post, onde por sinal contém mais histórias sobre os de Parafita, mas de um outro livro, “ Histórias da Vermelhinha”, também de autoria de Bento da Cruz.

 

Aqui fica o vídeo:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Parafita:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

 

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Imagem retirada da página da Internet da Banda de Música de Parafita

 

Link para a página da Banda de Música de Parafita (de visita obrigatória):

 

https://www.bandaparafita.net/cms/

 

 

E quanto a aldeias do Barroso, despedimo-nos até amanhã, desta vez calhou assim, em que teremos aqui a aldeia de Torneiros, do concelho de Boticas.

 

08
Jan21

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso – 14

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Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 14

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a penúltima das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português da altura, incluindo gralhas tipográficas.

 

Podia pegar nalgumas coisas da crónica para dizer algo mas vou deixar para uma crónica mais longa e que inclui outras coisas não relacionadas com esta crónica. De resto, Impressionou-me a leveza com que o autor relata um assassínio numa zaragata, embora ele tenha alguma desculpa por ter sido um homem de armas. Mais nada. Agora fica apenas a faltar a última crónica desta série.

Luís de Boticas

 

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Fotografia de Artur Pastor

 

 

A RELIGIÃO DE BARROSO

 

Era domingo e o guia quis ouvir a sua missa, como bom catholico. Essa pequena circunstância permittiu-nos fazer uma idéa do que é o culto catholico em Barroso e vale a pena talvez falar d’isso, se dão licença aquelles livres-pensadores que todos nós temos conhecido envergando as opas do santíssimo de Mafra, assoprando os incensários da patriarchal ou cantando pela encosta do Sameiro o hymno à lmmaculada.

 

A egreja está sempre no melhor sítio. D’entre as casas, cujos colmos têm reflexos fulvos de pelles de animaes selvagens e cujas paredes parecem os abrigos duma caverna dos contemporaneos do período terciário, a egreja, com o seu pretencioso telhado de telha vã e a sua gentil torrela em que se abre a bocca amiga e sonora do sino e d’onde uma cruz deixa cahir a sua bênçao —a egreja escortina-se sempre da última volta do caminho, como um sorriso branco ou como um convidativo acenar de lenço. A casa de Deus nao tem pórticos, nem naves, nem azulejos, nem talhas, e nas sachristias nem ha thesouros nem paramentos ricos. Mas, ao menos, que o Todo Poderoso, lá do céo, não diga que aquela gente nem o cuidado teve de carregar de Chaves alguns milheiros de telha e uma pipa de cal. Não há uma archivolta, um nicho, uma lanterna de prata, um manípulo de seda, uma folha d’acanto que o cinzel ou a escoda hajam recortado.

 

Mas que importa? Que mais quererá Deus? A egreja tem a cal, que ninguém mais possue e tem a telha que só a Deus é dada.

 

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Em volta da egreja, no pequeno adro, algumas Iamagueiras, enristam os seus ramos aggressivos. Os cachos vermelhos destacam-se do verde-negro das folhas como pingos de sangue. É a árvore ornamental barrozã. Encontra-se à volta das egrejas e dos cemitérios, estendendo para o alto os seus braços súplices; encontra-se junto das eiras, offerecendo à gula da passarada as suas florescências vermelhas; e uma ou outra vez lá se encontra n’um cruzamento de caminhos, n’um alto, à entrada das povoações, como um ponto de referência para o caminhante.

 

Antes da missa, o parocho, de sobrepeliz, dá a volta à egreja, com a Custódia. É a procissão. Os cânticos elevam-se nos ares como bateres d’azas; as mãos postas parecem fazer parte dos próprios peitos.

 

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Logo começa a missa. As mulheres, com os rostos, emoldurados nas capuchas, têm um certo aspecto de freiras. Os homens, apertados junto da teia do altar-mór, com as gorras debaixo dos braços ou os chapéus enfeitados de penas de pavão depostos no pêto do orago, espreguiçam-se familiarmente. Ao crédo um grande rumor enche a pequena egreja. Os homens levantam-se, tossem, espreitam as raparigas, raspam os socos sobre as campas dos antepassados. Alguns olhos encontram-se e brilham na penúmbra propícia com mais fulgor do que as velinhas dos altares. Ao Evangelho, o parocho avisa o povo de alguma rez perdida, do conteúdo de algum edital, lê as proclamas de algum casamento, faz a sua praticasinha contra a impiedade dos republicanos.

 

 

A hóstia ergue-se nas mãos alvas do parocho como uma pequena lua de marfim. Os peitos curvam-se. Passa um sopro de contrição. O calice sóbe, levemente inclinado, refulgindo contra o fundo escuro do altar. O sachristão pega das galhetas, e os beiços esbarbados dos homens distendem-se em longos bocejos. Por fim, o parocho volta-se, desenha uma cruz, ajoelha e enquanto atropela as trez avé-marias e o murmúrio das rezas esvoaça sobre as cabeças como uma arcada leve, de violinos, as boccas riem. Já cá fora, no adro, os moços dilatam orgulhosamente os troncos, mettendo os pollegares nas cavas dos colletes de carapinha ou de pelle de lebre. Algumas velhas ficam-se à porta, falando das vidas alheias, e o regedor convoca o «conto» ou «chamado». Apparece um vizinho a queixar-se que a «fazenda» (gado) de outro lhe comeu umas perneiras de milho e pede à assembleia que applique a respectiva multa. O accusado defende-se, nega, brama, blasphema. Formam-se partidos, a discussão accende-se. O regedor apresenta uma proposta conciliatória. D’esta vez não se applicará a multa; mas o culpado que não alarde da acção e que não repita o feito, ficando elle regedor, no caso de nova queixa, auctorisado a applicar logo a multa. Approva-se a proposta, desfaz-se o adjunto e cada qual vae para a sua cabana comer a sopa de leite desnatado.

 

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O parocho desparamentou-se à pressa, metteu a sobrepeliz e o manípulo n’um pequeno sacco, enguliu duas trutas, folheou nervosamente um semanário, e assim preparado em carne e em espírito montou na égua e foi pregar a uma freguesia vizinha sobre os milagres do seu padroeiro.

 

Esta é a vida religiosa de todos os domingos. Mas, ao menos uma vez no anno, há a festa da aldeia. Chama-se o gaiteiro, arma-se um andor, compram-se na villa os foguetes e as rodinhas de fogo e todo o dia e toda a noite a mocidade, com os seus harmónios e os seus ferrinhos, enche a aldeia de alegria e de tumulto. Como me dizia um velhote, os corações saltam para as palmas das mãos e as pernas fazem-se azas. Canta-se ao desafio. Às vezes, no calor da improvização, o cantador joga a sua piada a uma moça que o repelliu ou a um rival feliz, e então os lodos cantam alto, o sangue espirra das cabeças e não raras vezes a fouce ou a espingarda fazem o seu apparecimento, ficando no terreiro algum dos da mocidade, a empastar com o seu sangue a poeira e a abrir para o céu os olhos parados.

 

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Toda a aldeia tem a sua festa de anno. Há porém, terras desgraçadas, perdidas entre os fraguendos, nos quaes apenas uma dúzia de vizinhos vegeta e não é possível arranjar dinheiro para armar um andor, comprar as rodas de fogo ou pagar ao pregador. Em taes casos, o mordomo péga no santo ao colo, e abre a procissão, atraz vão os vizinhos, com as suas caras compostas e as suas opas emprestadas; e no couce guisalha e espinoteia o cortejo das vaccas, com ramos de carvalho presos das hastes, prestando também a sua homenagem à divindade.

 

De quando em quando, a festa redunda em enorme tragédia. A lágrima d’um foguete cahe sobre um colmado. Levanta-se um pé de vento. Uma chama lambe, como uma grande língua, a primeira casa. O sino toca a rebate. Uma fogueira immensa se ergue logo até ao céu. É a aldeia que arde em meia hora. As outras povoações acodem, mas quando chegam apenas vêem as paredes denegridas e apenas ouvem as mulheres gritando a sua afflição, enquanto os homens consultam angustiosamente o horizonte.

 

Entregues à sua sorte, sem o socorro mútuo e sem o socorro do estado, o pobre barrosão vira-se para Deus.

 

Antonio Granjo

 

 

06
Jan21

Santo Estêvão - Chaves - Portugal

Vilas de Chaves

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SANTO ESTÊVÃO

 

Em geral, nesta rubrica, vimos aqui cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, mas hoje, embora com o mesmo objetivo, não é uma aldeia, mas sim uma vila, a vila de Stº Estêvão.

 

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Outrora Vila Medieval com a importância que a História lhe confere, perdeu esse estatuto com o passar do tempo, mas graças à sua história, Lei nº 28/2005,  atribui-lhe de novo o estatuto de Vila – a Vila de Stº Estêvão, ficando assim o concelho de Chaves, com uma (1) cidade, duas (2) vilas e cento e trinta e duas (132) aldeias.  

 

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É também uma vila com castelo, um pequeno castelo mesmo no centro da vila, com uma localização muito singular, pois ao contrário da grande maioria dos castelos que se localizam em pontos altos, em geral nos cumes de pequenos montes ou elevações, este está implantado em pleno vale de Chaves, mas pela certa que tinha a proteção dos dois ou três castelos próximos, o de Chaves e Monforte, e às vezes, o de Monterrei, pois este último, no decorrer da sua existência, tanto foi castelo amigo como inimigo, que embora próximo, já pertence à Galiza e como tal ao Reino de Espanha. Mas isto são coisas do passado, pois hoje os castelos, embora mantenham a sua importância na História, militarmente falando, não têm qualquer importância, daí, hoje em dia, ou estão abandonados, esquecidos e degradados ou foram convertidos em pousadas, museus e outros fins.

 

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Mas hoje não estamos aqui para falarmos de Santo Estêvão, isso, já o fomos fazendo ao longos dos vários posts que lhe dedicamos onde houve até lugar para a poesia. Fica link no final deste post para essas abordagens à Vila de Santo Estêvão.

 

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Vamos então ao vídeo com todas as imagens da vila, uma vila do vale de Chaves, a caminho da Galiza, ali quase ao lado. Aqui fica, espero que gostem:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

Post do blog Chaves dedicados à vila de Santo Estêvão:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/da-nascente-do-rio-tamega-ate-aos-lagos-1867408

https://chaves.blogs.sapo.pt/sto-estevao-chaves-portugal-1826169

https://chaves.blogs.sapo.pt/550617.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/439822.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/304765.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/43927.html

 

 

E quanto a aldeias e vilas de Chaves, despedimo-nos até ao próximo sábado em que teremos aqui a aldeia de São Cornélio.

 

06
Jan21

Crónicas de assim dizer

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Nostalgia ou Angústia!

 

 

 

Às vezes tenho saudades do que nunca tive,

mas que podia ter tido,

não fossem uns pormenores irrisórios,

umas circunstâncias indeléveis,

acasos que aceitei como sendo

e não o eram,

destinos que julguei traçados

e não estavam!

 

 

Alturas em que disse não

sem saber porquê,

só porque não tinha um porquê para dizer sim!

Como se isso fosse uma condição,

uma coisa necessária,

um pré-conceito

que hoje me parece,

tardiamente,

ridículo!

 

 

Não lamento,

porque não posso lamentar o ter sido eu

quando eu era o que fui!

Também não posso lamentar um presente

que não posso mudar

quando não depende de mim!

E do futuro,

que poderei eu dizer?

Nada!

Não me pertence,

não sou dona dele!

 

 

Eu sou um simples ser humano,

único como todos,

que tudo quer

e nada tem,

por isso mesmo!

Porque acredito,

aqui ingenuamente,

que tudo depende de mim,

mesmo o que depende dos outros!

Porque acredito num Deus inexistente

que é justo,

que é equilibrado,

que nos ilumina no caminho certo,

que cada um de nós deve ou tem que percorrer!

E esse Deus pouco existe!

Ninguém acredita nele,

ninguém espera que ele chegue,

ninguém está à espera que ele se manifeste!

 

 

Só os poetas doidos,

inspirados numa Deusa

envolta em tecidos brancos de linho ou organza,

acreditam que a salvação do mundo

está em cada um de nós!

Que ela não depende de ti

nem de mim!

Que está nos astros,

no Universo,

no que ele tem de infinito,

onde tudo se inclui

excepto o imprevisível ser humano!

 

 

Um dia,

acredito piamente,

vão nascer-me umas asas brancas

e atingirei um céu,

embora deserto do ser absoluto,

onde a paz é o único instrumento,

a estrela que nos guia

sem precisar que haja um destino!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

05
Jan21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

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Na rubrica do “Chaves de Ontem - Chaves de Hoje” vamos até ao ano novo de 1916, com umas despedidas do ano velho que encontrámos no jornal “O Flaviense”, em que se lamentava o ano e se projetavam esperanças para o ano novo. Recordemos que na altura se estava em plena Grande Guerra Mundial.

 

Ano novo

 

Entramos em ano novo sem que o velho nos deixe saudades.

 

Ao soarem as badaladas da meia noite, o ano de 1915 traspoz definitivamente os humbraes da História ouvindo um grandioso côro de maldições. Troava o canhão, crepitava a fuzilaria, corriam por sobre a terra rios de sangue, longos crepes cobriam milhares de viuvas e de orfãos, alastrando pelo velho mundo como negra mancha cada dia mais extensa e mais carregada, talava os campos uma devastação enorme, ouviam-se os brados colericos da miseria e os uivos lamentosos da fome, e por toda a parte, na terra, no mar e nos ares, maquinas de morte e destruição marcavam a par de um feroz engenho, producto da cultura dos homens de hoje, o mais brutal retrocesso aos tempos barbares, a mais cruel e completa negação da paz e do amôr que deviam caracterisar uma epoca de fraternidade universal.

 

Ano tragico foi o que findou, terrivel período de ferocissima lucta, que a Historia registará com lamentos de dôr.

 

Não desponta menos tragicamente o novo ano. O que será o seu curso? O que será o seu termo?

 

Não podemos rasgar o veu que nos encobre o futuro. Anima-nos, porem, a esperança de que 1916 será ano de paz e que a paz marcará o inicio de um novo periodo de reconstituição e de ressurgimento. E desejando que as nossas esperanças não sejam iludidas, a todos os nossos estimados leitores e assinantes aqui apresentamos, com os nossos cumprimentos, os votos mais siceros para no ano novo que começa lhe seja possível gosar as maiores venturas e prosperidades.

 

Pois, mas as venturas e prosperidades foram de mais 3 anos de guerra (1914-1918) e como se a guerra não bastasse, foram seguidos de 2 de pandemia denominada de “Gripe Espanhola” ou “Pandemónica” (1918-1919), que portugueses e flavienses também sofreram, em que na Grande Guerra houve 31.130.500 de mortos, feridos e desaparecidos,  e a pandemia, de janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infetou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial e estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões. Só em Portugal estima-se que o número de mortos fosse entre os 60.000 a 100.000 com uma população que na altura era aproximadamente metade daquela que temos hoje. Penso que dá para imaginar o que foram aqueles 6 anos…

 

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O Chaves de ontem e de hoje, desta vez foi assim, mas fica já uma imagem da praça que iremos abordar na próxima semana.

 

 

04
Jan21

De regresso à cidade...

Cidade de Chaves

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Cá estamos com o primeiro regresso à cidade do ano, com uma panorâmica a apanhar um bocadinho da cidade à beira rio, com um bocadinho da Madalena e outro de Santa Maria Maior, e ao centro, claro, com a devida vénia a nossa ponte mais velhinha sobre o rio Tâmega, quase dois mil anos a permitir travessias para uma ou outra margem.

 

 

 

Uma boa semana neste novo ano de 2021   

 

04
Jan21

Quem conta um ponto...

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522 - Pérolas e Diamantes: Este país não nos merece

 

Dizem os entendidos que para se chegar a algum lado tem de se saber as regras do jogo. Ou seja, tem de se perceber quem se deve engraxar. Isto é que é o sistema.

 

Há sempre processos de se chegar ao lugar ambicionado. Ou ao dinheiro. Ou ao poder. Mas nunca se tem bem a certeza quais são os que verdadeiramente resultam.

 

Existe ainda a forte possibilidade de, nessa tentativa, se ser atingido pelas costas.

 

Como dizia Nietzsche, as pessoas ativas rolam como pedras, submetendo-se à estupidez da mecânica. E também escreveu que “quem pensa muito não possui as condições necessárias para se tornar um homem de partido. O seu pensamento atravessa o partido e não tarda a ultrapassá-lo”.

 

O filósofo alemão também nos avisou que as pessoas que vivem numa época definida pela corrupção são astutas e caluniadoras, pois sabem que existem outras formas de matar sem ser pela espada ou pela agressão. E também percebem que se acredita em tudo o que é bem dito

 

O país parece estar cheio de gaiolas. Por isso não percebemos porque gostamos dele. E muito menos entendemos para que raio de coisa o país precisa de nós.

 

Este país não nos merece.

 

E também não sabemos do que é que se orgulham os revolucionários de esquerda e de direita.

 

Pois é, onde está a verdade? A verdade depende do ponto de vista. Mas aí junta-se com a mentira e...

 

À natureza humana, tanto para o bem como para o mal, não existe revolução que a mude.

 

Todos gostamos de ver as amendoeiras em flor e os cravos na ponta do cano das espingardas.

 

O povo unido... jamais será... vencido...

 

Uma gaivota voava, voava...

 

São deveras maçadoras as lengalengas revolucionárias.

 

Ando sempre com a sensação que os portugueses, em vez de procurarem soluções, gostam é de arranjar problemas.

 

Falsificaram-nos o futuro.

 

Nós estamos sempre à espera que a História nos conte outra história.

 

O povo vencido, jamais será unido... queremos trabalho... queremos trabalho... à sombra duma azinheira...

 

São tão medíocres as lengalengas reacionárias...

 

Há um velho ditado suábio que diz: “ Acredita no que é verdadeiro; ama o que é raro; bebe o que é límpido.”

 

Dizem, os que beberam as tais poções mágicas, que só quando nos recolhemos na cama, aos tropeções, é que percebemos a docilidade de quem acata tão bonito conselho.

 

Na política não há traição, só se atraiçoa nos romances de aventuras. A alegria corre os campos. Os sinos dobram. Tudo cintila na luz de Abril.

 

No entanto, apesar da fascinação, teimo em manter uma certa distância. É a minha forma de me mostrar delicado.

 

Uma coisa me disseram os entendidos nos contos de fadas: os sapatos da Cinderela sempre lhe magoaram os pés.

 

São Lucas 18 (versículo 14) diz mais ou menos isto: “Quem se humilha quer ser exaltado.”

 

A caridade existe para que cada um de nós consiga construir a versão que a sensatez aconselha.

 

A forma de destruirmos os nossos jovens é ensinar-lhes apenas a ter apreço por aqueles que pensam como eles.

 

O atual poder democrático, devido à sua essência, já não nos provoca até à fúria – como o fazia Pedro Passos Coelho, desbaratando e “irrelevando” o seu próprio partido –, mas até à vulgaridade.

 

Todos sabemos que a tecnologia é fantástica, quando funciona. Mas só nos apercebemos o quanto dela dependemos quando deixa de funcionar.

 

O problema é quando começamos a deixar de confiar na própria capacidade de confiar.

 

Há muitas características que, apesar de nos darem certas vantagens, dificilmente podemos qualificá-las como virtudes.

 

Não podemos contar com a consciência dos outros para vivermos a vida que queremos viver.

 

Na política, como em muita outra coisa, a admiração inicial costuma transformar-se facilmente em impaciência e depois num crescente desdém.

 

E o desdém, ao contrário do que muita gente pensa, é uma emoção que pode proporcionar uma certa clareza.

 

A verdade, verdadinha, é que os pobres que agora se usam são muito diferentes dos de antigamente. Como os tempos mudam. Mas o progresso é isto mesmo. As modas mudam rapidamente. Os pobres de agora são muito jeitosos: mais instruídos, mais loiros, mais negros, ou muito mais branquinhos do que os de antigamente.

 

Os de antigamente eram velhos, feios e analfabetos.

 

A verdade, verdadinha, é que o socialismo os melhorou.

 

João Madureira

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