Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

No Serviço de urgência

 

 

A sensação era de angústia ou de ansiedade. Nunca soube distinguir muito bem estas duas coisas, embora as saiba não sinónimos; mas percebi que naquele momento isso não era importante. Aquele estar a respirar com a convicção de que o momento seguinte é provável, mas sem certeza nenhuma disso!

 

Mesmo assim, ainda conseguia ver. Esta coisa de termos dois olhos permite-nos ver coisas que só com um nunca conseguiríamos ver. E vi, através do vidro da janela que dava directamente para a rua, uma mulher deitada no chão. Dormia, aparentemente dormia. Mas as coisas não me pareciam bem e demorei poucos segundos a reagir. Fui ter com o Segurança e informei-o. Seguiu-me e quando viu a mulher disse: “Ah, já é normal! Tem HIV, tuberculose… foi aqui vista esta noite. É melhor que não se chegue perto dela, percebe?” E afastou-se. Já era normal...

 

Uma coisa que numa primeira vez não é normal, acaba por sê-lo pela repetição, embora a situação seja exactamente a mesma que nos faz reagir na primeira vez, mas não nas vezes que a ela se sucedem! Não, não percebia.

 

Será que ao consentirmos no habitual estamos, sem ter consciência disso, a permitir que ele se converta em normal quando pode até ser aberrante?! Parece que o uso está a prescindir de critérios e isto é perigoso.

 

Passado algum tempo a mulher acorda com a realidade, ou com a luz do Sol a bater-lhe no rosto e que lhe serviu apenas de despertador. E levanta-se da realidade da noite para a realidade do dia.

 

Entretanto chamaram-me e entrei.

 

Quando saí, a mulher estava sentada no muro do hospital, em frente ao Serviço de urgência. Vai passar o dia a ver chegar e partir ambulâncias, com pessoas debilitadas, provavelmente mais do que ela, e vai ficar com aquela sensação de “conforto” que nos deixa tragicamente a frase, depois de mentalmente verbalizada: “Há pessoas que estão muito piores!”

 

Os hospitais têm isto de bom: em alguns casos as pessoas saem de lá melhor do que quando entraram! Mas também têm coisas de mau: às vezes não saem e outras vezes saem não pessoas. Dizem que é a vida, quando mais parece ser a morte.

 

A angústia não me passou nesse dia e a ansiedade também não. Agravaram-se as duas, individualmente, porque são não sinónimos; mas agora que falo nisso, percebo que está na altura de as abandonar, deixo-as aqui.

 

O Planeta, apesar dos maus tratos de que é vítima, continua a correr e a rolar pelo espaço à velocidade de trinta quilómetros por segundo e, ainda que inadvertidamente, leva pessoas consigo.

 

 Se calhar é mesmo normal!

 

 

Cristina Pizarro

 

18
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Era uma vez um brinquedo

 

A criança brincava com o Aneurisma sem saber com o que brincava. Rodava com ele, rolava com ele, rodopiava com ele; sem conhecer o perigo, sem suspeitar do atrevimento, sem considerar o abuso de poder, sem notar a falta de respeito. Tudo nela era pré conceito.

 

A criança brincava, pegava no Aneurisma como num boneco e desfazia-o, tomava-lhe o pulso e abria-lho, sentia-lhe o coração e parava-lho, desafiava-lhe o cérebro e congelava-lho.

 

A criança não sabia o que fazia! Trazia-o para si sem chamar por ele, porque o não merecia, mas não julgava isso, era uma forma que tinha de o tornar não consciente. Tinham-lhe dito: Só existe o que tu queres ver, mas tinha sido noutro contexto, a criança não o distinguia.

 

E a criança tinha medo, desde tenra idade que vivia apavorada, com medo de si e não sabia como fugir. O medo de então não passou, passou a fazer parte de si, colou-se a ela e então pediu um brinquedo pelo Natal. Deram-lho, há sempre quem nos dê coisas de que não precisamos! Às vezes do que precisamos é de não ter, para aprender a viver sem isso, mas isso não era fácil de entender pelos outros e era mais simples dar o brinquedo, o peixe, em vez de ensinar a pescar!

 

As pessoas são muito preguiçosas e preferem o que é fácil e gostam de criar dependência: “Se eu não ensinar a pescar, da próxima vez que ela quiser um peixe vem ter comigo, vem-mo pedir e vai ter que me dizer obrigado!” e as pessoas adoram que lhes digam obrigado, fá-las sentir bem! Precisam disso, dependem disso! E andam nisto, em vez de pensarem: se ela tiver autonomia, eu tenho mais tempo para outras coisas, até para mim.

 

E a criança esquecia-se de si enquanto brincava com a bomba-relógio, é para isto que servem muitos brinquedos, e nunca se apercebeu do tic-tac porque nunca se aproximou o suficiente. Detalhes, pequenas coisas que são engolidas pelas grandes, sem importância nenhuma, embora avassaladora!

 

Um dia deixou-o cair, de propósito, sem qualquer propósito e empurrou-o até, fazendo-o rolar pelo precipício porque lhe dava um gozo enorme ver o Aneurisma aflito, com medo de se partir ou rebentar e nunca percebeu que o problema que não era dela, era um problema só dela. Deu conta disso no dia em que o brinquedo comprou uma pilha, foi ter com a criança e disse-,lhe: o meu nome é Aneurisma, sou uma bomba-relógio que pode rebentar a qualquer hora, quer dizer, não é bem a qualquer hora, é só quando e se me apetecer, por isso não tens de te preocupar comigo porque já não dependo de ti.

 

E a criança emudeceu, mas antes disso zangou-se, tirou- lhe a pilha e disse: “Eu é que decido!” E o Aneurisma sorriu, porque já tinha alternativa a ela, ela é que não sabia! Tinha andado a ler umas coisas sobre energias renováveis, planos B, antes de falhados os A.

 

Cristina Pizarro

 

 

11
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Animais por instinto

 

Pouco passamos de animais. Se tirarmos algumas coisas, não passamos muito de animais. E essas coisas são menores: peças de vestuário, acessórios, adornos, detalhes, maquilhagem, roupagens! Vestimos o animal como em crianças vestíamos uma boneca, para lhe dar um ar de graça, para nos distrairmos, para nos entre termos, a nós e à boneca. O animal não é menos nem mais por isso, não é outro em vez disso! Pode parecer, a quem de fora o olha sem o ver ou a quem o vê sem o observar, ou a quem o observa sem estar atento, mas não a nós que o vestimos, que o decoramos, que o adornamos.

 

E a boneca anda, corre, rodopia, sobe e desce, às vezes dança, parece que cresce, mas é sempre um fruto verde, imaturo, pendurado na árvore que a sustenta, a quem ninguém alimenta, porque ninguém repara que ali está e quando, raramente acontece, alguém se apercebe dela, diz: aquela árvore dá fruto naturalmente, não precisa de ninguém que a alimente, que a regue, que lhe combata as pragas a que está sujeita, que a proteja da agressão de que é alvo, que a abrigue do frio, da geada e do granizo! E não reparam que o fruto da árvore não sorri. Não precisam disso, não lhe sentem a falta!

 

E a boneca fala, a boneca pensa, a boneca vê e a boneca sente.

 

Mas não passamos de animais que, quando famintos, começam a fazer e a procurar coisas, como se ao gostar de si gostassem deles, como se ao querer para si quisessem para eles e oferecem-se e dizem: “Estou aqui para ti”, mas estão ali para eles, estão ali para beber deles o sangue de que se alimentam, como vampiros inconscientes, sôfregos, insaciáveis, insatisfeitos, negligentes, achando-se com direitos ao que não lhes pertence, e nem o que são lhes pertence. Não somos os donos de nada, não somos donos, não somos nada.

 

Às vezes os animais parece que amam, como golfinhos que acasalam fora do período fértil com cio, mas ainda assim o instinto é o mesmo, sem ser o da procriação, é o da sobrevivência, aqui de forma mais egoísta, sem sequer pensar na espécie, na sua continuidade ou até no planeta que, em parte, também ajudam a manter!

 

E a boneca persiste, insiste, existe. Só por isso, por mais nada! Mas a boneca chora e não parece viver por instinto! É só aqui que alguém pergunta se se trata realmente de um animal! A boneca não responde, os animais não falam!

 

E os animais gravitam! Ignoram o silêncio, a distância, o mutismo. Tinham por certo, o que era incerto. Por infinito, o finito. Por razoável, o impensável! Por verdade, o insustentável!

 

Mas eis que chega a boneca. Meu Deus, a boneca vem nua! Não que se despisse, tiraram-lhe a roupa! Os animais rasgaram-lhe a roupa, os animais comeram-lhe a roupa, os animais beberam-lhe o sangue, os animais sugaram-lhe toda a energia... e os animais pararam em frente à boneca nua, detiveram-se, fizeram perguntas, gritaram respostas, pediram promessas, exigiram desculpas... e a boneca não falou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

04
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

 

Em cinema

 

 

O papel não me servia. Eu até o conseguia desempenhar, mas não era capaz de o viver.

 

Percebi, mais ou menos, o que estava no guião. Também percebi, aqui talvez menos, o que o realizador pretendia, porque estava sempre a corrigir-me nos ensaios, orientando-me no que queria que eu fizesse e no que não suportava que eu fizesse. E eu, ingénua, a querer dar vida à personagem! E ele a dizer- me: "O realizador sou eu, eu é que sei o que quero!" E eu a achar que não, a achar que ele só achava que sabia. E insistia: Então não fica melhor assim? Mais autêntico, mais genuíno, mais sentido, mais real? E ele dizia que não, embora me desse a sensação que achava e sentia que sim. Mas não tinha sido ele a sugerir e isso impedia a alteração do texto que, nessa circunstância, nunca faria.

 

O conteúdo escrito já tinha sido validado pela crítica e isso dava-lhe a segurança do sucesso, que era obviamente diferente de a garantia. Não distinguia uma coisa da outra. Não alterava nem uma vírgula e, na maioria das vezes, bastaria isso. Mas o autor era consagrado e a possibilidade de ele se ter esquecido da vírgula, o realizador não a colocava.

 

Poder-se-ia perguntar, se tivéssemos essa tentação, "porque é que eu estava ali?" A questão era que eu tinha uma tendência nata para aceitar papéis só pelo desafio de os transformar, às vezes até de os inverter. Ora isto não funciona quando se tem uma pessoa a dirigir-nos, porque põe em causa o papel que o realizador está convencido que tem. E eu continuava: isto até pode ser engraçado, de vez em quando inverter os papéis, até para melhor ter consciência deles! E era exactamente isso que ele não queria, mais, a que se recusava.

 

Mas eu era teimosa como um burro, entenda-se que não tenho explicação para isto, e insistia: e se hoje em vez de fazermos assim, fizéssemos... não resultava.

 

Pensei uma vez, num daqueles raros momentos de lucidez isenta, que talvez o que estivesse a dificultar as filmagens, para além do meu atraso sistemático e inexplicável aos ensaios, era que de facto não havia uma evolução na personagem, ou seja, a repetição das cenas não conduzia a uma melhoria na interpretação, mas sim a interpretações múltiplas. O realizador, mais uma vez, não gostava disso. Versatilidade? Menos. Fugia-lhe ao controlo e levava-o ao desespero. Nunca é bom.

 

Chegámos a um ponto em que já nenhum de nós percebia o que estava ali a fazer! Eu a querer trazer a ficção para a realidade e ele a transformar a realidade em ficção!

 

Foi então que me disse, para que ficasse claro: "Mas isto é só um filme!" E, pela palavra usada, foi só aí que eu percebi. Se tivesse percebido isso desde o início, talvez não tivesse aceitado o papel. Eu convenci-me, sempre da mesma forma precipitada, que aquilo era a vida e era só por isso que a minha natureza se recusava a representar. Ele não percebeu, também desde o início, que aquilo não era um filme e a razão disso era para mim inaceitável! Tinha um guião e nunca pôs a hipótese de o deitar fora, pelo simples facto de achar que a honestidade estava directamente relacionada com dizer a verdade quando não se sabe qual é! Ou seja, queria que o filme fosse e não fosse ao mesmo tempo.

 

A moral disto, se alguma há, é que se pode gostar de teatro e não se gostar de cinema. O teatro faz parte da vida, o cinema se calhar não, porque é só uma representação dela, treinada, muito treinada, excessivamente treinada. Já no teatro, sendo também uma representação, há improviso e eu tenho esta panca dos directos!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

28
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Património genético

 

Graças a Deus está tudo lá! Vem tudo impresso naquelas tabuinhas aos pares, em número de 23, se não me falha a memória.

 

A trabalheira que dava incutir nas crianças tudo aquilo que nós achamos que elas deviam saber! Mas não, alguém nos facilitou a vida e nos colocou um código, nem sempre fácil de decifrar, mas que se revela a cada momento do crescimento.

 

Comportamentos, atitudes, pensamentos, maneiras de ser e estar, objectivos de vida, normas de conduta em sociedade... até os juízos de valor vêm lá impressos, como escrita em Braille.

 

Não temos de fazer quase nada! Os nossos ensinamentos, a nossa experiência de vida, transmitida e dando exemplos, só limam arestas, só atenuam contornos. Mesmo nos cruzamentos e perante o dilema “onde virar?” ou “para que lado ir?”, a sinalética está toda lá!

 

Uma orientação aqui, outra ali, coisas de menor importância, são o nosso “grande” contributo.

 

As decisões de base, as estruturais, são tomadas por esse palmo e meio de gente, antes que o nosso raciocínio afira a lucidez e a destreza que nos levam a proferir “isso não se faz!”, depois deles já terem aprendido, por conta própria, de que isso não se devia ter feito.

 

Dizem os técnicos que a personalidade de uma criança se forma até aos cinco anos de idade. Esse é o tempo que elas levam a decifrar o código que trazem inscrito e quando damos por ela, já está!

 

Quando finalmente acordamos e pensamos: agora já lhe podemos ensinar porque ele já tem capacidade para perceber, ele já consegue é emitir apreciações sobre a nossa conduta, já nos acha “atrasados mentais” porque lhe damos castigos desproporcionados, já diz: “Pronto, está bem...”, como quem diz: “Deixa-me lá concordar com esta chata, senão não me dá descanso”.

 

E nós idiotas, cheios de sonhos, a pensar que tínhamos tanto para lhes ensinar e eles a dizerem aos quatro anos: “A vida é minha, tu não mandas em mim!”

 

E a gente de boca aberta, a tentar lembrar-se como era aos cinco anos e a ver-se retratada naquela pequena figura, criada à nossa imagem e semelhança, sem saber o que dizer!

 

E eles a perceberem tudo e nós sem nada para lhes explicar, nada que os faça mudar de ideias. E começamos então a pavonear-nos com aquelas tretas da autoridade e o “Eu é que sei o que é melhor para ti!”, com fundamentos pouco consistentes, porque a verdade é que não estamos por dentro deles e o que era verdade há trinta anos agora não é bem assim!

 

E eles começam a explicar com lógica matemática -ainda não sabem somar 3 com 5, mas já têm um raciocínio lógico- porque é que dizem o que dizem e porque fazem o que fazem.

 

E nós a acharmos que eles têm toda a razão porque com os dados que têm a verdade é essa, a deles, e são muito pequenos para perceberem a nossa.

 

E nós perdidos, nitidamente às apalpadelas, a tentar acender a luz no escuro e a porcaria do interruptor que nunca encontramos em tempo útil!

 

E os cromossomas todos a dançar, os dos pais, avós e bisavós, numa sequência concreta, inimitável, imutável, que não cede a pressões, que não respeita ordens, que não se deixa vencer, nem alterar, nem calar!

 

Vemo-nos ao espelho e pensamos “Eu era assim!”, “Como é que ele é tão parecido comigo?”, e não percebemos, até concluirmos que nos 23 pares de malinhas fechadas, está tudo empacotado, em kits arrumadinhos, armazenados por prazos de validade, que quando se gasta um está outro atrás e que decifrar o código, esse sim, é um trabalho conjunto que exige pelo meio muita compreensão e afecto, porque a base estrutural está toda lá. A única coisa que está por fazer da “urbanização” são os arranjos exteriores.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

21
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

No exílio

 

A liberdade conduz-nos à escravidão. Pássaros numa gaiola com a porta aberta que não ousamos transpor. Temos pouco mais que um corpo nu. Arranjamos nele um pequeno espaço para uma alma incinerada. Emprestamos os dois, corpo e alma, a uma vida sem sentido. Atravessamos um caminho sem verdadeiramente o termos percorrido. Não pertencemos a ninguém nem a nenhum lugar. Órfãos, quase sempre órfãos. Temos colado a nós, o desconforto de estar sempre longe de casa. A própria dor tranquiliza mais, porque a sabemos temporária!

 

Tivemos um pai que nos criou, Deus, que depois nos abandonou como se não fossemos dignos da concretização do seu sonho. Deu-nos a "liberdade" ao incutir-nos o pensamento de que estávamos acima do bem e do mal, mas acima disso não há nada. Subverteu, descaradamente, o ideal do sonho. É fácil perceber que se realmente tivesse querido, podia ter feito muito melhor. Não quis. Fez ainda pior: permitiu que descobríssemos a verdade.

 

Foi-nos dando tarefas para nos criar a ilusão de que éramos capazes, mas a cada uma que nos dava, tinha outra escondida para nos dar a seguir: uma de que não seríamos capazes. Deixou estas para o fim, para quando estivéssemos velhos, doentes e cansados, não fosse o diabo interceder a nosso favor e conseguirmos o que ele não previu. Que destino daria então à humanidade?

 

Enganou-nos desde o início.  Deu-nos tudo o que era preciso para chegarmos cedo à conclusão de que éramos mortais e deixou-nos o resto do tempo para viver com isso.

Vingou em nós, nos seus próprios filhos, as suas frustrações. Que culpa é que nós temos das guerras que perdeu, das vitórias sobre os homens que não conseguiu? Teria ele próprio uma revolta contra o Criador e queria através de nós fazer justiça?

 

Desarmados e desamparados, fez de nós o seu brinquedo como uma criança mimada faz as suas birras quando tem à sua volta adultos que lhe satisfazem todas as vontades. Os adultos éramos nós, reféns, mais que de um amor, de uma gratidão por nos ter dado a vida: se não fosse ele nós não existíamos!

 

Podíamos ter sido cão ou gato... mas porque é que ele achou que era melhor sermos homens? Para melhor o servir! Então não é pela obra feita que se destaca o artista? Acaso nos foi perguntado, aquando da criação, o que queríamos ser? Foi essa a liberdade que ele nos deu? Depois de decidir por nós, decidirmos nós o resto, condicionados ao que somos, ao como e ao onde nascemos? Poderíamos, se o quiséssemos, ser todos reis e senhores, senão do mundo, da nossa própria existência? Por quanto tempo? É este o seu conceito de eternidade, é esta a grandiosidade da sua obra?

 

Houve alguém, não me lembro quem, que justificou o facto de Deus nunca nos ter aparecido à frente por não saber responder às questões que previsivelmente lhe colocaríamos! É uma boa desculpa.

 

Esqueçamos o resto, para simplificar, e concentremo-nos nisto: qual é o ser, onipresente e omnipotente que cria um ser finito? Foi por causa disto, mãe, que eu nunca acreditei que morresses. Porque Deus me iludiu.

 

 

Cristina Pizarro

 

14
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Viver sem

 

As pessoas têm todas um sonho, lutam por ele, choram por ele, algumas são capazes de viver só por ele, outras são até capazes de morrer por ele.

 

Há aquelas que têm sonhos pequenos e são felizes, porque o sonho está sempre ao seu alcance, têm-no na mira telescópica de pequenas armas, de fabrico artesanal, construídas à medida do sonho que têm.

 

Depois há aquelas que têm sonhos grandes e que têm dinheiro para os comprar, que trabalham como bestas para poderem, progressivamente, ter sonhos cada vez maiores. São sonhos que ocupam muito tempo e espaço: é preciso uma casa grande para os guardar, uma garagem enorme, arrecadações na cave, capacete anti-choque, equipamento de mergulho, um reboque, sinalização especial... é quase preciso ter um rio à porta e um ancoradouro! Estas pessoas também são felizes! Embora não tenham tempo para viver, têm uma coisa fundamental e determinante: um objectivo de vida, uma meta. Se no fim do mês o saldo bancário proposto é atingido, sentem-se realizadas. Fazem normalmente contas de cabeça, em que predominam as de somar. Quanto maior é o número em resultado final, mais felizes são.

 

Depois há os pobres coitados, que vivem no mundo da lua, normalmente mostrando desprezo pelo dinheiro e revolta por não conseguirem viver sem ele. Com a consciência burguesa de que sem ele nada fazem, porque dele dependem para as suas necessidades mais básicas, que de dia para dia ficam menos básicas, porque não são parvos, não é, e habituam-se depressa ao que é bom. Ao que lhes facilita a vida e se não se põem a pau acabam como os outros. E estes são normalmente uns infelizes, portadores de sonhos artísticos, que acreditam que os sonhos que realmente valem a pena são os ideais, aqueles que arrastam anos seguidos aos ombros, que carregam consigo desde tenra idade e, porque são teimosos como burros, cismam que os hão-de realizar e chegam, os mais idealistas e obstinados, a acreditar que se não for nesta vida é na outra e perseguem o sonho como a PJ à procura de escândalo público com contornos privados, que deixam de o ser mal saltam para as páginas de jornal. São farrapos humanos, normalmente com pena de si próprios, que acabam em psiquiatria com diagnósticos pouco claros de “doença mental mal-esclarecida ou idiopática” ou “síndrome atípico crónico”, os medicados, isto é, as minorias, porque os outros andam por aí a infernizar a vida dos outros, a quebrar espelhos com frequência, por causa da falta de auto-estima e outras palavras mais que nunca lhes ensinaram em crianças que existiam, porque eram palavras que não vinham nos dicionários da altura! Coisas que só mais tarde se haveriam de inventar, enfim, com o evoluir da sociedade de consumo e com o aparecimento dos hipermercados com aquelas prateleiras a lembrarem-nos constantemente que nunca temos o suficiente. E arrastam-se então, estes últimos, com os bolsos a transbordar de sonhos, que não vivem, da mesma forma que os outros, porque por mais que façam estão sempre aquém do sonho. Sempre o sonho a anos-luz. Vivem também com um objectivo, mas objectivamente não fazem nada por ele. Esperam que lhes caia do céu um meteorito cheio de planos de acção, com caminhos traçados por onde só é preciso seguir, tipo carro elétrico. São os mais infelizes de todos, porque exigem tudo de si, incluindo a perfeição. Quanto mais têm, mais querem. E enquanto os outros são assim, mas em relação a coisas materiais, coisas que se podem conseguir facilmente com trabalho e dinheiro, estes não. Disfarçados de objectivos nobres, de sentimentos sublimes, de grau de inteligência elevado, de discernimento acima da média, de lucidez invulgar, de sentido de humor próprio, de presença de espírito, de raciocínio lógico, de interpretação acutilante, de sensibilidade extraordinária… têm uma vida de merda, porque querem o impossível: mudar a ordem do mundo, as leis da física e da matemática, as marés, as orbitas planetárias… o universo em geral!

 

E é para isto que servem os sonhos, grandes e pequenos! Quando, na verdade, all we need is less!

 

Cristina Pizarro

 

07
Ago19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

O euromilhões

 

Era uma vez um menino que jogava todas as semanas no euromilhões, mas não queria que lhe saísse o prémio! Todas as semanas participava naquilo a que podemos chamar a única oportunidade que a vida lhe dava de a mudar e se, em consciência, esse fosse o seu desejo mais recôndito, tinha imensa dificuldade em o visualizar, se dessa oportunidade dispusesse! Coisas de seres humanos, de animais racionais que ninguém nos há-de conseguir explicar e que nunca havemos de entender, por mais que as coisas pareçam óbvias. Lá está, óbvias para uns, incongruentes para outros.

 

Às vezes, quando ia verificar a chave, elaborava uma lista, mentalmente falando, das coisas que faria a par de outras que não faria, porque tinha esta coisa estranha da necessidade de ter sempre um balanço que antecede a tomada de decisão, que não é imprescindível para se tomar a mais acertada, mas que no caso dele achava que sim. Manias, temos todos. Achamos que as dos outros são piores que as nossas só porque estamos na nossa pele e não na deles. Também se compreende. Aliás, compreende-se tudo, o que, não raras vezes, nos remete para situações delicadas e de difícil resolução porque seria sempre mais eficaz dizer: não compreendo! E uma coisa tão simples como esta, que finalizaria qualquer discussão infértil e qualquer conflito sem solução, esquecemo-nos dela no exacto momento em que a devíamos ter presente. Tolos, genuinamente tolos e mal preparados para a vida.

 

Muito menos o estamos para a morte, mas aí ela vem sem qualquer apelo e está-se nas tintas para o que nós pensamos ou deixamos de pensar. Chega, dá a notícia e vira costas!

E nós ficamos com um vazio enorme e voltamo-nos para o seu oposto, a vida, tentando salvar dela o que ainda podemos. E às vezes não podemos grande coisa, mas iludimo-nos, cheios de convicções e desatamos a acreditar em Deus quando antes não, ou a desacreditá-lo quando até tínhamos fé! Porque é que isto acontece? Porque desesperadamente queremos uma mudança na nossa vida e achamos que ela começa, ou pode começar, agora! Outra vez seres humanos, animais racionais e outras coisas que tais. A ladainha do costume!

 

Mas o menino do eurominhões ia então saber a chave e olhava fixamente para a máquina que lhe daria o prémio e onde punha toda a sua expectativa no 0€! Um dia saiu-lhe mesmo o prémio, enfim, dizem que quem anda à chuva molha-se, e ele meteu os pés pelas mãos, que era engano, que o papel que tinha nas mãos não era dele, que não era bem isso que queria, que não tinha a certeza, que precisava de um tempo, que os sonhos que tinha não eram bem os sonhos que tinha, porque embora os tivesse de verdade, não eram dele, assim como o papel com os números certeiros e por aí fora!

 

E o senhor do café a explicar-lhe que nunca lhe tinha acontecido uma coisa dessas e que agora tinha um problema sério para resolver, porque era honesto e não podia ficar com o prémio! Também não o podia dar a mais ninguém porque não era Deus para distribuir riqueza e que só via uma solução: rasgar o papel! E, em segundos, o menino rasga o papel!

 

O estranho é que ficou com uma cara tão desolada e visivelmente tão transtornado que o senhor do café, que para além de honesto era boa pessoa, dirigiu-se à prateleira atrás do balcão, pegou num rebuçado de mentol e deu-lho: para não ficar tão triste!

 

Cristina Pizarro

 

31
Jul19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Era uma vez dois ouriços

 

A fêmea parecia ter uma delecção no cromossoma que codificava a carapaça, uma vez que não tinha, a bem dizer, espinho nenhum. Quando conheceu o ouriço, aparentemente normal, achou um exagero aquela quantidade de espinhos, mais de seis mil, que ele tinha espetados no dorso, dirigidos contra tudo e todos e aos poucos, com muito cuidado, mas nem sempre devagarinho, foi amolecendo um aqui, outro ali a ver se aquilo ficava um bocadinho mais suave, a ponto de ela se poder encostar sem se magoar e sem o ouriço achar que ela estava, sem respeito nenhum, a invadir o território dele.

 

Um dia ainda experimentou, na brincadeira, dizer-lhe: tu pareces um exército, mas não tinha resultado muito bem, porque embora sem ele o ter dito, a ouriça leu-lhe os pensamentos, que diziam: “e tu és careca!” (O ouriço pensava mais do que dizia e a ouriça dizia mais do que pensava!)

 

Aliás, esta característica da ouriça adivinhar, leia-se ler, pensamentos, que aparentemente seria uma vantagem, em circunstâncias normais e para um ouriço comum, tinha-se tornado numa fonte de problemas. O ouriço, este, que era especial, não gostava. E os motivos nem sempre eram óbvios, o que fazia a ouriça entrar em transe, porque recorria constantemente ao baú do raciocínio lógico, pouco operante nestes casos!

 

Tinha um discurso eloquente cujo primeiro ouvinte era o próprio e não achava graça nenhuma a que a ouriça o interrompesse, dizendo-lhe o que já sabia ou julgava saber. Era aqui que o ouriço hibernava por tempo indeterminado. A temperatura corporal descia de 35 para 9 graus centígrados e o ritmo cardíaco passava de 190 para 20 batimentos por minuto. Gélido!

 

Estas e outras coisas originaram uma alteração genética muito rara, mas que pode acontecer em condições desfavoráveis ou por pressão do meio ambiente: foi inactivada uma proteína repressora do gene que codificava os espinhos e eis que, lenta e gradualmente, começaram a aparecer na ouriça, primeiro uma pelugem inofensiva e depois (aqui e ali) uns espinhos de queratina, de cuja manifestação fenotípica o ouriço também não gostava. Lidava bem com a outra, genotípica, igual à dele, mas a implicação dela no comportamento da ouriça já não era pacífico, aproximando-se muito mais de um atlântico, tal era a temperatura das águas! Não estava a funcionar!

 

Começou então um conflito entre os espinhos rijos, há muito tempo nascidos, e os agora recém-criados, que se engalfinhavam por dá cá aquela palha, que é como quem diz por tudo e por nada, com atribuições de culpa pouco claras e pouco sérias, com consequências desagradáveis e nada confortáveis.

 

Então a ouriça, que tinha vivido tantos anos careca e bem, na tentativa de resolver o problema, foi à depilação. Vencidas todas as contrariedades de um bicho destes ter sido aceite num gabinete de estética para humanos, a experiência não resultou: os pêlos, digo espinhos, voltaram a crescer. E embora o problema da reincidência fosse um falso problema, porque a ouriça podia lá voltar uma e outra vez, a mesma achou que aquilo dava uma trabalheira tão grande, dos diabos mesmo, que a ouriça optou por deixar estar.

 

Há problemas, mesmo grandes, que se resolvem assim: deixando estar. E o engraçado foi o que aconteceu depois. Os espinhos do ouriço deixaram de ser desconfortáveis para a ouriça. Não se percebeu se amoleceram, se desapareceram ou o que foi que lhes deu! Na realidade, deixaram de estar, pura e simplesmente deixaram de estar, pelo simples facto de que a ouriça deixou de os ver! Acontece o mesmo com as flechas disparadas que não atingem o alvo porque ele deixou de lá estar! Ninguém se magoa, acaba tudo em bem, à filme americano, mas com actores franceses. Dá que pensar.

 

Cristina Pizarro

 

PS: Correctamente escrevendo, o termo “ouriça” não existe. O termo correcto é ouriço fêmea, mas achei piada ao “ouriça”! É fofinho, e como é ficção… deixo estar!

 

 

 

24
Jul19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Em debate

 

 

Estão todos a falar, de repente começaram todos a falar, ao mesmo tempo, sobrepondo as vozes, as vezes, os gritos, alguns o choro, outros o riso, até a gargalhada!

 

Manifestam-se todos da forma que sabem, da que não sabem e inventaram agora, da que já tinham esquecido que sabiam; mas que ainda sabiam, e da que ainda não tinham descoberto que sabiam e descobriram agora. Tudo em simultâneo. Levantam-se, sentam-se, põem-se de pé em cima das cadeiras, das mesas, penduram-se no tecto, agarram-se aos candeeiros, dão saltros, cambalhotas, fazem o pino.

 

Debatem, aparentemente debatem ideias, pressupostos, conceitos de ética, moral, respeito e honestidade, intenções lícitas e ilícitas, com legitimidade e sem ela. De repente alguém sobressai ou impõe-se e diz: nada disto faz sentido, temos de voltar ao início. E voltam ao início. Começam outra vez todos a falar, ao mesmo tempo, sobrepondo as vozes, as vezes, os gritos, alguns o choro, outros o riso, até a gargalhada!

 

Eu, supostamente a moderadora daquele debate, chamemos-lhe assim à falta de melhor palavra, não sabia o que dizer nem a quem dar a palavra:

 

- o sangue, falava por si;

 

- a alma, clara e inequívoca;

 

- o ego, fortíssimo;

 

- o superego, indeciso e confuso;

 

- o alterego, ditador e dono da verdade;

 

- o consciente, reincidente no seu raciocínio lógico e

 

- o inconsciente, o único que eu achava intimamente que devia falar e a quem daria a palavra em primeiro lugar, dormia profundamente com um sorriso nos lábios a sonhar com a intuição!

 

Era pecado acordá-lo para uma realidade infértil! Saí devagarinho, sem ninguém notar, e deixei-os todos a falar, não uns com os outros, mas sozinhos. A única coisa que me poderia interessar de toda aquela discussão era a conclusão e essa não estava em debate.

 

É claro que, antes disso, peguei no inconsciente ao colo e levei-o para casa, com muito cuidado para o não despertar. Deitei-o na minha cama, vesti aquela camisa de dormir de seda branca e afastei-me o suficiente para que ele nem sequer sentisse o meu respirar.

 

O inconsciente não estava a dormir, disse-me depois, quando já tinha entrado num sono profundo e explicou-me, em poucas palavras, porque tinha fingido! Dei uma gargalhada, de tão óbvio que era e eu, pateta, sem ter percebido; mas a acreditar que só isso fazia sentido!

 

No dia seguinte, se houvesse debate, que estas coisas não se repetem, ter-lhe-ia dado a palavra. Mesmo que ele dormisse profundamente, tê-lo-ia acordado!

 

Cristina Pizarro

 

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Que bom! Só espero que isto vá despertando os fla...

    • Anónimo

      adorei ler sobre o local onde nasci e vivi e que m...

    • Anónimo

      ...

    • Anónimo

      Bem vindo amigo. Espero que volte com toda a sua f...

    • Anónimo

      Aí nasci estudei aonde é hoje o solar de ...