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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Abr20

Crónicas de assim dizer

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O mundo em que vivemos

 

 

O mundo pegou-me ao colo, como se tivesse encontrado uma criança perdida longe de casa. Não fez grandes perguntas, não me contou nenhuma história, não quis saber quem eram os meus pais nem onde estavam, carregou-me às costas e levou-me a passear.

 

Primeiro junto ao mar, numa praia deserta onde só estava ele e eu. As ondas iam e vinham, de cada vez diferentes, numa voz calma, num jeito incansável, persistente, sadio.

 

Depois fomos à floresta, uma imensidão de árvores onde o vento se misturava nos ramos, num ondular refrescante, meigo, pacífico.

 

O mundo carregou-me gentilmente às costas! Visto ali de cima dos seus ombros, o mundo parecia mais em paz, mais tranquilo, mais sereno. As palavras decompunham-se na minha alma e eram prescindíveis, nenhuma me fazia falta. Eu era um menino grato e feliz.

 

Nunca me pousou no chão, sempre com um cuidado minucioso a segurar-me, como se não quisesse que eu sujasse os pés descalços na terra imunda, maltratada, abandonada, refém de uma civilização displicente, que não reconhece o bem de ser e estar vivo.

 

Os meus olhos brilhavam como se fossem estrelas na noite, cintilavam e retinham a água salgada como marés ávidas sem procura.

 

O céu estava tão azul que parecia pintado por um daqueles artistas impressionistas. Era um azul matizado, de tons enrolados, como se corresse, como se não estivesse ali. Fluía. E eu assistia àquilo tudo como a uma dança, consequente à música que vem de dentro de qualquer coisa. Sim, senti magia, sem artifício, sem cenário, sem truque. Não saíam coelhos da manga do casaco ou do chapéu e não fizeram falta para me ver sorrir.

 

Era de plenitude a sensação. Eu estava francamente de olhos abertos e sentia, à flor da pele, o perfume da Primavera, a aragem fresca. Todo eu era respirar e ouvia o bater do coração compassado nas voltas do mundo. Ele tinha uma força tão grande que eu sentia que um gigante me sustentava. Pensei, por escassos segundos, que seria capaz de voar sem asas, rasgar aquele céu azul…, mas parei, o céu estava lindo de mais para que alguma coisa o perturbasse. Eu permanecia ali num movimento ondulante de braços não castrado. Era a minha vontade a determinar que essa dança bastava.

 

Sentia-me tão leve, mas tão leve, como uma ave a planar, imensurável, sentia a força infinita de umas asas abertas, imensas.

 

O mundo não parecia querer parar, corria comigo às costas e eu ria, ria e ria. Parecíamos dois meninos a correr sem razão e sem ponto de chegada rumo ao infinito. O caminho era a única coisa que interessava!

 

Depois…, depois foi simples. Acordei, estava implacavelmente no mundo em que vivemos. Sorri e pensei: amanhã vou sonhar outra vez. Estava de alma nova.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

15
Abr20

Crónicas de assim dizer

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O Professor

 

 

Era a primeira aula. Mentir não é necessariamente mau. A verdade é um conceito.

 

Olhámos uns para os outros. O que era aquilo?

 

Quando as coisas são abstractas, para as definir precisamos de uma referência. Por exemplo, o metro-padrão, como se define? Qual é, em concreto, a distância ou o comprimento medido, relativamente a quê? Assim, temos sempre como que uma imagem espelho. Uma coisa em frente a outra, contrária a ela. E o que parece um princípio, é o início de um jogo ou do Jogo. O que parece e o que é. As coisas não existem em si. Existe uma coisa e milhares de interpretações dela. Qual delas é mais real? A que se aproxima mais? Mas a quê? E que interpretação dela vale mais e quem tem mais poder sobre ela e de quem ou de onde vem esse poder? É circunstancial, depende de um conjunto de premissas, pressupostos e consequências cuja veracidade não tem unidade de medida. Mas não é só circunstancial, também é temporária. Nas mesmas circunstâncias, hoje provam uma coisa e amanhã o seu oposto.

 

Mas há valores morais, há uma ética, há uma conduta… que servem para? E a quem?

 

Essas coisas só são úteis se tiverem um propósito que nos sirva. Pode não acontecer isto! Ou seja, podemos enveredar por uma linha de raciocínio lógico que nos leva a conclusões erradas. Se a história for contada por nós, é evidente que fará sentido, mas isto é o mundo da ficção. Na realidade as coisas são completamente diferentes, porque a história é contada por vários e uns não sabem aonde os outros querem chegar. Por vários motivos. Primeiro porque nem todos os raciocínios são lineares, depois porque ninguém abre completamente o jogo, “o segredo é a alma do negócio” e tudo é um negócio.

 

Olhámos novamente uns para os outros. Alguns de nós receavam terem-se inscrito no curso errado, outros, mais astutos, achavam que o professor se tinha enganado na turma. Nem nisto havia sintonia, ambas as coisas eram possíveis. O que fazer? Quem é que nunca esteve no funeral errado e só deu conta quando o padre disse o nome daquele que ali estava deitado? Assumimos que era na igreja, mas era na capela. Saímos então devagarinho a ver se ainda apanhávamos o outro a tempo. Há até quem tenha posto o ramo de início e se debata depois com o problema: tiro, não tiro!

 

Ou seja, é o nosso assumir, mais uma vez e sempre, a nossa crença, a dar-nos uma falsa ideia ou uma percepção distorcida dos factos.

 

Ora aí está outra coisa que não existe: Os factos. Nunca estiveram num tribunal, onde os factos provados nunca se tinham verificado? Dou-vos um exemplo: num acidente de viação. Dois carros embatem um no outro, é chamada a polícia, são feitas medições para apurar a responsabilidade dos intervenientes e a culpa é atribuída com base na peritagem efetuada no local. Mas no local onde os veículos estavam, não foi o local onde embateram e nunca ninguém saberá qual era, porque deixou de existir. A velocidade a que ia cada um deles, exactamente, nunca se consegue determinar; o impacto que cada um deles provoca no outro também não é legitimamente mensurável! Claro que há fórmulas de cálculo, matemáticas e físicas, que medem a força, a aceleração, a velocidade, eu sei lá, mas as variantes, como é que se medem?! A velocidade e o sentido do vento àquela hora, que não se sabe qual foi; a precipitação, a luminosidade do dia, o estado de manutenção e o tipo de asfalto; se o rádio estava ligado e qual a estação, se os faróis estavam ou não acesos, se os mínimos, se os médios…. Como determinar isso se os carros ficaram completamente desfeitos? Andou-se de régua e esquadro, quando as variantes podem ter sido as determinantes! Nunca havemos de saber!

 

Continuámos a olhar uns para os outros sem chegarmos a nenhuma conclusão, mas já que ali estávamos… esta coisa da inércia faz-nos, às vezes, assistir a coisas perfeitamente evitáveis! Não é bem assim, temos alguma dificuldade em dominar a curiosidade, mesmo quando as coisas nos parecem sórdidas.

 

Nunca ninguém poderá dizer: tenho a certeza! O professor saiu, sem dizer de quê! Não percebemos como, mas tinham passado 50 minutos. A primeira aula estava dada.

 

Olhámos, pela última vez, uns para os outros e porque ninguém quis lidar com o desconforto de pedir esclarecimento aos outros e assumir, perante si, que se tinha enganado, ficámos todos calados com uma história para contar.

 

Cristina Pizarro

 

08
Abr20

Crónicas de assim dizer

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A bilheteira

 

A bilheteira nunca mais abria! Tínhamos ido para lá de madrugada, ainda o Sol não era nascido. Alguém nos tinha avisado que podia demorar muito tempo, uma eternidade e que devíamos ir precavidos, com reservas de água e alimentos. Assim fizemos.

 

Havia prioridade para tudo, grávidas, pessoas com crianças ao colo, deficientes físicos e mentais. Pessoas de idade, com e sem doença. Cadeiras de rodas, acamados, transplantados, doentes crónicos, portadores de doenças autoimunes, com e sem imunossupressão, infectocontagiosos, eu sei lá! Primeiro que percebêssemos onde nos colocar, demorámos horas.

 

A bilheteira nunca mais abria! Começaram os rumores: o espectáculo deve estar lotado! Terão ou não pessoas suficientes para que haja um segundo concerto? Percebemos que estávamos a servir de cobaias, que cada um de nós era apenas um algarismo a somar ao total, um peão no tabuleiro de xadrez (claro que conhecemos a frase: “No fim do jogo, rei e peão voltam para a mesma caixa!” Mas dali até ao fim do jogo, acreditávamos que ainda faltasse algum tempo!).

 

Depois de toda aquela espera inglória, os seguranças o que fizeram foi contar-nos, dissimulando "razões de segurança". Começaram a distribuir senhas para voltarmos no dia seguinte, dizendo que: “Hoje, já não vai ser possível!”

 

Fomos para casa, dormimos como bebés pelo calor que se fazia sentir e pelo cansaço que tínhamos suportado, de pé, aos encontrões, com atropelamentos das pessoas que se enganavam na fila, porque algumas delas acumulavam características de prioridade, eram ao mesmo tempo doentes crónicos e tinham idade avançada. Grávidas com crianças ao colo…  Em nenhuma parte, havia o aviso de: “Promoções não acumuláveis” ou outra coisa do género… Ninguém se entendia e não foram prestados quaisquer esclarecimentos. Ninguém estava por dentro do assunto. Começou a discussão, fácil de adivinhar: “Quem é mais velho? Qual a doença mais grave? Os mais débeis passam à frente dos que chegaram primeiro? Quem determina o que é considerado mais débil?” A discussão estendeu-se às filas adjacentes. As pessoas começaram a tomar partido, a fazerem alternadamente de testemunhas de acusação e defesa, a arranjar argumentos, provas, evidências. Umas, incomodadas com a discussão, pediam silêncio. Outras, incomodadas pela desigualdade de critérios, pediam justiça. Começaram todas aos gritos, a insultarem-se reciprocamente, a agredirem-se umas às outras, instalou-se o caos. Um motim! Foi nesta altura que os seguranças começaram a distribuir senhas e todos foram para casa.

 

No dia seguinte reparámos que nos papelinhos de cor diferente, cada fila tinha uma cor própria, não constava nenhum número! Tínhamos sido enganados ao pormenor! Pior do que isso, tínhamo-nos deixado enganar, tinha sido a nossa convicção a trair-nos. Nenhum de nós olhou para o papel quando o recebeu, assumindo que a medida tomada só fazia sentido se na distribuição das senhas fosse respeitada a ordem de chegada e a selecção imposta.

 

Mesmo assim, voltámos lá, só para saber qual tinha sido o fundamento daquela desorganização. Mas a bilheteira estava deserta, encerrada sem ter aberto! Falta de quorum! As pessoas abriram a senha em casa e ao descobrirem que tinham sido enganadas, alteraram o plano do dia. Umas foram para a praia, outras para o parque da cidade fazer um piquenique e outras andar a pé. Há quem tenha escolhido o centro comercial ou a baixa da cidade. Outras, ainda, ficaram em casa a ouvir música ou a ler um livro. Há quem tenha ido ao cinema. E nós, perplexos, em frente à bilheteira a cismar que aquilo ainda ia abrir, pois se não dizia “Encerrada”, tudo levava a crer…

 

 

Cristina Pizarro

 

 

01
Abr20

Crónicas de assim dizer

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Os protagonistas

 

 

Há pessoas que têm uma realidade que é só delas! Não se consegue lá entrar, porquê não há portas de acesso. Pensamos que sim, ficamos curiosos e andamos ali à volta da casa de madeira com janelas onde através delas se não vê nada, nem de fora para dentro nem de dentro para fora. É um mundo estanque, onde não há qualquer interacção. Primeiro achamos que é um mundo, uma realidade, inconsequente; mas com o tempo vamos percebendo que a palavra adequada é: irresponsável. Como pessoas sérias que somos, mas atraídas pelo abismo e arrastadas pela curiosidade com que nascemos e que se não esgotou na infância, andamos ali por perto a querer perceber o que não tem explicação. Só muito mais tarde é que damos conta.

 

Investimos tempo, emoções, sentimentos, energia, quase nos esgotamos num esforço inglório de encontrar nem que seja alguma lógica, algum porquê, naquilo tudo. Racionais, como também somos, partimos para a análise sem nos apercebemos que os pressupostos estão viciados, porque nos são apresentados de forma díspar, ora revestidos por um conceito ora por outro. Quando estamos, finalmente, a formar uma opinião coerente, mudam-nos os princípios. E nós andamos ali às voltas, à toa, como marionetas de uma peça de teatro sem direcção de artistas, mas com guião. Valorizamos isso, apreciadores das pequenas coisas da vida e, porque pagámos o bilhete, insistimos.

 

Convencemo-nos que a peça tem um qualquer propósito, que não o exclusivo de servir o ego do seu actor principal. Surpreende-nos o facto de a casa de madeira resistir como uma árvore milenar a toda e qualquer tempestade, a toda e qualquer adversidade; verga temporariamente, mas não parte. Reconstrói-se do nada, como naqueles filmes de ficção científica onde é patente que as imagens estão completamente fora da realidade. Aqui não, parece-nos tudo a sério. O boneco está bem feito, a caracterização do personagem brilhante, não há carnaval assim que não possa ser verdade, ainda que limitado no tempo.

 

Voltamos lá. Umas vezes batemos à porta, outras esperamos cá fora que de dentro a abram. Entramos sem pensar, mas pouco tempo depois somos projectados violentamente para as águas geladas do rio que banha os pés da casa. Quase nos afogamos, pedimos ajuda; mas ninguém está por perto, ninguém nos ouve. O proprietário da casa já ligou a música e colocou os phones! Finda a tarefa diária que o alimenta, recolhe-se no desconforto da sua precaridade; que novamente reveste de magno conceito, virtual. Tudo nele é grande e falso.

 

No dia seguinte voltamos lá com o pequeno almoço, alimentando o predador por o acharmos inofensivo.  Vamos uma e outra vez, até ao dia em que novamente projectados a pontapés para as águas geladas do mesmo rio, encontramos um peixe que nos diz, um peixe que fala: estreia hoje no cinema Trindade um filme francês, não, desculpa, no Teatro do Campo Alegre, que se chama...

 

Fomos ver. Quando o filme terminou e enquanto ficámos colados ao assento a digerir o que tínhamos acabado de ver, decorria atrás de nós uma conversa cujo interesse se sobrepôs e alinhou com o nosso pensamento. Depois de pedirmos licença para nos juntarmos a ela, apreendemos finalmente o que há muito tempo, em surdina, nos andava a dizer o macaquinho cá de dentro, aquele que se aninha acima do pescoço: Olha que não é o que tu pensas! É sim senhor, dizia o outro macaquinho que também temos cá dentro, aquele que se aninha entre os pulmões, assim mais para o lado esquerdo. E nós ali a vacilar entre os dois, sem saber muito bem a quem dar ouvidos, porque o primeiro é traiçoeiro e o segundo engana bem.; íamos saltando de ramo em ramo, fazendo uma acrobacia aérea no meio daquela selva digna de circo, onde só não ouvimos palmas no fim porque o espectáculo decorria à porta fechada.

 

Estranho foi termos furado a lona da grande tenda gigante sem termos perdido a vida. Bem, sinceramente, não foi assim tão estranho. O leão dormia, o tigre era fêmea e amamentava a cria, a grande pantera negra alimentava-se, o elefante rezava o terço, a família de hipopótamos em reunião, a serpente deixava-se encantar e o urso era ainda bebé, inofensivo. A única coisa que nos aconteceu foi ter tropeçado num macaco, que até nos deu a impressão de ter sorrido, ao ver-nos em fuga. Os macacos são um bocado estranhos, acham piada a tudo.

 

Cristina Pizarro

 

25
Mar20

Crónicas de assim dizer

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Caí em mim

 

Caí em mim quando senti na pele o verdadeiro sentido da ideologia de que sou aquilo a que presto atenção com estes meus olhos, onde cabe todo o Universo. Se me pedissem para descrever esse momento, não diria que foi feliz nem triste, nem enriquecedor nem empobrecedor. Na verdade, seria uma crueldade da minha parte tentar defini-lo, porque com essa apreensão veio outra. Aquela em que deixei de querer definir as coisas. Na verdade, não preciso disso. Guardo para mim a magia do momento, ao invés de o contar repetidamente a todos e todas até que perca o seu natural encanto. Como indivíduo, não procuro ser boa pessoa, sei que não o sou, não procuro ser má pessoa, sei que não o sou. Sou tanto disto como daquilo, na verdade sou tudo e nada. Por isso estou em paz.

 

Agora que já me apresentei e desenvolvi uma ligação mais íntima contigo, vamos ao que interessa!

 

O que aconteceu nestes passados dias, veio afirmar isso. Estes dias mostraram-nos, tanto a ti como a mim que nada somos, senão o amor das nossas relações. Mas acima disso, daquele amor insaciável pela constante criação interpessoal em que todos nós estamos viciados, e sem a qual, nos tornamos em verdadeiros animais sem rumo.

 

Vejo com clareza, o que as notícias me transmitem, que devo ser responsabilizado pelos meus atos. Que devo tomar medidas de contenção, que devo fazer isto e aquilo. Vejo com clareza, as histórias de natureza degenerescente que me contam, do senhor que fez aquilo e não devia e da senhora que não fez aquilo e devia. Fico perplexo. Mas só por um segundo. Porque no momento seguinte encho-me de energia e apercebo-me que estas histórias não são verdade, pelo menos não precisam de ser. Não preciso que me contem estas histórias. Sinto, que me impedem a mim de fazer o que é correto, por ser constantemente relembrado daquilo que não é. Somente uma coisa nos é pedida, um nível de coragem para tomar uma decisão destas. Optar por não querer saber, ou até não acreditar. Defendo este ponto com a ideologia que referi no inicio deste texto. Não se aplica só aos momentos mais importantes da vida, na verdade aplica-se a todos eles. É um trabalho constante e provavelmente o mais divertido e importante.

 

Não acredito que o vírus foi uma arma biológica. Não acredito que o vírus se espalhará a valores que ponham em risco a população mundial. Não acredito em nenhuma dessas lengalengas.

 

Torno então o meu foco de atenção para um lugar alegre. Reparo, olhando à minha volta, que estamos todos bastante mais carinhosos. Mais amigos uns dos outros. Mais preocupados uns com os outros. Visualizo o momento em que reverei os meus amigos, os abraços e beijos que lhes darei. Tenho a certeza de que anseiam tanto verem-me como eu a eles. Sei que o meu mano está bem no estrangeiro, feliz e seguro. Sei que o meu Pai e irmã também o estão. Escrevo este texto com um sorriso na cara, pela gratidão que tenho de me ser dada a honra de vos escrever hoje. Abro as redes sociais, reparo naqueles artistas que dão concertos virtualmente, nos pintores que ensinam gratuitamente através do ecrã do telemóvel, nos Personal trainers que oferecem diversos vídeos para exercitar o corpo em casa. Nos Yogis que decidem fazer Yoga ou meditar em frente ao telemóvel. Que melhor tempo para estarmos vivos e sentidos do que este momento?

 

Posto isto, fui à varanda. As ruas estavam desertas, cheirava a Primavera, havia uma incolor quietude no ar. Somente me era possível observar os pássaros e sentir a brisa na minha cara. E isso pareceu-me suficiente, na verdade de nada mais precisava. Sentia-me feliz, corrijo, fiz-me feliz.

 

Guilherme Pizarro Castro*

 

 

(*) Nota do Blog Chaves:  Não, não é um pseudónimo da Cristina Pizarro, nem influência do “COVID-19”, é mesmo o nome do autor, mas só possível graças à existência da Cristina, pois é uma crónica do seu filho, e, mais uma vez temos de dar razão aos ditados populares – “Filho de peixe, sabe nadar”. Por assim dizer, fica tudo em família, assim, Cristina, já sabes, quando não tiveres tempo para uma crónica, põe o rapaz a escrever, será sempre bem-vindo.

 

 

18
Mar20

Crónicas de assim dizer

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Cegueira após cegueira

 

Há 25 anos José Saramago escreveu um livro em que falava de uma epidemia que assolou uma cidade, extremamente contagiante em contexto social por contacto físico. Põe ao longo de 300 páginas a nu o ser humano e como ele se transforma rapidamente numa ratazana de esgoto. Os valores morais como a dignidade, o respeito pelo outro e o ser solidário, são vendidos e trocados facilmente por uma fatia de pizza. No limiar e no extremo da sobrevivência, mostra-nos o que o ser humano vale. Diz, ele mesmo, o que pretendeu com o livro: "mostrar que não somos bons e que é preciso ter coragem para o assumir!"

  

A cidade é saqueada, lojas de alimentos fechadas são assaltadas, gera-se o pânico e o descontrolo geral. As personagens do livro não têm nome, são definidas por características individuais que lhe são próprias, mostrando que a identidade está acima do nome de baptismo, que somos o que mostramos e o que escolhemos ser, e que isso não é determinado por ninguém alheio a nós! Também mostra que as circunstâncias em que vivemos não são um escudo ou uma protecção atrás da qual nos podemos dignamente colocar, mas ao abrigo das quais nos podemos cobardemente desculpar.

 

Há, neste longo processo de desumanidade que o ser humano é capaz de cavar e na descrição crua e violenta da situação vivida, embora reféns dela, criada e agravada por todos; uma personagem que não cegou, a mulher do médico, que mantém a sua lucidez incólume, assistindo a todos os actos impiedosos, que conserva a integridade do seu carácter! Serve de guia, é como a mão de Deus a conduzir os filhos perdidos. A situação de horror vivida pelos cegos em quarentena, isolados num mesmo edifício, um antigo manicómio abandonado, onde os colocam; são mantidos lá por uma pesada força armada de guardas, que despejam a horas certas os alimentos no pátio e para onde correm os cegos, atropelando-se uns aos outros, trepando uns por cima dos outros que, mais debilitados, acabam por tropeçar e cair. A chegada dos alimentos, contada ao minuto, é a única esperança do dia. Temem que um dia falte.

 

Sem sonhos nem expectativas, os cegos vivem cada dia sem saber se é o último. Um cenário real num mundo fictício, ou não!

 

Desde o início desta epidemia, agora pandemia, histeria para os ignorantes, que me lembro deste livro, que visceralmente me transformou e onde, ao lê-lo, senti a agonia do que é viver numa situação limite, recebendo, por imposição, a consciência de que o valor do ser humano está onde nós quisermos e decidirmos que está! Valor muito fácil de cair, quando temos que pensar em grupo e não individualmente, coisa que fazemos com muita facilidade e egoísmo. Centrados no nosso umbigo, a única coisa que nos move, levamos décadas a perceber que ele é um ínfimo ponto do Universo em que ninguém repara e que nos serve apenas como referência ao ser único que nos pôs no mundo, a mãe, na origem de toda uma vida. É como um selo, um símbolo, uma marca indelével, que o nosso corpo transporta para que nunca nos esqueçamos da pessoa a quem devemos estar eternamente gratos.

 

Aos que só viram o filme, recomendo que leiam o livro, porque o filme é ficção! Esqueçam lá o preconceito de que o senhor era comunista, que não tinha tirado um curso superior, nem com certificado emitido num domingo! Esqueçam também que usava escassa pontuação, que fazia diálogos só para "pessoas inteligentes"! É tão fácil caramba, quando a letra é maiúscula, é porque muda a fala! E sim, é verdade, às vezes é preciso ler duas vezes para nos não perdermos! Não é erro do escritor, perdoem-me os críticos literários, é intencional da parte dele, para melhor retermos o que é importante. E é, também por isso, que o considero um génio. Ele na prosa e Fernando Pessoa na poesia, que só não ganhou o prémio Nobel porque morreu cedo, tendo publicado apenas um livro em vida, a “Mensagem”, e, ao que sei, o prémio atribui-se a um escritor por toda a sua  obra. Ou pode ter sido por uma razão mais sublime: porque isso não é o mais importante. É um adereço, como tudo na vida, à excepção da integridade que, em circunstância nenhuma, se perde! Aqui tenho dúvidas. Vamos ver o que vem durante e a seguir a esta calamidade que actualmente vivemos. Iremos mudar conceitos, critérios, descobrir finalmente a grande importância das pequenas coisas? Perceberemos, de uma vez por todas, que não estamos sozinhos no planeta, que precisamos uns dos outros e que só juntos, unidos numa mesma causa e em sintonia é que poderemos levar a montanha a Maomé?! Ou teremos de assumir, como diz Saramago, a cobardia de que não somos bons?!

 

Alguém nos está a pôr à prova, lamentavelmente, um vírus, que é uma coisa que até nem se vê, um parasita intracelular das células do hospedeiro, do ser vivo, de quem faz o seu reservatório, que nele se instala como se da sua própria casa se tratasse e que embora fora dela se aguente umas poucas horas, mesmo assim mata, mesmo assim é incrivelmente letal! É preciso estarmos à altura, mas temos primeiro de deixar de lutar uns com os outros. Foi por aí que ele entrou, descobriu-nos essa fragilidade!

 

Desculpem lá isto, mas hoje acordei mais lúcida que o habitual e não sou a mulher do médico!

 

Uma nota para os que gostam de literatura: já tinha passado mais do meio do livro do “Ensaio sobre a lucidez”, que li logo a seguir ao da cegueira, e vejam quem nos aparece? Os personagens do “Ensaio sobre a cegueira”! Só que agora o livro é com cegos que vêem, e, mais uma vez, a mulher do médico que não cegou, a conduzir, com a lucidez que lhe vestia a pele, o destino das coisas. Se isto não é brilhante, é o quê!?

 

Vamos ver se, desta vez e com estes ensinamentos, ao sobreviver a uma, não caímos noutra!

 

 

Cristina Pizarro

 

11
Mar20

Crónicas de assim dizer

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Um Danoninho

 

 

Era preciso tão pouco! No degrau da escada, subir só mais um! Da realidade virtual, retirar a virtual! Ou a realidade! Qualquer uma faz parte do sonho, as duas ao mesmo tempo é que estraga. Era preciso escolher! Mas a tempo! E um bocadinho mais: dizer que sim a uma e que não a outra, embora isto se saiba muito bem, é preciso dizê-lo! Estarmos atentos, não chega.

 

Estava tudo lá! O propósito, a intenção e até o objectivo. Claríssimo! É certo que nunca houve um plano traçado, um desenho, um projecto; mas isso faz parte do caminho e da magia de o percorrer! Então não há a intuição, a gestão de imprevistos, a sensibilidade do momento, a perspicácia de perceber o não explícito, a experiência do viver, o saber utilizar o factor surpresa na condução do eventual destino?! Então só o determinismo é que é bom, é que dá resultados positivos?!

 

E era tão fácil! Calar a palavra a mais, dizer a que não foi dita, mas pensada! Deixar que a mão terminasse o gesto, sem o parar antes do tempo! Permitir que o olhar ficasse lá, sem se distrair! Deixar a boca terminar o beijo e os lábios concretizar o sorriso deixado a meio, interrompido, sempre pelo mesmo motivo: e se isto não é a sério? Por trás do palhaço há sempre um ser humano! Porque nos esquecemos disso?

 

Transformar em cinza a lenha ardida, é um processo natural. Depois há a nossa parte, o reacender, o aproveitar a cinza, o transformá-la! Dá trabalho, claro que sim. Tudo dá trabalho, tudo exige esforço, para tudo é preciso querer. Às vezes querer muito, mas nunca mais que o suficiente. E é esta preguiça latente, esta inércia que se nos cola à pele que dificulta todo o processo! Sempre a perguntar se vale a pena, estar com isto ou com aquilo…

 

E era tão simples! Deixar fluir a água do rio, permitir que desaguasse em paz, que se misturasse a água doce com a salgada num mar imenso; calmo umas vezes, agitado outras, tudo faz parte da natureza, mas... a mão do homem, sempre a poderosa mão do homem a querer sobrepor-se ao que era a intenção de Deus!

 

O medo, só por si, explica tudo; mas, por si só, não diz nada! De quê? Porquê? Para quê? Era preciso?

 

Ouvem-se ao longe, tiros de metralhadora…

 

 

Cristina Pizarro

 

04
Mar20

Crónicas de assim dizer

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O gajo que nos acorda todos os dias

 

 

E que tem a mania que sabe o que é melhor para nós!

 

Nós, em sonhos, a acharmos que existe um desajuste entre a realidade onde nos encontramos e aquela em que gostaríamos de nos encontrar.

 

Fazemos e desfazemos, voltamos a fazer. Começamos, recomeçamos e a ilusão do sonho permanece. Então não era suposto que…?

 

Acreditámos cedo de mais, havia premissas que estavam em jogo desde o princípio, mas a inocência com que nascemos não nos permitiu percorrer o caminho alternativo, aquele que nos podia levar a vidas mais fiáveis. Acreditámos piamente na mais cruel das verdades, que é a mentira, qualquer coisa com muita injustiça à mistura. Éramos tão pequenos, tão pueris… Falavam-nos de Deus, da eternidade, da justiça dos homens... e nós a acharmos que tudo isso era possível num reino de homens bons, deserto de seres humanos.

 

Havia convicções, mas nunca nos disseram que elas eram sinónimo de crenças, coisas irreais, fabricadas por um imaginário fértil de almas de poetas, de sensibilidade descompensada, de cérebros que fantasiam, que efabulam, porque têm que dar vida a personagens! Mentes famintas, desnutridas, desequilibradas. Na peça de teatro sem título e sem propósito, disseram-nos que estava o sentido da vida.

 

Tretas, quem nos vendeu o peixe nunca pescou!

 

E o gajo a acordar-nos todos os dias: "Vá, agradece ainda estares aqui!" E nós a agradecermos. Sem alternativa capaz, a dizer que sim, quando a vontade era não e às vezes sem vontade nem disso nem de coisa nenhuma!

 

Apetece-nos mandar tudo à fava, desistir, não querer hoje. Pelo menos hoje, ficar a dormir para sempre e o gajo a acordar-nos insistentemente. 

 

Convencido que tem poderes, que é o maior no espectáculo de magia e a decidir por nós!

 

Deixamos, há dias em que não temos nem sequer força para o contrariar. E é exactamente nestas alturas que ele mais abusa de nós! Vê-nos frágeis, sente-nos frágeis e começa a dar largas à sua tirania: “Vá, agradece. Olha para o espelho e agradece, que daqui a 5 anos estás muito pior. Agradece o colesterol normal, a glicose normal, a tensão arterial normal…” Tudo em ti escandalosamente normal e tu por dentro a sentires-te uma merda! “Deixa lá isso. Ninguém vê, ninguém dá conta! Vá, agradece!”

 

Mas nós ainda não acordámos, ainda estamos entorpecidos pelo prazer do sono, pelo prazer do sonho, pela plenitude que nos dá a ausência da realidade ou de realidade, que parecem ser a mesma coisa e não são, mas tanto nos faz. Enquanto deitados no quente e conforto da nossa cama, do nosso quarto, da nossa casa… “Vá, acorda, acorda mesmo sem despertar e vê-te ao espelho. Diz bom dia, vá lá, deseja-te sorte!"

 

E nós continuamos sem reagir e ele mais tarde a insistir: “Vá, agradece, agradece ainda estares aqui! Olha para o espelho e agradece, que daqui a 5 anos talvez já não estejas. Agradece o colesterol elevado, a glicose elevada, a tensão arterial elevada…” Tudo em ti escandalosamente anormal e tu por dentro a sentires-te bem! E tens o atrevimento de lhe dizer: Deixa lá isso. Ninguém vê, ninguém dá conta!

 

E é só quando o gajo dá o passo seguinte que nós percebemos que ele estava a falar a sério!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

26
Fev20

Crónicas de assim dizer

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Nostalgia

 

A casa envelheceu, aquela fotografia de quando eras nova... envelheceu. A cadela estava triste, ninguém lhe disse nada, mas ela percebeu. Não ouviu a tua voz e estranhou.

 

Primeiro correu bem, como se te víssemos ao longe, mas depois passou algum tempo e tu não chegaste. Esperámos, ficámos ali a conversar à espera que entrasses, de vez em quando olhávamos para a porta, mas ela não se mexeu.

 

Deitámo-nos e no dia seguinte, ao contrário do que durante décadas aconteceu, ninguém nos acordou. O leite com as torradas não veio ter ao nosso quarto, na cozinha não havia nenhum barulho. Aquela conversa habitual que todas as manhãs tinhas com o pai não aconteceu e nós pensámos que, finalmente, tinhas posto a conversa em dia e hoje não tinhas de que falar! Ao fim de 62 anos era normal, não?

 

Apanhei a roupa do estendal, já estava seca, mas agora não sei onde a arrumar. Também não sei o que encomendar para o almoço, hoje dizem que há cozido e bacalhau com broa, mas está tanto calor! Se calhar era melhor uma salada fria, mas de quê?

 

Onde raio é que te meteste?! Já peguei não sei quantas vezes no telefone para te ligar, mas depois dou conta e volto a metê-lo na carteira. Há tanta coisa que te queria contar e outras perguntar… Aquelas de que não me lembro bem, porque não estava muito atenta, aquelas outras que só tu é que sabias... porque é que não as contaste a ninguém? Se calhar contaste, mas eu não sei a quem e agora está tudo espalhado, repartido e eu sinto-me tão perdida! 

 

Também não percebo o sentido daqueles sinais que colocaste a lápis no livro que te dei e que andavas a ler! As interrogações, era quando não percebias ou quando não concordavas? E as cruzes, era porque não gostavas ou para sublinhar o que te agradava? E as bolinhas, o que raio significam?

 

Ficou tudo por acabar, tudo por concluir, tanta coisa por dizer! Não te cheguei a explicar, pensava que tinha tempo... 

 

E o que faço com as coisas que me disseste? Posso dizê-las? Devo? Quem é que vai acreditar? Se eu as disser, é pela minha voz que as ouvem e não pela tua! Tens razão, não serviria de nada e nem eu posso ter a certeza de que foi assim, porque o mais que me é possível é que eu percebi assim, mas nunca vou saber se foi mesmo isso que tu me disseste! Guardo para mim, vou guardar tudo para mim, porque só assim é que eu posso ter a integridade ou a lealdade do que me foi dito, partilhado. Mas dói-me isto e custa tanto não ter alternativa! Pode haver uma, mas é cedo ainda! 

 

Diz!? Ai desculpa, pareceu-me ter ouvido a tua voz, ainda agora estavas aqui…

 

Não te cheguei a explicar daquela vez, lembraste?, em que tu me perguntaste, e depois nunca mais tive oportunidade e agora que tenho sinto-me tão ridícula!

 

Sei que não te competia a ti, nem estava em teu poder, mas fazias tanta coisa…, porque é que não me avisaste? Nem tu sabias, foi só por isso, caso contrário ter-mo-ias dito. Aliás. num daqueles últimos dias começaste com uma conversa a meio da noite que eu achei suspeita, não era nada teu, mas não tive a inteligência de perceber que aquela conversa, àquela hora da manhã, podia ter outra intenção, ainda que não consciente! Mas quem é que pensa nisso quando está a meio da noite, a tentar dormir, exausto….

 

Aparentemente foste só tu que morreste, eu vi-te, não estava mais ninguém dentro daquela caixa, mas todos os dias me faltam novas coisas e eu não me lembro onde as deixei! Claro que sim, sempre, continuo com o teu número gravado para o caso de ser mesmo preciso, mas não quero estar constantemente a incomodar-te e vou fazendo mentalmente uma lista, para depois tas dizer todas juntas.

 

Primeiro, tenho de perceber o que aconteceu. Sabes como sou, enquanto não encontrar lógica nisto, o meu cérebro não avança em termos de entendimento. E eu sou exigente como o raio, ando atrás da fórmula matemática que me trará o conhecimento pleno! E não é só isso, não são só as coisas a faltarem-me, é também a relação com as pessoas…  fragilizou-se, quebrou-se. Como se tu fosses a linha invisível que as sustentava, o elo de ligação que as mantinha próximas e algumas dessas pessoas tu nem conhecias. Como é que é possível? É que não percebo isto, e ando incansável à procura da razão.

 

Dizem-me, aquelas pessoas que percebem destas coisas, agora há especialistas e peritos para tudo, até para cabeças de alfinete: isso é porque ainda estás a fazer o luto! Claro que dizem isto e não se apercebem que na minha cabeça se formula de imediato a pergunta: e esse processo termina quando?! Não faço a pergunta porque sei a resposta que me dariam: depende da pessoa. É claro que eu acrescentaria um "s" a fazer plural: da que parte e da que fica. Acabámos de acrescentar mais uma incógnita à equação, que eu sinceramente duvido muito que tenha solução. E vêm logo os peritos dizer: o tempo cura tudo. Mas, exactamente: quanto tempo? Depende das pessoas. Aqui já acrescentaram sozinhas o "s", sem eu ter feito nenhum reparo, como se os que ficam fossem sempre mais que os que partem! Aqui acho que concordo. Por cada um que parte, ficam vários. Mas isto não facilita nada as coisas nem as simplifica nem as agiliza nem as torna mais percetíveis nem mais suportáveis.

 

Até do teu silêncio sinto a falta!

 

Cristina Pizarro

 

19
Fev20

Crónicas de assim dizer

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Lapsus

 

Afinal o cancro era benigno! Os médicos andaram ali imenso tempo, alguns anos mesmo, a fazer diagnósticos, a pedir exames, uns mais invasivos outros menos, anestesias gerais, epidurais e locais! Às vezes acordava delas como se tivesse snifado cocaína. Se bem que nunca o fiz, sabem como é, às vezes servimo-nos de imagens para ilustrar o que está claro, não vá alguém estar a dormir e acordar nesta altura, que as pessoas mais depressa acordam com o sórdido do que com o evidente.

 

O que atrasou a chegada da conclusão, foi a variedade de sintomas comuns e transversais a outras doenças e a ausência de sintomas específicos. Como é que eu hei-de dizer isto?! Por exemplo, o que é que nos faz doer a cabeça? Talvez seja mais simples fazer a pergunta ao contrario: o que é que não nos faz doer a cabeça?

 

Mas os médicos orientam-se mais pela presença dos sintomas do que pela ausência deles. Nunca perguntam: o que é que não sente? Ainda não percebi bem porquê, porque às vezes a única forma de chegarmos lá é um diagnóstico de exclusão, mas o médico pergunta: Então quando urina não sente assim um ardor…? Não, não sinto! E não vai com frequência…? Não, não vou! E o médico pensa é que somos uns gajos muito desatentos que nem a nós mesmos prestamos atenção! Mas doí-lhe, não dói, no fundo das costas, na zona dos rins? Não, não dói! Olhe, então é assim, pelo sim pelo não, vai é tomar um antibiótico de largo espectro!

 

Ninguém reparou nos sinais que, desde o início, estavam por todo o lado, escritos em todos os livros que liamos, em todas as palestras a que assistíamos, meu Deus do Céu, congressos internacionais sobre o tema e nós…, nada! Teses de mestrado e doutoramento, debates televisivos, notícia de abertura de telejornais, dias a fio em destaque… Não queríamos ver!

 

E vai daí andámos ali, para a frente e para trás, a ouvir segundas e terceiras opiniões, porque começámos a duvidar, não da primeira que nos deram, mas da nossa. A complicar o que já não era simples, surgiu o facto de que há coisas que sabemos, mas que nos recusamos a querer saber e não vamos recorrer a outros como quem angaria votos antes das eleições. Pronto, está tudo perdido! Quando começamos a campanha eleitoral já ultrapassámos a fase das dúvidas, já começámos foi a ter certezas de que, enfim, a coisa não ia dar em nada, mas se até votassem em nós, que diabo, a gente tem que fazer alguma coisa!

 

E, por estas e por outras, viciou-se um processo, que começou clarinho como a água e ia terminando em pântano! Quando começamos a pôr a nossa verdade em causa, acabámos de a assassinar, porque a verdade é que ninguém se lembra do que não existe. Sim, também é verdade que há gajos criativos como o diabo! Mesmo assim, têm sempre um fundo de verdade. Há sempre naquilo tudo uma mistura de coisas, bocadinho daqui bocadinho dali, sai-nos um rancho às vezes com um sabor inigualável! Ui, adoro rancho, mas é uma vez por outra, todos os dias cansa.

 

Tive um professor na faculdade que dizia: Às vezes o diagnóstico é lembrarmo-nos dele! E, se bem que subscreva como sábia essa afirmação, também é verdade o seu contrário: às vezes o diagnóstico é não nos lembrarmos dele! Quando partimos para o desconhecido com a convicção do que vamos encontrar, a nossa mente põe-se a trabalhar num só sentido e tudo converge. Nunca mais saímos dali! Tudo o que vemos e sentimos tem por base o que é tomado por certo, ainda que não haja nenhuma base de sustentação para isso. É assim que se forma a crença, temos o óbvio à nossa frente, alguém que nos diz: mas olha que… e nós nem deixamos que terminem a frase, interrompemos e, convictos, dizemos: Pois, mas eu acredito que… e entramos no comboio sem destino. E se dermos conta, ao fim de muitos quilómetros percorridos, que o comboio vai descarrilar porque a linha lá mais para a frente tem árvores caídas sobre ela e saltarmos dele em andamento, estamos com muita sorte!

 

Cristina Pizarro

 

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