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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Set14

Chips, novas tecnologias e Curral de Vacas


 

Não sei o que irá ser deste século que já leva 14 anos e também, quando ele terminar, não vou estar cá para fazer o seu balanço, mas pela certa irá ser muito diferente do século XX, que olhando aos acontecimentos que acolheu e as transformações que testemunhou, é um século que ficará para sempre na história: Duas guerras mundiais, o fenómeno da televisão, a ida à lua e a exploração do espaço, os movimentos sociais como os hippies, o desenvolvimentos da aviação, o inicio da globalização, etc, etc, etc, mas há uma descoberta de meados do século passado que iniciaria a transformação  do mundo no último quartel do século e que ainda hoje continua. Refiro-me à descoberta do circuito integrado (vulgarmente conhecido por chip ou microchip) e que viria a dar lugar às novas tecnologias (computadores pessoais, telemóveis, tablets, smartphones, satélites, etc.) sem as quais hoje em dia o mundo pararia.

 

 

Tive a sorte de ter nascido em 60 e ter assistido a quase todas estas transformações e revoluções. De importante penso mesmo que só perdi as duas guerras mundiais (e não lamento a perda) e no âmbito nacional a implantação da República e a I República, pois a segunda (a ditadura) ainda a vivi e ao 25 de abril de 74 (início da III República)  tive o grato prazer de assistir e viver, mas, pelas implicações na alteração das vidas das pessoas e famílias   o que mais me foi surpreendendo, numa primeira fase com início nos finais dos anos 60,  foi mesmo o aparecimento dos primeiros eletrodomésticos nas casas (frigorifico, televisão e mais tarde as máquinas de lavar roupa e loiça e mais recente o micro-ondas) e, numa segunda fase, nos inícios dos anos 80, com os computadores pessoais, mais tarde os telemóveis e hoje, tudo que temos ao dispor graças ao tal chip.

 

 

 

Mas como hoje é dia de dedicar o blog às aldeias, tal como as fotografias o documentam, perguntarão o que é que as novas tecnologias e toda esta revolução da eletrónica e informática têm a ver com o nosso mundo rural? – Pois a resposta é simples – Tem tudo a ver, e o atual despovoamento rural é, indiretamente, uma consequência desta nova revolução, e as aldeias as suas vitimas, tudo porque as políticas e economias atuais estão viradas para as grandes massas/grandes consumos, ou seja, esta revolução eletrónica e informática veio agravar ainda mais a disparidade que sempre houve entre o litoral e o interior, e quanto mais interior for, mais aprofundada será a disparidade e a decadência do nosso mundo rural, e ainda mais, quando todas as políticas e políticos estão alinhados com os grandes interesses económicos.

 

 

Assim não admira que as nossas aldeias fiquem despovoadas e o que resta nelas, sejam testemunhos de um passado recente que não resistiu aos novos tempos, e com esta perda, perde-se todo o romantismo das aldeias, os seus valores, as tradições, os costumes, os sabores da genuinidade das coisas.

 

 

 

 

As fotografias de hoje são de Curral de Vacas, mas poderiam ser de outra aldeia qualquer, ou melhor, de outra que sofre bem mais as consequências da modernidade, pois Curral de Vacas graças à proximidade e bons acessos à cidade, ainda não é das que mais sofre das maleitas atuais do mundo rural.  

 

 

04
Abr13

Repórter por um dia na freguesia de São Vicente da Raia



Estas aldeias raianas só são para velhos

 

Que contam as rugas das gentes que ainda habitam o nosso mundo rural? O que sentem quando vêem os filhos partir para regressar “de longe a longe”? Como lutam contra o isolamento e resistem à solidão? Respondemos ao apelo de um projecto de Animação Sociocultural do pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) – desenvolvido em parceria com a Associação de Fotografia e Gravura Lumbudus  – e subimos pelas artérias da freguesia mais distante da “civilização” flaviense, São Vicente da Raia, até chegar ao coração de xisto das suas aldeias, abandonadas na serra raiana.


Por Sandra Pereira


 

 “Funerais a partir de 379,12 euros na Funerária São Pedro”. “Edital para a eleição da Assembleia Municipal de Chaves no dia 5 de Junho 2011”. “Participe nos Censos 2011”. O tempo terá parado em Aveleda? Depois de um arrepio na espinha, não se sabe bem se da chuva miudinha, se do receio, apetece gritar alto se está aí alguém, não sentíssemos o cheiro a sardinha assada vindo de mais adiante, do grelhador de Emídio.

 

 

É de Paradela de Monforte, mas casou em Aveleda, uma das quatro aldeias da maior e mais distante freguesia de Chaves, São Vicente da Raia. Aconchegada num pequeno vale a 500 metros de altitude e rodeada dos montes que unem Portugal à Galiza, é aqui que Emídio Teixeira, 56 anos, vive desde que nasceu a filha Marlene, há 29 anos. Esteve emigrado em Espanha, em França e na Suíça, mas andava ilegal e nem sempre arranjava trabalho. Gosta da aldeia? “Que remédio! A gente tem aqui as coisas, há que aguentar!”, ri-se. Claro que sofre com a solidão. “Aqui, não há um café, é uma tristeza… Há domingos em que só se vê uma pessoa a passar na rua. Nos outros dias ando entretido!”.

 

 

Ainda mergulhada no “antigamente”, Aveleda tem 17 habitantes, mas além de Emídio, a assar sardinhas no largo principal da aldeia, Marlene, a espreitar timidamente à janela de casa, e um simpático casal de idosos, a aparecer na rua para receber as “visitas”, não se verá nem mais um sinal de vida na aldeia mais pequena da freguesia de S. Vicente, mas também uma das mais pitorescas, pelas casas feitas em xisto, já que não se forma uma rocha de granito nesta zona, como acontece no resto do concelho flaviense. Marlene é o único rosto sem rugas em Aveleda. Com o 8º ano, ainda tentou emigrar para Espanha, onde está o irmão, mas logo regressou e vai ajudando na lavoura. “Lá também não há trabalho!”, resigna-se o pai, sempre de sorriso nos lábios.

 

 

“Foi tudo embora! O que estavam aqui a fazer?”, mete-se a idosa que desceu ao largo, Luísa Neves, 72 anos, que tem cinco irmãos “espalhados pelo mundo fora” e apenas uma irmã e a filha, de 52 anos, na aldeia. “Daqui a 10 anos, não haverá ninguém. Eu aqui nasci e aqui quero morrer!”. O marido, o tio Mário, a fazer 80 anos, ri-se e diz com orgulho que ainda caça. A vez em que tentou emigrar para França “a salto”, ainda com as fronteiras fechadas, foi preso e forçado a regressar. Desde então, “com pão e vinho”, lá foram “andando o caminho”. Mais velho do que ele na aldeia, só Narciso, com 84 anos.

 

 

Hoje, com “luz, telefone e boas estradas”, a dona Luísa está bem. “Só nos falta uma camioneta para ir a Chaves. Há dias, o meu marido teve que me levar numa burra até S. Vicente para apanhar a camioneta das 7h. Temos de sair daqui às 5h30 porque não temos carro! Olhe que ainda é um sacrifício…”, conta. O que vale, muitas vezes, é a “boleia” até ao hospital dos emigrantes que regressam quando surge um problema de saúde grave.



Também faltam crianças. Aqui não há nenhuma. A escola primária de Aveleda foi a última a encerrar na freguesia, em 2002, por falta de alunos. Mas nem todos os esquecem. Todas as semanas, o Padre Delmino Fontoura celebra missa em cada aldeia de S. Vicente. Em Aveleda, só para dois ou três fiéis.


- “Tio Mário, gosta de morar na aldeia?”


- “Que remédio tenho!”



SEGIREI. Submersa em chuva miúda… amorosa… desértica. É aqui o último ponto de chegada para quem segue a estrada sinuosa em direcção à fronteira. Nas montanhas, avistam-se casas isoladas até se dar com um “desfile” de vivendas de emigrantes que competem em exuberância e tamanho da piscina. É o “bairro de cima” de Segirei. Descendo a encosta, pouco soalheira para outrora facilitar o contrabando que ali alimentou muitas famílias em tempos de fome, chegamos ao “bairro de baixo”, o dos retornados, das casas modestas, algumas com resquícios de xisto. Tanto o bairro “rico” como o “pobre” estão praticamente desabitados… até aos dois meses de Verão, em que regressam os emigrantes, aguardados com ansiedade e muita saudade.



Ao ouvir vozes desconhecidas, aparece à espreita um rosto enrugado à janela. É o de Sílvia Caridade Pires, 87 anos. Lá sai da porta, de sorriso envergonhado, mesmo sem ter culpa da “invasão” forasteira. Como quase toda a gente, emigrou. Viveu 13 anos em Bilbau, cidade basca onde muitos da aldeia estiveram e ainda permanecem. Um dia, “o meu marido ficou sem trabalho, quis vir…Eu antes queria lá estar porque as filhas estão lá …”, lamenta. Mas se viessem, “a vida seria ruim porque aqui a gente é pobre…”.



Outra “Pires” aparece na rua, Leonilde, já que aqui é tudo família. Nunca saiu da aldeia. “Nunca tive curiosidade porque nunca tive dinheiro! Para onde é que havia de ir?”, ri-se a mulher de 58 anos, que teve 13 irmãos, mas apenas dois filhos, que trabalham perto, mas do outro lado da raia, em Vilardevós, o que justifica a ligeira pronúncia espanhola. “O meu dia-a-dia é andar com as crias, trabalhar no campo e fazer a comida em casa”, conta a esposa do “gaiteiro” de Segirei, que vai animando a casa do vizinho, a rua, o café, onde calha. Os “vitelinhos” que vendem na aldeia rendem 500 euros por ano e vão chegando para comprar a mercearia dos vendedores ambulantes.



 “Aqui há muito pouquinha gente”. Dizem os Censos que são à volta de 30 residentes. Para onde foram as pessoas? “Algumas faleceram, outras emigraram”. E os jovens? “Na agricultura metade não sabe trabalhar e outros têm que emigrar porque aqui, coitadinhos, não têm trabalho”. Crianças? “Não há nenhuma”. A pessoa mais nova tem 35 anos. “Acho que isto vai acabar…”, arrisca Leonilde.



Antigamente? Havia quem levasse “umas batatinhas, umas cebolinhas, por aí acima [até Soutochao, concelho galego de Vilardevós] … Às vezes, por uma dúzia de ovos, os guardas até lhos tiravam na fronteira” para acabar num “arranjinho” conveniente para ambas as partes, recorda Leonilde. “O meu pai e os meus irmãos eram contrabandistas!”, lembra também a dona Sílvia. Era daqui que saía o presunto que enchia a mesa dos espanhóis. Com a adesão à CEE, o contrabando terminou, mas a emigração continuou… livremente.



Tal como o cheiro agradável que escapa da porta aberta de uma casa na travessa principal da aldeia e chega até ao estômago. À volta dos tachos, Ivone Nascimento, 69 anos, memora 14 anos da sua vida em França. Emigrou aos 30 anos para “poder comprar casa”, ainda se passava “a salto de coelho” na fronteira. Regressou com o objectivo cumprido. Agora é, finalmente, livre. Da fome, das patroas, da vida escrava, das “porradas”.



Em Segirei, conversa-se muito entre vizinhas. “Falamos que amanhã tenho que ir para ali, tu já almoçaste, eu ainda não, os teus filhos estão bem, os meus também”. De Inverno, anoitece cedo e as tabernas fecharam há anos. “Estou com o meu marido, e começo a pensar ‘valha-me Deus, hoje estamos os dois, amanhã está só um…”. Mais novos do que eles a habitar na aldeia, só três casais. “Depois aqui não fica ninguém. Que vêm cá fazer? Mete-me pena. A gente trabalhou tanto para ter o que tem…”



“O que não se juntou até agora, hoje já não se junta!”, acrescenta o marido de Ivone, o “Tio Alcides”, 74 anos. Na aldeia já não se vendem as batatas. “Se o quilo vale 20 cêntimos, só o pagam a cinco! Os adubos caros, o gasóleo caro, para que é que a gente anda a trabalhar? Para o Governo?”.



Em Segirei, que tem por topónimo um apelido de família espanhola, ainda mora um antigo embaixador de Espanha no Brasil, que deu emprego a muita gente nas vinhas, de reconhecida qualidade. Além dos emigrantes e visitantes que desfrutam da cascata, rios e praias fluviais no Verão, a aldeia também é percorrida por peregrinos espanhóis que se aventuram pela "Via de La Plata" até Santiago de Compostela ou experimentam a “Rota do Contrabando”.


- “Tio Alcides, gosta da sua aldeia?”


- “Sou obrigado!”


 

ORJAIS. Finalmente surge aqui a revolta. “O meu nome é Manuel Fernandes e pode-me mandar para a prisão por aquilo que digo!”. Numa encosta longe da estrada principal e da vista, a aldeia de xisto esconde uma beleza singular e até vestígios de ocupação judaica. Toda a gente diz que “isto está mal”, que o Governo devia ajudar as aldeias em vez de “mandar os jovens emigrar”, mas sem convicção, pois hoje já ninguém acredita em nada. Manuel enerva-se e grita contra os políticos do pós 25 de Abril que “não souberam dirigir o dinheiro que havia” e deixaram que a sua linda aldeia chegasse ao ponto a que chegou, que até para ver futebol tem de ir a S. Vicente porque não se lembraram de lá fazer chegar a TDT. “Ninguém olha para o pobre! Gostava que me deixassem ir à televisão a Lisboa!”.

 

 

Manuel ainda se lembra de haver 12 rebanhos de ovelhas e 40 cabeças de bovino em Orjais. Hoje só um rebanho e nenhum gado. Habitam aqui cerca de 50 pessoas, uma única criança de 7 anos, e só duas casas é que não têm reformados. “Há mais pessoas no cemitério do que a viver cá!”.


 

“Ninguém passa por Orjais”, confirma Nestor Santos, 45 anos. “É bonita como quem diz!”, desabafa, para não dizer que é pobre… e triste. É dos poucos que regressou à aldeia para não deixar a mãe sozinha, que entretanto faleceu. Já pensou voltar a abandonar a terra, mas “agora é que não há muitas oportunidades para sair…”.



Antigamente, “havia agricultores na freguesia que colhiam 30 mil quilos de batatas e vendiam-nos!”, recorda Antenor dos Anjos, presidente da junta de S. Vicente da Raia há 24 anos. Ainda acredita que a solução para inverter os números da emigração é voltar a cultivar os terrenos com os devidos apoios, apostando nas cooperativas agrícolas e no turismo rural. Contudo, admite que “um presidente de junta pouco pode sem a ajuda da Câmara”, que também “pouco pode para as aldeias sem a ajuda do Governo”.




S. VICENTE DA RAIA. É o ponto de todos os encontros, já que, além de ter mais habitantes (cerca de 100), é a única aldeia da freguesia onde há cafés. Hoje o “Outeiro” serve mais copos de vinho do que o costume, pois os idosos aguardam a chegada da contabilista para ajudar a preencher a declaração de IRS, que este ano tem de ser entregue por todos os que recebam uma pensão acima dos 293 euros.




Há dois anos, Agostinho Fontoura, um filho da terra, decidiu regressar do Porto, com a esposa Catarina Santos, para montar uma cozinha regional. Trabalhavam num hipermercado da Maia, onde se conheceram, e quiseram livrar-se de horários, serem “independentes”. Lá a vida “estava a ser muito saturante, muito stress, muita correria…”, desabafa Catarina, 36 anos, natural de São João da Pesqueira. Nunca viveu numa aldeia, mas a adaptação não está a custar. “Gosto das pessoas, do ambiente, é tudo muito bom! Vive-se com uma paz interior muito maior”.




Como não dá para viver do fumeiro, o casal gere o “Outeiro” com os pais de Agostinho. Este ano, criaram 10 porcos que venderam na aldeia, nas feiras e a emigrantes, mas “sem apoios” e muita burocracia, mesmo com produtos de sabor incomparável, não é fácil manter um negócio no mundo rural, onde os telemóveis nem sequer apanham rede.



Um buzinão interrompe as conversas no café. “É o padeiro!”, grita logo Maria, a filha de 3 anos, uma das três crianças da aldeia. Todos os dias, vai de táxi para o jardim-de-infância de Argemil, na freguesia vizinha de Travancas, que para o ano também vai encerrar. Conta os amiguinhos novos pelos dedos de uma mão. “O Martim, a Beatriz, o David, e eu!”. Aqui ninguém tem tempo para se aborrecer, garante a avó Arminda. “Os animais não têm fins-de-semana!”.




À espera da contabilista, está Agostinho da Costa, 76 anos. “Noutros tempos, à noite, havia muita malta nova a cantar pelas ruas. Era o nosso cinema! Não havia outro!”, recorda. À mesma mesa, Carlos Noval, 78 anos, assiste à conversa com ironia. “Estou sozinho, trazem-me a comida de um lar. Pior não podia estar!”. Só mesmo nos tempos da fome, em que o contrabando “não dava muito”. “Andávamos aí como os burros, carregados para cima e para baixo, para ganhar 25 escudos”, confirma Salvador Fernandes, 77 anos, de Orjais. Mas havia mais educação e honestidade. “Hoje anda tudo de carro, acenam só com a mão e assim se perdem os amigos…”.



No povo, todos agradecem o zelo do presidente da junta. Antenor dos Anjos já tentou negociar um autocarro com a Auto Viação do Tâmega para ligar as aldeias da freguesia a S. Vicente, mas a empresa não está interessada em prejuízo. Antenor sabe que a transferência de muitos serviços de saúde de Chaves para Vila Real agravou problemas. “Para ir a uma consulta, as pessoas perdem um dia e gastam o dinheiro que não têm…”. A maior parte das reformas não ultrapassa 300 euros, muitos não têm viatura própria e dependem do autocarro diário de S. Vicente para Chaves.




Mudaram os tempos, mudaram as necessidades. Onde antes era a escola, em breve será o lar de idosos. Este ano, Antenor esteve nos Estados Unidos para angariar 100 mil euros junto da comunidade emigrante para continuar a obra, iniciada em 2010 com 75 mil euros da Câmara de Chaves, mas que parou por falta de dinheiro. Quando abrir, o lar, com um custo estimado em meio milhão de euros, só poderá acolher 12 idosos, muitos ficarão na lista de espera.




Apesar das paisagens deslumbrantes integradas no Parque Natural de Montesinhos, os Censos de 2011 contaram apenas 228 habitantes na freguesia de S. Vicente da Raia. Em 1960, eram 990. Pelo meio, os guardas-fiscais partiram, o contrabando acabou, a emigração continuou. Já não nascem crianças, os mais velhos vão falecendo... Não regressa ninguém. Encolhem-se os ombros. Sabe-se que nas cidades “também está tudo muito complicado” e que há crise, mas... Toda a gente vê, toda a gente sente, toda a gente teme, mas… é ter fé e deixar tudo em reticências…

 

Texto de Sandra Pereira – Fotografias de Fernando Ribeiro




Nota: O presente post foi publicado em simultâneo no semanário "Voz de Chaves" e nos blogues dos Associados Lumbudus aderentes ao "Repórter por Um Dia"



29
Abr12

O GRANDE PROBLEMA DO PAIS É A MORTE DAS ALDEIAS


Ainda no post de ontem referia que era angustiante entrar nas aldeias e não ver vivalma. Desde o início deste blog que tenho alertado para o despovoamento das aldeias e aponto o dedo bem apontado aos senhores de Lisboa e aos que na província os imitam – leia-se políticos. Ontem, sem querer, deparei com um artigo na NET com um título que de imediato sugeria a leitura, não só pelo título mas também pelo nome que dava origem ao mesmo ser uma entidade na matéria. Li e não resisti em partilhá-lo aqui no blog, pois penso que por todas as verdades que contém, merece ser lido e divulgado. O artigo já é de fevereiro deste ano, mas continua e continuará atual. As fotos que ilustram o post são nossas, à exceção da foto de Ribeiro Teles, que foi retirada do artigo em questão.


 

 

 

Ribeiro Telles - «O grande problema do país é a morte das aldeias»


Numa conversa que decorreu nos jardins da Fundação Calouste Gulbekian, o arquitecto paisagista falou sobre o país, os problemas de planeamento das grandes urbes, a desertificação das aldeias. Para o antigo ministro da Qualidade de Vida, os governantes conhecem mal o país, o território e, em especial, o mundo rural. «É preciso que os responsáveis pensem mais no país, menos nas finanças e reflictam na economia do planeamento para o desenvolvimento das gentes». De acordo com Gonçalo Ribeiro Telles há que recuperar a «autenticidade das coisas».

 

Num momento em que Portugal vive uma crise económica e social, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que completa 90 anos em Maio deste ano, começa por dizer que o principal problema do país «é a falta de informação e a cultura das pessoas, transversal na sociedade portuguesa».

 

«Desde as camadas superiores, mais intelectualizadas até às mais profundas, de ligação à terra e aos lugares, essa falta de cultura continua à vista», argumenta, recordando que Portugal «vive uma crise de valores».

Refere que o fosso entre o Litoral e o Interior continua a aumentar. «A quem se deve o desaparecimento e a degradação das aldeias?», questiona, sublinhando, em seguida, que tal se deve «a toda uma política de organização do desenvolvimento planeada para a destruição do país e à preocupação em considerar a ruralidade como qualquer coisa do passado sem futuro».

«Criámos uma ruína. É preciso que os responsáveis pensem mais no país e menos nas finanças. Que reflictam mais na economia do planeamento para desenvolvimento das gentes, das potencialidades e da nossa posição quanto ao mundo», apela Gonçalo Ribeiro Telles.

 


E considera que «se estão a construir cidades só por construir e a criar não o vazio do espaço, mas o vazio do espaço construído». Sobre o interior, salienta que as aldeias «não podem despovoar-se como está a acontecer» e frisa que «dentro de pouco tempo, isto é um país de velhos, de asilos urbanos». Por isso defende que a recuperação das aldeias «tem de passar pelo restabelecimento da agricultura local».

E não tem dúvidas: «hoje, o grande problema do país é a morte das aldeias, que é também um problema de cidades».

E explica porquê: «o aglomerado urbano, que vive do abrigo, do encontro das pessoas, do tecto, do ambiente é a cidade. Mas isso também existe e tem de existir na aldeia. A dimensão é que é diferente. O que está aqui em causa não é a cidade, que dentro de pouco tempo terá 80% da população a viver nela. As aldeias não podem despovoar-se como está a acontecer».

O arquitecto recorda que com os actuais modelos de Planos Directores Municipais (PDM’s) não há recuperação urbana das aldeias para as pessoas mas apenas «a recuperação de algumas aldeias para o turismo».

«Mas não há turismo sem aldeões. Estamos completamente errados. A recuperação das aldeias passa pelo restabelecimento da agricultura local. E isso é o que não se quer», afirma.

 


Para Ribeiro Telles, o crescimento urbano deu-se baseado na ideia de um enriquecimento a curto prazo. «Ninguém apostou, por exemplo, na agricultura. E grande parte da industrialização deu-se também devido a isso. As políticas não eram autênticas em função das gentes. Onde é que está a funcionar a agricultura em termos nacionais? E o povoamento do território? Não está nem nos programas dos partidos nem dos governos. Tem apenas os limites de um jogo financeiro», frisa.

Para o arquitecto, o chamado «regresso à terra», «não é um regresso para férias nem para fazer agricultura de recreio», mas tem de ser uma «aposta no investimento das escolas, que estão a fechar, na circulação de todo o movimento que se tem de fazer em qualquer região».

 

 

Para isso, vinca, «é preciso criar gradualmente as condições. Se não for possível, temos o caos. Não conhece os subúrbios das cidades? Aí está o exemplo de caos», diz.

«Temos utilizado mal os nossos recursos»:


Sobre a Reserva Agrícola Nacional (RAN), a Reserva Ecológica Nacional (REN) e os PDM’s, que Ribeiro Telles impulsionou no início dos anos 80 do século passado, o também engenheiro agrónomo, realça que os dois primeiros diplomas «tiveram uma má aplicação, muitas vezes, por incompetência de quem fazia o planeamento e incompreendida pela maior parte dos autarcas, que não viam naqueles diplomas uma vitória eleitoral a curto prazo, em parte, pela pressão do investimento que os bancos realizavam para determinadas entidades, e deu no que deu».

 

 

«O mal está à vista. Continuamos a falar da floresta, da expansão urbana, do crescimento das cidades. Mas isso não se vê», salienta.

E prossegue, dizendo que «não há uma planificação global em face das possibilidades e virtudes do território. E não há povoamento».

 

Sobre a utilização dos PDM’s, Ribeiro Telles refere que estes instrumentos foram criados como «algo necessário para a defesa dos melhores solos agrícolas de que depende a existência do povoamento e a existência do país».

«Mas foi muito desvirtuada por muitos políticos e programas, porque não viam o essencial na autenticidade do país. Além disso, o PDM não servia a rápida expansão urbana nos sítios mais fáceis, mais planos e nos lugares mais urbanos», acrescenta.

A juntar a tudo isto, o arquitecto garante que «temos utilizado mal os nossos recursos». E os exemplos de má utilização são muitos, de norte a sul do país, e principalmente, «têm-se acelerado a má utilização dos recursos porque não se acredita nas «gentes», que estão – ou deviam estar – ao serviço da Humanidade e com uma identidade própria».

 

 

Recorda que «todas as coisas no nosso mundo têm uma autenticidade e que é sempre possível recuperar». «Uma coisa autêntica é aquela que tem um passado, que tem alicerces e que tem também um presente que se vê, que se sente. Não há presença nem autenticidade sem futuro», avisa.

E lembra que há três elementos fundamentais para os países, incluindo Portugal, se manterem como tal: «os lugares, as potencialidades e os recursos que nos dá a Terra-mãe e as suas gentes. Havendo estas três condições há lugar à autenticidade e à criação».

 

 

Ana Clara | quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

 

O artigo foi retirado de:

 

http://www.cafeportugal.net/pages/noticias_artigo.aspx?id=4526

 

 

28
Jul10

Hoje há feijoada, à transmontana...


Há dias num post entitulado  «Já nem sei que dizer» - onde eu referia que talvez estivesse errado em querer ver as aldeias com vida, com crianças, gente, animais… a um comentário desse post, de autoria da Joaninhas, prometi uma resposta alargada.

 

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Dizia-me a Joaninhas em comentário:

 

« (…) não entendo duas coisas. Se tantas saudades porque não vai o Fernando viver para essas aldeias lindíssimas .
Outra coisa, se todos nós fossemos morar para as aldeias que seria da cidade? Não ficava ela, também ao abandono, com esses encantos e recantos lindos lindos?
Acaba por também ela estar abandonada.

E todos nós somos cúmplices disso, não acha Fernando?

É bom tirar fotos, mas o melhor seria exigir melhores acessos a essas aldeias, e lutar sempre. (…)»

 

Pois aqui fica, como prometido, a resposta a essas questões, com um pouco de mim (em jeito de introdução) para melhor se entenderem os porquês mas também dando continuidade à discussão lançada por António Chaves na sua última Crónica Segundária.

 

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Em tempos, já não sei precisar, disse aqui neste blog que nasci em Chaves por mero acaso, pois poderia ter nascido numa vila ou numa aldeia. Numa vila, terra da minha mãe (Montalegre) ou numa aldeia, terra de meu pai (Parada de Aguiar – Vila Pouca), também poderia ter nascido em Vila Verde da Raia, ou noutra terra, aldeia, vila, ou numa cidade qualquer. Nasci em Chaves e como tal sou flaviense. Mas o ser flaviense não é tão simples assim e, não é por ter nascido em Chaves que o sou, pois nem sempre somos da terra onde nascemos, mas, isso sim, da terra onde aprendemos os primeiros passos, onde aprendemos a andar de bicicleta, onde aprendemos as primeiras letras, onde aprendemos a nadar, onde fizemos os primeiros amigos (os verdadeiros e para todo o sempre), onde roubamos a fruta madura da árvores, onde demos o primeiro beijo, onde lamentámos as primeiras ausências, onde levámos as primeiras negas, onde casamos, onde tivemos os nossos filhos, onde ao dobrar da esquina há sempre um amigo e, onde – sobretudo isso – optamos por viver e temos um lugar, uma casa que nos acolhe, com família lá dentro, onde regressamos sempre nem que seja num único dia do ano, aquele em que todos queremos estar juntos para consoar o Natal ou, no derradeiro momento que, com toda a nobreza de uma vida, se volta à terra para receber sepultura – Essa, é a nossa verdadeira terra.

 

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Pois eu, no meu ser flaviense, à excepção de ter cumprido a vida, tenho tudo isso, mas muito mais, pois também tenho a minha aldeia que herdei do meu pai e a minha vila que herdei da minha mãe e, não é apenas por eles terem nascido lá, mas porque também as vivi e continuo a viver pela simples razão de, tal como eu sou flaviense, o meu pai sempre foi da aldeia dele e a minha mãe da sua vila porque (infelizmente eles)  não tiveram a minha sorte de ter o todo ou tudo da terra onde nascemos e ter ainda um pedaço na aldeia e vila de onde descendemos, onde também se passaram natais e havia avós, tios, primos, amigos e as velhas casas que também eram nossas.

 

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Mas o ter nascido em Chaves não é tão simples como parece, pois os meus pais poderiam ter optado por fixar residência na aldeia ou na vila de onde eram naturais. Contrariando a vontade natural (estou em crer) de “puxar” para as sua terras, optaram pela cidade mais próxima das suas raízes, cidade pequena mas cidade, onde havia escolas, hospital, trabalho e as necessidades mínimas para uma vida mais ou menos digna que numa aldeia ou vila não poderiam dar no seu todo aos filhos… e aqui entramos no cerne de todas as questões ligadas ao despovoamento das aldeias, pois todas elas foram despovoadas para alcançar uma vida melhor, não só para os despovoadores mas sobretudo para os filhos.


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Parece ficar assim explicado o despovoamento das aldeias e do meio rural, mas não fica. Pois tudo poderia ser diferente desde que houvesse condições para as pessoas, os casais e os filhos, ficassem (por opção) nas terras onde nasceram, podendo ter nelas uma vida digna, com trabalho e um modo de ganhar a vida mas, com acesso fácil a tudo que existisse nas cidades, mas para isso, teria de ser necessário desmontar todas as políticas praticadas até hoje  e que actualmente são cada vez mais agressivas com a(s) modernidade(s) e o centralismos em que as pessoas, os valores e os lugares pouco interessam, pois tudo é visto sobre o prisma dos interesses, dos cifrões traduzidos em tabelas de Excel e gráficos comparativos de puras matemáticas… valores, saberes, sabores, culturas, povo, tradições, usos e costumes, não contabilizam nessas tabelas e gráficos…Eia, eia lá… a globalização centralizada é que é da modernidade, a identidade do povo  – para dizer bem e depressa – que se foda! O povo e o interior que aguente e, quantos menos forem, maior será o desprezo, pois apenas são contabilizadas cabeças que valem votos – as pessoas, a gente, os valores, sabores e saberes do povo de nada valem se não houver número suficiente de cabeças para fazer crescer os gráficos e eleger pavões para o poder… que lhes interessa a eles a terra ou a casa onde nascemos, os nossos amigos, a nossa família, onde passamos ou não o natal!. Que lhes interessam a eles os nossos sentimentos, os nossos gostos, as nossas opções… somos apenas números, um por cada cabeça, para eles, é esse apenas o nosso valor – uma unidade, ou seja – pouco ou nada valemos.

 

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Claro, Joaninhas, que tenho saudades das antigas aldeias lindíssimas, sobretudo porque tinham gente, crianças, animais e casas com gente dentro, que vivia nelas, faziam filhos e consoavam natais onde os filhos e parentes ausentes regressavam sempre e as vilas e cidades, mais pequenas é certo, também existiam, também com casas com gente lá dentro, que faziam filhos e natais e enchiam as ruas de vida com gente e crianças…

 

Custa e revolta ver as aldeias despovoadas, com as velhas casas sem gente, sem vida, sem crianças quando bastava, no tempo certo, proporcionar às populações rurais meios e condições para se manterem nas suas terras, tendo as cidades como apoio com os serviços, a saúde a educação a cultura o lazer e ponto de promoção e venda dos seus produtos. Mas tudo isto, para garantir a sua sustentabilidade, teria de ser trabalhado e ter apoio estatal e autárquico sério e responsável onde os apoios comunitários teriam caído como ouro sobre azul…mas não, olhou-se ao lucro rápido e fácil onde todos tentaram ganhar o seu, sem qualquer cuidado, sem pensar o futuro e a sua sustentabilidade.

 

Certo que o despovoamento das aldeias já não é de hoje, pois o grande boom do abandono começou a ocorrer nos anos sessenta do século passado, mas com uma diferença. Antes abandonavam as aldeias para um dia mais tarde regressar. Hoje, o abandono não tem regresso marcado e tudo porque não há motivos ou razões para se regressar, a não ser o tal sentimento do regresso à terra, mas até esse desfalece quando a terra dos filhos dos que partiram, passaram a ser outras terras nas longínquas cidades para onde os pais partiram.

 

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Mas continuo a insistir que tudo poderia ter acontecido de outra maneira se tivesse havido políticas certas para reter as populações rurais, modernizando (a sério) a agricultura, tirando partido da floresta, da pecuária e de tudo que estas actividades está associada, como é o caso do presunto que o António Chaves tão bem tem trazido à baila nas suas crónicas segundárias, e quem diz o presunto e tudo que está associado aos recos, diz a madeira da floresta e toda uma indústria transformadora, diz a agricultura com os nossos produtos de qualidade e toda uma gama de pequenas e médias indústrias que se poderiam desenvolver à sua volta, sem esquecer a riqueza da nossa gastronomia, as nossas paisagens e montanhas e um turismo temático e de qualidade que poderia estar ligado ao nosso ser interior, às nossas termas e às montanhas, onde, aí sim, com tudo isso a funcionar, resolveríamos os problemas de trabalho dos nossos jovens bem como garantiríamos o seu regresso às origens após estarem formados, pois com tudo a funcionar, iríamos precisar de técnicos e gente formada para dar apoio a toda uma população e eles próprios avançarem com os seus negócios e empresas, mas não, tal não acontece e nunca houve vontade, ou habilidade ou inteligência por parte dos nossos governantes para que tal acontecesse, e neste capítulo dos governantes, com muita culpa para os políticos locais que sempre lhes faltou visão, inteligência e falta de amor à terra e aos seus habitantes, que nunca souberam travar o despovoamento rural e promover (ou defender) os nossos produtos e as nossas coisas. Uma cambada de ignorantes que atingiu o poder e a partir daí, lá do alto e tal como os pavões, abriram as penas da cauda em leque e puseram-se a gerir e mal,  contas correntes, a imitar às vezes, sem inovar, apostando fraco e mal, sem a importante união com os concelhos vizinhos onde poderiam arranjar poder de reivindicação com o todo de uma região igual e com os mesmos problemas… mas não, cada um por si, com as suas incompetências e o resultado está à vista, aos poucos, vamos perdendo tudo. Começou pela população das aldeias, depois foi o comboio, que além da locomotiva, aos poucos, foi levando outras carruagens, sendo a última o hospital…mas tudo isto até poderia ser nada se houvessem oportunidades para os nossos jovens formados regressarem (por opção), por cá terem trabalho e futuro.


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Como eu dizia no post que deu origem a este - já nem sei que dizer – talvez eu esteja errado e este esvaziamento do interior seja natural e se caminhe a curto prazo para uma grande cidade chamada Lisboa, outra Chamada Porto e outra chamada Algarve para passar férias e tudo o resto seja paisagem com pequenos grupos de resistentes a viverem à margem como se de indígenas ou reservas se tratassem…

 

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Para rematar este post, vamos lá dar resposta às perguntas da Joaninhas – Porque não vai o Fernando viver para uma dessas aldeias lindíssimas e a de nós sermos todos cúmplices. Pois é assim, eu vivo numa aldeia que fica juntinha à cidade, é certo, mas a resposta correcta é, eu vivo na minha aldeia que dá pelo nome de Chaves e por isso, eu não sou cúmplice do despovoamento e a testemunhar isso, é o eu estar aqui, em Chaves, porque é a minha terra e porque optei viver nela e nela constitui família. Optei pela minha terra e é aqui que quero cumprir a minha vida e, por muitas faltas que Chaves tenha foi a terra onde nasci, onde aprendi os primeiros passos, onde aprendi a andar de bicicleta, onde aprendi as primeiras letras, onde aprendi a nadar, onde fiz os primeiros amigos (os verdadeiros e para todo o sempre), onde roubei a fruta madura da árvores, onde dei o primeiro beijo, onde lamentei as primeiras ausências, onde levei as primeiras negas, onde casei, onde tive os meus filhos, onde ao dobrar da esquina tenho sempre um amigo e, onde – sobretudo isso – optei por viver e tenho um lugar, uma casa que me acolhe, com família lá dentro, onde regresso sempre todos os dias e todos os dia é natal. Falta-me cumpri o resto da vida para nesta terra receber sepultura. Por tudo isso, vivo na minha aldeia, sou um resistente e não sou cúmplice de todos os disparates que têm feito connosco.  Eu cumpro a minha parte, falta aos que têm de cumprir, os do poder, cumprir com a sua parte em prol de Chaves, das suas freguesias mas também da região, com amor e inteligência,  porque afinal esta doença, não afecta só Chaves e o concelho, mas todo o interior, onde o interior Norte é e sempre foi mais castigado, não só em oportunidades mas também com todas a dificuldades geograficas das montanhas e dos 9 meses de inverno e 3 de inferno.

 

É nisto que dá um jejum de palavras!

 

 

24
Jan10

Devaneios de fim-de-semana


Há dias observava num mapa qualquer onde estavam traçadas as nossas actuais auto-estradas e ia-me dando conta da estupidez que é a nossa actual rede viária. Tomemos com exemplo duas auto-estradas  que nos são mais próximas, a A4 e a A7, contando já que o IP4 vai dar continuidade em auto-estrada à A4. Se tiverem um mapa à mão poderão facilmente observar que estas duas auto-estradas se desenvolvem em paralelo distando entre elas apenas umas escassas dezenas de quilómetros (20 a 30 quilómetros). E agora pergunto eu, que nada percebo destas coisas, se não seria mais lógico traçar apenas uma auto-estrada a meio das duas que construíram, fazendo depois pequenos troços de ligação às cidades e vilas mais importantes!? Penso mesmo, que em termos de custos, se poderia ter feito melhor por metade dos custos e tinha-se evitado a maior estupidez rodoviária construída em Portugal com elevados custos monetários e vidas humanas – o IP4.

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Ficam os nossos políticos de hoje muito ofendidos quando às vezes se vai buscar aquilo que antigamente era bem feito. Pois se houve coisas feitas com pés e cabeça, uma delas foi o traçado rodoviário nacional do antigo regime e, sem qualquer pudor, deveria ter sido esse que deveria ser adaptado aos novos tempos, ou seja, passando as anteriores Estradas Nacionais de 1ª categoria, a auto-estradas, e Portugal tinha a sua rede rodoviária nacional resolvida, com duas grandes auto-estradas, uma pelo litoral (Lisboa-Porto-Viana do Castelo) e a segunda, coincidindo com a Nacional 2, seria Chaves-Faro. Seria o mais lógico e muito mais barato.

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Toda a gente sabe que o actual caos do planeamento nacional, (e neste planeamento meto todos as áreas governáveis e governamentais como a saúde, a educação, os transportes, etc,)se deve às guerrinhas de putos entro os dois grandes partidos nacionais, o PS e o PSD e na respectiva alternância do poder, ao não aceitarem uma política nacional única, sustentada que se deveria resumir ao interesse nacional e dos portugueses. Em vez disso, como verdadeiros putos “guerrilhosos” vão desfazendo os castelos de areia, uns aos outros, para tentarem impor o deles. Mais grave ainda no contexto actual em que os partidos políticos estão esvaziados de ideologia e apenas servem como meio de alcançar o poder, pois, os putos do mesmo partido, também entre eles e as suas políticas, acabam por fazer o mesmo que fazem os partidos nas suas alternâncias de poder, transformando-se em verdadeiros alternes da política… mas o povinho gosta, ajoelha e aplaude dando razão ao velho refrão “ quanto mais me bates, mais gosto de ti”.

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Todo este longo intróito para cair na nossa realidade local, onde tudo é uma cópia do nacional porreirismo, pá, onde com políticas idênticas às dos iluminados de Lisboa também não têm políticas sustentadas, e uns vão fazendo, desfazendo o que outros fizeram, para virem outros desfazer o que se vai fazendo, com o dinheirinho de todos nós, que de tanto o gastar, que agora até somos nós os culpados por tanto desperdício, nunca se vindo a tirar um verdadeiro rendimento daquilo que se constrói, e exemplos, são muitos, tropeçamos com eles em todas as esquinas, quando a verdadeira doença da nossa interioridade e esquecimento, continua a evoluir e tudo, porque não há por aí políticos que consigam pensar para lá dos 4 anos garantidos do poder, ou sequer mesmo pensar.

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Como exemplos flagrantes temos o nosso hospital construído há pouco mais de 20 anos para agora a saúde ser concentrada em Vila Real, fecho e abandono da maioria (largas dezenas) das escolas rurais do concelho enquanto se constrói um centro escolar na cidade quando se prevê que algumas das actuais escolas secundárias vão fechar, passando-se aqui uma verdadeira via verde para o total despovoamento das aldeias, onde a taxa de natalidade já é praticamente nula desde há vinte anos para cá.

 

Enfim, como eu não percebo nada disto, o melhor é ficar por aqui, resta-me a consolação de já não ajoelhar quando a procissão passa e como já deixei de acreditar nos discursos, também já deixei de aplaudir … agora, sou mais de rir com as anedotas que se vão sucedendo, embora não tenha o gosto de um riso salutar.

 

Até amanhã!

 

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