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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Out20

Quem conta um ponto...

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511 - Pérolas e Diamantes: Humanidades e outras cantigas de embalar

 

No que se refere a matar e a contar os mortos, os seres humanos têm dado mostras de uma meticulosidade admirável. Sobretudo os ocidentais. Por essa Europa fora desfilam os automobilistas em viagem de férias, consultando os seus mapas de estradas tendo em vista encontrar lugares onde existem grandes extensões de cemitérios de soldados, situados em lugares encantadores, que agora fazem parte integrante da paisagem. As elegantes cruzes das sepulturas, distribuídas uniformemente pelos espaços, prestam testemunho acerca dos conturbados tempos da Primeira e da Segunda Guerra mundiais. Nos monumentos espalhados por aldeias, vilas e cidades, podem ler-se, entalhados no mármore, os nomes dos militares mortos em ambas as guerras.

 

Afinal, para que servem? Provavelmente alguém bem intencionado acalentou durante algum tempo a esperança de estar a construir uma alteração radical da forma de pensar o convívio humano, possibilitando uma grandiosa tomada de consciência.

 

Depois de 1945, a paz limitou o desenvolvimento dos conflitos ao abrigo de um protetor equilíbrio nuclear. As sorumbáticas grandes potências prometeram defender a limitação dos conflitos. A consequência de tão boas maneiras foi uma nova mortandade. Mas mais lá para o outro lado do planeta.

 

Contabilizaram-se outra vez milhões de mortos nas guerra da Coreia, do Vietname e do Biafra. Exterminaram-se os Curdos. Fomentaram-se as guerras no Próximo Oriente, a Guerra do Yom Kippur, as guerras indo-paquistanesas e também outras de proporções um pouco menores.

 

Afinal, quem é o responsável por esta loucura? O que leva os seres humanos a exterminarem-se mutuamente? Qual a razão que conduz a que uma grande parte do rendimento de todos nós seja investido em tecnologias de aniquilamento cada vez mais perfeitas e letais?

 

Mas nem só os denominados casos de guerra geraram a morte em massa. Também os processos revolucionários conhecidos de todos nós consistiram em orgásticos exorcismos de morte. Quando não era aquele, era um outro princípio de pureza ideológica que teve como consequência distintos processos de limpeza com desfechos mortíferos.

 

Foi a Inquisição quem aperfeiçoou com requintes de malvadez os métodos de interrogatório para ampliarem miraculosamente a glória de Deus. Sucedeu-lhe a guilhotina, celebrada como progresso do humanismo e do Iluminismo. Depois surgiram os processos purgativos estalinistas que se definiram como clisteres no corpo doentio dos trotsquistas, abençoados por todos aqueles revolucionários que sabiam e também pelos outros que não sabiam o que se estava a passar.

 

E os campos de concentração nazis foram implementados para reeducarem, pela morte, os judeus e outras minorias da mesma estirpe. Foi então que a morte passou a ser um ato administrativo, um mero ato burocrático. Uma estatística.

 

Foram os seres humanos – mais propriamente os do sexo masculino, que, com desapaixonada veemência, animados pelas suas científicas crenças de estarem do lado certo, fixados nos seus objetivos, quais anjos e arcanjos resolutos e totalitários –, anteciparam a morte de outros seres humanos.

 

Claro que também houve os apóstolos da paz, cantando os seus hinos religiosos ou escrevendo tratados filosóficos em sua defesa. De facto, a paz continua a ser uma alegoria virtuosamente interiorizada.

 

Sempre se justificou a guerra com a asseveração de intentos pacíficos, quando não com a sofística distinção entre guerras justas e injustas.

 

Mas isto já vem de longe. Foi em nome do amor ao próximo que se realizaram, e continuam a realizar, as cruzadas.

 

Mesmo as ditas guerras de libertação foram travadas sob coação e até por imposição ideológica externa.

 

O princípio da economia de livre mercado tem como consequência a subalimentação permanente de milhões de pessoas. E não há Guterres que lhes valha.

 

A fome também é uma guerra. E terrível.

 

A história é representada como uma inevitável sucessão de períodos de guerra e de paz, e de paz e de guerra. Como se fosse uma lei da natureza. Como se fosse um destino. Como sendo uma espécie de movimento perpétuo.

 

Por muito que nos custe, tudo tem origem na cabeça dos homens. A perversão é uma criação humana.

 

João Madureira

 

11
Out20

O Barroso aqui tão perto - Nogueira

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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NOGUEIRA

 

Hoje no Barroso aqui tão perto, vamos até a aldeia de Nogueira, a terceira e última aldeia da freguesia de Ardãos e Bobadela, aqui bem pertinho de nós (cidade de Chaves), a apenas 18.3Km. Não queremos ser repetitivos, mas aquilo que dissemos sobre Ardãos e Bobadela, dada a proximidade das três aldeias, também se aplica a Nogueira, principalmente o seu enquadramento e relacionamento que tem com a Serra do Leiranco e com o vale do Alto Terva, daí os próximos capítulos são um bocadinho daquilo que já dissemos para as outras aldeias da freguesia.

 

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Nogueira fica precisamente entre as duas aldeias que dão nome à freguesia, Ardãos e Bobadela, ficando a 1.800m de Ardãos e a 700m de Bobadela.  é a freguesia localizada mais a norte do concelho de Boticas e faz uma “incursão”, como se tivesse ficada entalada, entre o concelho de Montalegre e o concelho de Chaves, ficando o limite da freguesia bem próximo das aldeias de Meixide (Montalegre) e de Castelões, Calvão, Seara Velha, Soutelo, Noval, Pastoria, Casas Novas e Redondelo, estas todas do concelho de Chaves e a menos de 2Km do limite desta freguesia barrosã, com a Pastoria a menos de 500m de distância.

 

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A par da aldeia de Sapelos, da freguesia de Sapiãos, é também a freguesia que se abre para o vale do Alto Terva, a acompanhar o rio Terva que, em termos de peixe só “dá bogas e às vezes trutas” e só nalguns troços do rio, mas que, desde a ocupação romana,  é conhecida pela riqueza em ouro do seu subsolo, pelo menos os romanos exploram neste vale algumas minas deste metal precioso, construíram uma cidade (Batocas) e fizeram passar por ela importantes vias romanas e/ou importantes ligações à Via Romana XVII, que ligava Bracara (Braga) a Asturica (Astorga), com passagem por Aquae Flaviae (Chaves).

 

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Vale do Alto Terva onde existe um parque arqueológico, com alguns passadiços, miradouros, vestígios das antigas minas de ouro, como o poço das Freitas, ou vestígio da antiga cidade de Batocas, gravuras, castros, etc. Mas desde já fica um conselho, se não conhece o vale do Terva, não se aventures a ir para lá às cegas, que o mais provável é não encontrar nada ou mesmo perder-se. Na aldeia vizinha de Nogueira, Bobadela, junto à Igreja/cruzeiro, há um posto de informações com muita documentação, mapas, rotas (natura, das vias antigas, das gravuras, das minas, dos castros e das aldeias) e demais informações. Penso mesmo que fazem visitas guiadas ao Parque Arqueológico. Antes de se aventurar por lá sozinho, vá com alguém que conheça ou passe por este posto de informações.

 

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Como já perceberam esta aldeia de Nogueira é uma aldeia bem próxima da cidade de Chaves mas nada tem a ver com a Nogueira da Montanha de Chaves. Para se ir até lá, Nogueira de Boticas, temos dois acesso possíveis, mas, curiosamente,  ambos mais ou menos à mesma distância. Um dos acessos é via EN103, estrada de Braga, passando por Curalha, Casas Novas, S. Domingos, Sapelos (já de Boticas) e a seguir a esta aldeia irá atravessar uma ponte sobre o rio Terva onde logo a seguir terá uma saída à direita (M507), por onde terá de percorrer 1,7Km para chegar a Nogueira. A outra alternativa, é com saída por Casas dos Montes, Valdanta, Soutelo, Seara Velha, Ardãos (já em Boticas), e logo a seguir temos Nogueira. Nós recomendamos este último itinerário, mas o melhor mesmo, é ir por um itinerário e regressar pelo outro, e aí tanto faz. Fica o nosso mapa para melhor poderem localizar a aldeia e ver como é mesmo perto da cidade de Chaves.

 

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Nogueira fica implantada já em plena Serra do Leiranco, logo no início da sua encosta vira da nascente, a uma altitude a rondar os 600m, uma serra que embora muitas vezes fique vestida de branco no inverno, protege a aldeia dos ares frios vindos do grande planalto do Larouco e do restante Barroso. É uma aldeia que há muito conhecíamos das nossas inúmeras passagens, mas como sempre vamos dizendo, só passar, não nos dá a conhecer a aldeia. É preciso parar, entrar na sua intimidade, demorarmo-nos por lá o tempo que tiver de ser, e se possível, conversar com os seus residentes, só assim poderemos ficar com algum conhecimento dela, e esta aldeia, tal como as outras duas da freguesia,  surpreendeu-nos pela positiva. Sinceramente gostámos daquilo que vimos e que vamos deixando aqui um pouco em imagem. Uma aldeia com gente simpática, com que tivemos oportunidade de conversar e desfrutar das conversas e que nos levaram à descoberta de alguns pontos de interesse que sem a dica e indicação dos residentes, talvez não tivéssemos descoberto ou ficar a saber do que se tratava e da importância para a aldeia.

 

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Então vamos lá entrar em Nogueira, recordando um pouco o dia 19 de julho de 2018, eram 8H00 (da manhã) quando lá chegámos, num dia coberto de nuvens que na serra do Leiranco era nevoeiro espesso, mas mesmo assim, convém recordar que estávamos numa aldeia, onde as pessoas têm por hábito levantarem-se cedo, daí já haver muita gente nas ruas, que ao saber ao que íamos, nos iam indicando as coisas bonitas para ver, a igreja, as capelas, o calvário, o cruzeiro, etc.

 

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E lá fomos andando e descobrindo, mas como sempre, há pessoas mais dadas às conversas, que gostam de nos mostrar e levar até aquilo que eles acham ser do nosso interesse. Ao longo das ruas não precisamos de nos anunciar, os cães, à nossa aproximação, como estranhos que somos, dão sempre o aviso, tem aquele ladrar de dizer “anda aqui gente”, cumprem a sua missão, mas depois vêm ter connosco e dentro do seu território, até nos fazem companhia.

 

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Já junto ao calvário encontrámos o Sr. Amaro, mas ao qual todos chamam Mário, perguntámos-lhes pelo que era feito do sol… “ele lá vem, hoje vem mais tarde…” por acaso até nem veio, e acrescentou “mas entra hoje o quarto-crescente e é capaz de mudar o tempo”. Pois sinceramente, para a fotografia dentro das aldeias, prefiro os dias encobertos aos dias de sol intenso, desde que haja luz. E a luz também se vai fazendo nestas conversas, como por exemplo a do Sr. dos Aflitos, que estava mesmo à nossa frente e não dávamos por ele. “Tem muita visita, gente de fora e emigrantes, quando estão aflitos, lembram-se dele…”, dizia-nos o Sr. Amaro a quem todos chamam Mário.

 

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Nestas nossas andanças pelas aldeias do Barroso, sem conversas, despachamos a coisa em menos de uma hora, e em Nogueira estivemos quase a cumprir. Depois da conversa com o Sr. Amaro ao qual todos chamam Mário, demos a missão como cumprida, já estávamos de partida quando passamos por uma casa cuja decoração e pintura da fachada nos chamou a atenção. Claro que tivemos de parar para fazer o registo e, continuaríamos para Bobadela se não tivéssemos encontrado a Dona Natividade com a qual estivemos mais de uma hora na conversa.

 

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A Dona Natividade que nos contou montes de estórias, alguma a envolver o seu nome, “o meu nome é fraco”, isto por não ser muito vulgar, era o único nas redondezas e só encontrou uma vez em Chaves um senhora com o mesmo nome. Com 88 anos, pedi-lhe para repetir a idade, pois parecia ter muito menos, e confirmou, 88 anos, e acrescentou “aqui o sossego da terra vale muito”. Pela certa que sim, bem mais sossegados que os anos que passou em França como emigrante, isto nos anos 60/70 do século passado, mas onde ainda tem filhos, netos e bisnetos. Contou-nos muitas estórias, sobretudo estórias que a sua “Vó” lhe contava, e ia-nos dizendo, “Quando eu era garota pequena os velhinhos diziam tantas coisas… a minha Vó dizia-nos: Olhai meus filhos, nada entra aqui no nosso povo, e porque Vó, perguntava eu, e ela dizia-me, olha, porque o diabo já andou para entrar na nossa aldeia, mas dizem que não conseguiu entrar, porque na “estaca do argueiro” está a N. Sr.ª do Alívio, no fundo do povo está o S. Caetano, lá em cima tem o Sr. dos Aflitos, ao pé da serra, ali em cima, tem a capela da Senhora das Graças”.

 

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É o diabo não se deve dar muito bem por estas bandas, pois aqui, só nas redondezas desta aldeia, num circulo de 5km de raio, há pelo menos 5 santuários (S.Caetano, Srª do Engaranho (Castelões), Srª da Aparecida (Calvão) Srª das Neves (Ardãos), Sr. dos Milagres (Sapelos), então igrejas, capelas, nichos e alminhas, nem se fala...  “Já dizia a minha Vó”, continuava a Dona Natividade “Olhai meus filhos quando os homens andarem feitos pássaros a voar lá pelo ar e em cavalos cegos pela estrada fora, preparai-vos para o fim do mundo que está próximo… homens que matam filhos, pais que derrotam as filhas, eu às vezes até fecho a televisão…” . Aproveitámos a chegada do padeiro de Faiões, o padeiro do trigo de quatro cantos, para nos despedirmos da Dona Natividade.

 

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E agora passemos ao que dizem os documentos, mais precisamente ao que encontrámos sobre Nogueira na monografia “Preservação dos Hábitos Comunitários das Aldeias do Concelho de Boticas”.

 

Castro de Nogueira

Designação: Castro de Nogueira

Localização: Nogueira (Bobadela)

Descrição: o Castro de Nogueira fica no topo dum alto cabeço cónico por cima e a NO da aldeia de Nogueira, freguesia de Bobadela.

O acesso a este castro pode fazer-se pelo estradão até à Casa Florestal, dali aos lameiros da Serra, à Salgueira, e uns 200 m acima encontra-se um caminho e carro de bois que leva ao alto, junto das muralhas do castro, quase todas alagadas, embora haja algumas porções que ainda têm 1 m de altura.

No topo do castro existem indícios de aí terem existido casas. No que se refere às muralhas, estas encontram-se muito derruídas e quase imperceptíveis, não sendo possível aferir a sua dimensão. Foram encontrados vários pedaços de cerâmica neste espaço.

Perto do castro, do lado Nascente, encontra-se um ribeiro

 

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Festas e Romarias

Santa Cruz,* 03 de Maio,

São Caetano,* 1º Domingo de Agosto,

 

Património Arqueológico

Castro de Nogueira

 

Património Edificado

Calvário

Capela de S. Mamede

Cruzeiro

Forno do Povo de Nogueira

 

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As Lamas / Lameiras do Povo ou do Boi

(...)

Em algumas aldeias existem lamas/lameiras do povo ou do boi, propriedade comum da aldeia. Nas aldeias onde existiu boi do povo, estas propriedades garantiam parte da sua alimentação, sendo utilizadas como pastagem e para a produção de forragens (feno). Actualmente, estas propriedades, geridas pelas Juntas de Freguesias ou pelos Conselhos Directivos dos Baldios, são arrendadas aos lavradores que delas precisem. Anualmente, ou de cinco em cinco anos, como acontece em Nogueira (Bobadela), são postas a leilão e arrematadas por quem fizer melhor oferta, pois como costumam dizer “quem mais dá, mais amigo é do Santo”.

 

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A água

(…)

As aldeias de Bobadela e Fiães do Tâmega, que partilhavam água com as aldeias vizinhas (Nogueira e Veral), recorrendo a determinadas estratégias, conseguiram ficar na posse dela. Na freguesia de Bobadela, ficou na memória dos aldeãos a história do “Santo Ladrão”. Conta a história que, há muitos anos atrás, no tempo dos antigos, Bobadela e Nogueira dividiam entre si uma água que vinha da Serra do Leiranco. Os de Bobadela achavam que aquela água lhes pertencia por direito e que não tinham que partilhá-la com os de Nogueira, pois estes já tinham muita água, doutras nascentes dessa Serra. Assim, arranjaram um estratagema para ficarem com a água toda, sem que os de Nogueira pudessem contestar tal apropriação. Um dia, juntaram-se as pessoas de ambas as aldeias, dirigiram-se à Serra, ao tornadouro de divisão das águas e combinaram deitar metade da água para Bobadela e a outra metade para Nogueira. A aldeia onde a água chegasse primeiro, ficava com ela. O sinal da chegada da água era o toque do sino da capela, em Nogueira, ou da capela de S. Lourenço, em Bobadela. Ora, os moradores de Bobadela, já com ela fisgada, ainda a água vinha longe, já eles estavam a tocar o sino. Os de Nogueira aceitaram a sentença, mas, convencidos que tinha havido batota, passaram a chamar-lhe o Santo Ladrão.

 

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(…)

Todos os regantes, para poderem usufruir dos seus direitos de água, estão obrigados a participar nos ajuntamentos dos regos, sob pena de não poderem regar. Na prática, isso não acontece. O faltoso, nalgumas situações, apenas se arrisca a uma reprimenda verbal; noutras aldeias, como por exemplo Nogueira, quem, por algum motivo, não possa participar nestes ajuntos pode “compensar” os regantes que o fizeram, fazendo outro trabalho a favor da comunidade, como por exemplo limpar uma fonte ou um tanque.

 

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Há ainda, como acontece em Nogueira (Bobadela) aqueles que têm água e não têm terrenos para regar. Então, dão a água a um vizinho que precise e este, em troca, dá-lhe batatas, dinheiro, etc. Há alguns anos atrás, tentaram alterar o sistema de atribuição da água de rega, de forma a dividirem-na apenas entre os que tivessem terras. Todavia, os que não tinham terras não abdicaram do seu direito à água e depressa se voltou ao sistema dos antigos.

 

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O Gado

(...)

Acontecia, por vezes, em algumas aldeias, como por exemplo em Valdegas (Pinho) e em Nogueira (Bobadela), as pessoas mobilizarem diferentes recursos para poderem criar gado. Existia um sistema, o chamado gado a meias, em que um era dono dos animais e o outro detinha os recursos para a sua alimentação, ou garantia o seu pastoreio. Os lucros obtidos, por exemplo com a venda de crias, eram divididos pelos dois.

 

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E ficamos por aqui, neste tão longo post, mas muito mais haveria para dizer e imagens para mostrar. Fica para uma próxima oportunidade. Agora fica o vídeo, com um resumo apenas em imagem deste post. Espero que gostem

 

 

 

Agora este e outros vídeos do Barroso e região, também podem ser vistos no MEO Kanal nº 895 607

 

Quanto a aldeias do Barroso de Boticas, no próximo domingo teremos aqui o post da freguesia de Ardãos e Bobadela, à qual também pertence a aldeia de Nogueira.

 

 

10
Out20

Ocasionais

Granginha

ocasionais

 

“Granginha pequenina”

 

 

Todo o Jardineiro tem

uma flor predilecta

*Erico V.*

 

 

Naquele tempo, a Granginha era uma pequenina varanda, melhor dizendo, uma linda sacada virada para a majestosa Serra do Brunheiro, para a nobre cidade de CHAVES para as altas serras de Espanha e para a preciosa Veiga de CHAVES.

 

Até ela chegava o roncar bazófia do «carro do Rambóia», a bater o recorde de velocidade na recta de Outeiro Juzão; e a atracção fatal de nos atirarmos para cima de grossos novelos de algodão que cobriam toda a Veiga, em dias de nevoeiro primaveris!  Os da invernia eram medonhos, e ameaçavam-nos os ossos e faziam-nos enganarmo-nos no caminho, quando íamos espreitar a nossa prometida, à aldeia vizinha.

 

Os luares de Agosto punha-nos a jogar às escondidas com os muros das cortinhas, com as meroucas do feno ou as medas do centeio e a sombra de um pinheiro ou de um negrilho, naquelas horas do sono em que sonhamos com o beijinho e o abraço da cachopa que nos enfeitiçou.

 

Os luares de Janeiro ajudavam-nos a ir «cantar os réis» ao CANDO, e acertar com os atalhos até à janela trepada pelas fendas da parede.

 

Naqueles luares de Agosto e de Janeiro pensava nela. E, fechando os olhos, enviava-lhe rosários de beijos.

 

Ao abri-los lá estavam eles caídos no céu feitos estrelas a brilhar com tanta ternura!

 

Da janela da minha “Casa do Povo”, onde nasci, ali frente à “CAPELA da GRANGINHA”, gostava de alinhar o poder da Torre de Menagem com a soberba do Castelo de Monforte de Rio Livre. Queria-me parecer que o sol subia receoso pelas ameias do Castelo, com medo de que o seu brilho trouxesse à luz do dia as misérias e as tristezas da CIDADE, e, ao mesmo tempo, ficava convencido que era a Ponte da Pulga quem fazia o nascer do sol saltar e jogar comigo ao romisco, fintando-me por entre as ameias do Castelo. Pela hora do «mei-dia», no Verão, já nos fazia procurar a sombra e dormir a sesta.

 

Da varanda da minha “Casa do Campo”, lá na ponta da Aldeia, olhava as serras de Espanha, desejoso que não me escondessem o mar e, assim, poder ver a chegada de uma Nau Catrineta que me trouxesse «a mais formosa de todas, para comigo casar»!

 

E via o velho “Texas” a fumegar e a apitar ao atravessar a “Raposeira”, a acelerar na Ponte de Santo Amaro, como que a querer assustar os passageiros que o esperavam na “Fonte Nova”, convencendo-os de só conseguir ir para a S. Fra(g)usto ou em Curalha! Corria para a “Sobreira”, e, do cimo da “Aberta da Tia Aurora” via-o a correr e a apitar pela “Ribeira” e a chegar a Curalha!

 

Do “Alto do Campo”, com o Mário e o Júlio fazia “Os Três Mosqueteiros”, mas armados com as esparrelas a disfarçarem-nos de “Robin Hood”, apontando as flechas ao S. Caetano, um; à Srª das Brotas, outro; e à Srª da Saúde, de S. Pedro de Agostém, o terceiro; ameaçando-os de lhes faltarmos com promessas, orações e ladainhas se não fizessem cair muita passarada nas nossas armadilhas, lá no Verão; encontrar muitas sanchas, n(m)íscar(r)os e tortulhos, lá no Outono; pouca água das trovoadas, lá  no Pedrete;  e muitos ninhos, lá na Primavera; ou que as nossas quadrigas de grilos e de saltões, arreados com linhas de carrinho nº 30 ou 40, surrip(i)adas da máquina de costura da minha prima Jesus, ou, da da Amélia da Tia Maria do Campo, a puxar carros de combate construídos com nacos de cabaça ou de abóbora e espicaçados com as melhores agulhetas do feixe escolhido com rigor, não se portassem com garbo e velocidade, lá no coliseu que nós três construíamos nos carreiros do “Campo”!

 

Quando a noite ia mais dentro, no Inverno ou no Verão, o Jordão, do Tio Kim da Ti’Augusta, o Tejo, da Tia Maria do Campo, o «doutor», do Kim das Chardas, e o cachorro, do Tòninho da Tia São anunciavam a sua valentia canina ladrando à passagem dos lobos que desciam da Serra d’Ardãos até ao Matadouro, ali, junto à «Varje» e à estrada de Braga!

 

Naquele tempo a Granginha era pequenina.

 

Não tinha luz eléctrica nem telefones.

 

Mas tinha água da “Pipa”; os rouxinóis; cobras, lagartos e sardões e víboras; lebres e coelhos; lobos, linces, raposas, ginetas; fuinhas, doninhas, tourões e gatos bravos; águias, peneireiros, cucos, bobelas; perdizes, codornizes, narcejas; gaios, papa-figos, tordos; cotovias, pintassilgos, pintarroxos, chascos, carriças, tralhões, folecas, tentilhões, melros e cascarrolhos; zilros e andorinhas; bichos-da-unha; fuinhas e doninhas; salamandras.

 

Cegadas, malhadas e vindimas.

 

Tinha pêssegos e pavias; maçãs, peras, ameixas, melões, melancias; nozes e nêsperas; galelos; merogos; cerejas e figos e abêboras.

 

Amoreiras do bicho-da-seda.

 

E olmos.

 

Alecrim. Alfazema.

 

Um negrilho secular, que desafiava a Torre de Menagem em altura, e donde um melro ladino assobiava comigo ao desafio!

 

O consolo de uma lareira acesa nos dias frios do seu Inverno.

 

Água fresquinha da “Pipa”, nos dias quentes do Inferno.

 

E tinha o aconchego afectuoso das suas gentes.

 

A sua CAPELA conserva ainda, muito bem guardados e melhor escondidos, feitiços visigóticos, encantos mouriscos e milagres cristãos.

 

Cá dentro, um buraco negro de profunda tristeza com as saudades de felicidades perdidas de gente maravilhosa, extraordinária, fantástica, abençoada, em cujo regaço já não me posso acolher ou deixar cair uma lágrima sequer!

 

E, glosando M. Delibes, se lá, na Granginha, o céu vos parecer tão alto é porque eu o levantei de tanto o olhar!

 

M., trinta e um de Agosto de 2020

Luís Henrique Fernandes, da Granginha

 

 

 

 

 

10
Out20

Pereira de Selão - Chaves - Portugal

Aldeias do Concelho de Chaves

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PEREIRA DE SELÃO

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de Pereira de Selão.

 

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Aldeia de Pereira de Selão que fica localizada dentro do grande triângulo que tem como vértices a cidade de Chaves, Vidago e Peto de Lagarelhos e como lados a EN2, EM311 e a M314.

 

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Tem como aldeias mais próximas a aldeia de Vilas Boas, Fornos, Valverde e Redial, no entanto, quem prende os seus olhares, é mesmo a Capela do santuário de Stª Bárbara, junto a Ventuzelos, santuário desde o qual, logo no sopé da montanha, se avista o todo da aldeia de Pereira de Selão. A nossa primeira foto de hoje é tomada desde Stª Bárbara.

 

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Mas como todas as aldeias, para a ficarmos a conhecer minimamente, temos mesmo que entrar na sua intimidade, percorrer as suas ruas e se possível conversar um bocadinho com os seus residentes que às vezes nos levam até outras descobertas preciosas. A partida da cidade de Chaves, o melhor acesso para esta aldeia é via EN2 até Bóbeda, logo a seguir encontrará o desvio para Redial, e após esta aldeia terá Pereira de Selão, a menos de 12 km de Chaves. Se for por lá, à vinda, não volte para trás, saia junto à lagoa das antigas minas em direção a Vilas Boas, suba em direção a Ventuzelos e antes de entrar nesta última aldeia, suba até Stª Bárbara e demore-se por lá o que tiver a demorar-se, pois as vistas entram dentro de quase todos os concelhos vizinhos de Chaves, incluindo os galegos.

 

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Mas hoje não estamos aqui para falar da aldeia, isso já o fomos fazendo ao longo da existência deste blog, em vários posts para os quais fica link no final. Hoje estamos aqui pelo vídeo resumo com todas as imagens da aldeia de Pereira de Selão que foram publicadas até neste blog. Espero que gostem .

 

Aqui fica:

Agora, este e outros vídeos de Chaves e da região, também pode ser visto no MEO KANAL nº 895 607

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Pereira de Selão:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/pereira-de-selao-chaves-portugal-1725437

https://chaves.blogs.sapo.pt/pereira-de-selao-1426074

https://chaves.blogs.sapo.pt/276194.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/52953.html

 

E quanto a aldeias de Chaves, despedimo-nos até ao próximo sábado em que teremos aqui a aldeia de Pereira de Veiga.

 

 

 

09
Out20

O Barroso aqui tão perto - Negrões

Aldeias do Barroso - Concelho de Montalegre

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Negrões

 

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus post neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de Negrões, Montalegre.

 

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Como habitual aproveitamos a oportunidade para deixar aqui mais algumas imagens que escaparam à anterior seleção, aquando do seu post.

 

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Negrões, uma das aldeias que esta na margem da barragem do Alto Rabagão, ou Pisões se preferirem, com o seu casario quase a entrar pela água adentro, sendo o contrário também verdade.

 

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Mas sobre Negrões já dissemos tudo que tínhamos para dizer no post que lhe dedicámos e para o qual fica link no final deste post. Hoje estamos aqui pelo vídeo que faltou nesse mesmo post.

 

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Vídeo que vai já ficar de seguida e que reúne todas as imagens de Negrões publicadas neste blog até hoje, incluindo as deste post. Aqui fica, espero que gostem:

 

 

Este e outros vídeos do Barroso e região de Chaves, também pode ser vistos no MEO KANAL Nº 895607

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Negrões:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-negroes-1511302

 

 

E quanto a aldeias do Barroso de Montalegre, despedimo-nos até a próxima sexta-feira em que teremos aqui a aldeia de Nogueiró.

 

 

08
Out20

Arte de Rua - Street Art em Chaves 3

A arte de Alfredo Espírito Santo - Tabolado

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Hoje concluímos esta voltinha pelo Jardim do Tabolado com as pinturas, a BD ou XI e último capítulo de Alfredo Espírito Santo, que embora tivesse colaborado noutras pinturas da cidade, estas são da sua inteira responsabilidade, e, recomendo, que não olhem para ela com a leviandade de um olhar de passagem, pois se estiverem atentos aos seus desenhos e textos, verão que com as suas estórias, às vezes até poéticas, conta a história desta nossa cidade de Chaves.

 

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Dentro de uns dias voltaremos a esta temática, com o restante que há pela cidade, mas primeiro temos de fazer a recolha e saber quem são os autores, entretanto, até lá, o blog continua e dentro de instantes, que poderão ser de duas ou três horas, o tempo necessário para a feitura do post, teremos aqui mais um vídeo com uma aldeia do Barroso de Montalegre, mais propriamente a aldeia de Negrões. Até já!

 

 

08
Out20

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso - 12

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Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 12

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a uma das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português da altura, incluindo gralhas tipográficas.

 

Mais uma vez o Granjo a mostrar grande sensibilidade pela natureza, coisa que não vejo por aí nos dias que correm. Das coisas que mais me chateiam em Barroso é a quantidade exagerada da marca dos homens na natureza, sendo a maioria completamente desnecessárias. Mas como me parece que quase ninguém pensa assim, nem vou adiantar muito mais porque não adianta. Acho que há um grande exagero de poluição visual, sonora, luminosa, e outras, em Barroso. Parece-me que os rurais perderam as suas referências e guiam-se apenas pelo que a cidade e os camones vão ditando. Se eu vier para aqui queixar-me que já não consigo ver a Via Láctea em Boticas ou que detesto ser acordado todos os dias por um muito barulhento soprador a gasolina que é usado para “varrer” as ruas, ainda me chamam excêntrico, por isso mais vale estar calado. Também parece que caíram umas 3 árvores na minha rua porque agora as raízes são aparadas para não estragarem os passeios! Que é que interessam umas árvores quando comparadas com umas rachadelas nuns urbanos passeios em cimento?! A mentalidade de coca-cola em centro-comercial chegou a Barroso para ficar e não vejo maneira de mudar isso. Como é que se pode gozar a melhor esplanada de Boticas se mesmo ao lado há um ruidoso e citadino repuxo a estragar uma das melhores coisas da vida no campo que é o silencio? Há uns tempos também tive que fugir da esplanada do Aurora porque aquele ruído do repuxo das Freiras é insuportável. Se as pessoas gastam muitos milhares de euros a fazer merdas dessas e ficam todas orgulhosas do resultado, quem sou eu para dizer que está mal?

 

Luís de Boticas

 

 

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A SUBIDA À SERRA DO LAROUCO

Um espectáculo indescriptivel, a 1.500 metros de altitude

 

O céu era uniformemente cinzento. Só para os lados de Chaves, onde a trovoada grunhia, tomava uns tons plumbeos ou acobreados. Pela encosta do Larouquinho descia lentamente a vezeira. O Larouco, inteiramente descoberto, parecia prolongar-se indefinidamente.

 

Acima!

 

As bestas chapinham na lamaceira do Campo do Padrão, e, logo adeante, no Campo da Roda, a paisagem se alarga como n'uma mutação cenographica.

 

O trovão já vem de cima: parece rolar à superfície da terra. As nuvens envolvem novamente toda a serra, e enquanto para a direita os relâmpagos como que derretem a athmosfera de chumbo, na frente faz-se uma immensa clareira até se verem as cumiadas longinquas das serras da Padrela e de Nogueira, e à esquerda o sol aloira as agulhas e coruchéos do Gerez.

No Campo da Roda, entre uns penedos que têem a forma vaga de uma casa, há uma escavação recente. O guia explica: É ali — a Casa dos Moiros. Uma velha sonhara trez noites seguidas com riquezas fabulosas lá escondidas e alguns pobres diabos tinham vindo lá cavar toda a noite, ao clarão do luar, à procura dos maravilhosos thesouros.

 

O guia aponta com o lodão outros penedos, à esquerda. São as Fenteiras.

 

Há ali uma fonte d'água claríssima, que empoça em rocha. Era nessa fonte que os moiros se vinham lavar. Conta-se que já do seio da rocha uma vez sahiram dois feadouros d’oiro e acredita-se que dentro esteja encantada uma princeza moira, havendo à entrada do palácio que está dentro da montanha um cavallo todo d’oiro. Ha-de ser n’esse cavallo que um dia o cavalleiro que lhe quebrar o encanto ha de fugir com a linda moira encantada.

 

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Acima!

 

Quem sabe se será o bafo do meu cavallo cego que ha de ir quebrar o encanto da linda moira, e se dentro de alguns instantes a triste besta tropega se não transformará n'um cavallo alado, de ventas fumegantes e olhos resplandecentes, atravessando os ares em direcção às praias da Felicidade Perfeita e carregando no dorso os meus 100 kilos e a princezinha moira, de olhos de diamantes e lábios de rubis...

 

Acima! Acima!

 

Atravessamos o campo d'Arrestre, onde uma larga queimada parece uma enorme mancha de lepra, e estamos na Facha. A Facha é uma fortaleza completa. Tem as suas muralhas, a sua torre de muragem com ameias e esculcas, os seus fossos, a sua ponte levadiça, a sua poterna. Os caprichos da erupção vulcânica anteciparam-se à engenharia militar. É na Facha que os pastores dormem, nas noites de estio, emquanto a rez pasta pela serra.

 

A trovoada ronca abaixo de nós. O trovão já não rola à superfície da terra: parece vir de dentro da montanha. São duas horas da tarde. Da Facha, durante alguns minutos, goso o mais admirável espectáculo que os olhos ávidos e exigentes do espectador moderno pode contemplar.

 

Sobre o valle, em baixo, forma-se a névoa branca, rolando como vagas de algodão em ramas, e à qual os franceses chamam la mère blanche. Para nascente, além de Soutelinho da Raia, cujos castanheiros se distinguem, nitidamente, vêem-se os relâmpagos descrever os seus ângulos de fogo sobre Chaves. O Brunheiro, a Cota de Mairos afogam-se sobre uma espécie de crepúsculo de chumbo. De repente, a névoa sobe, envolve n'um minuto toda a montanha. Deixamos de ver os objectos mais próximos e precisamos de gritar uns pelos outros para adquirirmos a certeza de que alguma força desconhecida se não apoderou de nós e nos não arrastou para algum precipício misterioso.

 

A tempestade estala agora para o norte, para os lados da Gironda, e parece que toda a natureza esperava esse sinal para as côres, as linhas e os planos tomarem os seus novos lugares. A névoa desfaz-se. Um enorme resplendor de oiro desce do céu e vem poisar sobre a cabeça do Larouco. Até perder de vista, para o sul, as serras succedem-se, como que apertando-se umas contra as outras n'um gesto instintivo de defesa. Sobre as terras centeeiras, as nuvens roçam os ventres enormes. E o trovão, mais próximo, deixou de ser um presago ruido subterraneo, e tomou-se como a própria voz da montanha, dominando o immenso espaço, fazendo tremer as coisas e os seres, reduzindo a natureza e a vida a uma especie de infinito lago silencioso, sobre o qual se agitam as sombras.

 

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Acima!

 

Estamos no planalto. 1.500 metros acima do nível do mar. Acima de nós só a ventania solta e o seu rugido. Tudo, o próprio céu está abaixo dos nossos pés. Para o norte e nascente a athmosfera crepuscular em que a tempestade se debate tapa o horizonte; mas desde a Padreia ao Maráo e ao Gerez, a amplidão está livre. Sentamo-nos nas Barreiras Brancas. As palavras cessam.

 

É fácil encher um volume com a descrição d'um jardinzito japonez, e alguns espíritos se têem deleitado em semelhantes tarefas. Mas há-de ser difícil que se encontrem as duas dúzias de palavras precisas para definir a impressão que nos produz todo um mundo visto do meio das nuvens. O vocabulário humano foi feito para as coisas mínimas. É perante o insignificante que nos sentimos grandes, e por isso temos sempre para cada ideia que as coisas insignificantes nos surgiram como um lexicon. Quando defrontamos com a verdadeira grandeza, com a montanha ou com o mar, a língua fica-nos preza, como o braço nos fica desarmado.

 

Desisto de dizer banalidades. Seria um sacrilégio. Quando voltasse encostado ao meu lodão, como um peregrino, a subir a montanha, a tempestade já não teria razão para nos fazer gentilmente as honras da visita, acompanhando-nos de longe com a sua voz prophetica, antes teria justo motivo para fazer cahir às centenas, sobre a minha cabeça inerme, os raios vingadores.

 

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Nada que dê tanto a impressão da magestade do Larouco do que a inscripção romana que lá foi encontrada. Chamavam os romanos ao Larouco Ladikus. Resolveram erguer um templo a Júpiter no cimo da montanha e no frontão do pequeno templo lavraram esta inscripção:

 

IOVI LADICO

 

Esses homens, que conquistaram o mundo e deram à sociedade humana a base eterna do direito, sentiam-se pequenos perante a grande serra, e entenderam que seria uma prova de vaidade fazerem elles, míseros transeuntes, a offerta do templo ao pae dos deuses. E assim resolveram que fosse a própria serra que offerecesse o templo a Júpiter.

 

A Júpiter offerece este templo o monte Ladico

 

Como somos effectivamente pequeninos, em face d'esses legionários, que, ao nascer do sol, quando marchavam pela via militar, de Caladunum a Pinctum, saudavam a montanha, como se fosse uma divindade!     

 

Antonio Granjo

 

 

07
Out20

Arte de Rua - Street Art em Chaves - 2

Jardim do Tabolado com Alfredo Espírito Santo

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Dando continuidade ao que publicámos ontem sobre a arte de rua, neste caso, de autoria de Alfredo Espírito Santo, deixamos hoje mais 4 capítulos da “estória” que o artista nos conta ao longo do jardim do Tabolado, escrita nos armários de eletricidade.

 

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07
Out20

Crónicas de assim dizer

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Postal de aniversário

 

 

É a segunda vez que fazes anos e não fazes anos! Nunca coloquei esta possibilidade, de fazer e não fazer ao mesmo tempo. Parecia-me antagónico isso, incompatível, coisas que nunca pudessem ter uma simultaneidade e aí está! Baralho-me nos tempos dos verbos. Podia talvez dizer: o dia em que fazias anos, mas não me parece bem, porque o dia em que nós nascemos tem uma eternidade que lhe é própria, não deixa de existir só porque nós não estamos. Por isso, hoje, fazes anos!

 

Ainda não te contei, mas no dia do funeral aconteceu uma coisa engraçada. Um primo nosso, depois de me dar os sentimentos pela tua perda irreparável, disse: "Eras a mais bonita das três, mas agora estás velha!" e eu sorri. Só mesmo ele! A primeira parte, a do elogio, era a opinião dele, discutível como todas e por isso agradeci; a segunda, era uma verdade insofismável: estamos todos velhos. O tempo faz-nos isto e a dor e o sofrimento fazem com que, para além de velhos, fiquemos envelhecidos. Eu nesse dia estava velha como nunca e por isso o Eduardo tinha razão.

 

Continuo com um enorme desconforto pela tua partida tão precoce! As pessoas más duram mais tempo. A maldade enrijece-lhes os ossos, não têm osteoporose, nem as doenças se metem com elas, têm-lhes medo. Começam a pensar que, mesmo sendo graves, as pessoas más podem ser capazes de lhes sobreviver e lá se ia a reputação de doença incurável. Não arriscam. E eu acho que isso é uma fraqueza delas, uma grande insegurança, porque um cancro que se preze havia de arranjar maneira. Um estragozinho aqui, um estragozinho ali... Não arriscam, por causa, digo eu não sei, daquela peculiar característica mental que normalmente as pessoas más possuem e que lhes confere um poder quase sobrenatural: serem capazes do impensável. Algumas até são capazes de fazer mal a si próprias, só pelo prazer que têm em fazer mal aos outros. Uma vez um psicólogo explicou-me isto assim: fazem sofrer e não sofrem. (Agora aqui também já não sei bem se foi “e” ou “mas” e se calhar faz diferença!). Coisas que tu e eu nunca havemos de entender!

 

Mas hoje é o dia dos teus anos e eu ando aqui às voltas sem saber que presente te hei-de oferecer. Já sei, estou farta de saber, dizes sempre a mesma coisa, que não queres nada, e eu respondo-te também a mesma coisa: Sou eu que quero. 

 

Escolhi escrever-te. O pai acha que tu deves estar aí muito sozinha e eu sem arranjar as palavras certas disse-lhe: Acho que não! Já deve ter encontrado a nossa irmã e estão as duas a matar saudades uma da outra, há décadas que não se viam.

 

Não ficou muito convencido, calou-se. De vez em quando engana-se e chama-me o teu nome. Como eu não digo nada, ele pensa que eu não dei conta e faz-mo notar. “Enganei-me, chamei-te pelo nome da tua mãe.” E eu dou conta duas vezes. Aí já digo que dei conta e ele pede desculpa. Por nada, absolutamente por nada. Eu fico contente por ele fazer isso. Acho que se isso acontece é porque, de alguma forma, ele me acha parecida contigo e isso é bom. Mas por outro lado, começo a pensar que se uma dessas doenças fulminantes me descobre, como aconteceu contigo, vai pensar:"Ui, isto para mim é canja! Numa questão de dias, resolve-se o assunto." E eu achei e acho isto, uma grande injustiça! Apesar da vida sem ti me estar a custar imenso e de ter muitas saudades tuas, não queria nada que isso acontecesse, por causa dos meninos e do pai. Olha, estão os dois ali na sala e mandam-te beijinhos e um grande abraço. Sim, já estão grandes, mas tu perguntavas sempre “e os meninos?” Agora já percebem tudo sozinhos, já não tenho de lhes explicar nada. Agora são eles que me explicam a mim, quando eu não percebo, e às vezes não percebo logo à primeira e eles aborrecem-se e desistem, porque acham que eu não estou atenta. E se calhar a tudo não.  Começo por estar concentrada na explicação que me estão a dar, mas depois pego no início da conversa e começo logo a viajar. E é engraçado que as pessoas mais atentas dão conta! No outro dia fui almoçar com uns amigos e um deles apercebeu-se que após os 5 minutos iniciais eu me tinha ido embora, como que saído dali, e então a meio da conversa disse-me: “Ó Cristina, quando chegar avise-me”.

 

Só te estou a contar estas coisas porque já o fazia antes, ao telefone; agora é por carta, mas não me custa nada, faço-o com muito gosto e tu até dizias que eu escrevia muito bem…

 

Um grande beijo desta tua filha 

 

Cristina

 

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